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quinta-feira, 30 de abril de 2020

Prémios "Bandas Desenhadas"

Com o objectivo de distinguir BD editada em Portugal, o site bandasdesenhadas.com, coordenado por Nuno Pereira de Sousa divulgou os premiados, uma vez que foi anulada a cerimónia prevista para decorrer no Festival Internacional de BD de Beja, entretanto cancelado pela pandemia. A escolha, entre mais de 300 publicações, coube Carla Ramos, Rodrigo Ramos, Susana Figueiredo e ao administrador. Eis alguns premiados:
Álbum (distribuição comercial): Einstein, Eddington e o Eclipse: Impressões de Viagem, de Ana Simões & Ana Matilde Sousa (Chili com Carne);
Álbum (distribuição alternativa): Conversas com os Putos e com os Professores Deles, de Álvaro (Insónia);
Ilustração: Mar de Aral, por Roberto Gomes (G-Floy e Comic Heart);
Argumento: Toutinegra, de André Oliveira (Polvo);
Série: Criminal – Livro Um, de Ed Brubaker e Sean Philips (G. Floy Studio);
Humor: Conversas com os Putos e com os Professores Deles, de Álvaro (Insónia);
BD curta: “Nós”, de Nuno Duarte e Rita Alafaiate, Legendary Horror Stories, vol. I (Legendary Books).
BD de autor ou co-autor nacional publicada no estrangeiro: A Morte Viva, de Alberto Varanda e Olivier Vatine (Ala dos Livros);
Antologia nacional: Umbra #1 (Umbra);
Edição estrangeira: Eu, Louco, de Antonio Altarriba e Keko (Ala dos Livros);
Reedição: Corto MalteseAs Célticas, de Hugo Pratt (Arte de Autor);
Edição (apuro editorial): Andromeda or The Long Way Home, de Zé Burnay (edição do Autor).

«Leitor de BD», jornal i

quinta-feira, 2 de janeiro de 2020

leituras de meio ano


Fim de ano, tempo de balanço a propósito dos 40 livros de que falámos aqui, desde Julho. Se sobre a Bdteca não há grande coisa a dizer, a não ser lembrar autores e personagens, de Tintin a Batman, de Will Eisner a Tardi, não nos vamos eximir a assinalar o que mais nos impressionou. Mais e melhor, já que a grande vantagem de não ser crítico é a de escrever sobretudo a propósito do que se gosta. «Leitor de BD», foi a designação que propusemos para estas crónicas de impressões subjectivas, com o lastro de mais de meio século de convívio, desde as tiras do Professor Nimbus no saudoso Diário de Lisboa, e de uns patos que ainda hoje podem ser companhia, depende de quem os trace.
Na BD de expressão portuguesa, elegemos como melhor livro O Coleccionador de Tijolos, de Pedro Burgos (Chili com Carne), esplêndida harmonia entre texto e desenhos, parábola de um país ultrajado entre a mentalidade troikista da pobreza e o recurso impudente ao dinheiro fácil, mesmo que tudo seja para arrasar. O desenho é soberbo em todas as suas dimensões, traço e plano em prancha; a edição cuidada faz jus ao que publica, Salientamos ainda Filhos do Rato, de Luís Zhang e Fábio Veras (Comic Heart e G. Floy Studio), o escaranfuchar nas cicatrizes e nos traumas da Guerra Colonial, escrito e traçado com sangue por quem nem era nascido quando ela terminou, sem dúvida um dos livros do ano; Entre Cegos e Invisíveis, de André Diniz (Polvo), uma esplêndida narrativa de estrada, cheia do insólito que ela pede, num Brasil que teima em desencontrar-se; Conversas com os Putos e com os Professores Deles, de Álvaro (Insónia), ou a saga de ser-se profe de geometria descritiva quando a vida a todos faz tangentes.
Quanto à BD estrangeira,uma escolha cem por cento franco-belga. Spirou – L'Espoir Malgré Tout – 1. Un Mauvais Départ, de Émile Bravo (Dupuis) – ou a audácia de empreender a releitura de uma personagem canónica da BD europeia, num trabalho surpreendente e de largo fôlego, e cuja continuação aqui acompanharemos. Duke – Sou uma Sombra, de Yves H. e Hermann (Arte de Autor), este um dos maiores nomes da BD em todas as latitudes, num formidável western, género sempre em reinvenção; tal como Undertaker – 1. O Devorador de Ouro, de Xavier Dorison, Ralph Meyer e Caroline Delabie, tanto um como outro, personagens em busca de si próprios. A lista termina com o volume I de O Diário de Esther – Histórias dos Meus 10 Anos, de Riad Sattouf (Gradiva), excelente descoberta que é um desafio, o acompanhar de toda a adolescência de uma criança com empatia e humor, além disso trazendo inovações formais, marca de um autor de excepção.
A melhor capa: a majestade do desenho de Roberto Gomes, em Mar de Aral (G-Floy Studio e Comic Heart), com texto de José Carlos Fernandes, trabalho que ganha ainda mais consistência após a leitura desta fantástica narrativa curta.

domingo, 13 de outubro de 2019

quarta-feira, 4 de setembro de 2019

José Carlos Fernandes & Roberto Gomes, MAR DE ARAL (2019): notícia do mar desértico

Outrora um dos maiores lagos do mundo, situado entre o Cazaquistão e o Uzbequistão, o recuo do Mar de Aral é considerado uma das maiores tragédias ecológicas da nossa época. Consequência de políticas desenvolvimentistas erradas, para cuja concretização foram desviados os seus rios afluentes, a região envolvente é hoje descrita pelos autóctones como o deserto de Aral… É neste cenário que José Carlos Fernandes (Loulé, 1964) e Roberto Gomes (Silves, 1983) desenvolvem, a primeira história deste álbum, que lhe dá também o título: «Mar de Aral».
A capa é magnífica. Apresenta uma figura misteriosamente suspensa na âncora de um navio, imagem cujo significado só apreenderemos em todo o seu alcance depois de lida esta narrativa. As palavras de José Carlos Fernandes ganham um encantamento poético à medida da desolação que se nos depara: «O mar fugiu como um cavalo assustado. / O mar fugiu e deixou atrás de si barcos ferrugentos, planícies de sal e aldeias piscatórias encalhadas na areia.» Mas como estamos no domínio do fantástico, o argumento desenvolve-se em torno dos estratagemas de sobrevivência dos peixes desse habitat.
O desenho faz jus ao que a capa nos promete; a disposição das vinhetas realça os grandes espaços de solidão e abandono (notável a página dupla em que se representa a fímbria que une mar e deserto); nas cores, predominam o castanho, o sépia e os tons arenosos, contrastantes com as três pranchas finais, quando a acção passa a desenrolar-se numa viela nocturna de cidade velha, nas proximidades, carregando de negro a atmosfera de estranhamento que até aqui a narrativa nos transmitira.
É a mais extensa de cinco ficções inauditas, e a que de longe se destaca, mas todas se recomendam: do tom paródico de «Um boi sobre o telhado» e «Roupas de defunto», à melancolia de «A inauguração do Canal do Panamá» e «A arte esquecida de nadar rio acima».
Para não destoar, as notas biográficas dos autores participam da irrealidade geral: José Carlos Fernandes aparece identificado como um misterioso cientista cuja vida decorreu entre 1891 e 1938. Entusiasta da Revolução Russa de 1917, transfere-se para a pátria soviética, alterando o nome para Osip Ernantzev. A acreditar no biografema, e para sermos eufemísticos, não foi propriamente bem sucedido. Quanto a Roberto Gomes, é apresentado ao leitor como um peixe do Mar de Aral, «que escapou por pouco a ser transformado em suchi».
 
Mar de Aral
argumento: José Carlos Fernandes
desenhos: Roberto Gomes
G. Floy Studio e Comic Heart, 2019