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quarta-feira, 12 de janeiro de 2022

um pequeno país

Um país pequeno como a Bélgica, que em anteriores encarnações políticas foi pátria de van Eyck, van der Weyden, Bruegel, Rubens, van Dyck até, na figuração actual, Ensor, Magritte ou Delvaux, entre muitos outros, só encontra na opulenta Itália nação que com ela se meça com vantagem; assim também na BD a Bélgica na Europa, pese a França – Uderzo e Goscinny, por exemplo, afirmaram-se primeiro lá e só depois no país natal; ou Jacques Martin... – ou ainda a Itália, a terceira potência do Velho Continente. Historicamente, em face da Bélgica, só os Estados Unidos, com os seus comics.

Régine Vandamme (Bruges, 1961) uma escritora que se assume leitora, seleccionou, em 2003, 19 autores para um mimoso mini coffee table book, e escolhendo, também deixou de fora, inevitavelmente: Hermann (Bernard Prince, Comanche, Duke), a ausência mais gritante, mas ainda o próprio Greg (Achille Talon), E. Aidans (Tounga), François Craenhals (Chevalier Ardent) William Vance (Bruno Brazil, Ramiro, XIII) ou Dany (Olivier Rameau). Dito isto, as escolhas são todas respeitáveis e incontroversas na quase totalidade. Por ordem de nascimento, o livro abre com Edgar P. Jacobs (Blake e Mortimer), o “génio do estilo narrativo rigoroso e grafismo magistral”; em Hergé (Tintin), aponta o contraste entre a perfeição do herói com os múltiplos defeitos das restantes personagens, aliado à grande legibilidade do desenho. Willy Wandersteen (Bob e Bobette), apesar de Hergé lhe chamar o Bruegel da BD, está, quanto a nós, num patamar abaixo. Segue-se o grande Jijé (Jerry Spring), autor do primeiro western humanista, com grandes cenários e enquadramentos audaciosos; Morris (Lucky Luke), o pai da expressão 9.ª Arte; Paul Cuvelier (Corentin), desenho minucioso e sensual; Raymond Macherot (Clorofila, Coronel Clifton, Sibylinne), o animalismo negro da primeira série, a autora fala-nos da espantosa paleta do desenhador; André Franquim (Gaston Lagaffe, Ideias Negras), de quem Hergé dizia que era ele o grande artista; Peyo (João e Pirolito, Schtroumpfs), a clareza imaculada; Guy Peellaert (Jodelle), com a aproximação à Pop Art; Louis Joos e a paixão pelo jazz e o claro-escuro em técnica mista; Comès (Silêncio), a grande tradição do preto-e-branco, na esteira de Milton Caniff, Hugo Pratt e José Muñoz; Claude Renard (Galileu, Diário de um Herético), dum virtuosismo deslumbrante; Sokal (Canardo), um antropomorfismo em policial desbragado; Philippe Gelluck (O Gato), ou o triunfo do nonsense; o abençoado Frank Pé (La Bête), entre Franquin e Egon Schiele; François Schuitten (As Cidades Obscuras), entre Winsor McCay e Moebius; Yslaire (Sambre), uma das mais perturbantes criações da BD, e, por fim, Thierry Van Hasselt, cujas influências vão de Alberto Breccia a Francis Baco, ou a BD a reinventar-se como pintura e talvez a fugir dela própria.

Livro de uma senhora leitora, felizes os autores que são lidos com este amor.


Régine Vandamme, Les Maîtres de la BD Belge

Tournai, La Renaissance du Livre, 2003

«Leitor de BD»

domingo, 4 de outubro de 2020

«O Juramento dos Vikings»

 


Há uma tira de Hagar o Horrível, em que o víquingue criado por Dick Browne, chegado a França para a pilhagem, vê um burguês gritando aos quatro ventos “Cachez vos belles!”, receoso do estupro a que as mulheres estariam sujeitas; quando Hagar vislumbra um estafermo à janela, é o próprio que grita desalmadamente: “Cachez vos belles!” Ah, os víquingues!… Historicamente, Levaram tudo à frente, da Europa Oriental ao Norte de África. Pagãos relapsos por muito tempo, tanto se lhes dava arriar em cristãos como em muçulmanos. Ao rei de França impuseram um extenso domínio, a terra dos homens do Norte, os normandos – essa Normandia que viria a estar na origem da Guerra dos 100 anos... Para deles se proteger, Mumadona Dias, Condessa de Portucale (c. 943-950), mandou erigir uma larga torre que deu origem ao castelo de Guimarães; Mediterrâneo adentro, atiraram os árabes ao mar, criando o reino normando da Sicília...

Hoje voltamos a Peyo (Pierre Culliford, 1928-1992), depois de Kim Kebranoz, e também ao mar, depois de Raven, na semana passada. E a própria pirataria não está de todo ausente, uma vez o autor, belga de pai inglês, é descendente de um flibusteiro do século XVII, Robert Culliford, parceiro e depois inimigo do célebre Capitão Kidd (1645-1701), corsário escocês. Les Aventures de Johan aparecem no jornal belga La Dernière Heure, em 1946. Trata-se de um escudeiro com traços de Príncipe Valente disneyficado, habitando numa Idade Média de transição, por volta do século X, e que ao terceiro álbum, já na revista Spirou, ganhará em Pirlouit – um anão truculento que tem uma cabra por montada – um digno Sancho Pança, ou um Haddock, um Fantásio, um Obélix... Em Portugal tomaram o nome de João e Pirolito.

O Juramento dos Vikings, álbum original de 1958, sem a panóplia de feiticeiros, ogres, gigantes, pequenos seres azuis (os Schtroumpfs apareceram aqui) que caracterizam a série, é um episódio bastante linear: de regresso de uma missão que lhes fora confiada pelo rei, e após uma trapalhada de Pirolito, caído ao mar vestido, os dois amigos são acolhidos por uma família de pescadores. Um dos quatro filhos, pela idade e porte, destoa do resto da família. Não tardaremos a perceber de que se trata de um jovem rei destronado pelo regente, que em segredo fora escondido naquela recanto isolado. Há guerra civil no reino da Snoelândia, e sem noção do que está em causa, julgando ser o rapaz o filho mais velho do pescador, João e Pirolito vêem-se envolvidos numa disputa entre dois grupos – os que querem matar o jovem e os que querem resgatá-lo para que se sente o trono.

A partir daqui, há um corrupio por entre mares e ilhas, enseadas e castelos, espadeirada de meia-noite, em vinhetas que compõem pranchas com um óptimo dinamismo visual.

João e Pirolito – O Juramento dos Vikings

texto e desenhos: Peyo

edição: União Gráfica, Lisboa, 1967

«Leitor de BD«, jornal i

segunda-feira, 13 de julho de 2020

«Kim Kebranoz e os Táxis Vemelhos»

Bento Torceferro” poderia seu uma tradução literal do nome da personagem de hoje, Benoît Brisefer; porém, o tradutor optou pelo mais sonante “Kim Kebranoz”, e está certo. “Torce” ou “quebra”, porque o nosso herói, apesar de miúdo educado e gentil, muito atilado em sua indumentária, calções pretos, casaco vermelho, cachecol e boina basca de que nunca se separa, é um inusitado detentor de superpoderes. Mais forte que Sansão, mais rápido que o Flash da DC, pulmão tão devastador quanto o de Éolo, deus dos Ventos, salta, quase em voo, como se usasse botas de sete léguas. Apesar de nunca ter crescido, desde que em 1960 apareceu nas páginas da revista Spirou, julgamo-lo também imortal, como o Super-Homem, tendo também o seu calcanhar de Aquiles, não a kryptonite, mas o vírus da gripe, pois quando se constipa, Kim Kebranoz volta a ser uma criança igual às outras; mas ao contrário dos super-heróis, não faz questão de ter identidade secreta, só que o seu melhor amigo e companheiro de aventuras, o Sr. Vicente, velho taxista e ex-músico de jazz, nunca presencia os feitos do rapaz, atribuindo-lhe os relatos à imaginação fértil.
O autor é Pierre Culliford (1928-1992), mais conhecido por Peyo, já então autor da bela série medieval humorística Johan et Pirlouit, de onde surgirão os Schtroumpfs, – duns e doutros também aqui falaremos. Assoberbado pelos compromissos com várias séries a cargo, irá socorrer-se do seu camarada Will (Willy Maltaite, 1927-2000), desenhador da série Tif et Tondu, que se encarregou dos cenários, em particular dos edifícios, ruas e jardins da Vila Girassol (Vivejoie-la-Grande, no original).
Em Kim Kebranoz e os Táxis Vermelhos, primeiro titulo, uma moderna empresa de rádio-táxis instala-se na localidade. O negócio é porém uma fachada para um golpe épico sobre os bancos e demais comércio de valores da Vila Girassol, além de arruinarem o pobre do Sr. Vicente com concorrência desleal e sabotagem. O plano seria perfeito, mas não contavam com o fenómeno Kim Kebranoz – ele bem tentara avisar os adultos, que obviamente não lhe ligaram nenhuma –, que porá todos os grãos de areia na engrenagem, conseguindo ainda, pelo meio de todas peripécias, fazer-se raptar, indo parar a uma ilha, quase deserta, do outro lado do Atlântico.
Um álbum infanto-juvenil na sua génese, hoje irresistível para a faixa de “todas as idades”, ou “dos 7 aos 77”, para citar o semanário rival... O talento de Peyo, o dinamismo das vinhetas, sulcando e desarrumando o alinhamento clássico em prancha é bom de se ver, a que devemos acrescentar a destreza narrativa “folhetinesca” da história em continuação, ao longo dos meses em que se foi publicando, cada semana terminando em suspense ou com um gag.
Acrescente-se a curiosidade de esta edição portuguesa, de 1962, com a chancela da União Gráfica, editora ligada à Igreja Católica, ocorrer no mesmo ano da publicação do original na Bélgica, pela Dupuis.

Kim Kebranoz e os Táxis Vermelhos
Texto: Peyo
Desenhos: Peyo e Will
Edição: União Gráfica, Lisboa, 1962

segunda-feira, 16 de dezembro de 2019

Franquin antes de Gaston

Em 1955, Franquin estava em conflito com o editor Charles Dupuis, proprietário da revista Spirou. O autor criara já alguns dos maiores títulos da aventuras do jovem groom, como Os Herdeiros e O Roubo do Marsupilami. Na revista concorrente, Tintin, Raymond Leblanc, homem da Resistência belga que deu o braço a Hergé no pós-Guerra, torcia o nariz à circunspecção em demasia do hebdomadário, faltava-lhe humor. Estava, pois, criada a oportunidade para Franquin trabalhar na revista de Hergé e Jacobs.

Modeste et Pompon, série discreta mas importante para o desenvolvimento do percurso do seu criador, gira em torno do irascível Modesto, a namorada Pompom, contraponto de bom-senso, de Félix, um vendedor de inutilidades, além de três sobrinhos pestes -- condimentos para diversas peripécias de grande comicidade. É aqui que Franquin ensaia os esquemas insanes que depois iremos encontrar em Gaston Lagaffe, já de volta à Spirou; mas poderemos também vislumbrar algumas situações que viria a explorar nas Ideias Negras, expressão do seu lado mais sombrio.

A série foi continuada por Dino Attanasio (co-criador, com Goscinny, de Il Signor Spaghetti), Mittëi (O Incrível Désiré), entre muitos outros, com várias perninhas de alguns dos maiores autores do tempo: Peyo (Schtroumpfs), Tibet (Ric Hochet, Chick Bill), Greg (Achille Talon, Bernard Prince, Comanche), Van Hamme (História sem Heróis, XIII), Godard (Martin Milan)…

Modesto e Pompom

texto e desenhos: Franquin

edição: Asa, Porto, 2005