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sexta-feira, 3 de junho de 2022

mundo fechado



Abrir um livro de André Diniz é saber de antemão que entraremos num universo pessoal servido por um poder de observação agudo, uma forte empatia e atenção ao outro, atributo dos grandes ficcionistas. Autor realista, do melhor realismo, aberto a todas as aventuras interiores que o ser humano comporta, André Diniz aparece-nos neste particular como um lídimo herdeiro do extraordinário Machado de Assis (1839-1908).

Matei o Meu Pai e Foi Estranho é o título peculiar da obra de hoje. Depois de Morro na Favela, Entre Cegos e Invisíveis e A Revolta da Vacina, esta é quarta vez que nos debruçamos sobre um livro deste autor brasileiro (Rio de Janeiro, 1975), residente em Portugal, com cuja BD tem estabelecido contacto e que homenageia num extratexto final. Nele reconhecemos um recriador de mundos, como é o mundo particular de Zaqueu.

Menino especial com génio de artista e algumas dificuldades relacionais, em casa e também com as raparigas. O seu confidente é um sem-abrigo na floresta de cimento, São Paulo. É, além disso, é um rapaz que sofre de albinismo, no seio de uma família de gente escura, da classe trabalhadora: pai motorista, mãe guarda prisional e ainda dois irmãos, o mais velho, rufia que se entretém a moer o juízo de Zaqueu – criador de alcunhas de calibre, de leite coalhado a esperma de cavalo, passando por branco de neve, Michael Jackson e hepatite c –, e ainda a irmã caçula, Tonha, o seu ai-jesus, a única com quem se entende plenamente, embora tente estabelecer vínculos mais estreitos, especialmente com os pais. Estes, contudo, desvalorizam-no, em especial o progenitor, um impreparado que o trata como um falhado. Mas Zaqueu é habitado por um génio, é um poeta que escreve como ninguém, impressionando a professora – característica inusitada e suficiente para que o patrão do pai pague os estudos num colégio, frequentado por gente rica, e no qual o rapaz se sente também deslocado. Ambiente opressivo e cinzento, em que tudo parece piorar, quando numa deambulação sem destino pela grande cidade, o míúdo topa com o pai e outra mulher, levando uma criança consigo – uma outra família, um irmão que desconhece. O desenrolar da narrativa será surpreendente.

Uma história de todos os dias num meio habitado por milhões, mas em que cada um tem direito à sua própria personagem. Em Matei o Meu Pai e Foi Estranho a interdependência de desenho e texto é ágil e flui, um exemplo seguro de como a 9.ª arte é uma forma de expressão artística singular. E André Diniz, desenhador único e narrador nato, um artista completo.


Matei o Meu Pai e Foi Estranho

Texto e desenhos: André Diniz

edição: Polvo, Lisboa, 2021

«Leitor de BD»

domingo, 20 de dezembro de 2020

no lugar do morto




Uma jovem mulher sai de casa apressada e definitivamente, sem se despedir, aproveitando a circunstância de o companheiro estar no duche. Vemo-la afastar-se do prédio, num daqueles pátios milaneses a lembrar as vilas lisboetas, outrora (ou ainda) populares. À sua espera, num saudoso Peugeot 504, está, Federico, amante para quem se bandeou. Francesca, raparigaça estouvada, leve e fresca, tontinha q.b. ou com os alqueires mal medidos, tanto faz, a pregar uma mentira ao rapaz: “foi compreensivo, não fez cenas”, aludindo à suposta reacção de Zardo, deixado sob o chuveiro.

Federico não sabia ainda que teria de regressar ao local para satisfazer um capricho da amante: esta esquecera-se de um creme anticelulite especial, só disponível no estrangeiro... (estamos ainda na década de 1990); era forçoso lá voltar, e que fosse Federico, coisas de machos. Ao invés do creme, trará o cadáver de Zardo, que encontra degolado, dum só golpe bem desfechado. Chamar a polícia?, não chamar?... que justificação daria para a sua presença ali, junto do cadáver ainda fresco? Dizer que era o homem por quem a mulher do defunto trocara, não ajudaria; e via já o sobrolho desconfiado dum agente, inquirindo com ironia, se o morto acaso usava creme anticelulite... Assim, depois do estupor, a precipitação – cadáver numa mala com mãozinhas de fora... E a partir daqui o argumento de Tiziano Sclavi – o criador de Dylan Dog – conduz-nos através de uma trama em que tudo será possível numa só noite, em orgia de violência, mais sangue que sexo, jogando às escondidas com o leitor, que segue ávido a evolução dos bonecos pranchas afora, desconfiado que Sclavi quer fazer de Machado de Assis, que há mais de cem anos tem posto toda a gente perguntar-se se Capitu traiu ou não Bentinho. Quem matou Zardo, afinal?, e que homem era esse, que quase toda a gente confunde agora com Federico, o que passou a achar-se no lugar do morto? – ou seja: ficou com a mulher, com o nome (agora ele é Zardo, os velhos vizinhos confundem-nos) e até a generosa herança materna, entretanto levada a falecer, que a si irá parar...

Baseado num argumento datado dos anos oitenta, adaptado ao cinema e publicado sob a forma de romance, intitulado Nero. (1992), Sclavi deu-nos um thriller denso, insidioso, negro. Tudo o que parece poderá ser, oferecendo diversas possibilidades, graças também à infração dos códigos dos quadradinhos no que respeita ao desvio do fio narrativo em desafio ao leitor, das analepses às (pretensas?) alucinações: vinhetas com cercaduras esbatidas, ou mesmo sem elas, filacteras com outro formato, sfumatto ou alteração ou ausência de cor, nada disso está no trabalho estupendo e minucioso de Emiliano Mammucari (Velletri, Roma, 1975), que para este trabalho trocou as aplicações informáticas pelos velhos pincéis e marcadores, significando também um regresso à própria juventude, ao tempo histórico em que a acção decorre .


Zardo

texto: Tiziano Sclavi

desenho: Emiliano Mammucari

edição: Sergio Bonelli Editore, Milão, 2020

«Leitor de BD»

quinta-feira, 29 de outubro de 2020

Bordalo, confinado



 

Se Stuart Carvalhais (1887-1961) é o pioneiro dos quadradinhos, Rafael Bordalo Pinheiro (1846-1905) é o precursor. Um exemplo é este relato em imagens sequenciais, No Lazareto de Lisboa (1881), agora reeditado, Mas já na década anterior publicara uma sátira a propósito de viagem de D. Pedro II,: Apontamentos de Rafael Bordalo Pinheiro sobre a Picaresca Viagem do Imperador de Raslib pela Europa (1872). Artista de génio, irmão de um outro (Columbano, 1857-1929), como se luz rasante e sombra carregada, tão diferentes foram. A Rafael se deve a criação do retrato arquetípico e pouco lisonjeiro do português, em 1875: o Zé Povinho, de mãos nos bolsos ou manguito disparado e riso alvar.

Nesse ano, Bordalo parte para o Brasil a tentar a sorte, regressando em 1879, sem dinheiro mas com sacos cheios de experiência e histórias para contar; mas a principal viveu-a em Lisboa. À chegada, com uma pandemia de febre amarela assolar a antiga colónia, o artista é recambiado para o Lazareto, situado em Porto Brandão, cujo edifício se encontra hoje em ruínas: “ao pousar o pé no torrão natal, no momento de estender os braços à imagem querida da pátria, em vez de ser apertado pelos braços amigos, fui apertado pelos guardas de saúde e metido no lazareto”, recordou no prólogo deste curto álbum.

A narrativa tem três partes: “Recordações”, “A partida” e “No Lazareto”. A aventura brasileira gorou-se, mas o registo é empático, por vezes entusiasmado, outras cáustico. Seria interessante saber se Bordalo trocou algum bate-papo com o grande Machado de Assis, cuja mulher era irmã de Faustino Xavier de Novais, poeta satírico e grande amigo de Camilo, também ele imigrado no Rio... A Rua do Ouvidor esplende no torvelinho de comércio e gente, a capoeira mexe e o assalto já então vicejava. O Primo Basílio passeia-se por lá amparado por duas coquettes. Já a Lisboa vista do confinamento surge mazorra como o país, “estirado à sombra da fresca laranjeira”, e Rafael a olhá-lo de mãos nos bolsos, à maneira da imortal criatura que engendrou.

Retratos do povo, da burguesia, das elites e da classe dirigente, cá e lá. Umas identificadas (D. Pedro II, imperador do Brasil, o folhetinista Júlio César Machado), outras por identificar como o inevitável António Maria Fontes Pereira de Melo, cujo nome de baptismo lhe serviu para um dos mais assinaláveis jornais humorísticos da história da imprensa portuguesa, O AntónioMaria (1879-1898).

A edição actual nem sempre apresenta a melhor reprodução de imagem; mas sendo uma raridade bibliográfica, e uma obra gráfica de um dos maiores espíritos críticos do Portugal oitocentista, é sempre melhor tê-la do que não. Para os curiosos, está também acessível no sítio Hemeroteca. Como diria alguém a quem o humor não era estranho, confinamentos há muitos.


NoLazareto de Lisboa

Texto e desenhos: Rafael Bordalo Pinheiro

co-edição Museu Bordalo Pinheiro e Pim! Edições, Lisboa, 2020.

«Leitor de BD», jornal i