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quarta-feira, 22 de julho de 2020

Viva a cultura

A Sesta, de Almada Negreiros, 1939

Cultura e Civilização

Uma mesa cheia de feijões.
O gesto de os juntar num montão único. E o gesto de os separar, um por um, do dito montão.
O primeiro gesto é bem mais simples e pede menos tempo que o segundo.
Se em vez da mesa fosse um território, em lugar de feijões estariam pessoas. Juntar todas as pessoas num montão único é trabalho menos complicado do que o de personalizar cada uma delas.
O primeiro gesto, o de reunir, aunar, tornar uno, todas as pessoas de um mesmo território é o processo da CIVILIZAÇÃO.
O segundo gesto, o de personalizar cada ser que pertence a uma civilização é o processo da CULTURA.
É mais difícil a passagem da civilização para a cultura do que a formação de civilização.
A civilização é um fenómeno colectivo.
A cultura é um fenómeno individual.
Não há cultura sem civilização, nem civilização que perdure sem cultura.

Almada Negreiros, in "Ensaios"


sábado, 11 de julho de 2020

Leituras breves ...

A EXPLICAÇÃO

O frade dominicano Antonio de la Huerte escreveu em 1547, a propósito das estranhezas da América: " Dir se ia que no dia da sua criação, ao Senhor tremia um pouco o pulso "
Eduardo Galeano

segunda-feira, 11 de abril de 2016

leituras breves, "foi difícil, porque o sono tinha muita força"

“Um dia, à meia-noite, ele viu-a. Era a estrela mais gira do céu, muito viva, e a essa hora passava mesmo por cima da torre. Como é que a não tinham roubado? Ele próprio, Pedro, que era um miúdo, se a quisesse empalmar, era só deitar-lhe a mão. Na realidade, não sabia bem para quê. Era bonita, no céu preto, gostava de a ter. Talvez depois a pusesse no quarto, talvez a trouxesse ao peito. E daí, se calhar, talvez a viesse a dar à mãe para enfeitar o cabelo… Devia-lhe ficar bem, no cabelo. De modo que, nessa noite, não aguentou. Meteu-se na cama como todos os dias, a mãe levou a luz, mas ele não dormiu. Foi difícil, porque o sono tinha muita força. Teve mesmo de se sentar na cama, sacudir a cabeça muitas vezes a dizer-lhe que não. E quando calculou que o pai e a mãe já dormiam, abriu a janela devagar e saltou para a rua. A janela era baixa. Mas mesmo que não fosse. Com sete anos, ele estava treinado a subir às oliveiras quando era o tempo dos ninhos, para ver os ovos ou aqueles bichos pelados, bem feios, com o bico enorme, muito aberto. E se não era o tempo dos ninhos, andava à solta pela serra, saltava os barrancos e jogava mesmo, quando preciso, à porrada como um homem. Assim que se viu na rua, desatou a correr pela aldeia fora até à torre, porque o medo vinha a correr também atrás dele. Mas como ia descalço, ele corria mais. A igreja ficava no cimo da aldeia e a aldeia ficava no cimo de um monte. De modo que era tudo a subir. Mas conseguiu – e agora estava ali. Olhou a estrela para ganhar coragem, ela brilhava, muito quieta, como se estivesse à sua espera….”
In, Vergílio Ferreira, A Estrela.

Tirado da revista online iSleep, dirigida pela médica do sono,  Dr.ª Teresa Paiva
Pintura de V. Van Gogoh, "A Noite Estrelada", feita aos 37 anos enquanto estava num hospício.

    quinta-feira, 29 de maio de 2014

    Miau....


    O homem gostaria de ser peixe ou pássaro, a serpente gostaria de ter asas, o cão é um leão confuso...
    Mas o gato quer ser somente gato,
    e todo gato é um puro gato
    desde o bigode ao rabo


    Pablo Neruda

    sábado, 15 de fevereiro de 2014

    Leituras breves... e o fim de semana possível

    Teresinha Rosa já passava dos sessenta quando a vida lhe armou um campo de batalha e ela tomou o gosto ao pelejar.   Atravessara até então os tempos - primaveras rosadas, invernias, sufocações de verão, tremores de outono - em perfeita harmonia com as coisas, como um madeiro a passear-se na corrente, abandonado às águas, prazenteiro, divertindo-de até com algumas topadas em bicos de rochedo. Era uma dessas raras culturas capazes de encontrar num ninho ou num rebento motivo para horas, dias, meses de uma incompreensível alegria. E mesmo nos desgostos carregava um tal deslumbramento no olhar; uma tal inocência e um tal espanto surgiam por detrás do véu das lágrimas que todos comentavam com inveja - alguns em confusão de escândalo e piedade - o quão eram felizes os pobres de espírito, coincidentes, por subtis desígnios, com os pobres do corpo, as mais das vezes....
    Nunca foi bela. Mas trazia em si um excesso de vida, um dom animador que entrava pelas veias e a fazia necessária como um vinho, um discreto vapor euforizante.   As visitas da casa ansiavam, mudamente, por que fosse Teresinha a abrir-lhes a porta e a reconduzi-la à saída.


    quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

    O Espantalho da "Praxe" Coimbrã.... Leituras breves

    Das últimas páginas do livro:
    «[...] Quer-me parecer que a praxe, constituindo um fim em si mesma e apelidada fraudulentamente de tradição por aqueles que confundem a antiguidade dum objecto com o seu caruncho e com a sua ferrugem, é a grande responsável por este estado de coisas. [...]
    Eu e todos os que pensam como eu queremos ser divertidos, mas não queremos que nos obriguem a sê-lo; defendemos a graça, mas não a graça violentada; desejamos a alegria, mas quando é a alegria para todos, não bruteza e grosseria para uns e humilhação para outros; somos pela irreverência, pela reinação, pela piada, por isso não as queremos matar com regulamentos. E achamos que troçar os alunos do primeiro ano, simplesmente por serem do primeiro ano, que ofendê-los cobardemente sem lhes permitir defenderem-se está mal, mesmo que se fizesse em todas as universidades do mundo, mesmo que viesse dito nas Escrituras. [...]»

    Livro datado de 1958

    Fonte, FRENESI LOJA

    domingo, 3 de novembro de 2013

    Ontem, escrito na pedra... Bom domingo


    "Em Portugal, as pessoas são imbecis ou por vocação, ou por coação, ou por devoção"...


    Miguel Torga  , jornal Público de 2/11/2013

    quinta-feira, 24 de outubro de 2013

    leituras breves no dia de hoje...

    "Tenho muitas vezes a sensação de não pertença. Percebo de que de facto só pertenço aos meus pensamentos. 
    Pertencemos aos nossos pensamentos. Para escaparmos do que somos temos de pensar de outra maneira, mas não temos controle em muito do que pensamos. Estamos condenados ao que somos capazes de pensar.

    E só não digo que somos os nossos pensamentos porque também existe o corpo. O corpo também nos individualiza. E parece existir de forma independente do pensamento. Autónomo. É misteriosa a forma como corpo e pensamento se entendem ou desentendem, como convivem ou negoceiam. Também pertencemos ao nosso corpo. "

    Excerto de conto de Dulce Maria Cardoso, EM BUSCA D´EUS DESCONHECIDOS, in revista Granta, nº1, pág. 18

    A Sesta, de Van gogh

    terça-feira, 8 de outubro de 2013

    "a condição de português assemelha-se... " 8 de outubro de 1965

    Um postal de Cardiff do querido Alexandre Pinheiro Torres que realizou finalmente o seu sonho de se libertar deste colete-de-forças que lhe deram por pátria.
    O pior é que, a estas horas, já deve estar a vomitar fel e saudades...
    A condição de português assemelha-se muito à do escaravelho, agarrado à bola da própria merda espiritual. ( O espírito também excrementa.)

    de José Gomes Ferreira, em Passos Efémeros, Dias Comuns - 1

    Fotografia tirada no Paredão do Estoril em Junho, ARTEMAR

    terça-feira, 1 de outubro de 2013

    "AMOR ESCREVE-SE COM ÁGUA" ... Vai um gin tónico?



    Querida

    Acabo de receber a carta que me enviaste pelo cabo submarino. Vinha um pouco húmida, mas dada a enorme distância líquida que nos separa, é perfeitamente compreensível.
    Senti-me contente por te saber bem, assim como os pequenos, nessa calma profunda e silenciosa de que tanta saudade tenho.

    ... ... ...

    Creio que esta parte do continente em breve começará a oscilar, a desaparecer nas águas, o que marcará o verdadeiro início do Grande Salto para o Fundo.
    ... ... ...
    Segundo informações concretas que aqui obtive, fiquei a saber que as Brigadas de Choque dos tubarões-martelo estão já a concentrar-se nas zonas previstas. Isto, por enquanto, é segredo rigoroso como calculas, claro.
    ... ... ...

    Apenas temos de lamentar certos golfinhos que se tornaram colaboracionistas, o que nos obrigou a expulsá-los. Felizmente são apenas casos esporádicos, talvez até recuperáveis.
    Como vês, estamos realmente trabalhando para um futuro em que os povos de todos os mares possam vir a ter uma vida livre e digna.

    ... ... ...
    Águas transparentes para ti, meu amor
                     do teu

                    Estêvão

    De Mário-Henrique Leiria, em Novos Contos do Gin   , excertos