quinta-feira, 28 de agosto de 2025
segunda-feira, 27 de junho de 2022
personagem em construção
Ao quinto álbum, continuamos a acompanhar esta figura de papel, carvão e tinta criada pelo argumentista Yves H. e desenhada pelo pai deste, Hermann Huppen, um dos grandes mestres da BD franco-belga: Duke, ou melhor Morgan Finch, personagem reservada, pistoleiro a seu pesar. Atirador exímio, evita gostar demasiado de armas. Conhecemo-lo em A Lama e o Sangue (2017), numa pequena cidade do Colorado, construída em torno de uma mina. Era adjunto do xerife, fraco homem, bem necessitado de manter a ordem nas dissensões violentas entre mineiros e agricultores, sem contar com os aventureiros com faro para o ouro. O dono da mina, Mullins, é um déspota e ganancioso que não distingue os homens que para si trabalham dos animais ou das coisas Quando os assaltos a diligências começam a suceder-se, e Mullins necessita de alguém que leve até à Califórnia um montante de 100 mil dólares a um consórcio de que é devedor, já Morgan se prepara para um reencontro com o passado pouco cor-de-rosa e um director de um orfanato, onde ele e Clem, irmão mais novo, foram recolhidos.
Acompanhamos agora a progressão de Duke pelas zonas áridas do Colorado, na companhia de Swift, um representante do grupo de capitalistas californianos, indivíduo sobremaneira loquaz, mas também com grande dificuldades em conseguir que Duke emita um som; ainda mais quando estão na situação de perseguidos por um regimento de soldados negros renegados, no encalço daquela avultada quantia; e ao mesmo tempo, seguimos o rasto de Peg, uma prostituta de saloon que se tornou uma paixão de Duke, raptada por King, um homem que conhece o nosso pistoleiro tão bem quanto o próprio. Em sucessivas analepses, ficamos a saber que o agora King velho é o antigo director do orfanato, alguém que quando olhou nos olhos o jovem Morgan, percebeu que tinha ali um futuro matador, um igual… E a frase do álbum anterior, A Última Vez que Rezei (2020), começa assim a tomar forma e a fazer sentido: “Abandonados por Deus, era inevitável que o Diabo se interessasse por nós...” Este plural diz respeito ao irmão mais novo, Clem, chegado ao mesmo tempo ao orfanato, e que não virá a faltar ao apelo do crime.
Com os desertores do regimento dos Buffalo Soldiers no encalço, aliando à cupidez a necessidade de desforra pelos agravos sofridos enquanto afro-americanos – Duke e Swift esperarão por eles numa casa no meio do nada, habitada por uma família peculiar, cujo homem tem para com Duke uma dívida a que não pode eximir-se.
Narrativa lenta, a digressão exterior acompanha a itinerância interior, com grandes planos frontais equilibrados por vinhetas abertas para o espaço amplo em que as personagens demoradamente se movem.
Duke – Pistoleiro É o que Serás
texto: Yves H.
desenhos: Hermann
edição: Arte de Autor, Estoril, 2021
segunda-feira, 7 de junho de 2021
Duke
E como uma coisa boa nunca vem só, aqui temos o tomo 5 de Duke: Pistoleiro É o que Serás, desenhos de Hermann e texto de Yves H., publicado pela Arte de Autor, mas aqui a par com a edição belga original. A propósito do herói, usámos a seguinte formulação: Duke representa a luta individual da ética contra o instinto. Quando assim é, e um dos autores se chama Hermann Huppen (Bernard Prince, Comanche, Jeremiah, As Torres de Bois-Maury, etc....), não há alternativa senão ir atrás.
quinta-feira, 31 de dezembro de 2020
12 livros de 2020
No ano em que o maior vilão deu pelo nome de SARS-CoV-2, 12 dos livros aqui registados:
Álbum do ano: O Homem que Matou Lucky Luke, de Matthieu Bonhomme (A Seita). Recriação fascinada e fascinante dum ícone, com o melhor preito de homenagem, que não é o da cópia servil. Sabemos também por que razão Luke deixou de fumar.
Frase do ano: “Abandonados por Deus, era inevitável que o Diabo se interessasse por nós...” Fala de Duke em A Última Vez que Rezei, desenhos de Hermann, texto de Yves H. (Arte de Autor). Um processo de autodescoberta que estamos a acompanhar, uma luta individual da ética com o instinto. Hermann, como um dos maiores autores de BD vivos, Yves H. procurando servir o pai com argumentos à altura do talento que o fez parir.
Prestidigitação do ano: Zardo, de Tiziano Sclavi e Emiliano Mammucari (Sergio Bonelli), argumento a confundir deliberadamente o leitor, em que nada é o que parece, a começar pelo protagonista.
Heróis do ano: de carne e osso, Maurício Hora, cuja história André Diniz pôs em quadrinhos em Morro da Favela (Polvo), em segunda edição aumentada, na companhia de D. Iracema, um sorriso colorido num meio dum certo inferno.
Sex appeal do ano: a volúpia divide-se entre Blandine, a stripper ex-hospedeira, irmã gémea de uma conceituada harpista clássica, ovelha negra do par, em L’Instant d’Aprés, de Zidrou e Éric Maltaite (Dupuis) ou a prattiana Lady Darksee, bela, vaporosa, destemida, insolente, em Raven, de Mathieu Lauffray (Dargaud), história de piratas.
Patife do ano: Denis, “o executor”, assassino em missões oficiais, que se descobre com um resquício de consciência: Le Tueur –Affaires d'État 1. Traitement Négatif, por Matz & Jacamon (Casterman).
Escapismo do ano: a fantasia histórica de Colt & Pepper – Pandemonium à Paragusa, texto de Darko Marcan, desenhos de Igor Kordej (Delcourt), América, século XVII, coabitação entre monstros e homens, tiranos e sublevados.
Maluquice do ano: as desventuras de Mafaldo Limparrim na vila imaginária de Poço Novo (Alto Minho), em O Penteador, desnovela gráfica e insana de Paulo J. Mendes (Escorpião Azul).
Vírus do ano: o SARS-CoV-2, foi invectivado pelo catalão Max em Manifestamente Anormal (Panfleto e Catarse), diário do confinamento em que ninguém escapa (separata do jornal A Batalha, #288-289, Centro de Estudos Libertários). Mas os vírus não se ficaram por aqui: a epidemia de febre amarela foi este ano recuperada com a reedição de No Lazareto de Lisboa (1881), de Rafael Bordalo Pinheiro (Pim! e Museu Bordalo Pinheiro), enquanto que, em narrativa pós-apocalíptica, um misterioso organismo vindo do centro da terra destruiu todos os metais, voltando a Humanidade à madeira e ao couro: Le Convoyeur [o entregador], argumento de Tristan Roulot e desenhos de Dimitri Armand (Le Lombard).
O Homem que Matou Lucky Luke, de Mathieu Bonhomme (A Seita)
Duke – A Última Vez que Rezei, por Hermann & Yves H. (Arte de Autor)
Raven 1. Némesis, de Mahtieu Laufray (Dargaud)
Le Convoyeur #1 . Nymphe, de Roulot & Armand (Le Lombard)
Manifestamente Anormal, de Max (encarte de A Batalha).
O Penteador, de Paulo J. Mendes (Escorpião Azul)
Zardo, por Sclavi & Mammucari (Sergio Bonelli Editore)
Le Tueur – Affaires d’État #1. Traitement Négatif, de Matz & Jacamon (Casterman)
L’Instant d’Aprés, de Zidrou & Maltaite (Dupuis)
Colt & Pepper – Pandemonium à Paragusa, por Markan & Kordej (Delcourt)
Morro da Favela, de André Dinis, 2.ª ed., aumentada (Polvo)
No Lazareto de Lisboa, de Rafael Bordalo Pinheiro (Pim! Edições e Museu Bordalo Pinheiro)