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terça-feira, 10 de novembro de 2020

um ícone gaúcho


 

O local encerra o universal. Jorge Amado, o mais universal dos escritores em língua portuguesa, fez com que a Baía e o seu povo fossem apreciados por leitores de todos os azimutes, um marinheiro de Sebastopol, um surfista de Queensland ou uma secretária de Turim, por exemplo. Quando pegamos numa personagem como Macanudo Taurino Fagunde, gaúcho da campanha, com um rebenque (chibata de couro) numa mão e uma cuia com chimarrão na outra e largo poncho vestido, podemos experimentar dificuldades numa primeira leitura. Mas não será por isso, com um dicionário à beira de um clique, que nos afastará desta personagem hilariante, num português brasileiro contagiado por castelhanismos.

Neltair Rebés Abreu (Santiago, 1950), adoptou como nome artístico o topónimo da cidade natal, perto da fronteira com a Argentina. Criado em 1976 e publicado pelo jornal Folha da Tarde, de Porto Alegre, como comentário à actualidade, o Macanudo mostra de onde vem, não apenas pela indumentária como pela aparência, inspirado na figura do grande folclorista gaúcho Paixão Côrtes e pelos conhecidos e familiares do autor: um tio característico, uma reminiscência de infância ou uma personagem popular. Daí que a abordagem de Santiago a Macanudo e companhia pelo humor seja benévola, mesmo quando crítica. Taurino é um anti-herói boa praça nado e criado por entre o gado (o Brasil é o maior produtor mundial de bovinos), simplório, inculto, terra-a-terra, tradicionalista pouco afeito a modernices. Pode sair da pampa mas a pampa não sai dele… Com um traço ágil, lembrando o de Augusto Cid, Santiago retrata a sua criatura com profunda empatia, pois, no fundo, está a falar dos seus, da sua gente. Se o humor nesta colectânea de tiras e cartoons é distendido e bonacheirão, subjaz-lhe também uma subtil crítica aos poderes instituídos, em especial o militar. Recorde-se que uma parte deste trabalho foi elaborado durante os 21 anos de ditadura (1964-1985). E depois há a miséria, a desigualdade, e o desinteresse, a invisibilidade da pobreza demasiado presente. João Cabral de Melo Neto lembrou que na década de 1940 as senhoras do Recife faziam camisolinhas para a Índia, quando a esperança média de vida ali era superior à de Pernambuco.

Dois cartoons em páginas contíguas demonstram diferentes maneiras de fazer humor com o problema da terra e dos latifúndios: uma família “favelada”, esquálida, é rodeada por um agrário, capangas, armamento ligeiro e pesado, justificando-se ao atarantado delegado que estava a sentir-se ameaçado – um registo muito à Quino, aqui fica a homenagem. Na página ao lado, o latifundiário tem quase uma apoplexia quando ouve o papagaio palrar “reforma agrária”, indignado com a “bandalheira” que haviam ensinado ao bicho, enquanto o Macanudo faz cara de anjo. É deste equilíbrio, entre o estereótipo e o humor mais crítico, que Santiago torna o seu Macanudo Taurino Fagunde um boneco com especial relevo.


O Melhor do Macanudo Taurino

texto e desenhos: Santiago

edição L&PM, Porto Alegre, 1997

«Leitor de BD», jornal i

segunda-feira, 27 de abril de 2020

as tiras da fome

Deus assinou por baixo: o Brasil é mesmo um país abençoado. Só assim se explica a Amazónia, a bossa nova, o risco de Brasília, a escrita de Guimarães Rosa, a poesia de Bandeira, Cecília e Drummond, a grande escrita de Gilberto Freyre, o Samba da Bênção e o Clube da Esquina, os quadrinhos de Ziraldo, as Bachianas Brasileiras, Senna e Pelé...
Mas como a todo o céu corresponde um inferno, a contrapartida é uma mentalidade pós-senhorial de raiz escravocrata e racista, a superstição em todos os estratos sociais, a rapacidade das seitas religiosas, a violência das cidades, a pobreza endémica e um coronelismo boçal. Então o país ergue-se da lama com os romances de Jorge Amado, os retirantes de Portinari, o cinema de Glauber Rocha, a música e as letras de Chico Buarque, a Teologia da Libertação, os resistentes – de Chico Mendes a Lula. O Brasil esteve e voltou a estar situado na área da geografia da fome. E o autor do livro de hoje desde cedo teve noção de como o paraíso provável tantas vezes não passa de um purgatório desencantado.
Edgar Vasques (Porto Alegre, 1949), arquitecto de formação, é um dos grandes autores de quadrinhos do país. Vindo de uma família bem instalada do estado do Rio Grande do Sul, foi no caminho diário para a faculdade, no início da década de 1970, que, tomando contacto com o miserê, levou em cheio com a discrepância entre a propaganda do regime de ditadura militar e a crua realidade da rua.
Depois desta bofetada, como tinha coisas a dizer, criou Rango para uma revista universitária nome que, na gíria, significa refeição, ou comida. Mas o estômago de Rango, indigente que vive numa lixeira, com o filho, os vizinhos do desvalimento, os cães vira-latas, os ratos, as moscas – o estômago dá horas, a toda a hora. O seu humor é tão fino e certeiro, que a estreia em livro, em 1974, foi entusiasticamente prefaciada por Erico Veríssimo.
É preciso ter uma ponta de génio para pegar num tema tão pesado quanto o é o da fome e da miséria extrema e fazer o leitor sorrir e pensar. Exímio no jogo de palavras, subverte as expressões consagradas pelo lugar-comum e as locuções populares, desmontando a retórica do grupo dominante, e fustiga nas suas tiras, sem contemplações, a condição (des)humana sofrida por tantos na sociedade brasileira, invisíveis para os Chicago boys e apaniguados. Alguns disparos: o país com milhões de miseráveis sem nenhum Victor Hugo; do país do futuro à terra do nunca, em que tudo é caro, excepto a violência, que é gratuita; Ayrton Senna, alegria do Brasil, que após o acidente fatal com o fórmula 1 em desgoverno se tornou na alegoria do Brasil; o monopólio, ou seja, o poder que tende a transformar os homens em macacos paralíticos, “como o nome indica”; o social-democrata, um tipo que fez sociedade com o demo; da necessidade do spa ao contrário, o que engorda pobre; a economia de mercado para os que podem, e de marcado, para os que não...

O Génio Gabiru
texto de desenhos: Edgar Vasques
edição: L&PM, Porto Alegre, 1998