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segunda-feira, 13 de setembro de 2021

da continuidade das séries


 

É escasso o número de séries populares dos quadradinhos que não tenham continuidade após o autor dar por findo o seu trabalho. Nos Estados Unidos é a regra, apesar dos Peanuts e de Calvin and Hobbes. O mesmo, não sendo inteira novidade, está a ocorrer na BD francófona. Tal pode trazer do melhor, seja os Batman de Frank Miller, Alan Moore, Grant Morrison, Jeph Loeb, ou os Spirou, de Jijé e Franquin a Tome & Janry; mas com ela poderá vir o descalabro, como sucedeu com o pobre Homem-Aranha, com tantas identidades e universos ficcionais que só um iniciado sabe quem é quem. O vil metal não respeita nada nem ninguém, muito menos um super-herói. Na tradição europeia, não chega tentar fazer igual. É por isso que o Spirou de Émile Bravo ou o Lucky Luke de Matthieu Bonhomme, escavando e redefinindo, têm pouco que se lhe compare.

Quando, há pouco mais de um ano, escrevemos sobre o tomo I de Black Program, de “As Novas Aventuras de Bruno Brazil”, por Aymond e Bollée, fazíamos votos para que os autores com a árdua tarefa de pegar no trabalho de Greg e William Vance ousassem ir além do epigonismo. Encerrado o segundo e último tomo, essa expectativa não foi completamente satisfeita. O argumento procura explorar os traumas da “Brigada Caimão”, substancialmente chacinada quando os criadores decidiram terminar a série, em Tudo ou Nada para Alak 6 (1977). O relacionamento entre os sobreviventes, alguns com sequelas físicas graves, outros com mazelas psicológicas, revela-se o aspecto mais interessante desta também sequela de BD. O nosso olhar adolescente persiste, e não acolhe como gostaria esta segunda vida de Bruno Brazil; o acumular de leituras e anos de vida tolera mal a ocorrência de visionários enlouquecidos que detêm meios que talvez nem as próprias super-potências militares disponham, numa série apesar de tudo com um de cunho realista, e, além disso, os riscos de Vance são difíceis de substituir.

Uma base secreta algures no Mato Grosso esconde um delirante ex-astronauta de uma missão secreta a Marte, realizada em 1973. O homem, que pisara o planeta vermelho, com o adn carregado de gigas de dados sensíveis, crê-se investido de uma missão superior de salvamento da Humanidade em perigo. Ali comanda centenas de acólitos (pois duma espécie de seita de trata), em que se encontram cientistas e outra gente impecavelmente caucasiana, incluindo um corpo de segurança armada, num esconderijo que alberga novíssima tecnologia, nomeadamente uma nave que lembra um space shuttle, levantando e ocultando-se na brenha amazónica. Enfim, para isso já tínhamos a “fortaleza da solidão”, no Árctico, ou as expedições a civilizações perdidas, para onde Carl Barks costumava mandar os seus patos. Com o Super-Homem ou o Tio Patinhas podemos proceder à suspensão temporária da descrença; assim, não é carne nem peixe. No entanto, com um desenlace em aberto, pode ser que haja oportunidade para corrigir o trajecto, ou não.


Bruno Brazil – Black Program – t.2

texto: Laurent-Frédéric Bollée

desenhos: Philippe Aymond

edição: Gradiva, Lisboa, 2020

«Leitor de BD»

quarta-feira, 9 de dezembro de 2020

Brigada Caimão reactivada

 


No segundo tomo de Black Program, por Laurent Frédéric Bollé e Philippe Aymond. Bruno Brazil, Gaucho Morales e Tony o Nómada (com Whip Rafale na rectaguarda, em cadeira de rosas) regressam a um teatro de operações, o seu elemento, desta vez em busca de um cientista da NASA que carrega no organismo informações sensíveis. Edição Gradiva, 2020.

«Leitor de BD», jornal i

sexta-feira, 24 de abril de 2020

comando devastado

Personagem criada por Greg e William Vance em 1967, sob os auspícios da Guerra Fria, Bruno Brazil, homem de missões impossíveis, agente do WSIO (World Security Internacional Office), chefiado pelo Coronel L. (Lazarus D. Walsh), aparece ainda muito ligado aos clichés jamesbondianos; cedo, porém, vai largando os lugares-comuns da espionagem, com as narrativas a decorrerem num páthos de angustiosa conspiração e contornos mais difusos, em que a política dos dois blocos é “apenas” o cenário em que tudo se move. Um dos atractivos da série é a chamada “Brigada Caimão”, um comando que Brazil lidera, constituído por elementos de inusitada ou duvidosa proveniência, artistas de circo, cadastrados, vigaristas...

Greg e William Vance são dois dos maiores nomes da BD franco-belga. Referi-los é o mesmo que nomear Achille Talon, Bernard Prince, Bob Morane, Comanche, Olivier Rameau; XIII – e até Spirou e Fantásio, e Tintin (o argumento de Tintin e o Lago dos Tubarões pertence a Greg); ou Marshal Blueberry, desenhos de Vance, a convite de Giraud, que assegurava os argumentos após a morte de Charlier.... Pegar numa série emblemática, saída das mãos de autores deste coturno é sempre um risco, daí que não haja propriamente avanços, ou talvez seja ainda cedo para tal. Quando Greg se tranfere para os Estados Unidos, assegurando a direcção local da editora Dargaud, precisou acalmar a produção infrene que a imaginação lhe oferecia. Por isso, em Tudo ou Nada para Alak 6 (1977) faz dizimar metade da Brigada Caimão, numa missão em Madagáscar, o que dá aos autores destas Novas Aventuras de Bruno Brazil ensejo a não deixar tudo na mesma, mesmo mantendo fidelidade ao cânone.
Laurent-Frédéric Bollée (Orleães, 1967) situa o tempo da acção nos meses após a carnificina naquela grande ilha do Índico. A tragédia está ainda fresca neste primeiro álbum, intitulado Black Program. Bruno faz psicanálise; mas o Coronel L. depara-se com o desaparecimento (ou fuga?) de um cientista da Nasa, autocobaia da expreriência de injecção no próprio ADN de gigas de informação sensível, circunstância que faz dele uma base de dados classificados ambulante. A segurança do estado requer a recomposição do que sobrou do comando: Gaucho Morales, alguém que gosta de viver a vida, mesmo que de forma pouco ortodoxa, o único que parece ter saído incólume da catástrofe, a palpitante Whip Rafale, agora paraplégica, e o problemático Tony o Nómada, trupe de pós-traumatizados com que Bruno Brazil terá de contar. Philippe Aymond (Paris, 1968) é um desenhador de méritos firmados, co-autor, de Lady S., outra série em torno de serviços secretos, com argumento de Van Hamme, e passagem por Lisboa. Aymond não se “livrou” totalmente de Vance, mas tem estofo para tal. Os dados estão assim lançados, e, entre mistérios, traumas, atentados e dramas pessoais, sabemos ainda muito pouco ao fim deste primeiro tomo. À boa maneira das revistas semanais de BD, (continua), pois claro!

Bruno Brazil – Black Program – t.1
texto: Laurent Frédéric Bollée
desenhos: Philippe Aymond
edição: Le Lombard, Bruxelas, 2019
edição portuguesa: Gradiva, Lisboa, 2020

domingo, 5 de janeiro de 2020

livros que me apetecem

Bruno Brazil. Agente da contra-espionagem americana, líder da “Brigada Caimão”, foi uma série popular criada por Greg e William Vance, Impedimentos do primeiro em prosseguir com ela, deram origem a uma das maiores carnificinas da história da Banda Desenhada. Retomada por Laurent-Frédéric Bolée e Philippe Haymond, os sobreviventes reúnem-se agora em Black Program (Éditions du Lombard).