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sexta-feira, 4 de março de 2022

um pícaro épico



Não tenhamos medo das palavras: O Burlão nas Índias, de Ayrolles e Guarnido, é obra-prima da narrativa sequencial por imagens, vulgo banda desenhada (ou quadradinhos). O ponto de partida é uma novela de Francisco de Quevedo, La Vida del Buscón (1626), escrita no Século de Ouro (entre os reinados de Carlos V e Felipe IV), em que a Espanha é a maior potência universal. É o tempo de Cervantes e do Dom Quixote, que representa o estertor do ideal medieval cavaleiresco, quando o comércio burguês conhece um definitivo impulso (muito bem retratado no livro), e o mundo é uma vasta Barataria sem lugar para cavaleiros-andantes. Reflexo disso mesmo é o surgimento da novela picaresca, com o Lazarilho de Tormes (1554), de autor anónimo, inaugurando um género propriamente castelhano – embora com algumas extensões fora de portas, como entre nós o do grande Aquilino Ribeiro com o seu Malhadinhas (1922) , em que o protagonista é um descarado e triunfador vigarista. Por isso, um pensador notável como Gregorio Marañón podia confessar no fim da vida, num prefácio ao Lazarilho, que embora tocada pelo génio, execrava a novela picaresca pelo que continha de glorificação dos maiores patifes: “«É uma das misérias da arte”, escreveu a propósito. Mas o picaresco ganharia o favor do público e do Tempo, e não é difícil saber porquê: num mundo socialmente estratificado, em que a uns poucos, a nobreza e os príncipes da Igreja, estava reservada a opulência dada pelo comércio e pela rapina nas Índias (as Américas), uma imensa mole humana esgatanhava-se das alfurjas de onde provinham, simplesmente para não morrer de fome – outro aspecto muito bem focado aqui.

O Burlão nas Índias tem um argumento original brilhantíssimo do occitano Alain Ayrolles (Saint-Ceré, 1968) e desenhos de grande mestria do espanhol Juanjo Guarnido (Granada, 1967) – ou não estivéssemos a falar do co-autor da série Blacksad, vindo do campo da animação, dos Estúdios Disney, tendo trabalhado em filmes como “O Corcunda de Notre Dame”, “Hércules” e “Tarzan”. A obra de Quevedo conta a história de Pablos, um jovem natural de Segóvia, filho de um barbeiro e ladrão e de uma curandeira ou bruxa, que se faz escudeiro de um nobre, com vários incidentes de percurso, levando-o a embarcar para as Índias Ocidentais, para refazer a vida. O dramaturgo espanhol anunciou uma sequela que nunca chegou a escrever; fizeram-no Ayrolles e Guarnido, situando a acção em Cuzco, no Peru, depois da conquista de Pizarro, derrotando o Império Inca. O Peru do ouro e da prata e do mirífico Eldorado, que oportunidades para um vigarista! Pablos vai comportar-se como esperamos, mas nem uma linha mais escreveremos a propósito. Apenas que se trata de uma obra superior no que respeita à ideia, aos recursos narrativos, à composição, ao desenho e á cor. O preço não é convidativo, mas as suas 219 páginas valem cada cêntimo.


O Burlão nas Índias

texto: Ayroles

desenhos: Guarnido

edição: Ala dos Livros, Benavente, 2021

«Leitor de BD»

quarta-feira, 23 de junho de 2021

Fernão de Magalhães, um homem com um plano


 Magalhães é um enigma. É um dos maiores exploradores de todos os tempos, revolucionou a navegação mundial, e no entanto ninguém conhece a sua vida.” Assim escreve Christian Clot, explorador suíço (Neuchâtel, 1972) e argumentista de Magalhães – Até ao Fim do Mundo. A morte, às mãos de indígenas nas Filipinas, impediu que concluísse a viagem que acalentara durante anos, e que, no entanto, não lha puderam roubar, graças a Maximiliano Transilvano, que entrevistou os 18 sobreviventes dos 239 tripulantes iniciais da viagem de circum-navegação (1519-1522), e a Antonio Pigafetta, que a bordo anotou criteriosamente os sucessos da expedição.

Membro da pequena nobreza nortenha, sabemos que esteve no Oriente, primeiro sob o comando de D. Francisco de Almeida, depois de Afonso de Albuquerque, tomando parte em várias refregas militares, como as conquistas de Diu e Malaca. Em Lisboa conhece Rui Faleiro, cosmógrafo que virá a ser o organizador da empresa, sem nela, contudo, participar. Magalhães estivera envolvido em várias questões conflituais, na Índia, em Marrocos e também por cá. O crédito que dispunha junto de D. Manuel I não era grande, e à proposta que lhe fizera podia o rei dar de ombros: que a terra era redonda, já Pitágoras o aventara, e outros depois dele, apesar de nunca comprovado; mas que interessava ao rei chegar às Molucas por Ocidente, se as suas naus por lá navegavam? A questão é que as Molucas se situavam no lado espanhol do meridiano de Tordesilhas; e se Carlos V não poderia lá chegar pelos mares que os portugueses dominavam, a verdade é que se pudesse lá ir ter por uma passagem no sul da América – o futuro Estreito de Magalhães –, também o imperador podia podia aceder às cobiçadas especiarias que fizeram dos reis portugueses do século XVI uma espécie de nababos do Ocidente.

O interesse na narrativa de Clot reside no que não se sabe de certeza certa. Em lado nenhum vem escrito que Magalhães pretendera ser o primeiro homem a dar a volta ao mundo, mas para Clot o navegador não era uma espécie de caixeiro-viajante expedito, em busca de riqueza. A sua tese é a de que Magalhães tinha um desígnio e que a conversa de ir no encalço das especiarias serviu de engodo para tornar o projecto atractivo pelos potenciais proventos. E Carlos V não era parvo. O historiador e matemático Luís de Albuquerque (1917-1992), sempre rigoroso com as prosápias na historiografia dos Descobrimentos, admite claramente que Magalhães tinha um plano. Mas Clot marca ainda mais um ponto, que está no domínio da ficção, embora seja plausível: como morreu Magalhães? A resposta que nos dá é surpreendente e credível, mas nunca será demonstrável.

O trabalho de Thomas Verguet e Bastien Orenge é limpo, ganhando especial interesse nas cenas de navegação. A última prancha, o funeral do navegador sob o efeito da chuva forte, é particularmente boa.


Magalhães – Até ao Fim do Mundo

texto: Christian Clot

desenhos: Thomas Verguet e Bastien Orenge

edição: Gradiva, Lisboa, 2018

«Leitor de BD»

terça-feira, 1 de junho de 2021

Armada Invencível

 







É um dos grandes episódios da história da Europa, com repercussões mundiais. A 27 de Maio de 1588 uma formidável frota de cerca de 200 velas e 20 mil homens largou do estuário do Tejo, rumo à Grã-Bretanha. Missão: destronar Isabel I. A bordo da nau-capitânea, o galeão português São Martinho, estava o duque de Medina-Sidónia, nomeado por Felipe II, havia sete anos Felipe I de Portugal.

Joaquim Veríssimo Serrão, um dos mais informados historiadores deste período, dá-nos várias razões para a expedição contra a monarca Tudor, todas de peso, a nosso ver: deposição de uma soberana herege, repondo o catolicismo – Felipe fora rei consorte de Inglaterra, viúvo da Bloody Mary (Maria Tudor, assim alcunhada pelo furor com que perseguiu o anglicanismo), vingando também a católica Maria Stuart, rainha da Escócia, mandada executar por Isabel; punir os ataques corsários de Francis Drake e outros contra as possessões e barcos espanhóis; aproveitando ainda para neutralizar a acção dos rebeldes portugueses em torno de D. António, Prior do Crato, aclamado rei em Santarém (1580). Além disso, a Felipe que era filho de Carlos V – em cujo império o solo nunca se punha – e de Isabel de Portugal, oferecia-se-lhe o ensejo de engrandecer mais a Casa de Habsburgo, com a bem sucedida inclusão do reino português e respectivo império, que ele próprio afirmara ter herdado, pago e conquistado... E, já agora convém acrescentar, também respeitado, pois cumpriu todas as promessas feitas nas Cortes de Tomar, em 1581. Aliás, ele gostava de Portugal, por várias razões, a menor das quais não será o facto de a mãe ser portuguesa, filha de D. Manuel I; e por cá se demorou durante dois anos após a coroação. O brasão da União Ibérica, em que o maior destaque é dado ao escudo, com os sete castelos em ouro e as cinco quinas com as chagas de Cristo, tal como a bandeira portuguesa ainda hoje apresenta, é eloquente.

Mas havia outro motivo que levava Felipe II a querer remover Isabel I: o apoio aos holandeses, em rebelião havia duas décadas – a República das Sete Províncias Unidas dos Países Baixos –, protestantes calvinistas, guerreiros, comerciantes e piratas quando era preciso, apoiados pela Inglaterra. Nacionalismo, religião, riqueza que levaram a 80 anos de guerra contra os espanhóis. E já entrámos na BD de hoje: Cori o Grumete, um extraordinário fresco aos quadradinhos que decorre entre os séculos XVI e XVII, criado em 1951 por Bob de Moor (1925-1993), um mestre da “linha clara” e o principal assistente de Hergé na segunda fase do período do criador de Tintin. Cori é um muito jovem grumete holandês, espião ao serviço de Isabel I, em missão em Espanha, potência ocupante do seu país. Como se desempenhou neste complicado xadrez geo-político, é o que veremos na próxima semana, pretexto para continuar com os clássicos.

Aos 25 anos, Bob de Moor (1925-1992) entra directamente nos Studios Hergé como assistente principal de Hergé, ocupando o lugar de Jacobs, cujos Blake e Mortimer não se compadeciam com meios tempos. O jovem parece assimilar à vez o estilo dos mestres belgas que lhe precederam: João e Estêvão (entre nós, no Cavaleiro Andante) evoca Willy Wandersteen (criador de Bob e Bobette), Barelli (na revista Tintin). Hergé; e em Cori o Grumete vemos muito de Jacobs. Balthasar, uma colecção magnífica de gags protagonizada por um velho bonacheirão, criação fresquíssima chumbada pelos leitores da revista Tintin belga, é um caso à parte: aí Bob de Moor segue apenas o seu espírito jovial – talvez demasiado, em paragens cinzentas.

Cori o Grumete, criado em 1951, é um adolescente (como o eram Tintin e Alix, de Jacques Martin, outro homem da casa). Em A Invencível Armada, Cori e Harn de Vroom são espiões holandeses em Cádis, a soldo de Isabel I, disfarçados de fabricantes de velas. Os Países Baixos eram, como vimos, uma possessão espanhola em rebelião, contando com a Inglaterra como principal aliada. Cori apodera-se dos planos secretos para a invasão espanhola do reino inglês; mas serão de seguida desmascarados. A monte, na companhia de marginais, uma emboscada surpreende-os, separando os amigos. Cori, chega a França, devastada pelas Guerras de Religião (1562-1598), salva François, criança huguenote das garras dos “papistas”, levando-a consigo para Inglaterra. Quanto a Harn, ferido e socorrido por um nobre espanhol, que será o número dois da Armada, seguirá para Lisboa.

Como Hergé, Jacobs e Martin, maníacos da documentação, Bob de Moor, estudou a fundo este complexo episódio naval, militar e político: falta de vento no início, apodrecimento de víveres, tempestade inesperada na embocadura da Corunha, cheia de escolhos. À aproximação a Inglaterra o moral já não era o mesmo. Dá-nos também as características dos dois comandantes: Medina-Sidónia, um indeciso cumprindo burocraticamente todas as indicações dos despachos de Felipe II em vez de aproveitar as oportunidades que pudessem surgir – até porque a “Felicíssima Armada” era superior em poder de fogo; do outro lado, o sanguíneo Drake, “El Draque”, chamavam-lhe os espanhóis, o oposto em génio táctico. O desastre é rematado quando uma embarcação carregada de explosivos deflagra de encontro aos barcos espanhóis.

Este tomo 2, intitulado O Dragão dos Mares (alusão a Francis Drake) é esplendoroso. De Moor compraz-se no desenho de todo o tipo de embarcações; o olhar demora-se em cada vinheta, cada prancha aproveitada ao pormenor, não raro com frisos de margem a margem, ou splashes de página inteira quando não se espera. Um estilo muito próprio de uma época, em “linha clara”, Escola de Bruxelas.


Cori o Grumete – A Armada Invencível -- I. Os Espiões de Rainha II. O Dragão dos Mares

texto e desenhos: Bob de Moor

edição: Meribérica, Lisboa, s.d.

«Leitor de BD»

jornal I