segunda-feira, 19 de dezembro de 2022
quinta-feira, 1 de setembro de 2022
Tric et Balthazar, de Bob de Moor
terça-feira, 5 de abril de 2022
Tintin em Portugal
Da exposição sobre Hergé (nome artístico de Georges Remi, 1907-1983), que esteve patente na Fundação Gulbenkian, fica um catálogo, que é basicamente um roteiro da mesma, concebido pelas Éditions Moulinsart, no formato de um álbum de Tintin. Inclui um texto de apresentação de Guilherme d'Oliveira Martins – aliás, um reconhecido bedéfilo – e, como bónus, um outro livro, coordenado por António Cabral, precioso pelas informações que compila a respeito da presença das personagens do autor belga no nosso país e, principalmente, pela documentação que reproduz, cremos que inédita: um desenho original e correspondência.
Quanto ao original, destacado na capa, um bacalhau entre Tintin e Oliveira da Figueira, orgulho dos portugueses no mundo de Hergé, que ainda nos presenteou com um anónimo jornalista do Diário de Lisboa, em Tintin no Congo, e o Prof. Pedro João dos Santos, da Universidade de Coimbra, um dos cientistas da expedição de cientistas de A Estrela Misteriosa. Este desenho foi motivado por uma visita de Francisco Hipólito Raposo e Pedro Emauz Silva aos Estúdios Hergé, em 1958. Na ausência do autor, deixaram um cartão de visita impresso, em que se lia: “SENHOR/ OLIVEIRA DA FIGUEIRA / (ANTIQUAIRE, BIJOUTIER ET BRIC-À-BRAC) / LISBOA / AFRIQUE DU NORD”. Mais tarde, Hergé enviará uma reconhecida carta de agradecimento e este desenho com a dedicatória aos seus amigos fiéis em Portugal – tal como “Tintin a pour fidèle dans le monde, le Senhor Oliveira da Figueira”...
Muito interessante é o resgate da figura do Padre Abel Varzim (1902-1964), o primeiro tintinófilo português e o responsável por o nosso país ter sido tambném o primeiro não-francófono em que as aventuras de Tintin se publicaram – em 1936, nas páginas de O Papagaio, revista dirigida por Adolfo Simões Müller, propriedade da Igreja – e pioneiro na colorização das histórias. Doutorando na Universidade de Lovaina e assinante do Vingtième Siécle, em cujo suplemento infantil se publicavam as aventuras do jovem repórter, entrou em contacto com Hergé por intermédio do jornal. A reacção deste aos primeiros exemplares publicados na revista portuguesa, foi ambivalente. Numa carta muito cordata, chamava a atenção para a supressão de vinhetas, truncando a narrativa, mas mostrava-se entusiasmado com a circunstância de ter as sua personagens coloridas: “estou encantado por ver aparecer os meus desenhos a cores.” Informa-nos António Cabral que enquanto O Papagaio publicou Tintin, a colorização foi sempre feita cá, mesmo quando os álbuns da Casterman já continham a cor original. Outros assuntos nos traz esta correspondência, como o conhecido episódio do pagamento em géneros, durante a ocupação da Bélgica na II Guerra, e o conflito entre Varzim e Simões Müller, quando este, despedido de O Papagaio, funda O Diabrete, pretendendo levar consigo Tim-Tim – como então era grafado – e as restantes personagens, que entre nós se estrearam com nomes (e sexo) diferentes: a cadela Rom-Rom (!), o Capitão Rosa, (Professor) Pintadinho de Fresco e os inefáveis X33 e X33 aspas aspas...
Hergé em Portugal
autor: António Cabral et alii
edição: Fundação Calouiste Gulbenkian, e Éditions Moulinsart, Lisboa, 2021
quinta-feira, 10 de março de 2022
de A a Z - T, de Tintin (Hergé, 1929)
A caminho do centenário – e com exposição do autor na Gulbenkian –, o repórter que não escreve, trotamundos na companhia do inseparável fox-terrier Milu; um jovem íntegro, a própria face da pureza que não se exime a aplicar um uppercut bem puxado num qualquer patife. De Tintin no País dos Sovietes até Tintin no Tibete ou As Jóias da Castafiore, que extraordinário percurso.
segunda-feira, 14 de fevereiro de 2022
de A a Z - Q, de Quim e Felipe / Quick et Flupke (Hergé, 1930)
Dois miúdos de Bruxelas, mais concentrados nas brincadeiras de rua e nas maquinetas de diversão que engendram que nos estudos, o que lhes traz por vezes dissabores vindos do mundo dos adultos – pais, professores, polícia de giro –, sempre postos em situações cómicas, próximas das que Hergé ensaiava nas histórias do repórter, esse Tintin que Quim e Felipe aguardam junto da multidão, no apoteótico regresso do Congo.
quarta-feira, 12 de janeiro de 2022
um pequeno país
Um país pequeno como a Bélgica, que em anteriores encarnações políticas foi pátria de van Eyck, van der Weyden, Bruegel, Rubens, van Dyck até, na figuração actual, Ensor, Magritte ou Delvaux, entre muitos outros, só encontra na opulenta Itália nação que com ela se meça com vantagem; assim também na BD a Bélgica na Europa, pese a França – Uderzo e Goscinny, por exemplo, afirmaram-se primeiro lá e só depois no país natal; ou Jacques Martin... – ou ainda a Itália, a terceira potência do Velho Continente. Historicamente, em face da Bélgica, só os Estados Unidos, com os seus comics.
Régine Vandamme (Bruges, 1961) uma escritora que se assume leitora, seleccionou, em 2003, 19 autores para um mimoso mini coffee table book, e escolhendo, também deixou de fora, inevitavelmente: Hermann (Bernard Prince, Comanche, Duke), a ausência mais gritante, mas ainda o próprio Greg (Achille Talon), E. Aidans (Tounga), François Craenhals (Chevalier Ardent) William Vance (Bruno Brazil, Ramiro, XIII) ou Dany (Olivier Rameau). Dito isto, as escolhas são todas respeitáveis e incontroversas na quase totalidade. Por ordem de nascimento, o livro abre com Edgar P. Jacobs (Blake e Mortimer), o “génio do estilo narrativo rigoroso e grafismo magistral”; em Hergé (Tintin), aponta o contraste entre a perfeição do herói com os múltiplos defeitos das restantes personagens, aliado à grande legibilidade do desenho. Willy Wandersteen (Bob e Bobette), apesar de Hergé lhe chamar o Bruegel da BD, está, quanto a nós, num patamar abaixo. Segue-se o grande Jijé (Jerry Spring), autor do primeiro western humanista, com grandes cenários e enquadramentos audaciosos; Morris (Lucky Luke), o pai da expressão 9.ª Arte; Paul Cuvelier (Corentin), desenho minucioso e sensual; Raymond Macherot (Clorofila, Coronel Clifton, Sibylinne), o animalismo negro da primeira série, a autora fala-nos da espantosa paleta do desenhador; André Franquim (Gaston Lagaffe, Ideias Negras), de quem Hergé dizia que era ele o grande artista; Peyo (João e Pirolito, Schtroumpfs), a clareza imaculada; Guy Peellaert (Jodelle), com a aproximação à Pop Art; Louis Joos e a paixão pelo jazz e o claro-escuro em técnica mista; Comès (Silêncio), a grande tradição do preto-e-branco, na esteira de Milton Caniff, Hugo Pratt e José Muñoz; Claude Renard (Galileu, Diário de um Herético), dum virtuosismo deslumbrante; Sokal (Canardo), um antropomorfismo em policial desbragado; Philippe Gelluck (O Gato), ou o triunfo do nonsense; o abençoado Frank Pé (La Bête), entre Franquin e Egon Schiele; François Schuitten (As Cidades Obscuras), entre Winsor McCay e Moebius; Yslaire (Sambre), uma das mais perturbantes criações da BD, e, por fim, Thierry Van Hasselt, cujas influências vão de Alberto Breccia a Francis Baco, ou a BD a reinventar-se como pintura e talvez a fugir dela própria.
Livro de uma senhora leitora, felizes os autores que são lidos com este amor.
Régine Vandamme, Les Maîtres de la BD Belge
Tournai, La Renaissance du Livre, 2003
domingo, 28 de novembro de 2021
uma personagem cheia
Bart “o” Belga montou em Nice dois restaurantes de especialidades gastronómicas do país de Hergé e Franquin (que é também o de Brel, Magritte, Simenon, Yourcenar...), arredondando os proventos com um tráfico modesto de cannabis e um pouco de pó branco, quando calha. Uma vez instalado, teve, porém, de lidar com as exigências da “Trindade”, organização mafiosa que pratica a extorsão, e todos os outros crimes de catálogo, liderada por um velho magnata cuja fortuna se fez alegadamente em torno das corridas de cavalos e apostas, um proxeneta rufia, destinatário de tráfico de carne branca oriundo do Leste, e um empreiteiro que evolui no mundo legal, corrompendo os agentes do Estado. O aviso é feito com um assalto meio simulado a um dos restaurantes, perpetrado por três homens embuçados. Mas ninguém contava que um velho que por lá passara a comprar uma “mitraillette”, típica sanduíche belga, depois de agredido por um dos sicários, neutralizasse todos como se fossem meninos de escola. Trata-se de Vadim Koczinsky, o protagonista do álbum de hoje
Quando os comunistas tomaram o poder em Varsóvia, o jovem Vadim fugiu e alistou-se na Legião Estrangeira, tornando-se atirador de elite. Chegada a idade da reforma e tendo enviuvado, Vadim acomoda-se num lar confortável, graças às poupanças, empregando o remanescente num seguro de vida para o neto, depois de a filha, casada com um indivíduo suspeitoso de traficâncias, ter sucumbido às drogas, algo por que Vadim responsabiliza o genro. Os dias passavam-se amargos mas tranquilos no lar, até que o idoso é notificado que a conta bancária está a zeros, por burla do gestor. Obrigado a deixar a casa de repouso, vendo-se acolhido num albergue para sem-abrigo, ciente de que Sacha ficou sem o seguro de vida, acabará por aceitar a proposta de Bart van Coppens, que a tudo assistira no seu restaurante: “o Belga” não é tipo para deixar-se ficar, e vê no aposentado o homem que irá executar os chefes da “Trindade”. O velho aceita, com condições, e será ainda posto à prova antes de dar conta do trio de bandidos que domina a cidade. O pior são as malditas artrites, que lhe paralisam os dedos de quando em vez.
Monsieur Vadim é um herói inusitado, uma máquina de matar espondilítica, porém com consciência: não é assassino de inocentes, e tem um hábito q ue cumpre religiosamente, a telenovela diária, um pastelão intitulado “As Conchas do Amor”, o que provoca estupefacção, tornando-o alvo de ironia. Como se vê, uma personagem cheia, posta numa situação que não imaginamos consentânea com utentes de lares e centros de dia. O argumento, de Gihef e Didier Mertens, é cru: ajustes de contas com amputações sortidas, curros onde se encerram as jovens mulheres traficadas, forçadas à prostituição; mas não cede a um maniqueísmo fácil: a conversa fortuita de Vadim com um dos homens que no dia seguinte terá na mira é um dos vários bons momentos desta BD. O desenho expressivo, rugoso e com um apurado sentido do movimento de Morgann Tanco, está à altura da escrita de Gihef e Mertens, sendo por sua vez servido na justa medida pela paleta experimentada de Cerise (o casal Cynthia Englebert e Gianluca Carboni).
Monsieur Vadim 1 – Arthrose, Crime & Crustacés
Texto: Gihef e Didier Mertens
Desenhos: Morgann Tanco
edição: Grand Angle, Charnay Les Macôn, 2021
sábado, 23 de outubro de 2021
o senador Alix
Alix o Intrépido, apareceu em 1948 nas páginas da revista Tintin, mostrando as aventuras de um jovem gaulês, antigo escravo adoptado por um patrício romano. A adesão dos leitores “dos 7 aos 77 anos”, foi imediata, para surpresa do próprio Hergé, em cujos estúdios o ainda jovem autor trabalhava; e em breve Jacques Martin (1921-2010) ganharia a autonomia necessária para consagrar-se inteiramente à sua obra. Alix, principalmente, mas também Lefranc, de que já aqui falámos, entre outros. Até uma idade avançada e com problemas de visão, Martin interveio nos livros, contando também com assistentes que, adoptando-lhe o estilo, continuaram o seu trabalho.
O sucesso de Alix deve-se, quanto a nós, à circunstância de relatar as peripécias de um jovem gaulês na Roma de Júlio César e à arte de narrar de Martin, construindo episódios em que perpassa sempre algo de inusitado. Acresce um grande rigor de investigação, que fez do autor um nome também respeitado pelos historiadores. Características que tentaremos desenvolver quando tratarmos do Alix canónico.
Com dezenas de milhões de álbuns vendidos, as histórias prosseguem, correndo ao lado de uma sequela, Alix Senator (desde 2012), e uma prequela Alix – Origens (2019), este num estilo gráfico inspirado pela manga japonesa, que nos parece muito bem, porém dividindo a crítica. Sempre defendemos que a continuação das séries quando o autor original se retira não deveria cingir-se a uma simples cópia da matriz, mas a partir dela evoluir no que respeita ao argumento, sem traições ao espírito do universo tratado; e quanto aos desenhos, quanto mais marcadamente o novo autor assumir a sua personalidade, maior é o risco, mas também o interesse pelo desafio.
O álbum de hoje, Alix Senator – 1. As Águias de Sangue, vai por aí. Thiery Démarez (Raincy, 1971) afasta-se do estilo da “escola de Bruxelas”, a linha clara, procurando, no entanto, uma reconstituição historicamente credível a exemplo do Alix canónico; se a atitude nos agrada por princípio, a verdade é que o seu estilo, por vezes hiper-realista, não nos preenche. O mesmo não se dirá do argumento de Valérie Mangin (Nancy, 1973), historiadora de formação, especializada em história institucional, e com uma obra extensa de BD, revelando-se conhecedora não só da história de Roma, como do universo de Alix e da arte narrativa específica da BD.
O herói gaulês tornado político é, dobrados os cinquenta anos, senador no início do governo de Augusto, de quem é cunhado. Estamos em 12 a.C., preparando-se o imperador para a investidura como pontífice máximo. O cadáver do anterior dignitário, rival de Augusto, fora encontrado esventrado, os porcos a chafurdarem-lhe as entranhas, diz-se que atacado pelo próprio Júpiter sob a forma de águia. Pouco depois será a vez de Agripa, genro do imperador e seu sucessor designado, a conhecer a mesma sorte, numa conspiração urdida não se sabe por quem. Alix – agora na companhia de Tito, fruto da união com Lídia Octávia, irmã de Augusto, e Khephren, filho do inseparável companheiro egípcio Enak –, procurará perceber o que está por detrás do sucedido, num jogo complexo de incertezas e sombras que recaem sobre a narrativa. O maduro senador Alix vai ao encontro do jovem combativo de outrora.
Alix Senator – 1. As Águias de Sangue
Texto: Valérie Mangin
Desenhos: Thierry Démarez.
Edição: Gradiva, Lisboa, 2021
sexta-feira, 8 de outubro de 2021
discurso directo: Tibet
”Jijé [Jerry Spring] foi progredindo até se tornar francamente bom, mas um dia apareceu um jovem que fazia Jijés cem vezes melhor! Era Giraud [Blueberry]. Mas devo confessar que nunca li Charlier [argumentista de Blueberry], nem Martin [Alix, Lefranc] ou Hubinon [desenhador de Barba Ruiva e Buck Danny]. Fiquei-me por Hergé [Tintin], Jijé e pelo prodigioso Franquin [Spirou e Fantásio, Gaston], que é um verdadeiro criador, sempre em busca do domínio do desenho, como Hermann [Bernard Prince, Comanche, Jeremiah, As Torres de Bois Maury, Duke]. Quanto a Uderzo, trata-se de um artesão de génio, mas chamo criador àquele cujo trabalho não se parece com nada feito antes. Em Uderzo vemos o traço de Walt Disney, Astérix tem as mesmas proporções que Mickey, Obélix é o anão Feliz da Branca de Neve!» Tibet, (1931-2010). desenhador de Chick Bill e Rick Hochet (com argumento de A-P. Duchâteau), em entrevista à Bo-Doï, Fevereiro de 2000,
terça-feira, 1 de junho de 2021
Armada Invencível
É um dos grandes episódios da história da Europa, com repercussões mundiais. A 27 de Maio de 1588 uma formidável frota de cerca de 200 velas e 20 mil homens largou do estuário do Tejo, rumo à Grã-Bretanha. Missão: destronar Isabel I. A bordo da nau-capitânea, o galeão português São Martinho, estava o duque de Medina-Sidónia, nomeado por Felipe II, havia sete anos Felipe I de Portugal.
Joaquim Veríssimo Serrão, um dos mais informados historiadores deste período, dá-nos várias razões para a expedição contra a monarca Tudor, todas de peso, a nosso ver: deposição de uma soberana herege, repondo o catolicismo – Felipe fora rei consorte de Inglaterra, viúvo da Bloody Mary (Maria Tudor, assim alcunhada pelo furor com que perseguiu o anglicanismo), vingando também a católica Maria Stuart, rainha da Escócia, mandada executar por Isabel; punir os ataques corsários de Francis Drake e outros contra as possessões e barcos espanhóis; aproveitando ainda para neutralizar a acção dos rebeldes portugueses em torno de D. António, Prior do Crato, aclamado rei em Santarém (1580). Além disso, a Felipe que era filho de Carlos V – em cujo império o solo nunca se punha – e de Isabel de Portugal, oferecia-se-lhe o ensejo de engrandecer mais a Casa de Habsburgo, com a bem sucedida inclusão do reino português e respectivo império, que ele próprio afirmara ter herdado, pago e conquistado... E, já agora convém acrescentar, também respeitado, pois cumpriu todas as promessas feitas nas Cortes de Tomar, em 1581. Aliás, ele gostava de Portugal, por várias razões, a menor das quais não será o facto de a mãe ser portuguesa, filha de D. Manuel I; e por cá se demorou durante dois anos após a coroação. O brasão da União Ibérica, em que o maior destaque é dado ao escudo, com os sete castelos em ouro e as cinco quinas com as chagas de Cristo, tal como a bandeira portuguesa ainda hoje apresenta, é eloquente.
Mas havia outro motivo que levava Felipe II a querer remover Isabel I: o apoio aos holandeses, em rebelião havia duas décadas – a República das Sete Províncias Unidas dos Países Baixos –, protestantes calvinistas, guerreiros, comerciantes e piratas quando era preciso, apoiados pela Inglaterra. Nacionalismo, religião, riqueza que levaram a 80 anos de guerra contra os espanhóis. E já entrámos na BD de hoje: Cori o Grumete, um extraordinário fresco aos quadradinhos que decorre entre os séculos XVI e XVII, criado em 1951 por Bob de Moor (1925-1993), um mestre da “linha clara” e o principal assistente de Hergé na segunda fase do período do criador de Tintin. Cori é um muito jovem grumete holandês, espião ao serviço de Isabel I, em missão em Espanha, potência ocupante do seu país. Como se desempenhou neste complicado xadrez geo-político, é o que veremos na próxima semana, pretexto para continuar com os clássicos.
Aos 25 anos, Bob de Moor (1925-1992) entra directamente nos Studios Hergé como assistente principal de Hergé, ocupando o lugar de Jacobs, cujos Blake e Mortimer não se compadeciam com meios tempos. O jovem parece assimilar à vez o estilo dos mestres belgas que lhe precederam: João e Estêvão (entre nós, no Cavaleiro Andante) evoca Willy Wandersteen (criador de Bob e Bobette), Barelli (na revista Tintin). Hergé; e em Cori o Grumete vemos muito de Jacobs. Balthasar, uma colecção magnífica de gags protagonizada por um velho bonacheirão, criação fresquíssima chumbada pelos leitores da revista Tintin belga, é um caso à parte: aí Bob de Moor segue apenas o seu espírito jovial – talvez demasiado, em paragens cinzentas.
Cori o Grumete, criado em 1951, é um adolescente (como o eram Tintin e Alix, de Jacques Martin, outro homem da casa). Em A Invencível Armada, Cori e Harn de Vroom são espiões holandeses em Cádis, a soldo de Isabel I, disfarçados de fabricantes de velas. Os Países Baixos eram, como vimos, uma possessão espanhola em rebelião, contando com a Inglaterra como principal aliada. Cori apodera-se dos planos secretos para a invasão espanhola do reino inglês; mas serão de seguida desmascarados. A monte, na companhia de marginais, uma emboscada surpreende-os, separando os amigos. Cori, chega a França, devastada pelas Guerras de Religião (1562-1598), salva François, criança huguenote das garras dos “papistas”, levando-a consigo para Inglaterra. Quanto a Harn, ferido e socorrido por um nobre espanhol, que será o número dois da Armada, seguirá para Lisboa.
Como Hergé, Jacobs e Martin, maníacos da documentação, Bob de Moor, estudou a fundo este complexo episódio naval, militar e político: falta de vento no início, apodrecimento de víveres, tempestade inesperada na embocadura da Corunha, cheia de escolhos. À aproximação a Inglaterra o moral já não era o mesmo. Dá-nos também as características dos dois comandantes: Medina-Sidónia, um indeciso cumprindo burocraticamente todas as indicações dos despachos de Felipe II em vez de aproveitar as oportunidades que pudessem surgir – até porque a “Felicíssima Armada” era superior em poder de fogo; do outro lado, o sanguíneo Drake, “El Draque”, chamavam-lhe os espanhóis, o oposto em génio táctico. O desastre é rematado quando uma embarcação carregada de explosivos deflagra de encontro aos barcos espanhóis.
Este tomo 2, intitulado O Dragão dos Mares (alusão a Francis Drake) é esplendoroso. De Moor compraz-se no desenho de todo o tipo de embarcações; o olhar demora-se em cada vinheta, cada prancha aproveitada ao pormenor, não raro com frisos de margem a margem, ou splashes de página inteira quando não se espera. Um estilo muito próprio de uma época, em “linha clara”, Escola de Bruxelas.
Cori o Grumete – A Armada Invencível -- I. Os Espiões de Rainha II. O Dragão dos Mares
texto e desenhos: Bob de Moor
edição: Meribérica, Lisboa, s.d.
sexta-feira, 7 de maio de 2021
Popeye, um vencedor do último século
Os anos fizeram com que raras personagens centenárias, ou quase, tenham caído nos esquecimento; e talvez apenas uma possa ter um reconhecimento planetário. Vejamos: de finais do Século XIX a até à década de 1920, os dedos de uma mão chegam para contar as séries ainda hoje susceptíveis de interessar a um público mais vasto: Os Sobrinhos do Capitão, de Rudolph Dirks (1897), enquanto houver rapazes endiabrados; Little Nemo in Slumberland, de Winsor McCay (1905) e Krazy Kat, de George Herriman (1909), continuam a alcançar leitores fervorosos, embora com critérios mais apertados. Os anos dez são um deserto, deste ponto de vista; nem mesmo o Panfúcio de Bringing Up Father, de George McManus (1913), teria pernas para andar só por si, a não ser destinado a nichos de coleccionadores. Depois há um gato e um rato, Félix (1919) e Mickey (1928), mas ambos nasceram para as telas, não são criações originais dos quadradinhos; e Tarzan, desenhado em 1929 por Hal Foster, procede, por sua vez, dos romances de aventuras. O que restará então? Dois bonecos desse mesmo ano, que os historiadores consideram como o início da “idade de ouro” da 9.ª Arte: rm escala apesar de tudo mais modesta, de proveniência belga, Tintin, de Hergé; e Popeye, o campeão de facto do século que se completará esta década.
Popeye, que na sua divertida crueza dir-se-ia precursor de um tom underground, é todo ele uma deformidade, do corpo à fala, excepto no carácter. Alma pura e destemida, sempre de cachimbo, os espinafres dão-lhe uma energia que aumentam a já notável força. A primeira aparição ocorre nas tiras de Thimble Theatre, que se publicava havia dez anos, tendo como protagonistas a família de Olive Oyl (Olívia Palito). Em breve, Popeye torna-se a estrela, e com ele Wimpy. um pequeno escroque obcecado por hambúrgueres, Swee' Pea (Ervilha de Cheiro), filho adoptivo, o mais inteligente do elenco, e Bluto, inimigo e rival, disputando as atenções da bela Olívia; acrescente-se ainda Poopdeck Pappy, pouco exemplar nos seus 96 anos; Sea Hag, a Bruxa do Mar, ainda mais pavorosa que a da Branca de Neve, e Eugénio o Jeep, estranho animal vindo dos confins da África Negra.
Em Popeye e o Jipe (1936), Olívia Palito recebe dum tio um caixote com o estranho bicho, muito dócil, com o dispendioso hábito de nutrir-se de orquídeas. A quadridimensionalidade (!) do cérebro permite-lhe actuar sobre o espaço e o tempo: desmaterializa-se e prevê o futuro... A têmpera de Popeye e os atributos de Eugénio (como se captura algo que se volatiliza?), fazem gorar os planos de um ambicioso para comprar e raptar o animal; e como adivinhava o futuro, um trafulha como Wimpy e uma flausina como Olívia vêem-se milionários, apostando em corridas de cavalos e combates de boxe. Quando chega a vez do embate entre o marinheiro e o colosso James J. Jab, o jeep prevê, supostamente, que Popeye o perderá. Ao ver a namorada e o amigo apostarem contra si, o moral do marinheiro desaba. Livro que nos acompanha desde 1978, relido agora, mantém a graça e o viço. Popeye tem carisma, por isso continua por aí, de saúde.
Popeye e o Jipe
texto e desenhos: E. C. Segar
edição: Editorial Presença, Lisboa, 1973
terça-feira, 5 de janeiro de 2021
«O Mistério da Grande Pirâmide» (1)
Criada por Edgar Pierre Jacobs (1904-1987) e estreada em 1947 no número inaugural da revista Tintin, Blake e Mortimer é uma série que estará sempre na mão que conte pelos dedos as obras mais notáveis do género BD. Relatos de aventuras, envolvendo a espionagem, a ciência e também a História: ou como escreveu o sociólogo Jean-Bruno Renard, uma mistura de Júlio Verne, H. G. Wells e Maurice Leblanc, o criador de Arsène Lupin, faltando dizer que será isso tudo e algo mais, singularizado pela grande arte do autor, um antigo barítono cuja carreira fora interrompida pela guerra de 39-45.
Encontramos pela primeira vez os dois gentlemen britânicos – o Professor Phillip Angus Mortimer, escocês nascido na Índia, físico nuclear, inventor, arqueólogo amador, desportista, e o galês Sir Francis Percy Blake, capitão da RAF e futuro director do MI5 –, em O Segredo do Espadão, no Tibete, onde impera Basam-Damdu, o ditador que fará deflagrar a III Guerra Mundial, ainda a anterior terminara havia dois anos.… E contra eles, o Coronel Olrik, aventureiro e criminoso internacional, com provável origem nos países bálticos, cria Jacobs, criador de mais esta criatura cujo rosto em si mesmo fora inspirado...
Se todos as histórias se revestem de grande qualidade, os dois volumes de O Mistério da Grande Pirâmide (estreia em 1950 nas páginas daquela revista) e A Marca Amarela (publicada entre 1953 e 54) são consideradas as obras-primas. Em Portugal, ambas foram publicadas quase de seguida no Cavaleiro Andante, de Adolfo Simões Müller, cujos contactos com a Bélgica, vinham já de antes da guerra, nomeadamente com Hergé. Perfeccionista, Jacobs foi uma espécie de Flaubert da BD. O romancista francês esgotava os assuntos: para escrever Salammbô leu tudo sobre Cartago, autores antigos e modernos, consultou especialistas, foi à Tunísia, às ruínas púnicas. Jacobs procedia da mesma forma no que respeita à documentação e planificação do seu trabalho, que executava sempre sozinho. Há uma anedota reveladora dessa obsessão pela verosimilhança e rigor documental: em 1971, a revista publicava semanalmente As Três Fórmulas do Professor Sato, até que, para desespero da redacção, Jacobs resolveu que precisava de conhecer os modelos dos caixotes do lixo de Tóquio, imagens cujo acesso não era fácil à época – decerto que um guia regular da cidade não traria fotos da imundície urbana… Sem retomar o trabalho enquanto não chegassem imagens fiáveis, verá afinal que os nauseantes recipientes eram iguais aos de Nova Iorque, esses bem à mostra, até para quem os não quisesse ver... É à luz desta prática que o nosso autor situa Blake e Mortimer no Egipto do último faraó, Faruk I, um monarca manobrado pelos ingleses que controlavam o país, pálida sombra do fundador da sua dinastia, albanesa, Mohamed Ali, e um enigma envolvendo um outro soberano, a milénios de distância, o controverso Aquenáton mais um espólio que ficou por encontrar...
(continua)
O Mistério da Grande Pirâmide,
Vol. 1. O Papiro de Máneton
texto e desenhos: Edgar P. Jacobs
edição: Verbo, Lisboa, 1969
segunda-feira, 28 de dezembro de 2020
a História acontece hoje
Jacques Martin (1921-2010), o autor de Alix (1948), jovem escravo gaulês que um dia chegará a senador romano, é um dos nomes de referência da linha clara. Todos os bedéfilos o conhecem, bem como os historiadores da Antiguidade Clássica, pelo rigor documental com que foi fazendo evoluir a série, tornando-se um profundo conhecedor do período, e com pensamento próprio. Martin tinha duas paixões: a História e os motores: criador de várias personagens cuja acção se desenrola em períodos bem definidos, foi contudo, com uma série de actualidade, Lefranc, que o autor pôde dar azo a essas duas paixões em simultâneo – é notável o gosto com que as máquinas são postas em cena no álbum de hoje.
Criado em 1954, Lefranc é um jornalista que como outras personagens da BD – Tintin ou Ric Hochet – se destaca não pelo que escreve, mas pelas aventuras em que se envolve, e como sucede com estes, o tempo passa por si sem que envelheça, sempre contemporâneo do período em que cada narrativa decorre. Martin sabia que o momento presente é a História a desenrolar-se diante dos nossos olhos; e Lefranc, surgido no rescaldo da II Guerra, adentra-se pela Guerra Fria, quando a mesma História correu o risco de parar.
O Mistério Borg (1964) é um thriller como tantos, em que um aventureiro se apodera de um vírus mortífero, disposto a vendê-lo a uma potência inimiga. A caminho de uma estância de ski suíça, o Alfa Romeo Giulietta de Lefranc é perigosamente ultrapassado por um Fiat 2300, e instantes depois por um Jaguar Mark 2. Ficaremos a saber tratar-se de uma perseguição: no Fiat segue o infame Prof. Fosca, assistente do célebre biólogo Zerni, o homem que isolara o temível “supervírus”, assim ingenuamente chamado; Fosca fez o mestre ir desta para melhor, encomendando um atropelamento; atrás dele, na estrada suíça, ia uma criatura mais perigosa: Axel Borg, a némesis de Lefranc. Aventureiro elegante e educado, apreciador de arte, sem escrúpulos, rico já de si mas almejando mais, apodera-se do letal micro-organismo, propondo-se fazer uma experimentação, usando os habitantes de uma aldeia isolada dos Alpes como cobaias. Grande parte da trama decorre sob e sobre a neve suíça, terminando em Veneza, onde as forças do bem triunfarão sobre a maldade, a riqueza, a ambição de Borg, um bandido que se faz admirar, mesmo por Lefranc.
É o terceiro álbum da série, primeiro entre nós, e o derradeiro desenhado por J. Martin, então nos Estúdios Hergé e já tendo trabalho de sobra com Alix. Diga-se que não foi fácil, na primeira metade dos anos 50, convencer a Casterman a publicar um herói como Lefranc; só queriam Alix, que dava dinheiro a ganhar. De tal modo que impuseram que o herói fosse louro como o gaulês, e que tivesse também um rapazinho como coadjuvante, Jeanjean, escuteiro órfão acolhido pelo jornalista , pois os eunucos da época proibiam as mulheres jovens na BD.
O Mistério Borg
texto e desenhos de Jacques Martin
edição: Livraria Bertrand, Venda Nova, 1982