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quinta-feira, 24 de fevereiro de 2022

heróis portugueses



 O livro de hoje, Macho-Alfa, primeiro de quatro volumes sobre as desventuras de um super-herói português, de Filipe Duarte Pires e Osvaldo Medina, suscita-nos duas micro-reflexões, a primeira das quais tem que ver com a ausência de personagens da BD portuguesa no nosso imaginário colectivo. É verdade que elas não são muitas, e na sua maioria, inconsistentes; mas, quanto a nós, o que determina esse vazio é a inexistência de uma indústria editorial, a exemplo do que sucede nos Estados Unidos, no universo franco-belga, em Itália e no Brasil. Por cá, são os pequenos editores que arriscam e não se lhes pode exigir milagres. Por outro lado, a imprensa, também ela em dificuldades, não ajuda; exemplos como o Bartoon (1993), de Luís Afonso, nunca foram muitos. Mas sempre somos dez milhões, que diabo, e os poucos mas bons que temos, fosse a BD portuguesa outra realidade que não um quase passatempo de nicho, e a história poderia ser diferente; acresce, para o bem e para o mal, que todos estes heróis de papel desaparecem quando os autores se retiram.

Alguns deles bem poderiam continuar por aí, no espaço público, fôssemos nós outra coisa: Quim e Manecas (Stuart Carvalhais, 1915); Zé Pacóvio e Grilinho (Cardoso Lopes, 1924); Tomahawk Tom (Vítor Péon e Roussado Pinto, 1950); O Guarda Ricardo (Sam, 1971), O Espião Acácio (Fernando Relvas, 1978), Jim del Mónaco (Louro & Simões, 1985) e Porto Bonvento (José Ruy, 1988), sem falar nos que ainda mexem: Pitanga (Arlindo Fagundes, 1985), O Corvo (Luís Louro, 2005), Super Pig (Mário Freitas e Carlos Pedro, 2006) Dog Mendonça (Filipe Melo e Juan Cavia, 2010), Homem Voador (2011, Álvaro e José Pinto Carneiro).

Macho-Alfa tem a particularidade de ser português e o único super-herói do (seu) universo. Desajeitado e mortífero, também despacha inocentes, sem querer. David Ferreira – nome de baptismo – é pois um super-herói no desemprego que se aluga a um reality show como modo de vida, para desespero do pai, António Martins, comissário de polícia, e da namorada, raquel Bastos, jornalista e blogger. A ideia é interessante, o desenho cumpre, a sequência prancha a prancha é conseguida, mas precisa arriscar no humor, evitar o lugar-comum, a piada inofensiva (dizer palavrões não é especialmente ousado). Jim del Mónaco, de Luís Louro e ToZé Simões é hoje impublicável por qualquer editor que queira evitar problemas com os novos inquisidores da cultura do cancelamento. (Quem se lembra as copiosa Gina e do negro Tião?) Se há coisa que os fanáticos desconhecem é a ironia, e têm em demasia a acrimónia, tanto quanto lhe falece o sentido de humor. Fazer humor fino e não malicioso é difícil por estes dias. E vem-nos sempre à memória um texto do grande José Régio (1901-1969), um dos espírito mais livres do século XX, o poeta de Cântico Negro (“não vou por aí”), que num ensaio escreveu algo como isto: não me contento em criticar o meu tempo, mas em ser contra o meu tempo – um tempo de totalitarismo, entenda-se. Segunda micro-reflexão: o humor ou ousa ou é inofensivo, e como tal, irrelevante. Aguardemos os álbuns seguintes.


Macho-Alfa, vol. 1

texto: Filipe Duarte Pina

desenhos: Osvaldo Medina

«Leitor de BD»

quinta-feira, 2 de abril de 2020

«O Regresso de Tomahawk Tom»

Thomahawk Tom é uma curiosa personagem da BD portuguesa, criada por Edgar Caygill (!), cujas aventuras foram publicadas no Mundo de Aventuras, Condor e Jornal do Cuto. Cowboy mestiço, filho de uma cheyenne, tem todas as qualidades do herói positivo; sem defeitos, seria figura demasiado plana, não fora essa miscigenação étnica que permite o contacto entre os dois maiores antagonistas deste universo: os colonos invasores europeus, secundados pelo exército norte-americano e as nações indígenas. A dupla pertença é-lhe, aliás, constantemente apontada, normalmente sob a forma de insultos, como “meia-casta”, a que ele normalmente dá de ombros, com fleuma. Acompanha-o Jacky, um adolescente resgatado ainda criança num acampamento em que decorrera o massacre dos progenitores perpetrado por índios.
Este ‘Caygill’ é um pseudónimo conjunto de Roussado Pinto (1926-1981?), um dos figurões do pulp lusitano (o célebre Ross Pynn), e do seu desenhador, Vítor Péon (1923-1991), um dos nomes de referência dos quadradinhos portugueses em meados do século passado.
Em O Regresso de Tomahawk Tom – Tempestade em Dakota Sul, Péon encarrega-se também do texto. A história aborda os normais tópicos do western: neste caso, o início da construção da linha férrea transcontinental, ligando os Estados Unidos costa a costa; a primeira a concluir o traçado que lhe fora cometido, ganharia um prémio atribuído pelo governo. Pistoleiros e tiroteio, sabotagem, ciladas, caçadores de bisontes, índios Sioux, a Cavalaria, todos estes motivos de coboiada aqui comparecem. A fuga ao cliché, para além da condição étnica do protagonista, é a circunstância de tratar-se de um indian friendly western, consagrado já noutras partes e media, como no cinema, maxime O Soldado Azul (1970), de Ralph Nelson, com a inesquecível música de Buffy Sainte-Marie.
A narrativa é fluida e o desenho extraordinariamente dinâmico, não sendo perfeccionista. No geral, estamos uns furos abaixo de um Blueberry a que Péon, em nossa opinião foi beber, ou não considerasse Jean Giraud, num pequeno ensaio que escreveu, como “um dos maiores, senão o maior autor de B.D. 'Western' […] não só da Europa, mas também da América» (A Banda Desenhada como Arte, 1979).
Edição do autor, com uma tiragem de dez mil exemplares, foi um flop comercial, inviabilizando outras séries que Péon aí anunciava: Sax, um corsário com paixão pela leitura, e o Reverendo Benedict Jr., cujas frases heterodoxas prenunciam as tiradas do nosso já conhecido Undertaker: “Será mais fácil a un homem justo passar pelo fundo de uma agulha do que a um homem mau escapar à mira do meu Colt!!!”
Escorreita BD western, O Regresso de Toamahawk Tom tem certamente um lugar numa biblioteca básica da BD portuguesa.

O Regresso de Tomahawk Tom – Tempestade em Dakota Sul
texto e desenhos de Vítor Péon
edição do Autor, Lisboa, 1975