Mademoiselle
J. é uma nova série de BD franco-belga com tudo para vingar,
desde logo pela indiscutível proficiência dos autores: Yves Sente
(Bruxelas, 1964), um dos principais argumentistas actuais (Blake e
Mortimer, Thorgal, XIII, O Guardião...) e
Laurent Verron (Grenoble, 1962), escolhido por Roba para continuar
Boule e Bill. Aparecida num dos estupendos one shot
de Spirou em 2017, Il
s'Appelait Ptirou, como
confidente tornada amiga de um jovem groom empregado num paquete para
enfrentar uma vida adversa, a adolescente Juliette, impôs-se aos
autores pela graça e carisma, decidindo recuperá-la, jovem adulta,
prestes a licenciar-se em literaturas modernas, pretendendo fazer
carreira como repórter. Estamos em Paris, ano de 1937, onde tudo o
que acontece não é nada comparado com o que está para acontecer.
É
difícil encontrar na História década mais nefanda que a dos anos
30. Inaugurada com a Grande Depressão em curso (o crash
de Wall Street, em tudo semelhante ao do subprime
de 2008), fazendo pagar a ganância de uns quantos lançando milhões
na miséria, virá a culminar com o vírus totalitário. A França da
Frente Popular organiza a Exposição Universal, montra de propaganda
dos regimes que já se defrontam no país vizinho, a Espanha de
Guernica, que Picasso
expôs ali mesmo. Frente a frente, os pavilhões alemão e soviético:
de um lado, a icónica escultura de Vera Mukhina, um casal dinâmico
erguendo a foice e o martelo sugerindo a aliança operário-camponesa,
marcha imparável da revolução mundial; do outro, o pavilhão
desenhado por Albert Speer – atrasando propositadamente a conclusão
para ficar uns metros acima do congénere rival – defronta-o com a
suástica sob uma águia colossal. Confronto nesta altura para
francês ver: o Pacto Molotov-Ribbentropp estava aí ao virar da
esquina...
Uma jovem repórter
nascida em berço de ouro, filha de um armador de frota petroleira e
órfã de mãe, com os olhos bem abertos e enfrentando o machismo das
redacções, vai conseguir um furo, provando que os arqui-inimigos
estavam a conversar. As suspeitas de que Hitler prepara a guerra,
procurando aumentar as reservas energéticas, ganha peso; e Juliette,
agora assinando, Mademoiselle J., vê-se ele própria envolvida nesta
alta jogada no tabuleiro internacional, na dupla condição de
jornalista e filha e accionista por via materna, herdeira casadoura
cobiçada.
O entrosamento de
Sente e Verron é perfeito. Celebração da BD, sim; também porque
os autores fizeram ressurgir a figura de Oncle Paul, narrador de
histórias que fez as delícias das crianças francófonas no
Pós-guerra, criada por Charlier (ainda na semana passada aqui
referido, a propósito de Barba Ruiva). No fim, a aparição
dum senhor Robert, companheiro de viagem transatlântica de Juliette
em 1929, e desse pequeno groom desaparecido em circunstâncias
dramáticas. Este viajante ficará conhecido como Rob Vel, e criará
uma personagem que homenageará o rapaz. Estamos já em ‘38 e vai
chamar-se Spirou.
Mademoiselle
J – Je ne Me Marierai Jamais
texto: Yves Sente
desenhos: Laurent
Verron
edição: Dupuis,
Charleroi, 2020
«Leitor de BD»