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sábado, 26 de fevereiro de 2022

De A a Z: S,, de Spirou (Rob-Vel, 1938).



Jovem e voluntarioso groom do Moustic Hôtel, Spirou deu nome a uma revista que ainda hoje se publica, e com enorme qualidade. Ao contrário de Tintin, Spirou conheceu uma série de autores, todos de categoria, entre os quais se contam Jijé, Franquin, Tome & Janry ou Émile Bravo. De Spip, o inseparável esquilo de estimação, ao grande amigo Fantásio, jornalista, passando pelo Barão de Champignac ou o Marsupilami, sem esquecer os bandidos como Zantáfio e Zorglub, Spirou rivaliza com Tintin não apenas no carácter como no contributo que deu a uma aura muito própria da 9.ª Arte. 

«Leitor de BD»

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2021

uma celebração da BD

 


Mademoiselle J. é uma nova série de BD franco-belga com tudo para vingar, desde logo pela indiscutível proficiência dos autores: Yves Sente (Bruxelas, 1964), um dos principais argumentistas actuais (Blake e Mortimer, Thorgal, XIII, O Guardião...) e Laurent Verron (Grenoble, 1962), escolhido por Roba para continuar Boule e Bill. Aparecida num dos estupendos one shot de Spirou em 2017, Il s'Appelait Ptirou, como confidente tornada amiga de um jovem groom empregado num paquete para enfrentar uma vida adversa, a adolescente Juliette, impôs-se aos autores pela graça e carisma, decidindo recuperá-la, jovem adulta, prestes a licenciar-se em literaturas modernas, pretendendo fazer carreira como repórter. Estamos em Paris, ano de 1937, onde tudo o que acontece não é nada comparado com o que está para acontecer.

É difícil encontrar na História década mais nefanda que a dos anos 30. Inaugurada com a Grande Depressão em curso (o crash de Wall Street, em tudo semelhante ao do subprime de 2008), fazendo pagar a ganância de uns quantos lançando milhões na miséria, virá a culminar com o vírus totalitário. A França da Frente Popular organiza a Exposição Universal, montra de propaganda dos regimes que já se defrontam no país vizinho, a Espanha de Guernica, que Picasso expôs ali mesmo. Frente a frente, os pavilhões alemão e soviético: de um lado, a icónica escultura de Vera Mukhina, um casal dinâmico erguendo a foice e o martelo sugerindo a aliança operário-camponesa, marcha imparável da revolução mundial; do outro, o pavilhão desenhado por Albert Speer – atrasando propositadamente a conclusão para ficar uns metros acima do congénere rival – defronta-o com a suástica sob uma águia colossal. Confronto nesta altura para francês ver: o Pacto Molotov-Ribbentropp estava aí ao virar da esquina...

Uma jovem repórter nascida em berço de ouro, filha de um armador de frota petroleira e órfã de mãe, com os olhos bem abertos e enfrentando o machismo das redacções, vai conseguir um furo, provando que os arqui-inimigos estavam a conversar. As suspeitas de que Hitler prepara a guerra, procurando aumentar as reservas energéticas, ganha peso; e Juliette, agora assinando, Mademoiselle J., vê-se ele própria envolvida nesta alta jogada no tabuleiro internacional, na dupla condição de jornalista e filha e accionista por via materna, herdeira casadoura cobiçada.

O entrosamento de Sente e Verron é perfeito. Celebração da BD, sim; também porque os autores fizeram ressurgir a figura de Oncle Paul, narrador de histórias que fez as delícias das crianças francófonas no Pós-guerra, criada por Charlier (ainda na semana passada aqui referido, a propósito de Barba Ruiva). No fim, a aparição dum senhor Robert, companheiro de viagem transatlântica de Juliette em 1929, e desse pequeno groom desaparecido em circunstâncias dramáticas. Este viajante ficará conhecido como Rob Vel, e criará uma personagem que homenageará o rapaz. Estamos já em ‘38 e vai chamar-se Spirou.


Mademoiselle J – Je ne Me Marierai Jamais

texto: Yves Sente

desenhos: Laurent Verron

edição: Dupuis, Charleroi, 2020

«Leitor de BD»

quarta-feira, 11 de setembro de 2019

Emile Bravo, L'ESPOIR MALGRÉ TOUT - vol. 1: negrume na linha clara

Depois de Tintin, o outro grande ícone belga da BD é Spirou, um adolescente, groom do Moustic Hotel. Criado em 1938 por Rob Vel (1909-1991), para a revista que leva o seu nome e ainda hoje se publica, tem pontos de contacto com a personagem de Hergé: jovens que vão amadurecendo imperceptivelmente, guiados por um sentido de justiça e pelo companheirismo. Há uma mascote, o esquilo Spip; um amigo dilecto, Fantásio, jornalista; um sábio, o conde de Champignac; só não há Dupond & Dupont, mas em contrapartida uma criatura igualmente esquipática: o Marsupilami. Enquanto Tintin, porém, não teve continuidade, por vontade de Hergé, para Spirou trabalharam muitos artistas, sendo o mais notável André Franquin (1924-1997). A série foi, entretanto, confiada a diversos autores; um deles, Émile Bravo (Paris, 1964), tem em curso de publicação uma extensa narrativa de quatro tomos, L’Espoir Malgré Tout / A Esperança Apesar de Tudo, continuando a inicial e brilhante incursão do autor nas aventuras do nosso herói, em Le Journal d’un Ingénu (2008).
O primeiro volume, Un Mauvais Départ, coloca-nos em Bruxelas, em Janeiro de 1940, meses antes da invasão da Bélgica. Spirou, muito novo, mas com uma experiência de vida difícil é uma personalidade forte, com dúvidas, paixões e uma candura própria da idade, contornada pela inteligência. Um dos motores da narrativa é a sua paixão por uma jovem comunista judia-alemã, do Komintern, de quem recebe uma carta inquietante – a História a desenrolar-se ao lado da vida, e a colher as suas vítimas.
Se Spirou representa a ética em tempos bárbaros, Fantásio aparece-nos como um indiferente e apatetado homem da rua, o que significa uma desvalorização da personagem como a conhecíamos. O jornalista originalmente é um obsessivo hiperactivo, o complemento de Spirou, tal como Haddock o é de Tintin; mas como Bravo de alguma forma refunda a série, é possível que Fantásio evolua com as provações da guerra. A trama é, de resto, muito rica e claramente escrita para os confusos dias de hoje.
Bravo tinha duas dificuldades de monta nesta abordagem vincadamente autoral: a primeira é a de se defrontar com um clássico; a outra, a compatibilização do fundo humorístico de Spirou com refugiados de guerra e crianças com fome. O que pareceria uma missão impossível, é plenamente conseguido, à custa, claro, do pobre Fantásio, a que se juntam, hilariantes, separatistas flamengos, vizinhos franceses, escuteiros católicos, colaboracionistas… – estes geralmente representados em tom cinzento, enquanto os nazis estão de negro carregado, em (im)pura linha clara.

L’Espoir Malgré Tout – vol. I
Texto e desenho: Émile Bravo.
Dupuis, Bruxelas, 2018