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segunda-feira, 4 de maio de 2020

a poesia dos quadradinhos - #8 José Pascoal

ALPENDRE

Aqui estou,
Aqui sou,
À sombra de sombras,
O carro de bois,
A albarda do burro,
O balouço na trave,
O cepo onde me sentava
A ler aventuras
De príncipes valentes,
Espadachins violentos,
Corsários coloridos,
Vaqueiros solitários,
Detectives privados,
Poetas do sol-posto.

José Pascoal, Branza, Lisboa, Editorial Minerva, 2019.


Príncipe Valente, por Hal Foster

quarta-feira, 20 de novembro de 2019

o menino Ferreira de Castro

As terras têm o seu património, natural, etnográfico, arquitectónico. O legado literário em geral dá-lhes, porém, mais densidade. Amarante, com Pascoais, Vila do Conde tem Régio e o irmão Júlio/Saul Dias, Rio Maior e Ruy Belo, a Vila Franca de Xira de Alves Redol. Oliveira de Azeméis tem Ferreira de Castro, e a autarquia editou, no ano seguinte ao centenário do seu nascimento, uma BD para as crianças, da autoria do conterrâneo Manuel Matos Barbosa (1935), um nome do cinema de animação e do documentarismo.
Castro tem excesso de biografia: aos 12 anos emigrou sozinho para o Brasil, sendo enviado para um seringal na Amazónia. Dessas experiências extrairá matéria para dois extraordinários livros, que irão renovar o romance português, abrindo portas ao neo-realismo: Emigrantes (1928) e A Selva (1930). Porém, verdadeiro escritor, não se ficaria por aqui: Eternidade (1933) encerra um fundo existencialista numa narrativa de cunho social; A Lã e a Neve (1947), friso romanesco que é talvez o seu romance mais perfeito; ou A Missão (1954), uma novela que é uma jóia de problematização psicológica.
Como se fosse pouco, este autodidacta, foi durante décadas o escritor português mais traduzido, duas vezes proposto para o Nobel da Literatura, entre muitos outros factos que aqui não cabem. Mas o cerne dessa vocação está na primeira infância, na aldeia natal de Ossela, e Matos Barbosa, com um traço límpido e tons suaves, foi feliz em mostrá-lo.
O José Foi à Escola
texto e desenhos: Matos Barbosa
edição: Câmara Municipal de Oliveira de Azeméis, 1999


segunda-feira, 4 de fevereiro de 2019

Rómulo de Carvalho / António Gedeão, leitor dO Reizinho

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Numa entrevista recente, Cristina Carvalho, filha de António Gedeão (pseudónimo do pedagogo e historiador Rómulo de Carvalho), grande poeta português do século XX, referiu-se à BD de Otto Soglow. Little King / O Reizinho como predilecção do autor de «Pedra Filofofal»Dos jornais, o que ele comprava todos os dias era o Diário de Notícias. Havia uma banda desenhada com três quadradinhos a preto e branco que era o Reizinho, e ele recortava aquilo religiosamente.


segunda-feira, 15 de outubro de 2018

S-H & LL

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«A sala foi modificada. Os seus livros e as suas fotografias desapareceram, deixando as paredes despidas excepto pela ampliação de um herói da banda-desenhada: o Super-homem inclinando a cabeça enquanto é recriminado por Lois Lane.» J. M. Coetzee, Desgraça (1999)

terça-feira, 2 de outubro de 2018

Lois Lane

Ryan Sook, daqui


«Quem lhe dera perder a visão de raio X que em tempos tanto invejou! Se ao menos fosse como o Super-Homem, que na presença de Lois Lane se tornava um ser normal!» Carlos Querido, «Real bodies«, Insanus, Lisboa, Abysmo, 2017, p. 68 

sexta-feira, 20 de julho de 2018

esmurrar o Mickey

Paul Murry
«"Há muito mais", disse Austin, "havia um amigo da família que tinha o Rato Mickey tatuado no peito e que pedia ao rapaz para bater na tatuagem, bate com força, com mais força, agora uma esquerda, agora uma direita, mete um crochet, mete um uppercut.» Dinis Machado, O que Diz Molero (1977)

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

António Franco Alexandre, o poeta enquanto Ignatz

George Herriman - imagem
No preâmbulo de uma entrevista já com uns anos, a partir de alguns tópicos previamente enunciados, defende-se que a poesia de António Franco Alexandre «chama a si a fábula de Ignatz, o rato e Krazy Kat, a gata. A imensa distância que se disse sem palavras nem coisas faz do tijolo uma mensagem.» Posto diante do problema, o futuro poeta de Aracne assente: «Bom, o tijolo de Krazy Kat é a mais interessante forma de mensagem na garrafa, não é?» Inimigo Rumor #11, 201, entrevista de Américo António Lindeza Diogo e Pedro Serra.


segunda-feira, 24 de agosto de 2015

«um Zé Carioca»

Zé Carioca, por Paul Murry


«O carioca de hoje é uma declinação barroca do verdadeiro carioca: olheirento, falsamente festivo, mortificado pela obrigação de ser um carioca by the book, um Zé Carioca.»

Bruno Vieira Amaral, «Viver para sempre em Budapeste», Ler #138, 2015

segunda-feira, 17 de agosto de 2015

à maneira do Lucky luke



Lucky Luke, por Morris
«Na recepção, um tipo magro, esquálido, de alguns trinta anos. Cigarro apagado, à maneira do Lucky Luke.»

Paulo Castilho, Fora de Horas (1989)


terça-feira, 4 de agosto de 2015

12 linhas até ao Guarda Ricardo

«[...] No fim da tarde, Alexandra procura o seu carro e acaba "por descobri-lo em cima do passeio e junto à mesma árvore onde o deixara há quase um eternidade. Tinha uma multa por estacionamento proibido, afixada no "pára-brisas" (pag. 352). Tudo o que aconteceu foi real e tão pleno que o tempo se distendeu à aparência de eternidade; mas, por sob isso, há um quotidiano mesquinho, vigiado, impermeável à transgressão, que remete a eternidade mais jubilosa à eterna idade da ordem. Pelo menos, da ordem portuguesa -- porque não deve ser difícil adivinhar que o autuante deve ter sido o portuguesíssimo Guarda Ricardo.»

Luís Mourão, Um Romance de Impoder -- A Paragem da História na Ficção Portuguesa Contemporânea, Braga e Coimbra, Angelus Novus Editora, 1996.

Sam, O Guarda Ricardo (1975)

quarta-feira, 24 de junho de 2015

17 linhas para Snoopy

Charles Schulz
«Os leitores que se lembram da banda desenhada Peanuts e do simpático cão Snoopy recordarão que ele, quando armava em escritor, repetia de tira para tira um incipit que conseguiu tornar ainda mais célebre: "Era uma noite escura e tempestuosa." Trata-se do início do romance Paul Clifford, do escritor romântico Edward George Bulwer-Lytton, mais conhecido entre nós através d'Os Últimos Dias de Pompeia. O texto prossegue: «A chuva caía em torrentes, salvo em raros intervalos, quando era sacudida por uma violenta rajada de vento que varia as ruas (porque é em Londres que a nossa cena decorre), matraqueando ao longo dos telhados e agitando rijamente a débil chama das lâmpadas que lutava contra a escuridão.» É provavelmente um dos inícios mais conhecidos e parodiados da história da literatura. De tal maneira que um concurso da Califórnia em que se elegem os piores livros e os piores textos (State University, San Jose) dá o nome «Dark and Starry Night» a uma secção a que concorrem péssimos incipits

Mário de Carvalho, Quem Disser o Contrário É Porque Tem Razão, Porto, Porto Editora, 2014.

(imagem)

domingo, 22 de fevereiro de 2015

6 linhas para Corto Maltese

Hugo Pratt

«Esta é a cidade do espectro de Corto Maltese nas pontes suspensas e nos becos soturnos, do prenúncio de morte e da elegia do deboche, das gôndolas, dos senegaleses e dos pombos, dos japoneses e dos gondoleiros de boné, das arcadas vazias e das bacarie  a rebentar pelas costuras, do improviso de andar perdido e ter sempre um ponto cardeal no fim do caminho.»

Tiago Salazar, As Rotas do Sonho (2010)


sexta-feira, 8 de novembro de 2013

50 álbuns: 8. Frank Le Gall, CAPITÃO STEENE (1987) -- invitation au voyage

Contrariando o meu proverbial sedentarismo, o imaginário portuário sempre me fascinou. Na literatura, no cinema, na pintura, na música e, obviamente, na bd. O apelo da distância, do desconhecido, do diferente, dos lugares de fronteira -- tudo sonhado no remanso do meu sofá: Madrid, Paris, Berlim, S. Petersburgo, o mundo!
Manhã cedo em Dunquerque (ao melhor estilo da revista Spirou), na primeira vinheta, 2 de Dezembro de 1927, janelas dum edifício centrado numa espécie de praça à beira do cais, ainda com luz artificial , um carro deambula ensonado, no porto dormem pesadamente os rebocadores e restantes embarcações.
No interior desse escritório de "carregadores marítimos", uma personagem empunhando uma caneta de aparo, sorri deleitadamente ante os topónimos que se lhe deparam e o fazem sonhar: "Dacar, Buenos Aires, Changai". É Théodore Poussin (Teodoro Pintainho, na tradução portuguesa anónima) sentado à secretária, que assim vai nutrindo essa vontade de ver mundo. Um telefone desperta-o dessa evasão, e o Senhor Sénard, o chefe, conhecendo esse anseio de Teodoro, comunica-lhe que no início do ano irá, a serviço da empresa, a bordo do "Cabo Padaran" com destino à Indochina.  

Frank Le Gall, Teodoro Pintainho -- Capitão Steene, Lisboa, Méribérica/Liber, s.d., pranchas #1 e 2.