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sábado, 5 de janeiro de 2019

Para um dia como outro qualquer ... Hoje e sempre, as crianças

                                                                                                                           
As crianças são o Tempo de Haver .
Sua presença no mundo é de gritos e protesto. Mas, às vezes, adaptam-se e isso implica uma luta quase heróica e anónima que a maior parte ignora.
Alimentam os dias dos homens, mas elas próprias são o espelho da solidão.
Em ses olhos enormes e grandes, uma criança contempla o mundo e não o entende. Ouve palavras e as palavras são flechas que lhe perturbam o sonho em que se refugia para sobreviver.
Tudo nelas é inicial e puro: o riso e a violência, o sonho e as lágrimas.
Projectadas para o alto, são estrelas cadentes.

...
Uma criança espera, no mundo.
E que o mundo lhe devolva a esperança para sempre.
Que os homens, por um segundo em cada dia, suspendam seus deveres mais urgentes e pense na criança que espera. 
E lhe garantam a Paz.
E lutem pelo seu bem estar
E se envergonhem de ainda haver, sobre a abundância desnecessária de tantos, a sombra de milhares de crianças que sucubem da fome e da doença sem um vislumbre de ternura ou solução.
Que nós nos envergonhemos.
E que a dor não seja, nunca mais, como a solidão, uma palavra nos seus dias.
Que a CRIANÇA sorria ao mundo.
Que o mundo lhe conserve o sorriso.
Hoje. E para sempre.
   
De Matilde Rosa Araújo, Crónicas
O Tempo e Voz
Edição ITAU, s/d

Do livro da mesma autora, recolha de textos e poemas dos nossos queridos escritores e poetas de meados do séc. XX, A INFÂNCIA LEMBRADA,
Livros Horizonte, 1986


Um livro a que regresso sempre que me apetece sentir o amor ou desamor da vida de homens e mulheres que relembram a sua infância e relação com a Mãe. 

Como a vida não muda para tantas e tantas crianças no mundo. Matilde, era uma referência para nos professores do 1º ciclo. Ainda guardo um pequeno livro, comprado no ITAU, no Campo Grande, Infância Perdida.


Imagem de crianças jamaicanas 

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

O sofrimento que atravessa dolorosamente os nossos dias...

Hoje o tema da Antena 1 tem sido dedicado `a ansiedade e depressão entre crianças e jovens...
Pela manhã. os testemunhos  de pessoas ligadas à Sociedade de Saúde Mental impressionaram-me. Eu que vivi profissionalmente  30 anos entre crianças, tive vivências dolorosas, mas felizmente em quantidade limitada. Problemas em família e sociedade, sempre os houve. 
Hoje , veio-me mais uma vez á memória,  a lembrança do pedopsiquiatra  Professor Doutor João dos Santos e da sua Casa da Praia, que em 2013, completaria 100 anos e cuja exposição visitei na Biblioteca Nacional. 
Para mim, as suas conversas nos anos 80 na Antena 1 com João Sousa Monteiro e o suplemento do JL, Jornal da Educação , eram homilias semanais e quinzenais. 
Também, duas semanas seguidas, o P2, publicou dois interessantes textos saídos na revista Time, de alguém que odeia sofrer de "ansiedade" e da afetação da mesma  em casos agudos e hereditários que tal doença provoca.. Espantei. 
Vou deixar o último artigo AQUI convosco e também a lembrança de João dos Santos, AQUI.

(o Jornal Público não me deu acesso ao link... Pena)...

Pintura de Sarah Affonso, "As Meninas"

domingo, 22 de dezembro de 2013

Ainda o mar... mas mais calmo...

 Ainda a propósito de coisas do mar, quando o meu filho era pequeno e sentido os perigos "da besta", dizia-me:- Ó mãe, eu quero um mar pequenino , só para mim, para eu brincar...
Fotografia de Pedro Cruz
Pintura de Carl Larson, pintor sueco, 1885

segunda-feira, 15 de abril de 2013

Uma Criança Disse...

Uma criança disse: "Quando eu crescer, vou cortar as flores grandes para não haver vento".
Largas crianças amarelas nos parques podres. Amarelas como os inquilinos das luzes. Como os lugares culpados da maior existência de Deus.
As crianças tremem com a mão dentro do movimento.

Uma criança disse:"Um anjo é uma gaivota"
"Um anjo é um homem como os outros: o que é, tem asas."
E outras: "Um anjo é um pássaro cantador."
"Um anjo é uma andorinha. Tem uma coroa."
"Um anjo é um homem que tem o sol pendurado atrás da cabeça."
E uma outra sonhou que tinha engolido o sol.

Crianças trespassadas pela sua própria exatidão.

....
De Herberto Hélder, in A infância lembrada, de Matilde Rosa Araújo
Desenho de Shara Affonso