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quarta-feira, 19 de maio de 2021

demasiado humanos

 


Todas as civilizações têm as suas cosmogonias. No caso do Ocidente, ela é compósita e sincrética: o Génesis bíblico bebe da Mesopotâmia, quando não do Indo; os mitos de origem na Grécia Antiga têm também fonte oriental, embora o seu conhecimento escrito, através da Teogonia de Hesíodo (séc. VIII), seja anterior ao das tabuinhas em argila em escrita cuneiforme, decifrada pelos arqueólogos do século XIX. O Cristianismo, que cobriu a mitologia europeia com os seus anjos, santos e datas festivas foi menos sucedido nessa ocultação com a Grécia, por causa de Roma, sobre a qual assentou o edifício que até hoje perdura. Diga-se, porém, que muitos espíritos cultos da Antiguidade olhavam já com bonomia para estas fantasias de deuses e heróis. A religião, então como agora, era para os simples e para os místicos; mas do ponto de vista da estética e do imaginário, todo aquele panteão olímpico pejado de divindades demasiado humanas nos seus defeitos e qualidades, era maravilhosamente sugestiva para se deitar fora – de Camões a Stan Lee... Assim o entendeu Frei Bartolomeu Ferreira, o esclarecido censor dos Lusíadas, que muito se deve ter divertido ao ver os seus portugueses como povo dilecto de Vénus: Toda via como isto he Poesia & fingimento, & o Autor como poeta, não pretende mais que ornar o estilo Poetico não tiuemos por inconueniente yr esta fabula dos Deoses na obra, conhecendoa por tal, & ficando sempre salua a verdade de nossa sancta fe”. A cosmogonia grega, pois, como um dos fundamentos da nossa cultura, que deveria ser aprendida desde cedo na escola, uma utopia.

O didactismo em BD tem perigos e as adaptações requerem quem maneje a linguagem dos quadradinhos. O projecto “A Sabedoria dos Mitos” do filósofo e político Luc Ferry (Colombes, 1951), tem como guionista Clotilde Bruneau (Paris, 1987), com uma obra já vasta neste domínio. Da origem de tudo (“No início era o caos”) ao surgimento da Terra (Gaia, gerada se si própria), em cópula permanente com o Céu (Urano); da geração dos Titãs, dos Ciclopes e dos Hecatonquiros, todos aprisionados por Urano no ventre de Gaia por temor daquele, à revolta de Cronos/Saturno, castrando o pai, mas que, pelas mesmas razões devora os filhos que tem de Reia/Cibele. A este destino escapa um, graças a Reia: Zeus/Júpiter. Tornado adulto, Zeus desafia Cronos. Todos sabemos quem foi o vencedor. O como é-nos dado de forma épica.

Uma curiosidade: as primeiras pranchas, do Caos à afirmação de Cronos, estão a cargo de Dim. D (Paris, 1977), ou a BD influenciada por Turner ou Friedrich, grandes pintores pré-românticos; as pranchas seguintes, num registo necessariamente tradicional, são do italiano Federico Santagati, não por acaso um nome da Marvel.


O Nascimento dos Deuses

texto Luc Ferry, Clotilde Bruneau

desenhos: . D, Federico Sanatagati

edição: Gradiva, Lisboa, 2020

«Leitor de BD»

quarta-feira, 17 de junho de 2020

sobre o mal

Umbra”, palavra latina para “sombra”, traz consigo todos os transtornos: os segredos inconfessáveis, a clausura, a morte. Digamos então que Umbra é uma publicação de banda desenhada sobre a persistência do mal, em nós e nos outros – e que bem ele se nos apresenta: predação, conspirações, ganância, parafilias, abusos, de tudo há nestas cinco-estórias-cinco de BD em português. Uma cabeça de ursinho Rupert, na capa magnificamente umbrosa, diz tudo.

Estrada da Coca-Cola, de João Chambel (texto) e João Sequeira (desenhos), fábula pós-nuclear em que impera o mutismo e o isolamento. Um casal habitando uma roulote à beira duma via deserta, em que por vezes circulam presas e predadores, desespera por encontrar mais gente, mas os sinais de desumanidade são demasiados para um final feliz. O preto e branco de João Sequeira serve esta narrativa porosa em que a escuridão predomina.

Óscar, sigla de mensagem de radioamador – ‘o chat dos anos setenta’ – e alcunha da personagem desta história, com argumento de Pedro Moura e desenhos de Filipe Abranches. Contactado na banca da arrecadação, onde tentava arrumar tralha antiga, por um amigo desse tempo, desaparecido havia muito. Óscar percebe que aquele que agora lhe surge do nada, inesperadamente, como se engolido e materializado em frequências electromagnéticas. Óscar empreendeu o registo dessa voz que lhe vinha de outras bandas; porém, o homem põe e há sempre alguém a dispor...

Herbicida, também de Pedro Moura e desenhos de Sérgio Sequeira, estica até ao horror as consequência da manipulação genética no reino vegetal. O estilo manga de Sequeira enquadra na perfeição o argumento. Das cinco, é a única narrativa que não se afunda no pessimismo.

Carne, de José Carlos Joaquim, Pedro Moura e Hugo Maciel, traz-nos um loquaz psicopata esquartejador de mulheres. Tudo correcto, mas talvez pelo tema batido, foi a que menos nos agradou. No entanto, uma bela subversão daquele verso de Camões, “Transforma-se o amador na cousa amada”...

Finalmente, Zodíaco, do brasileiro (Eduardo Filipe) Sama, é uma feliz combinação de sobrenatural e atmosfera negra, por onde vagueia um jornalista despromovido para secção do horóscopo. Há o patrão e a mulher dele, ou cá se fazem, cá se pagam – ou não?

Para revista falta à Umbra um pouco mais – e não é só o índice inexistente. Um editorial a dizer ao que vem, não estaria mal; umas notas sobre os autores, também não; e se se quer ser revista, há que rever, um artigo outro não era mal pensado. Falta tudo isso, e é pena. Esperemos que o n.º 2 possa colmatar estas lacunas, até porque quando se fizer um balanço das revistas de BD numa qualquer data redonda deste século, a Umbra terá de lá estar.

Umbra #1
Vário autores
edição: Umbra Edições, Outubro 2019


terça-feira, 6 de agosto de 2019

José Ruy, A ILHA DO CORVO QUE VENCEU OS PIRATAS (2018): croudwriting

Quando atravessamos talvez o melhor momento de sempre da BD portuguesa, pela profusão e qualidade de desenhadores e argumentistas, é de elementar justiça lembrar aqui o último abencerragem dos tempos heróicos das histórias aos quadradinhos nacionais: José Ruy (Amadora, 1930), das páginas de O Papagaio, O Mosquito, Cavaleiro Andante, Tintin, Spirou – até hoje. Apaixonado pela História e pela sua divulgação, não por acaso, a principal personagem que criou é o navegador Porto Bomvento, a singrar pelos cinco cantos do globo; e dois dos seus trabalhos mais marcantes resultem das adaptações em banda desenhada da Peregrinação, de Fernão Mendes Pinto e Os Lusíadas, de Luís de Camões, a que podemos acrescentar as muitas monografias sobre cidades e vilas do país, sem esquecer as várias biografias, de Charles Chaplin a Dimitrov, reveladoras desse interesse. No campo humorístico, o artista deu o seu contributo na que foi talvez a melhor revista que por cá se publicou, o semanário Tintin. Quem lhe percorreu as páginas, decerto não esquece a dupla de repórteres Clique e Flash deambulando pela redacção do hebdomadário, caricaturando com imensa graça quem a produzia semanalmente, em especial Dinis Machado e Vasco Granja, que nela tiveram influência decisiva.
Se o crowdfunding é uma prática normalizada pela comunicação das redes sociais, com A Ilha do Corvo que Venceu os Piratas (Âncora Editora, 2018), José Ruy tornou-se pioneiro do que poderemos chamar croudwriting, uma vez que a narrativa teve a participação activa dos corvinos, na composição deste relato de história antiga. No século XVII, aquela população isolada fez frente, com êxito, a um ataque duma frota de dez embarcações de piratas barbarescos – assim eram chamados os salteadores marítimos baseados em Argel e em Túnis –, que frequentemente empreendiam razias nas ilhas e no continente, em especial no Algarve, saqueando e fazendo cativos, vendidos nos mercados de escravos do Norte de África.
A narrativa parece seguir de perto as fontes documentais de que o autor lançou mão, por vezes com excesso de didactismo. Trata-se, porém, duma BD clássica de autor histórico, que à História e aos clássicos consagrou uma boa parte do seu labor.  O traço ágil de José Ruy conserva-se inalterado. As vinhetas iniciais da primeira prancha são esplêndidas em movimento e cor, dando em cheio a solidão da pequena ilha, exposta à inconstância dos elementos naturais no meio do Atlântico, e o insulamento daquela população entregue a si própria e a Deus, apenas lembrada pelo donatário, quando este exigia o tributo anual. (Âncora Editora, Lisboa, 2018)