
1- Nova visita a um
pioneiro dos quadradinhos em Portugal, embora num âmbito mais largo,
abrangendo as várias dimensões em que Stuart se expressava, do
cartoon à pintura, do capismo e ilustração ao desenho
publicitário. Foi o que fez João Paulo Cotrim (Lisboa, 1965),
argumentista de BD, entre outras coisas, aqui no papel de historiador
ensaiante em torno da vida e obra do criador de Quim e Manecas,
em Stuart – A Rua e o Riso (2006),
livro de grande formato e volume, para ser lido e visto (e, no nosso
caso, também sublinhado) – tudo menos um coffe table
book, embora o sainete seja
garantido. É excelente o trabalho de Cotrim, pela profusão das
imagens, a forma pensada com que o livro foi arrumado e o
levantamento das fontes, em que não faltam as homenagens de colegas
do mesmo ofício (de Valença a Amarelhe) ou nossos coetâneos (de
António a João Fazenda, inéditos até aqui). Acresce fragmentos
dos homens dos jornais, como Norberto Araújo, das revistas
literárias, o caso de José Pacheko (Contemporânea e
Portugal Futurista), e
o incomparável e desvairado Reinaldo Ferreira, o Repórter X (nom
de plume que aproveitou de um
desenrascanço de tipógrafo que não percebera a assinatura), que
assim escrevia sobre essoutra deste Stuart, em 1923: “Um S a tombar
sobre um t hirto que estende a mão ao u escancarado e que ameaça
engolir o a d'imprensa que se lhe segue e que, por sua vez, parece
galgar um r que vai encostado a um t final, espécie de poste de
cruz, a fechar...” (p. 22). Com eles, fragmentos de escritores de
coturno mais alto, como veremos para a semana.
Nascido
em Vila Real, José Herculano Stuart Torrie d'Almeida Carvalhais
(1887-1961), provindo de famílias tradicionais, foi um aristocrata
da boémia lisboeta, de onde irradiava o talento que a necessidade e
a dependência alcoólica não tolhiam. Muito cedo iniciado nas lides
jornalísticas, começa a publicar em O Século,
no ano seguinte ao da morte de Rafael Bordalo Pinheiro, de que não
será herdeiro, como Cotrim sublinha, ao contrário dos nomes
proeminentes do desenho humorístico de então. Começa por assinar
JStuart Carvalhaes,
mas na década de 1910 já marcava de espadachim os trabalhos que lhe
saíam. Depois de um breve período em Paris, que lhe alargou as
vistas, regressa, casando-se, em 1913, com uma varina, “como a
querer dizer que desposa a cidade” – escreve o autor; essa Fausta
Moreira, cujo traço não conheceremos, tornada onírica à força
de a imaginarmos; e ele, Stuart, o culpado, graças a essa obsessão
boa pela beleza do sexo feminino, como também veremos.
Uma
única exposição individual realiza, aos 45 anos, na Casa da
Imprensa. Stuart, talvez desleixado e pueril, mas livre, não tinha
jeito ou apetência para se vender, embora do trabalho lhe viesse o
sustento. Norberto de Araújo, numa passagem que impressiona, fala
“[n]esse rapaz que a si próprio tão insuficientemente se
respeita” (o “rapaz” já tinha 40 anos), fazendo uma comparação
um pouco forçada com Verlaine. Pode ser, Mas
respeitar-se como e o quê, senão o próprio trabalho, numa Lisboa,
retrato do país, provinciana e basbaque?
2- Em pintura, Stuart
foi o que pôde ser e não provavelmente o que quis. “Não passo
d’um fabricante de desenhos”, dirá. Trabalho restrito, mas não
despiciendo – quem não conhece o magnífico Jazz
(1925), que aqui não figura? – João Paulo Cotrim fala num “desejo
de paisagem”, que podemos observar em três telas, uma das quais,
pertencente a José Gomes Ferreira, suscitou a este bons versos dum
expressionismo brandoniano, já fora de tempo (1981), mas no tempo do
quadro. Noutra, uma paisagem com Quixote, tem forçosamente de
remeter-nos para o lugar-comum (nosso, não dele) quixotesco de
ingénuo idealismo, de acordo com os cépticos ou os cínicos; e
adiante surge também, como ilustração, um carvão assombroso de
Quixote e Sancho por entre lombadas da obra de Cervantes, publicado
na revista Civilização.
Foi na imprensa que Stuart se afirmou como o que julgamos ser o maior
artista gráfico português da primeira metade do século passado –
período, de resto, repleto de bons nomes a trabalhar num tempo ávido
por mostrar imagens.
A
introdução toca as várias facetas do trabalho stuartino,incluindo
as que ficaram na sombra ao fim de um século: pintura, ilustração,
cartaz publicitário, capas de livros e partituras, todas à excepção
da primeira sofrendo mais aceleradamente o desgaste do tempo, por
extinção de actividade ou renovação do revestimento, como é o
caso dos livros. E neste particular teremos de citar a capa de Lírios
do Monte (1918), título inicial
do já referido Gomes Ferreira – que depois eliminará da sua
bibliografia, como sucede com muitos escritores relativamente aos
textos mais juvenis –, as primeiras edições das novelas de
Aquilino Ribeiro, Filhas de Babilónia (1920)
e do romance Emigrantes (1928),
de Ferreira de Castro, revisitações de A Farsa
e os Pobres, de Raul
Brandão, coexistindo com o o testemunho pungente de Reinaldo
Ferreira, nas Memórias de um Ex-Morfinómano (1933)
– além de literatura humorística ou frívola e edições de
actualidades, pois o sustento a tal obrigava.
Exposto
e ilustrado o artista, segue-se a arrumação temática: os
auto-retratos, os quadradinhos, o cartoon, os costumes, a Lisboa
stuartina, as mulheres, os tipos mais ou menos populares, as figuras
conhecidas, os pobres e marginais, a morte. E porque Stuart é
Stuart, ainda na próxima semana continuaremos na companhia deste
príncipe, com especiais enfoques: a BD, pois claro, desde muito
cedo; a cidade, que aqui se chama Lisboa; a mulher, que Stuart
magnifica sempre e como poucos; a atenção que o artista prestou aos
pobres e excluídos – que já conhecemos de Renda Barata
compilação de 2020 de cartoons publicados no diário
anarco-sindicalista A Batalha –;
e ainda um Stuart menos risonho e conhecido.
3- A bonomia de Stuart
estava afeita aos quadradinhos, pelo que não é de estranhar que
também por aí caminhasse abrindo caminho –
João Paulo Cotrim observou ter sido ele o primeiro bandadesenhista
europeu a recorrer à filactera, o balão que identifica a fala das
personagens. Tiras humorísticas e uma série pioneira Quim
e Manecas (1915-1953), quase 40
anos de tropelias atrás de diabruras, cuja influência José-Augusto
França filiou em Max und Moritz
(1865), de Wilhelm Bush, o que
nos parece questionável. A haver uma, ela radicará num brilhante
sucedâneo da série alemã, os terríveis Hans e Fritz, vulgo Os
Sobrinhos do Capitão (1897), de
Rudolph Dirks.
Mas como
vimos, Stuart faz-se de muito mais do que apenas BD. Grandes
escritores debruçaram-se sobre o seu trabalho, no que, para além do
talento único, constitui mais um seguro de vida póstuma. A
propósito de Lisboa, que aqui merece um capítulo, escreveu Manuel
Mendes: “Encarnou a alma da terra que escolheu para viver […] e
acabou por melhor a sentir e expressar do que os próprios naturais.
Viu tudo, amou e sentiu tudo […], entrou-lhe na alma e lá se
instalou como na própria casa.”
Stuart
adorava as mulheres, e demonstrava-o gulosamente. Se vemos mundanas,
viciadas, prostitutas, também aí estão, sobretudo, as mulheres do
povo, dignas, altivas, elegantíssimas. Uma vendedora de fruta
aparece-nos cheia de sensualidade e raça, nunca postiça, mas bem
real. Stuart conhecia por dentro aquilo de que tratava. E isso
estende-se à crítica impiedosa da sociedade doente. Fiquemos com as
palavras de Aquilino Ribeiro: “Stuart era um rebelde; mais do que
isso, por baixo do seu desmancho de boémio havia um revolucionário,
muito senhor de si [...]”. A sua ferocidade enquanto cartoonista
social é directamente proporcional à selvajaria da classe
dominante.
Ferreira de
Castro, por ele três vezes retratado, e cujos romances iriam advogar
a revolução social e libertária, irmanava-se com Stuart na
repugnância não só da miséria ou dos mecanismos que a
perpetuavam, mas também da indiferença com que era aceite e vivida.
E por isso escreverá, em 1926: “Mais do que um ilustrador, Stuart
Carvalhais é um água-fortista. Na arte portuguesa, ele está, como
desenhador, ao lado de Raul Brandão, como literato. E até como
este, Stuart repete-se […] como se entendesse que a carranca da
vida, enrugada, desgrenhada, há-se sempre reflectir-se num mesmo e
imutável espelho.” Veja-se o retrato sombrio de Camilo Castelo
Branco, como se possuído por um demónio interior que cedo ou tarde
lhe cobrará a dívida do génio; ou o de um mefistofélico Ferreira
de Castro (ambos de 1928), num quase sorriso de esgar, como se dali
viesse uma ameaça de não deixar pedra sobre pedra, num mundo a
derrubar para voltar a construir. Mas ao lado, contudo, uma jazz-band
embevecida, olhando para uma Amália ridente... Stuart não é (só)
para meninos.
Stuart
– A Rua e o Riso
Autor: João
Paulo Cotrim
edição: Assírio
& Alvim e El Corte Inglés, Lisboa, 2006
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