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quarta-feira, 2 de fevereiro de 2022

palavras a mais



 Na BD existem os artesãos, os artistas e os fora-de-série, inimitáveis, apesar das tentativas de emulação ou cópia, cuja marca permanece para sempre. Nos quadradinhos há centenas de bons ou muito bons artistas; mas um Will Eisner ou um Jean Giraud estão num patamar a que a maioria não acede.

Giraud (1938-2012), explode em 1963 com a abreviatura Gir, assinando um grande fresco intitulado Fort Navajo, cujo protagonista é o célebre Tenente Blueberry – tantas vezes já por aqui referido, mas ainda não aprofundado. Assistente de Jijé (1914-1980), na série Jerry Spring, que indica o nome de Giraud para trabalhar o argumento de Jean-Michel Charlier (1924-1989), dele dirá Tibet (Chick Bill, Ric Hochet), numa entrevista já aqui referida, que Gir fazia Jijé melhor que o próprio...

Moebius, é o pseudónimo que adopta na mesma época, mas só na década seguinte é assumido como uma via paralela, principalmente com o esplêndido Arzach (1975), com a prevalência de um onirismo liberto, que se contrapõe ao realismo cada vez mais sujo, cada vez mais belo, de Blueberry. Mas apesar de os dois trajectos se distinguirem bem, é interessante ver como, ao mesmo tempo, Gir importa de Moebius alguma tonalidade e fluidez. Embora se desempenhasse bem como argumentista, inclusivamente em Blueberry, após a morte de Charlier, o encontro com o chileno Alejandro Jodorowsky (Tocopilla, 1929) ocorre pouco depois de Arzach, e vem dar a Moebius o nefelibata que lhe faltava, e com quem assinará, entre outros trabalhos, O Incal (1981), que nos é dado a conhecer através da prospecção atenta de Jorge Magalhães, na Editorial Futura.

Os Olhos do Gato (1978) é Moebius no seu esplendor, a partir de um texto minimalista de Jodorowsky, Publicado como brinde destinado aos leitores fiéis dos Humanoïdes Associés, que publicava a Métal Hurlant, foi objecto da avidez desses bichos estranhos que são os coleccionadores, suscitando ainda uma edição pirata por outros marginais da edição, bem-humorados, que se autodesignaram por “Androïdes Dissociés”... Tornado um livro de culto, os humanóides lançariam a edição comercial em 1981. São 48 ilustrações-BD e um frontispício num permanente campo e contracampo: nas páginas pares projecta-se a figura de um rapaz de costas e sempre na sombra com contornos de Yellow Kid (a obra pioneira de Richard F. Outcault, criada em 1896), “mirando” o skyline de uma cidade que dir-se-ia um misto de Metrópolis e Urbicanda. Nas ímpares, uma vinheta/ilustração cheia, em que o cenário parece ruinoso e pós-apocalíptico. “Mirando” veio atrás entre aspas, uma vez que a criatura tem os olhos vazados, comunicando telepaticamente com a águia Meduz, cuja missão bem definida é a de prover um novo e fresco par de olhos ao suposto tutor. Moebius é aqui o tal fora-de-série. Uma filactera final chegava e sobrava para acomodar os murmúrios do argumentista, se houvessem conhecido e meditado no dístico do poeta Alberto de Lacerda (1928-2007): “Palavras / Quase todas a mais”.


Os Olhos do Gato

Desenhos: Moebius.

Texto: Jodorowsky.

Edição: A Seita e Ala dos Livros, Prior Velho e Estoril, 2021

«Leitor de BD»

terça-feira, 21 de dezembro de 2021

a vez de Nadine



Ric Hochet, série policial e detectivesca criada em 1958 por André-Paul Duchâteau (1925-2020) e Tibet (Gilbert Gascard, 1931-2010) para a revista Tintin. É do melhor que se fez no género. Ao longo de 78 álbuns – o último é publicado no ano da morte de Tibet –, conta-nos de um jornalista irrequieto e glamoroso constantemente partícipe em thrillers levados da breca, cuja namorada, Nadine, é sobrinha do comissário de polícia Sigismond Bourdon – um trio que resulta sempre nos quadradinhos. Brevemente trataremos da série canónica, porque hoje o álbum pertence aos “Novos Inquéritos de Ric Hochet”, A vaga de revisitações que felizmente ocorre na BD franco-belga não podia deixá-lo de fora, sendo, em 2015, a personagem entregue a Zidrou (Anderlecht, 1962) – esplêndido argumentista de quem já aqui falámos algumas vezes – e a Simon van Liemt (Aix-en-Provence, 1974).

Em Comissaire Griot (2021), Zidrou situa temporalmente a acção em 1970 – uma inovação, uma vez que Ric Hochet pertence ao grupo de personagens que não envelhece, acompanhando o tempo presente. Motivado por um intercâmbio estabelecido entre as polícias de França e do Senegal, Bourdon desloca-se por dois meses a Casamansa, sendo substituído pelo comissário Ousmane Lamine Cissoko Dior, um gigante africano quase sempre irónico com os equívocos de teor racista de que é alvo, numa sociedade parisiense habituada a ver nos filhos das ex-colónias os concidadãos (?) da base da pirâmide social. Zidrou vai aqui de encontro ao espírito do tempo, fazendo-o do nosso ponto de vista, pelo ângulo certo, o do humor.

Outro assunto na ordem do dia é o do empoderamento (palavra horrível) feminino. Na série canónica, estreada há mais de sessenta anos, Nadine era uma fillette graciosa que servia para aligeirar a atmosfera pesada da trama, algo inconcebível actualmente. Agora vive com Ric, foi admitida como repórter no mesmo jornal em que este trabalha e já é não apenas a namoradinha do herói , mas uma parceira bastante mais expedita que o companheiro nos avanços amorosos, o que é sempre uma alegria para o olhar. De resto, nunca se viu tanta roupa interior nestas histórias outrora para rapazes bem comportados. Não tanto pelo que estarão a pensar – não de todo erradamente – ,mas porque um dos casos que aflige a polícia é o de um certo “Cupido”, que ataca mulheres na casa dos trinta, quarenta anos, atando-as a uma cadeira, cravando-lhes no coração um punhal, no qual se prende uma carta que lhe é destinada, sempre entoando uma canção romântica. Paralelamente, o cadáver de um velho exorcista é encontrado pela porteira do prédio, com o coração arrancado e depositado na mão, que o médico legista verificará não corresponder ao da vítima... Ao mesmo tempo, em África, Bourdon, em choque cultural, anseia pelo regresso.

Resumindo: um Ric Hochet aggiornato, mas secundarizado por uma esplêndida Nadine e pelo próprio comissário Dior (sem relação de parentesco com a famosa casa, como gosta de dizer...). Van Liemt cumpre com brio. Considerando estar a substituir Tibet, não é nada pouco.


Les Nouvelles Enquêtes de Ric Hochet t. 5 – Commisaire Griot

texto: Zidrou

desenhos: van Liemt

edição: Le Lombard, Bruxelas, 2021

«Leitor de BD»

sexta-feira, 8 de outubro de 2021

discurso directo: Tibet

 Jijé [Jerry Spring] foi progredindo até se tornar francamente bom, mas um dia apareceu um jovem que fazia Jijés cem vezes melhor! Era Giraud [Blueberry]. Mas devo confessar que nunca li Charlier [argumentista de Blueberry], nem Martin [Alix, Lefranc] ou Hubinon [desenhador de Barba Ruiva e Buck Danny]. Fiquei-me por Hergé [Tintin], Jijé e pelo prodigioso Franquin [Spirou e Fantásio, Gaston], que é um verdadeiro criador, sempre em busca do domínio do desenho, como Hermann [Bernard Prince, Comanche, Jeremiah, As Torres de Bois Maury, Duke]. Quanto a Uderzo, trata-se de um artesão de génio, mas chamo criador àquele cujo trabalho não se parece com nada feito antes. Em Uderzo vemos o traço de Walt Disney, Astérix tem as mesmas proporções que Mickey, Obélix é o anão Feliz da Branca de Neve!» Tibet, (1931-2010). desenhador de Chick Bill e Rick Hochet (com argumento de A-P. Duchâteau), em entrevista à Bo-Doï, Fevereiro de 2000,

«Leitor de BD»

quinta-feira, 1 de julho de 2021

estórias "para rapazes"


 BD não é só feita de Tintin e Príncipe Valente, Peanuts e Gaston Lagaffe, Corto Maltese ou Calvin & Hobbes. Muito do encanto que determinadas publicações tiveram, e que se mantém, sem nostalgia, décadas após o encerramento, deve-se também a uma quantidade de séries secundárias que preenchiam as revistas, criando uma aura que era partilhada pelos leitores. Por cada obra-prima, há uma infinidade de trabalhos correctos, que contribuem decisivamente para a consistência de uma visão global do trabalho de um determinado autor ou de um período. Alguns, sendo um recurso para tapar-buracos ao tempo em que eram publicados, hoje são vistos como fragmentos indissociáveis de uma época.

É o caso da série e do álbum que hoje aqui trazemos: Os 3 A – Os Piratas do Nevoeiro. André, Alain e Aldebert (Al, para os amigos) são três jovens escuteiros de espírito aventuroso, surgidos em 1963 nas páginas da revista Tintin belga, com desenhos de Mittéï (1932-2001) e texto de um certo M. Vaseur, pseudónimo de um nome sonante da BD, A.-P. Duchâteau (1925-2020), o argumentista de Ric Hochet, o repórter-detective.

A história, simples e movimentada, conta-se de uma penada: convidados por um armador, tio de Alain, a passar umas semanas a bordo do arrastão “Le Hardi” numa companha na costa da Islândia, são surpreendidos por um cargueiro à deriva, aparentemente sem vivalma. Alcançado o navio, deparam-se com a “Jolly Roger” hasteada – a característica bandeira dos piratas – e dão com a tripulação presa no porão. Chegados à vila piscatória de Slandag, verificam que não se fala doutra coisa, com um clima de suspeição que se abate entre os homens do mar, em especial sobre os mestres dos rebocadores, que beneficiam financeiramente com o resgate dos barcos; e para mais, o modus operandi destes piratas modernos denuncia uma violência inquietante.

Típica série “para rapazes”, como então se dizia, em não se vê uma figura feminina – muito medo das mulheres tinha a católica Bélgica; será preciso esperar pelo Maio de 68 para maior arejamento –, o argumento de Duchâteau é mais do que escorreito; mas a estrela aqui é Mittéï, desenhador em processo de revalorização, que algo estranhamente optará essencialmente pelos quadradinhos humorísticos, como o Incrível Désiré, sendo um dos vários autores que pegaram em Modeste et Pompon, após Franquin ter abandonado a revista Tintin, regressando à Spirou. Mittéï (Jean Thomas Toussaint Mariette), na altura assistente de Tibet em Ric Hochet, apresenta um trabalho empolgante, no dinamismo do desenho e nos enquadramentos das vinhetas. A edição portuguesa, já com mais de meio século, é um desgraça: má impressão e ausência de qualquer referência aos autores. Com raras excepções – como então a Verbo, a União Gráfica ou a Bertrand, orientada por Vasco Granja –, a edição de BD estava geralmente entregue aos bichos.


Os 3 A – Os Piratas do Nevoeiro

texto: M. Vaseur [A.-P. Duchâteau]

desenhos: Mittéï

edição: Editorial Íbis, Lisboa. s.d. [1970]

«Leitor de BD»

sexta-feira, 6 de março de 2020

Ric Hochet

Do melhor que a BD de puro entretenimento nos deu, pela mão da dupla A.-P. Duchâteau e Tibet. Os argumentos diabolicamente bem urdidos, o desenho único, dinâmico, como se cada imagem ganhasse movimento… Com a morte de Tibet e Duchâteau nonagenário, após quase 60 anos e perto de 80 álbuns (!), a série foi repegada por Zidrou no argumento e Van Lient, estando o primeiro álbum publicado entre nós pela Asa. Na Bélgica saiu há pouco o quarto volume, Tombé pour la France (Le Lombard). Ric Hochet, jornalista de La Raffale, com o seu blaser branco com com pintas pretas e um Porsche amarelo; o comissário Bourdon e a filha, Nadine, namorada de Ric, e ainda, por vezes, o pai deste, Richard, um elegante vigarista, que põe o filho em apuros, estão na base destes policiais magníficos.



segunda-feira, 16 de dezembro de 2019

Franquin antes de Gaston

Em 1955, Franquin estava em conflito com o editor Charles Dupuis, proprietário da revista Spirou. O autor criara já alguns dos maiores títulos da aventuras do jovem groom, como Os Herdeiros e O Roubo do Marsupilami. Na revista concorrente, Tintin, Raymond Leblanc, homem da Resistência belga que deu o braço a Hergé no pós-Guerra, torcia o nariz à circunspecção em demasia do hebdomadário, faltava-lhe humor. Estava, pois, criada a oportunidade para Franquin trabalhar na revista de Hergé e Jacobs.

Modeste et Pompon, série discreta mas importante para o desenvolvimento do percurso do seu criador, gira em torno do irascível Modesto, a namorada Pompom, contraponto de bom-senso, de Félix, um vendedor de inutilidades, além de três sobrinhos pestes -- condimentos para diversas peripécias de grande comicidade. É aqui que Franquin ensaia os esquemas insanes que depois iremos encontrar em Gaston Lagaffe, já de volta à Spirou; mas poderemos também vislumbrar algumas situações que viria a explorar nas Ideias Negras, expressão do seu lado mais sombrio.

A série foi continuada por Dino Attanasio (co-criador, com Goscinny, de Il Signor Spaghetti), Mittëi (O Incrível Désiré), entre muitos outros, com várias perninhas de alguns dos maiores autores do tempo: Peyo (Schtroumpfs), Tibet (Ric Hochet, Chick Bill), Greg (Achille Talon, Bernard Prince, Comanche), Van Hamme (História sem Heróis, XIII), Godard (Martin Milan)…

Modesto e Pompom

texto e desenhos: Franquin

edição: Asa, Porto, 2005