Mostrar mensagens com a etiqueta Filipe Andrade. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Filipe Andrade. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, 1 de dezembro de 2020

duas pepitas



 

Uma colectânea de BD tem a vantagem de fazer uma aproximação ao estado da arte e o inconveniente de trazer uma molhada de trabalhos menos relevantes, que, porém, se diluem se o nível geral for satisfatório. No livro de hoje – apresentado impropriamente como “antologia”, conceito que pressupõe a escolha de material previamente existente e, em geral, já publicado – o nível geral das narrativas propostas é interessante, impressão benigna para a qual contribuíram duas pepitas, essas sim, merecedoras de figurar em qualquer antologia.

TheLisbon Studio (TLS) é uma experiência de coabitação, de que resultaram quatro volumes temáticos, dedicados às Cidades, ao Silêncio, às Viagens e, este ano, às Raízes. Raízes literais ou metafóricas, de cunho realista ou alegórico , são sete: “O último dia da marmota”, de Quico Nogueira; “Solitude”, de Filipe Andrade; “Ferida, entre os canaviais”, de Marta Teives, com texto de Pedro Moura; “One Way”, de Bárbara Lopes; “Sem cuecas nem soutien”, de Nuno Saraiva;“Em nenhum outro lugar”, por Ana Branco e “Entre as sombras e a luz”, de Ricardo Cabral.

Escreve no prefácio André Diniz, brasileiro de raízes bem portuguesas: “Um único conceito pode ter diferentes conotações ao ouvido e às emoções de cada um de nós, e nenhum caminho é mais apropriado para explorar essas possibilidades do que a arte.” Entre uma narrativa de antecipação, a abrir, e o fecho no género fantasia – ambos graficamente conseguidos, mas algo débeis nos argumentos –, as restantes remetem-nos para evocações da infância e da juventude, os espaços, os afectos familiares e de camaradagem, a descoberta, a despreocupação, as equívocas percepções de quem ainda viveu pouco, por vezes o próprio desenraizamento e a distância a que tudo isso já está, parece que ainda ontem, E as pepitas aí estão, não desfazendo, abençoados 12 euros (p.v.p.): “Solitude”, de Filipe Andrade (Lisboa, 1986), uma narrativa sem palavras, um poema gráfico, 14 pranchas, incluindo o frontispício, a maioria de vinheta inteira; o tópico do farol, da solidão elemental e da passagem do tempo, a transmissão hereditária de uma missão. Apetece ouvir o standard do Ellington, já agora magnificado por Billie . Sinestesias...

Nuno Saraiva (Lisboa, 1969), um dos grande autores portugueses de BD e também notável cartoonista, com um estilo inconfundível, em “Sem cuecas nem soutien” fala-nos dos “episódios iniciáticos” que fizeram o caminho para o autor que é: o programa de Vasco Granja, doseando sabiamente Tex Avery e Zdeněk Miler, Chuck Jones e Norman McClaren, as ilustrações fulgurantes de Gustave Doré para Bíblia, os traumas que o Calimero provocava, os “anos dourados” no recreio da escola a cantar a música do “Sandokan” (“sem cuecas nem soutien...), índios, cowboys e outros bonecos de levar no bolso para brincar, enquanto os tempos não mudavam e as brincadeiras se tornavam outras. Doze pranchas, falsa vinheta dupla nas páginas pares, mais duas em baixo; seis nas páginas ímpares, os olhos deslizam e páram. Esplêndido. Abertura e remates a condizer.


TLS Series – Raízes

Vários autores

edição: The Lisbon Studio e A Seita, Lisboa, 2020

«Leitor de BD», jornal i

sexta-feira, 17 de julho de 2020

The Lisbon Studios Series

Vários autores que integram o colectivo The Lisbon Studios associaram-se em álbuns sujeitos a mote. Depois de Cidades, Silêncio e Viagens, vem agora a lume o quarto título, sobre as Raízes. “Onde estão as raízes de cada um? No passado, nas memórias? Num sítio? Numa família ou grupo? Em que se enraízam as palavras e imagens?”– lê-se no press release. Autores: Ana Branco, Bárbara Lopes, Filipe Andrade, Marta Teives, Nuno Saraiva, Pedro Moura, Quico Nogueira e Ricardo Cabral; prefácios de André Diniz e Patrícia Furtado. Edição: A Seita, Lisboa, 2020.

terça-feira, 13 de agosto de 2019

André Oliveira & vários autores, ALMANAQUE (2018): verdades essenciais

 
        Noutros tempos, quando o país era eminentemente rural, um almanaque era, depois do missal, o breviário que encontrava guarida em todos os lares, concentrando numa mesma publicação tudo quanto era necessário à travessia do ano sem percalços, da meteorologia aos dias santos a guardar. Eça de Queirós, que escreveu sobre o assunto como ninguém, na apresentação do Almanaque Enciclopédico para 1896, falava de como estes livrinhos singelos mas profusos guardavam as «verdades essenciais que a humanidade necessita saber, e constantemente rememorar».
            André Oliveira (Lisboa, 1982) – um dos mais prolíficos argumentistas da BD portuguesa –, ao escolher para esta colectânea o título Almanaque, teve, por certo, a intenção de espelhar a diversidade de que o volume se compõe. São 24 «curtas de BD», algumas inéditas, outras publicadas na revista Cais, em parceria com outros tantos desenhadores: André Diniz, Rui Lacas, Phermad, Bernardo Majer, Pedro Serpa, João Lam, Nuno Frias, Afonso Ferreira, João Vasco Leal, Luís Louro, Patrícia Furtado, Miguel Andrade, Daniel Viçoso, Tiago Lobo Pimentel, Selma Pimentel, Filipe Andrade, Darsy Fernandes, Catarina Paulo, João Sequeira, David Cerqueira, Susana Resende, Susa Monteiro e Marta Teives. Parte destas narrativas caracterizam-se pelo humor, cujos melhores exemplos serão o nonsense garoto do díptico «Coisas que o t-rex não consegue fazer» e «Coisas que o dentes-de-sabre não consegue fazer», com desenhos de Pedro Serpa; ou ainda «Se Janeiro deixar» (com João Sequeira), a lembrar os Gato Fedorento.
            Mas o melhor André Oliveira surge, quanto a nós, naqueles relatos em que perpassa uma melancolia fina, uma angústia existencial insistente, em confronto com o sentimento trágico da vida, a sua fragilidade, e que por isso mesmo procura valorizar o que é verdadeiramente importante para si, denunciando um romantismo que não vai bem com a modernidade suicidária que vivemos: a constância no amor, os vínculos familiares, a fidelidade a si próprio, a memória da inocência, quantas vezes ao sabor dos caprichos do acaso – outras verdades essenciais que Eça estava longe de  desconhecer, mas que não tinham a primazia para o público, numa época que ainda não voltara costas ao campo e se orientava pela regularidade das estações. «Mesmo assim, abandonei-te» (com desenhos de Rui Lacas), «No meu lugar» (Filipe Andrade), «Saudade» (Darsy Fernandes), «Nina» (Catarina Paulo) ou «Narciso» (Susa Monteiro, também autora da capa), são alguns dos momentos inexcedíveis deste livro.

 Almanaque, Bicho Carpinteiro, Lisboa, 2018