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domingo, 30 de janeiro de 2022

de A a Z: O, de Olivier Rameau (Dany & Greg, 1970)



Um jovem ajudante de notário do Mundo-onde-todos-se-aborrecem, embarca com um colega à beira da reforma, Alphonse Pertinent, num eléctrico que conduz a um estranho país. Em Rêverose, não há pressas nem dinheiro, e até os espantalhos são amigos dos pássaros. Além disso, há também a menina Colombe, esplendorosa, por quem Olivier Rameau se apaixona. Um paraíso, que só é ameaçado quando alguém deste mundo em que nos aborrecemos lá vai parar. Uma grata fantasia utópica que ainda não disse tudo.

«Leitor de BD«

terça-feira, 15 de setembro de 2020

um homem que passa


 Paul Berthier é um foto-repórter de nomeada. Em "Terra" (assim mesmo, em português), a sua grande obra editada em livro, o sublime das paisagens exóticas vive paredes meias com a miséria e os regimes que atropelam os direitos humanos. Às portas de velhice, e atormentado por um aneurisma cerebral, o seu propósito é o de organizar um álbum de fotografias de pendor erótico, de mulheres com quem manteve relações íntimas, umas horas ou uns anos, não muitos, uma vez que Paul é um homem que não procura criar raízes, é um homem que passa pela vida das mulheres. 

A acção decorre no arquipélago de Chausey, no Canal da Mancha – Paul tem aí o refúgio, numa pequena casa que herdara dos avós –, e desencadeia-se quando, num paroxismo de desespero, o pavor de ficar meio inutilizado em consequência da doença, como sucedera ao pai, empreende o caminho para a costa para se suicidar. Mas um sinal luminoso a estralejar, indício de naufrágio, trava o intento. Conhecendo os rochedos como a palma da mão, arranca numa lancha em direcção ao pequeno veleiro em risco de se desfazer de encontro às rochas. A bordo está Kirsten, assistente editorial na casa que o publica, que se dirigira à ilha, sem avisar, para acertar pormenores.

Recuperada e enxuta já no acolhedor chalé, vendo as fotografias de inúmeras mulheres dispostas nas paredes, pede-lhe que fale sobre o projecto, o mesmo é dizer que lhe conte a sua história. Duas gerações diferentes, ele um abencerragem dos libertinos anos 60 e 70, ela jovem mulher do tempo do #mee too, o caldo não tardará a entornar-se; Kirsten a acusá-lo de ser um predador exibindo troféus de caça, o que Paul nega com veemência; pelo contrário, apreciando as mulheres e o prazer mútuo que uma relação suscitava, apenas estava atento aos sinais, tendo a experiência ensinado que quando um homem aborda uma mulher, se esta não tiver já reparado em si com agrado, dali não levará nada... Quando a dinâmica do diálogo precipita a acção, ficamos a saber que Kirsten não é apenas a publisher que se lhe apresentou, mas alguém com ligações ao passado. 

Se o argumento cumpre (de Denis Lapière, Namur, 1958) abeirando-se perigosamente de alguns clichés, o maior interesse reside no trabalho de Dany (Daniel Herontin, Marche-en-Famenne, 1943), um dos últimos grandes nomes da idade de ouro da revista Tintin. As pranchas iniciais, as da tempestade sobre a ilha, são magníficas, as analepses distinguem-se do tempo presente através do recurso à aguarela e as expressões, numa BD que assenta sobretudo em diálogos de forte tensão, são bem logradas.

Dany sempre foi um pouco narciso: Olivier Rameau, protagonista da série que criou com Greg, assemelha-se ao autor quando jovem, e a bela Colombe Tiredaile teve por modelo Marcy, sua mulher. Colombe, mesmo nos parâmetros mais rígidos da imprensa da época foi sempre uma figura sexuada, que se vai erotizando à medida que o tempo o permite. Por isso, quando da série de gags eróticos Ça Vous Interèsse? – que deu a Dany uma aura de homme à femmes, apesar de casado com a mulher que ama há mais de 50 anos, como fez questão de frisar numa entrevista a propósito deste álbum –, ninguém se admirou que a imagem decalcada de Colombe também por lá aparecesse. Há quem veja em Paul um seu auto-retrato físico, no que o desenhador só concorda parcialmente. A verdade é que Lapière destinou o argumento a Dany e a mais ninguém; e, mutatis mutandis, a evocação de Colombe, isto é da mulher, Marcy, continua neste álbum. No fundo, diga-se o que disser, Dany é um homem que fica.


Un Homme qui Passe

Texto: Denis lapière

Desenhos: Dany

Edução: Dupuis, Marcinelle, 2020


«Leitor de BD», jornal i

sábado, 11 de abril de 2020

Dany

Septuagenário entrado, Dany, o co-criador de Olivier Rameau – série de maravilhoso para todas as idades – já então faria suspeitar um leitor adulto da potencial cocquinerie da bela Colombe Tiredaile. A colecção de gags Ça Vous Intéresse aí está para vermos o gosto de de Dany por desenhar belas mulheres, que aparecem também no seu último álbum, Un Homme qui Passe (Dupuis, 2020), com texto de Denis Lapierre, a história de um fotógrafo bem vivido, em crise. A ele voltaremos.

sábado, 19 de outubro de 2013

50 álbuns: 7. Dany & Greg, LE CANNON DE LA BONNE HUMEUR (1983) -- "Baf"?!...

Em cenário edénico, surgem saltitando, quais efebos, Dany & Greg, os autores, envergando túnicas alvas e louros na cabeça; o primeiro, de paleta de cores na mão e pincel em riste, o segundo de pena em riste e folha branca na mão. Inspirados pela envolvente de paraíso das Escrituras -- árvores e flores viçosas, quedas d'água marulhantes e passarinhos a chilrear --, preparam-se Dany & Greg para dar início à narrativa, o que sucede apenas na última vinheta da prancha #1: um violento directo de boxeur -- BAF! -- no queixo do pugilista oponente... Trata-se de Kid Cahot, agora em knockout, transportado em maca pelo entourage aflito, em meio à vaia monumental do público. Já não é o primeiro KO; mas, estranhamente, Cahot, sem sentidos, é representado com um sorriso beatífico.
Sonha com Reverose (a "Sonhorosa" da saudosa revista dos 7 aos 77 anos), está-se mesmo a ver. Ou melhor: ver-se-á, em pranchas seguintes...
A verdade é que fomos transportados para o mundo-onde-todos-se-aborrecem, e nessa vinheta, como em toda a prancha #2, quase todas as cores desaparecem, como se pode ver na vinheta em baixo, com vários tons de vermelho, e só vermelho.

Dany & Greg, Le Canon de la Bonne Humeur, Bruxelas, Éditions du Lombard,. 1983, pranchas 1-2.