Mostrar mensagens com a etiqueta Leitor de BD-Jornal i. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Leitor de BD-Jornal i. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 2 de setembro de 2022

A l'Heure où les Dieux Dorment Encore, por Cosey

Criador de Johnatan, o suíco Cosey viaja pelos mesmos lugares da sua personagem. No final do ano passado foi publicado um belo livro de esboços, apontamentos, mas também aguarelas ou desenhos a tinta-da-china, num misto de diário gráfico e caderno de viagem. (Daniel Maghen, Paris, 2021)

«Leitor de BD»

quinta-feira, 1 de setembro de 2022

Tric et Balthazar, de Bob de Moor

Balthazar é um homenzinho bonacheirão, de cuja pantomina o autor – um dos grandes colaboradores de Hergé – se socorre para criar situações cómicas que nos fazem pensar. O Professor Tric, seu irmão é, pelo contrário irascível. Série pouco conhecida, as tiras foram reunidas em volume (BD Must).

sexta-feira, 26 de agosto de 2022

« Il Quaderno di Radoslav e altre storie della II Guerra Mondiale», de Aleksandar Zograf


O sérvio Zograf (
Pančevo, Voivodina, 1963) é um dos grandes autores de BD europeus da actualidade, entre nós foram publicados os dois volumes de Mundos em Segunda Mão, na Chili com Carne. Agora, em língua um pouco mais acessível, o italiano, O Caderno de Radoslav e outras histórias da II Guerra Mundial, livro constituído por trinta histórias curtas e uma extensa narrativa autobiográfica. A conturbada história dos Balcãs e a qualidade do autor fazem com que se trate de um livro muito apetecível. Quem sabe se estará para breve uma edição portuguesa? (001 Edizione, Turim, 2021).

«Leitor de BD»

terça-feira, 23 de agosto de 2022

quarta-feira, 17 de agosto de 2022

O Pescador de Memórias, texto de Miguel Peres, desenhos de Majory Yokomizo

 

Um belíssimo argumento que aborda o problema da doença de Alzheimer. “Lethe está preso numa ilha deserta, sem se lembrar como lá chegou. A sua única esperança de salvação está na pesca de fragmentos de memória que flutuam pelo mar, peças fulcrais na busca de recuperação da identidade. Um retrato pungente daqueles que sofremos seus últimos dias com a doença de Alzheimer e uma história sensível sobre o significado das recordações e da família.” (Kingpin Books)

«Leitor de BD»

segunda-feira, 15 de agosto de 2022

«Mezkal», por Kevan Stevens e Jef

Depois da morte da mãe, um jovem americano faz-se à estrada sem destino. Entre o encontro com uma jovem índia que tem por tutor um velho xamã com estranhos poderes e um cartel de droga mexicano que o força a fazer serviços, sem falar no Hell's Angels... Um road movie em BD. (Soleil)

«O Amor Infinito que te Tenho e Outras Histórias», de Paulo Monteiro

Já em quarta edição, voltamos a falar desta esplêndida obra de BD, um livro cheio de amor, sob as várias formas que este pode ter. Poesia impura, da melhor. (Edições Polvo)

«Leitor de BD»

domingo, 17 de julho de 2022

um deserto editorial


Se exceptuarmos alguns nichos, incluindo o circuito de fanzines, que foi sempre circunscrito, o panorama da imprensa de banda-desenhada em Portugal é o de um deserto inóspito. Não há nada para o grande público, o que diz muito também do que somos. E se a actividade editorial do presente tem muito o que se lhe diga, de bem e de mal, nomeadamente a ausência de uma política efectiva de criação de hábitos de leitura, em BD, o que se vê é um público sem oferta a este nível, a não ser o que vem de fora, Porque existe um público, que poderia transmitir esse gosto a filhos e netos, como sucedia com gerações anteriores, a do Cavaleiro Andante ou a do Tintin. Não basta pôr os álbuns no mercado, esperando que um ou outro caia no goto; um editor a sério não é só isso, mas antes um banal gestor de produto, Veja-se o que sucedeu recentemente com o material Disney, saturando-se um mercado ávido, sem outra atitude editorial que não a de fazer dinheiro. O último editor com uma percepção do papel que deveria ter enquanto construtor de leitores foi Telmo Protásio, da Meribérica, em especial com Jorge Magalhães, no magnífico mensário Selecções BD. Revistas a sério precisam-se, pois, combinando clássico e contemporâneo, o de fora e o de dentro, agora que a BD portuguesa está como nunca antes.

Vêm estas considerações amargas a propósito de uma oferta filial de fumetti Disney comprados num quiosque em Milão: o número 5 de Il Club del Supereroi. Não só está lá tudo, excepto o fugaz Vespa Vermelha, como são doseados autores velhos e novos, dos norte-americanos Paul Murry, Carl Barks e Don Rosa, entre outros, aos italianos Ezio Sisto, Silvia Ziche e Marco Gervasio, e também os brasileiros Ivan Seidenberg, Carlos Edgard Herrero e Paulo Borges, o espanhol Jordi Alfonso, o holandês Bas Schuddeboom ou o japonês Shiro Shirai, com um mangá, a ler da direita para a esquerda, no fim da revista, tudo com textos explicativos e datas de publicação originais.

Voltámos a encontrar um Superpateta clássico, um Morcego Vermelho de sempre (duas personagens a explorar em breve) e um inusitado Superpato pensado nos Países Baixos, surgindo ainda uma interessante experiência que conjuga um original de Carl Barks de 1949 – “Super Snooper” – com um remake do seu discípulo espiritual, Don Rosa, e um outro, japonês, o tal mangá de Shirai. Donald encontra os sobrinhos a ler revistas do super-herói Super Snoopper (no mangá, é já um filme), e é crítico por Huguinho, Zezinho e Luisinho perderem tempo com literatura barata, percebendo, porém, pela reacção destes, que ele próprio está longe de ser um modelo. Tudo se altera quando, por engano, ingere uma solução química que lhe dará superpoderes. Ver as diferentes soluções a partir da narrativa matriz nas duas versões da década de 1990, é um dos atractivos desta revistinha, que, não sendo do outro mundo, não se compara com o nosso deserto.

Il Club dei Supereroi #5

Texto e desenhos: vários autores

edição: Panini Comics, Modena, Março de 2022

terça-feira, 12 de julho de 2022

de A a Z: C, de Coronel Clifton (Raymond Macherot, 1969)




Harold Wilberforce Clifton, oficial reformado do MI5, detective amador, escoteiro graduado, com um fleumático bigode imperial, indumentária impecável, governanta previdente e um MG-Type Midget de fazer inveja, ideal para as deslocações entre Londres e a cidadezinha fictícia de Puddington, onde vive, é uma das grande criações de Macherot, um dos grandes belgas da BD.

«Leitor de BD»


sexta-feira, 8 de julho de 2022

animais como nós


Com
George Herriman, o criador de Kazy Kat (1913), e o trio gata-rato-cão, por entre amores mal resolvidos e “crimes” associados, abriu-se um veio nos quadradinhos que chegou aos nossos dias, o do antropomorfismo, Ao contrário do que se possa pensar, este não é forçosamente orientado para um público eminentemente infantil: Pat Sullivan e o surreal Gato Félix (1919), Walt Disney com Ub Iwerks, Floyd Gottefredson e Carl Barks, entre outros, e as suas inúmeras personagens, do impoluto rato Mickey (1928) ao irascível Pato Donald (1934), passando pelo avarento Tio Patinhas (1947) a puros bandidos como João Bafo de Onça (1926) e os Metralhas (The Beagle Boys,1951), constituem uma pequena parte da panóplia de personagens antropomórficas que cobrem as inconstâncias do comportamento humano. Sem desenvolvermos, é obrigatória a referência ao underground Fritz o Gato (1965), do genial Robert Crumb – a libertação sexual chegada aos comics –, e o notável Maus (1980), de Art Spiegelman, em que o triunfo do mal e o drama pessoal que o Holocausto representou, é-nos contado através de ratos, gatos, cães e porcos. Também na Europa, Raymond Macherot, com Clorofila (1956) e Sybilline (1967), elaborou sobre o bem e o mal servindo-se das aventuras daqueles ratinhos, enquanto o Inspector Canardo (1978), um “Columbo” em corpo de pato etilizado, deslindava crimes viciosos sob nuvens de fumo, prenunciando um menos rugoso Blacksad (2000), dos espanhóis Guarnido e Canales.

Não é bem uma fábula do género rato do campo / rato da cidade, à La Fontaine que Rodolfo Mariano, guitarrista e autor de BD (Coimbra 1981), nos apresenta neste intrigante – a começar pelo título – Bottoms Up, Prémio “Toma lá 500 paus e faz uma BD” de 2019, e seu primeiro livro. Chegado da aldeia, transportado por um atrelado cigano ou circense puxado por uma espécie de muflões de aspecto satânico, o rato Simão apeia-se no limiar da grande cidade. Por bagagem, uma mochila sem fundo acomoda um velho mapa, meias de cada nação entre uma parafernália de objectos úteis e inúteis, e ainda um livro mágico sobre “naves especiais”. Dirigindo-se à cidade, procura a chave que possibilite a libertação de um amigo, prisioneiro do Inquisidor-Mor. Uma mélroa de nome Cassandra ou o fantasma da raposa vegetariana Annalisa, contracenam com Simão, no meio de bandidos, carrascos, guardas, comerciantes e mortos-vivos que povoam uma urbe que poderia vir descrita num livro de Tolkien. Caso invulgar nos quadradinhos nacionais, o estilo de Rodolfo Mariano já foi comparado com o do americano Simon Hansselman; o francês Lewis Trondheim é também um nome que aqui nos parece ecoar. Elogio da amizade e denúncia do poder, anuncia-se uma sequência da narrativa com Cloak and Dagger – ou seja: capa e espada –, que, como Bottoms Up foi primeiro publicada online. Mariano tem uma apetência pelo imaginário fantástico pulp, que utiliza para falar de coisas sérias, e o antroporfismo revela-se uma esplêndida opção.


Bottoms Up

texto e desenhos: Rodolfo Mariano

edição: Chili com Carne, Cascais, 2019.

«Leitor de B D»

quinta-feira, 30 de junho de 2022

de A a Z: D, de Deadpool (Rob Liefield e Fabian Nicieza, 1991)


Vilão mutante, e tagarela, mercenário e anti-herói por vezes, apareceu como como adversário dos X-Men. O carisma invertido popularizou-o até ao absurdo, tornando-o potencial assassino dos super-heróis da Marvel, das personagens da grande literatura, e até de si próprio.

«Leitor de BD»

segunda-feira, 27 de junho de 2022

personagem em construção


Ao quinto álbum, continuamos a acompanhar esta figura de papel, carvão e tinta criada pelo argumentista Yves H. e desenhada pelo pai deste, Hermann Huppen, um dos grandes mestres da BD franco-belga: Duke, ou melhor Morgan Finch, personagem reservada, pistoleiro a seu pesar. Atirador exímio, evita gostar demasiado de armas. Conhecemo-lo em A Lama e o Sangue (2017), numa pequena cidade do Colorado, construída em torno de uma mina. Era adjunto do xerife, fraco homem, bem necessitado de manter a ordem nas dissensões violentas entre mineiros e agricultores, sem contar com os aventureiros com faro para o ouro. O dono da mina, Mullins, é um déspota e ganancioso que não distingue os homens que para si trabalham dos animais ou das coisas Quando os assaltos a diligências começam a suceder-se, e Mullins necessita de alguém que leve até à Califórnia um montante de 100 mil dólares a um consórcio de que é devedor, já Morgan se prepara para um reencontro com o passado pouco cor-de-rosa e um director de um orfanato, onde ele e Clem, irmão mais novo, foram recolhidos.

Acompanhamos agora a progressão de Duke pelas zonas áridas do Colorado, na companhia de Swift, um representante do grupo de capitalistas californianos, indivíduo sobremaneira loquaz, mas também com grande dificuldades em conseguir que Duke emita um som; ainda mais quando estão na situação de perseguidos por um regimento de soldados negros renegados, no encalço daquela avultada quantia; e ao mesmo tempo, seguimos o rasto de Peg, uma prostituta de saloon que se tornou uma paixão de Duke, raptada por King, um homem que conhece o nosso pistoleiro tão bem quanto o próprio. Em sucessivas analepses, ficamos a saber que o agora King velho é o antigo director do orfanato, alguém que quando olhou nos olhos o jovem Morgan, percebeu que tinha ali um futuro matador, um igual… E a frase do álbum anterior, A Última Vez que Rezei (2020), começa assim a tomar forma e a fazer sentido: “Abandonados por Deus, era inevitável que o Diabo se interessasse por nós...” Este plural diz respeito ao irmão mais novo, Clem, chegado ao mesmo tempo ao orfanato, e que não virá a faltar ao apelo do crime.

Com os desertores do regimento dos Buffalo Soldiers no encalço, aliando à cupidez a necessidade de desforra pelos agravos sofridos enquanto afro-americanos – Duke e Swift esperarão por eles numa casa no meio do nada, habitada por uma família peculiar, cujo homem tem para com Duke uma dívida a que não pode eximir-se.

Narrativa lenta, a digressão exterior acompanha a itinerância interior, com grandes planos frontais equilibrados por vinhetas abertas para o espaço amplo em que as personagens demoradamente se movem.


Duke – Pistoleiro É o que Serás

texto: Yves H.

desenhos: Hermann

edição: Arte de Autor, Estoril, 2021

«Leitor de BD»

sexta-feira, 24 de junho de 2022

de A a Z: D, de Dylan Dog (Tiziano Sclavi e Angelo Stano, 1986)



Uma das mais populares séries dos fumetti italianos, Dylan Dog é um antigo e ex-alcoólico inspector da Scotland Yard, tornado detective do sobrenatural. Assistido por Groucho, sósia do Marx, e como este também piadista, o herói, agora abstémio, cultiva o clarinete (tocou com Woody Allen), e em cada história tem uma mulher, diz-se que à procura de um amor passado...

«Leitor dBD»

terça-feira, 14 de junho de 2022

O Comissário Ricciardi



Criado pelo escritor napolitano Maurizio de Giovanni, em 2005, Luigi Alfredo Ricciardi, filho dos barões de Malomonte, originário de Cilento, no sul de Itália, é uma personagem que se estreia em edição portuguesa, na «Colecção Aleph», a mesma que publica Dylan Dog, misturando, tal como sucede com o “detective do pesadelo”, o policial e o sobrenatural.

Ricciardi detém uma estranha faculdade, herdada da mãe, que lhe inferniza a existência: junto de um cadáver, consegue ver os últimos momentos dessa pessoa, desde que vítima de morte violenta, crime ou acidente… Esta revelação obteve-a aos cinco anos diante de alguém assassinado por motivos passionais. Vida marcada por um negrume insuportável, Ricciardi é um solitário melancólico, para quem viver um amor é impossível. Conta com os cuidados de uma velha criada; e apenas com o adjunto, o sargento bonacheirão Raffaele Maione, encontra os breves momentos de distensão que a vida lhe permite.

A acção decorre no final dos anos 20, em pleno fascismo, que, nas três narrativas deste livro inaugural, apenas aparece de raspão (retratos do Duce e Vítor Manuel III, e uma alusão a um bando de rufias). Na primeira história, intitulada “Dez cêntimos”, recuamos uma década, para 1919, quando o jovem Luigi, chegado a Nápoles para cursar filosofia – a única disciplina que considera apropriada para o tormento em que vive --, se depara com a visão de uma criança doce que vendia flores na rua. Como não lhe bastasse ser pobre, era ainda indefesa; a maldade do mundo não lhe estava vedada; a narrativa seguinte, “Os vivos e os mortos”, temos a pedofilia escondida mas facilitada por quem se move livremente e sem suspeitas; finalmente, “Mammarella”, ou quando um menino-da- mamã – e que mamã... – deixa vir ao de cima anos de recalcamento.

O pano de fundo é a excessiva e luminosa Nápoles, estuante de vida e gente, cheia de uma buliçosa azáfama e, ao mesmo tempo, cenário de crime e morte. A cidade aparece como uma grande personagem, a verdadeira parceira das digressões quotidianas de Ricciardi, em cujos becos e encruzilhadas, desvãos e subterrâneos, fluem os dias, enquanto se desenrolam dramas junto a tabernas e salões aristocráticos, sacristias e bordéis, lugares nem sempre frequentáveis.

De Giovanni (Nápoles, 1958) não é um autor de fumetti; argumentistas adaptam a narrativa à linguagem BD; com que acerto, só conhecendo o texto matriz para o dizer; o trabalho dos desenhadores, mais expressionista Bigliardo, de traço mais aberto Siniscalchi, é eficaz na transposição para a imagem da atmosfera pesada de crime e morte numa cidade e país ruidosamente a caminho da guerra.


Comissário Ricciardi – Primeiros Inquéritos

textos: Sergio Brancato e Claudio Falco

desenhos: Daniele Bigliardo e Luigi Siniscalchi

edição: A Seita, Prior Velho, 2021.

«Leitor de BD»

quinta-feira, 9 de junho de 2022

de A a Z: B, de Boule & Bill (Roba, 1959)




Uma BD superlativa, do melhor que alguma vez se fez no género criança e mascote, ao nível de um Charlie Brown & Snoopy e Calvin & Hobbes. Boule é um rapazinho de uma família de classe média, inspirado no filho de Jean Roba; e Bill um cocker spaniel, que pensa connosco. A vida pura com as atribulações domésticas de todos os dias. Em Portugal a série nunca foi publicada em álbum, excepto em periódicos como os inevitáveis Cavaleiro Andante e Spirou, entre outros. Existem edições brasileiras, já da autoria de Laurent Verron, o continuador designado por Roba.

«Leitor de BD»

sexta-feira, 3 de junho de 2022

mundo fechado



Abrir um livro de André Diniz é saber de antemão que entraremos num universo pessoal servido por um poder de observação agudo, uma forte empatia e atenção ao outro, atributo dos grandes ficcionistas. Autor realista, do melhor realismo, aberto a todas as aventuras interiores que o ser humano comporta, André Diniz aparece-nos neste particular como um lídimo herdeiro do extraordinário Machado de Assis (1839-1908).

Matei o Meu Pai e Foi Estranho é o título peculiar da obra de hoje. Depois de Morro na Favela, Entre Cegos e Invisíveis e A Revolta da Vacina, esta é quarta vez que nos debruçamos sobre um livro deste autor brasileiro (Rio de Janeiro, 1975), residente em Portugal, com cuja BD tem estabelecido contacto e que homenageia num extratexto final. Nele reconhecemos um recriador de mundos, como é o mundo particular de Zaqueu.

Menino especial com génio de artista e algumas dificuldades relacionais, em casa e também com as raparigas. O seu confidente é um sem-abrigo na floresta de cimento, São Paulo. É, além disso, é um rapaz que sofre de albinismo, no seio de uma família de gente escura, da classe trabalhadora: pai motorista, mãe guarda prisional e ainda dois irmãos, o mais velho, rufia que se entretém a moer o juízo de Zaqueu – criador de alcunhas de calibre, de leite coalhado a esperma de cavalo, passando por branco de neve, Michael Jackson e hepatite c –, e ainda a irmã caçula, Tonha, o seu ai-jesus, a única com quem se entende plenamente, embora tente estabelecer vínculos mais estreitos, especialmente com os pais. Estes, contudo, desvalorizam-no, em especial o progenitor, um impreparado que o trata como um falhado. Mas Zaqueu é habitado por um génio, é um poeta que escreve como ninguém, impressionando a professora – característica inusitada e suficiente para que o patrão do pai pague os estudos num colégio, frequentado por gente rica, e no qual o rapaz se sente também deslocado. Ambiente opressivo e cinzento, em que tudo parece piorar, quando numa deambulação sem destino pela grande cidade, o míúdo topa com o pai e outra mulher, levando uma criança consigo – uma outra família, um irmão que desconhece. O desenrolar da narrativa será surpreendente.

Uma história de todos os dias num meio habitado por milhões, mas em que cada um tem direito à sua própria personagem. Em Matei o Meu Pai e Foi Estranho a interdependência de desenho e texto é ágil e flui, um exemplo seguro de como a 9.ª arte é uma forma de expressão artística singular. E André Diniz, desenhador único e narrador nato, um artista completo.


Matei o Meu Pai e Foi Estranho

Texto e desenhos: André Diniz

edição: Polvo, Lisboa, 2021

«Leitor de BD»

quarta-feira, 1 de junho de 2022

de A a Z: E, de Esther (Riad Sattouf, 2015).



Inspirada numa menina de carne e osso, Esther A. filha de amigos do autor, esta criaturinha de Riad Sattouf é cheia de personalidade, sonhos fantasias e questionamentos, que partilha com as amigas da escola e com a família: pai professor de ginástica, mãe bancária, irmão adolescente e avó. Em curso de publicação, iremos acompanhá-la no seu crescimento até aos 18 anos.

«Leitor de BD»

sexta-feira, 20 de maio de 2022

Astérix atravessa o Donbass



Viajantes do Mundo Antigo, ainda não foi desta que os gauleses visitaram a Lusitânia, onde estavam os verdadeiros irredutíveis – “Não se governam nem se deixam governar”, escreveu a propósito Sérvio Sulpício Galba, a Júlio César. Quando pegámos no último Astérix, com o intuito de aligeirar o espírito da barbárie que nos ameaça e tolda os dias, com entrechoque de imperialismos, a carne para canhão em que foi transformado o povo ucraniano e o bombardeio maciço das opiniões públicas pelas mais desavergonhadas manipulações, verificámos que Ferri e Conrad nos transportam para a área geográfica do actual teatro de operações, a uma distância de dois mil anos.

Tudo começa quando o geógrafo Desorientadus propõe a Júlio César uma expedição ao Barbaricum, território vasto no leste da Europa e Ásia Central, com o fim de capturar um grifo – animal lendário, meio águia meio leão, com orelhas de cavalo –, descrito pelo viajante grego Dosamais de Colagénio. Um bicho daqueles em luta contra gladiadores aumentaria a popularidade de César, e para tal Desorientadus dispõe de informações de uma prisioneira amazona sármata (supostos antepassados dos eslavos), a bela Kalachnikovna. Ao mesmo tempo, Astérix, Obélix e Ideiafix acompanham Panoramix o druida, em deslocação à Sarmácia, ao encontro do colega xamã local Karnanteskeukine (adaptação não de todo feliz de Cékankondine – “c'est quand qu'on dine”, ou seja “quando é que se janta”...). Estamos, pois, no território que abrangia a actual Ucrânia, o sul da Rússia e o norte do Cazaquistão; tendo os autores concluído este 39º álbum da série ainda em 2020, embora o conflito permanecesse a baixa intensidade, não anteciparam a tragédia que se está a passar. As confusões étnicas sempre estiveram presentes nas histórias do pequeno gaulês, com muitos piscares de olhos à actualidade – quem não se lembra de Astérix e os Godos (1963) ou A Odisseia de Astérix (1981), este um dos melhores de Uderzo a solo, paródia da instabilidade perpétua no Médio Oriente? –; mas a verdade é que o momento não está para paródias, antes para recolhimento, solidariedade e espírito crítico afiado.

Trata-se de um álbum de sinal mais de Jean-Ives Ferri (argumento) e Didier Conrad (desenhos), o quinto da dupla, em que o mais conseguido, quanto a nós, continua a ser A Filha de Vercingétorix (2019). Os nomes de sonoridade russa são alguns deles esplêndidos, mesmo na tradução portuguesa: Gasodutine, o decano sármata; Botabaichine, o destilador; Wolverine, o lobo do xamã, companheiro de correria do Ideaifix; ou Klorokine, o anfitrião (aliás, a Covid-19 é a estrela no que respeita a gags). O desenho de Conrad, procura manter-se fiel a Uderzo.

Neste tempo de trevas, que São Goscinny continue a olhar por nós.


Astérix e o Grifo

texto: Jean-Ives Ferri

desenhos: Didier Conrad

edição: Asa, Alfragide, 2021

«Leitor de BD»

quinta-feira, 19 de maio de 2022

de A a Z: J, de Joker (Bob Kane / Jerry Robinson e Bill Finger, 1940)



Arqui-inimigo de Batman e sua perfeita némesis, louco ou psicopata, génio do mal, provoca calafrios aos leitores, pois é difícil outro vilão assim. O filme de Todd Philips com o desempenho de Joaquin Phoenix, guindaram-no definitivamente a personagem maior.

«Leitor de BD»

segunda-feira, 16 de maio de 2022

outros mundos


Se apanhares uma borboleta preta e a prenderes nas tuas mãos, e lhe sussurrares ao ouvido 'lugar nenhum', um tipo de óculos escuros aparece do nada para te bater com um fémur humano.” Palavras de um desconhecido dirigidas num bar a um dos protagonistas da narrativa de hoje – um homem não nomeado, mas de algum lugar –, que estava mais interessado em trocar olhares com uma jovem mulher.

Escrita por Tiago Barros (Lisboa, 1990), com desenhos de Fábio Veras (Lisboa, 1997) – de quem já aqui falámos a propósito de Filhos do Rato (2019, com texto de Luís Zhang –, O Homem de Lugar Nenhum é um dos bons lançamentos recentes da BD nacional, embora seja um pouco ingrato falar de uma obra de que saiu apenas o primeiro de dois volumes.

História de procura externa e interior, com uma dimensão também catárctica no que respeita ao argumentista, saído de uma cirurgia delicada, põe-nos em dois universos em simultâneo: o real, onde se move o homem de algum lugar e o outro, o de lugar nenhum, que pode ser a morada da morte, da inconsciência ou de um mundo que corre a par do nosso, ensaiando-se uma meditação sobre o tempo: finito ou infinito?; com princípio, meio e fim ou antes correndo numa linha circular, sendo “a vida um gradiente de experiências em paralelo?”

Esse lugar nenhum, solar, numa velha cabana à beira de um campo de morangueiros, onde jaz a carcaça de um comboio acidentado, é onde habita o homem de óculos escuros que acabará por bater com um fémur humano no homem de algum lugar, a eles se juntando um terceiro homem desesperado por uma perda (amorosa?) e um quarto elemento, desta vez uma mulher em busca do irmão, a única até aqui nomeada: Luxúria. Nesse outro lugar surgem uma espécie de gigantes mitológicos com quem o homem de óculos escuros se aconselha: Mike, Neil e Alan (uma homenagem a três demiurgos dos comics contemporâneos, Mignola, Gaiman e Moore).

Os quatro reunidos, empreendem assim uma busca na terra inóspita dos goblins, procurando cada um algo que lhes foi roubado pelo seu rei. Um destacamento desses seres fantásticos irá ao seu encontro, e é aí que o homem de lugar nenhum tem de decidir-se a enfrentá-los. Porquê? Por um graal particular, certamente, que ficaremos a conhecer no segundo volume, e que é insusceptível de não ser procurado, Quando estão em causa princípios inapeláveis, há que investir por eles, contra qualquer destacamento, real ou figurado, em nome de valores, que, segundo o narrador, nos permitem dormir à noite, olhar os outros nos olhos, esperar a morte com um sorriso pacificado. Porque, se abandonarmos esses princípios – escreve-se – “se os deixarmos cair, eles desfazem-se em pedaços. / Caminharias sobre os seus cacos durante o resto da vida.” Um texto com vários desafios, que Veras pôs em quadradinhos com inteligência e desenvoltura.


O Homem de Lugar Nenhum, vol. 1

texto: Tiago Barros

desenhos: Fábio Veras

edição: A Seita e Comic Heart, 2021

«Leitor de BD»