sábado, 6 de setembro de 2025
sexta-feira, 8 de abril de 2022
das vidas confináveis
Também a BD, a exemplo de outras artes, foi apanhada pelo influxo pandémico, e certamente muito também os autores que por esse vasto mundo não desperdiçaram a oportunidade. Por aqui já passou o catalão Max com o explosivo Manifestamente Anormal, separata de 2020 do jornal A Batalha. No Brasil, Alberto Alpino publicou Diário da Pandemia, em formato e-book; por cá, Nuno Saraiva, Diário de uma Quarentena em Risco (Pim! Edições) e Luís Louro, Os Covidiotas, (Ala dos Livros), que não tivemos o ensejo de ler, ao contrário dos títulos de que falaremos hoje, duas abordagens muito diferentes aos efeitos da Covid-19 no quotidiano.
Os Quarentugas – Testemunhos de Loucura Pandémica, textos de André Oliveira (Lisboa, 1982) e desenhos de Pedro Carvalho (Barcelos, 1978), é uma série de tiras humorísticas muito bem esgalhadas sobre os cromos do confinamento: do Júlio da Brandoa, solteirão e desempregado, até ao Pai Natal – gravemente prejudicado no fabrico de brinquedos, pela interrupção das cadeias de abastecimento –, vários heróis dos quadradinhos, personagens do cinema e dos jogos de computador, e principalmente gente comum, uma forma de os autores se rirem de nós todos, inclusive de si mesmos e também do vizinho de Oliveira, que aproveitou a quarentena para fazer obras no apartamento... Batman confinado em casa de uma tia, em Paderne; o Super-Homem, isolado em Paio Pires, a passar o tempo à janela, usando a visão raio-x para para práticas pouco ortodoxas; o perfil de risco do asmático Darth Vader; o Incrível Hulk partilhando o lar com dois trolhas no Barreiro Velho. Até os marcianos de A Guerra dos Mundos tiveram de abortar o plano de nova invasão, por causa da Covid, aguardando instruções numa pensão de duas estrelas em Figueiró dos Vinhos... Episódios impagáveis: a Maria do Carmo, de Bicesse, com os oito filhos num T2 e o marido a monte; Virgílio Matos, “analista informático residente num T3 com boas áreas em Abrantes”, sempre preocupado com o arfar asmático da mulher; as delícias da família Moreira, do Carregado, no primeiro almoço de domingo, sem máscara, entre muito outras estórias da loucura normal.
De uma muito jovem autora, Ana Margarida Matos (1999), Hoje Não (bom título), vencedora do concurso “Toma lá 500 paus e faz uma BD!”, da Associação Chili com Carne. Trata-se de um livro que cumpre pela metade, entre o forte e o fraco. O melhor é o conceito: regra geral, uma prancha, como se folha de calendário se tratasse, rematada na maior parte por um texto breve em rodapé; umas vezes tomando a forma de um template, outras avançando para a dupla página, ou alterando o sentido da visualização. Os ensaios de auto-retrato ou o hiperpreenchimento da página, dando a ideia da restrição rotineira da vida num pequeno espaço, são outros bons momentos desta narrativa por imagens e texto. É aqui, porém, que as coisas se complicam: impregnadíssimo pelo ar do tempo – seria estranho se assim não fosse –, e pela ausência de referências; apenas má televisão, de que é crítica, mas não chega. Melhor quando se projecta no que está fora: o rapaz imigrante do metro, o vizinho que passeia o cão. Há, no entanto, personalidade e substância – o resto virá com o tempo.
Os Quarentugas – Testemunhos de Loucura Pandémica
texto: André Oliveira
desenhos: Pedro Carvalho
edição: Polvo, Lisboa, 2021
Hoje Não
texto e desenhos: Ana Margarida Matos
edição: Chili com Carne, Cascais, 2021
quinta-feira, 24 de fevereiro de 2022
heróis portugueses
O livro de hoje, Macho-Alfa, primeiro de quatro volumes sobre as desventuras de um super-herói português, de Filipe Duarte Pires e Osvaldo Medina, suscita-nos duas micro-reflexões, a primeira das quais tem que ver com a ausência de personagens da BD portuguesa no nosso imaginário colectivo. É verdade que elas não são muitas, e na sua maioria, inconsistentes; mas, quanto a nós, o que determina esse vazio é a inexistência de uma indústria editorial, a exemplo do que sucede nos Estados Unidos, no universo franco-belga, em Itália e no Brasil. Por cá, são os pequenos editores que arriscam e não se lhes pode exigir milagres. Por outro lado, a imprensa, também ela em dificuldades, não ajuda; exemplos como o Bartoon (1993), de Luís Afonso, nunca foram muitos. Mas sempre somos dez milhões, que diabo, e os poucos mas bons que temos, fosse a BD portuguesa outra realidade que não um quase passatempo de nicho, e a história poderia ser diferente; acresce, para o bem e para o mal, que todos estes heróis de papel desaparecem quando os autores se retiram.
Alguns deles bem poderiam continuar por aí, no espaço público, fôssemos nós outra coisa: Quim e Manecas (Stuart Carvalhais, 1915); Zé Pacóvio e Grilinho (Cardoso Lopes, 1924); Tomahawk Tom (Vítor Péon e Roussado Pinto, 1950); O Guarda Ricardo (Sam, 1971), O Espião Acácio (Fernando Relvas, 1978), Jim del Mónaco (Louro & Simões, 1985) e Porto Bonvento (José Ruy, 1988), sem falar nos que ainda mexem: Pitanga (Arlindo Fagundes, 1985), O Corvo (Luís Louro, 2005), Super Pig (Mário Freitas e Carlos Pedro, 2006) Dog Mendonça (Filipe Melo e Juan Cavia, 2010), Homem Voador (2011, Álvaro e José Pinto Carneiro).
Macho-Alfa tem a particularidade de ser português e o único super-herói do (seu) universo. Desajeitado e mortífero, também despacha inocentes, sem querer. David Ferreira – nome de baptismo – é pois um super-herói no desemprego que se aluga a um reality show como modo de vida, para desespero do pai, António Martins, comissário de polícia, e da namorada, raquel Bastos, jornalista e blogger. A ideia é interessante, o desenho cumpre, a sequência prancha a prancha é conseguida, mas precisa arriscar no humor, evitar o lugar-comum, a piada inofensiva (dizer palavrões não é especialmente ousado). Jim del Mónaco, de Luís Louro e ToZé Simões é hoje impublicável por qualquer editor que queira evitar problemas com os novos inquisidores da cultura do cancelamento. (Quem se lembra as copiosa Gina e do negro Tião?) Se há coisa que os fanáticos desconhecem é a ironia, e têm em demasia a acrimónia, tanto quanto lhe falece o sentido de humor. Fazer humor fino e não malicioso é difícil por estes dias. E vem-nos sempre à memória um texto do grande José Régio (1901-1969), um dos espírito mais livres do século XX, o poeta de Cântico Negro (“não vou por aí”), que num ensaio escreveu algo como isto: não me contento em criticar o meu tempo, mas em ser contra o meu tempo – um tempo de totalitarismo, entenda-se. Segunda micro-reflexão: o humor ou ousa ou é inofensivo, e como tal, irrelevante. Aguardemos os álbuns seguintes.
Macho-Alfa, vol. 1
texto: Filipe Duarte Pina
desenhos: Osvaldo Medina
sexta-feira, 29 de janeiro de 2021
BD portuguesa de luxo
Edição comemorativa dos 25 anos da publicação de Alice na Cidade das Maravilhas, de Luís Louro, já um veterano dos quadradinhos nacionais. A história e as estórias de uma hetaira em Lisboa nos anos noventa, agora em quinta edição especial, com extras. Edição Arte de Autor, Estoril, 2020.