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terça-feira, 18 de agosto de 2020

Morrer desidratado ...

Quanto aos lares, espero que este macabro episódio (que, como escreveu o Henrique Raposo, mobilizou menos indignação do que a tragédia de Santo Tirso) tenha pelo menos servido para deixar claro que o isolamento dos velhos nos lares é um crime. Morrer velho por causa de uma pandemia é, desde que às vitimas tenha sido dado o direito de escolha lúcida e informada, uma tragédia. Mas faz parte das tragédias humanas. Morrer abandonado e desidratado é uma inaceitável crueldade. Todos acabaremos por morrer, mas as mortes não são todas iguais. Pelo menos no que dizem da sociedade em vivemos.


Excerto de crónica  de Daniel de Oliveira, Expresso Diário de hoje, a propósito da morte de 18 idosos num lar no Alentejo.

terça-feira, 4 de agosto de 2020

“Os Sete Pilares da Sabedoria”, de T.E. Lawrence. Há uns versos no fim.

“Não a luz que se extinguiu para nós, nem as acções que passaram,
Nem os dias de outrora,
Nem as tristezas não tristes, nem o rosto mais justo
De enaltecimento perfeito”

terça-feira, 2 de junho de 2020

“- Não te preocupes. Eu tenho trissomia 21, não tenho Covid.”

Que ninguém se sinta obrigado, mas leiam. "Diários da Peste", de Gonçalo M. Tavares, é do melhor que por aí há de leitura, no Expresso Diário.

Diário da Peste
1 de Junho
É evidente: quem respira está a resistir.
Uma ilegalidade, quase um crime.
Uma pedra, por exemplo, aceita a imobilidade de forma pacata.
Uma praticamente cidadã exemplar.
"Trump refere-se a tumultos como um "crime contra Deus" e ameaça chamar as Forças Armadas para as ruas".
Flexão ou extensão: o corpo expande-se ou esconde-se.
Nenhum humano tem sempre o mesmo tamanho.
Cidade vasta, feita de muitas coisas; umas paradas e sem pulmões.
Outras cheias de pulmões e palavras.
"Trump sai da igreja e posa para as câmaras com uma Bíblia na mão".
Detidos vários, montras partidas e assaltos; violência e protestos.
Este verso de Paul Bowles:
“The final rain kills the remaining trees”.
Ir para a chuva final com a Bíblia na mão.
Travar a chuva e os confrontos com a Bíblia e muito gás lacrimogéneo.
Se não vai a bem, vai a mal. Palavras, balas ou gás.
Em vez de fazer ver os cegos, tapar por um tempo o necessário movimento dos olhos.
Gás lacrimogéneo e balas de borracha: um gás que quase cega e uma bala que quase mata.
Trevor Noah fala da quebra de contrato entre a sociedade americana e os negros. Nina Simone canta I Got Life.
“Não tenho casa, não tenho sapatos Não tenho dinheiro, não tenho classe Não tenho saias, não tenho casacos Não tenho perfume, não tenho amor Não tenho fé”.
A fé, sempre. Bíblia de um lado, música e dança também.
Ouvi pela primeira vez esta música no filme Hair.
Não tinha idade para ver.
No cinema não me queriam deixar entrar porque umas mamas apareciam no meio da marijuana.
No meio da marijuana e da música.
A maturidade específica dos olhos, uma ideia a estudar.
Respondi que só tinha ouvidos e olfacto; visão quase nada, quase lusco-fusco. Deixaram-me entrar.
Uma amiga, 1 de Junho de 2020.
Trabalha com pessoas com dificuldades mentais. Mensagem:
“Hoje foi o recomeço com os alunos. Não nos víamos há dois meses.”
“Muitos olhos tristes. Muitos a controlar a vontade de nos abraçarem. Hoje foi um dia difícil.”
Nina Simone:
“Tenho o meu cabelo, tenho a minha cabeça Tenho o meu cérebro, tenho as minhas orelhas Tenho os meus olhos, tenho o meu nariz Tenho a minha boca.” Depois a minha amiga contou ainda:
“Um dos meus alunos (25 anos) chegou perto de mim e disse:
- Queres ir ali atrás?
- Fazer o quê? Perguntou ela.
- Quero dar-te um beijinho sem ninguém ver.”
Ela explicou-lhe que não podiam quebrar esse tipo de regras.
“- Não te preocupes. Eu tenho trissomia 21, não tenho Covid.”
Foi isso que ele disse. Tem 25 anos. Tem trissomia 21, não tem Covid.
Há problemas que vêm com a tosse e com o vento, e há problemas que vêm de trás.
Nina Simone canta e o número de mortes continua a descer em Itália e Espanha.
Os tempos são quase felizes, os tempos são quase tristes.

terça-feira, 19 de maio de 2020

"os países são como as camas. Existem muito antes de, sobre eles, se estenderem lençóis "

  A cama e o como


 Recordo a  minha mãe, logo pela manhã, chamando-me para ajudar a « fazer a cama ». E lembro a minha estranheza:
   - Fazer a cama? Mas ela já não está feita?
    Para a minha mãe era bem claro: uma cama só existia se nela estivessem bem estendidos os lençóis e as cobertas. Até então a cama estava «desfeita». Não existia . E o resto era conversa de um filho preguiçoso. 
   Ainda hoje mantenho a mesma estranheza. Porque a expressão «fazer a cama» esconde algo que é essencial. Por debaixo da colcha é que está a verdade da cama. Por debaixo da aparência, está a obra de um anónimo carpinteiro ou de um desconhecido serralheiro. A linguagem  tem muitas vezes esse poder: mostra a construção e esconde a mão do construtor.
   Este encobrimento é comum. Contudo, no caso da cama, essa ocultação é mais do que injusta.  Porque nenhum outro objecto nos acompanha tanto e por tão longo tempo. Nascemos e morremos quase sempre sobre um leito. Grande parte da nossa vida é passada sobre uma cama. Apesar disso, não damos conta da sua existência . A sua presença só se adivinha pelo ranger da tábua, pelo chiar da mola ou pelo desconforto do colchão. A cama é como o nosso próprio corpo. Só
o sentimos quando nos dói.

Excerto de um conto de Mia Couto do livro , o universo num grão de areia

sexta-feira, 24 de abril de 2020


Duas sombras têm acompanhado a minha vida e estão aqui a meu lado... Minha mãe gastou-se a sonhar, só nervos e paixão; viu cair por terra todos os seus sonhos - e teimou em sonhar, atrevendo-se contra todo o universo! A realidade temerosa afastou-a sempre de si. Venceu-a. Deu-nos vida a todos. Alimentou'nos do mesmo sonho que a devorou até final, sem medo da morte, como se a morte fosse a continuação natural da vida. Foi dela que herdei a sensibilidade e o amor pelas árvores, pela água, e dela herdei também o sonho...
...
Raul Brandão, Memorias

Pintura de Joaquim Reis

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2020

Nem tudo o vento levou . . .

Excerto de crónica de Manuel Loff, no Público de hoje



MAL: "Estancamos diante do mal. E para mim é bem verdade que me sinto um pouco como esse Santo Agostinho que, antes da sua conversão ao Cristianismo, dizia: 'Procurava donde vinha o mal e não saía nunca dele'. Mas é também verdade que eu sei, como outros, o que é preciso fazer, se não para diminuir o mal, pelo menos a forma de o não aumentar." ("Atuais") 

Albert Camus
Pipper Smoker , de Paul Cézanne, 1900

terça-feira, 4 de junho de 2019

Ainda Agustina Bessa~Luís e um outro olhar...

Expresso Curto de hoje e excerto da crónica de Elisabete Miranda
"Cruzei-me pela primeira vez com a Agustina na escola secundária. Eu andava em economia e uma amiga, que tinha enveredado pelas humanísticas, intimou-me a ler a Sibila. Eu que fazia as primeiras incursões pelos existencialistas, que tinha colocado o Virgílio Ferreira no pedestal de maior escritor vivo, não estava muito disposta a ceder tempo a clássicos que outros andavam a ler por obrigação curricular. Agustina, entusiasticamente emprestada, foi ficando de lado.
Quando me resolvi a dar uma oportunidade ao livro, as páginas estavam todas sublinhadas, ora a traço fino, ora a traço duplo, conferindo uma autoridade especial às frases, marcando-me o ritmo da leitura.
Algumas eram aforismos de assimilação fácil, como:
“São os espíritos superficiais que mais creem nos êxitos retumbantes, nas formulas fáceis para vencer” ,
“Ela não chorava, o silêncio era a sua única represália”,
“A morte de um velho não inspira dor a outro velho – inspira pânico”,
“Gosto das pessoas que são incapazes de deixar de ser o que são”
Outras críticas impiedosas:
“Vinham tomadas dessa adoração romântica pelo campo, a curiosidade do rustico, a pretensão do simples, cheias desse entusiasmo de burguesas que iludem o aborrecimento querendo a aceitar a novidade, o diferente sem se lhes adaptar”
“A sua doçura para com as crianças dependia da sua imensa ansiedade de simpatia e da satisfação que sentia ao ser reclamada e preferida por elas.
Outras ainda tocantes reflexões filosóficas:
“Não a desejava, apenas todo o seu ser se adaptava a cumprir a morte. Naquela casa, ela, enferma, nada receava. Era invulnerável porque não se instruíra a ponto de compreender o medo”
“O mais veemente dos vencedores e o mendigo que se apoia num raio de sol para viver um dia mais, equivalem-se, não como valores de aptidões ou de razão, não talvez como sentido metafísico ou direito abstracto, mas pelo que em si é a atormentada continuidade do homem, o que, sem impulso, fica sob o coração, quase esperança sem nome”
Foi assim a minha iniciação à Agustina, mais tarde que cedo, admirando-lhe o estilo e sondando-lhe a profundidade, através de uma leitura guiada de quem já por lá andara.
Ontem à tarde liguei à minha amiga para lhe dizer que ainda tenho o livro comigo. “Tchiiii… tens esse livro desde 93?”. “Não sabes fazer contas”. “Mas, afinal, leste-o?” “Li, e se calhar está na hora de to devolver”. “Não faz mal, tenho outro (…) E porquê agora? Assim como assim ela não morreu”.

quarta-feira, 6 de junho de 2018

"Monoral" e "Binaural", afinal o que é ? Conversas de João Oliva...

Uma boca dois ouvidos


   "Monoral" e "binaural" bem podiam ser duas palavras para traduzir características anatómicas com que a Natureza brindou, generosa e generalizadamente, as espécies animais e, particularmente, a humana. Mas a primeira, que o autor saiba,não existe, ainda que a segunda, apesar da sua escassa utilização, esteja dicionarizada e se refira, de facto e de forma genérica, à existência de dois ouvidos e, em particular, a técnicas a ela relativas.
   A sua utilização nestas páginas terá, porém, outro significado, embora ainda relacionado com a audição. É que Binaural é também o nome da Associação Cultural, pólo desconcentrado de artes e ideias, que irradia a sua actividade a partir da aldeia de Nodar, no concelho de São Pedro do Sul, distinguida com o prémio Miguel Portea 2013, a propósito do qual o respectivo júri salientou "a qualidade e rigor e a exigência da experimentação de novas linguagens artísticas com um contexto do interior do país, esquecido pelos roteiros habituais das manifestações culturais em Portugal".
   E a relação com os" dois ouvidos" resulta do facto de o seu trabalho de uma década se centrar, embora sem exclusividade, na investigação, criação e divulgação de artes sonoras, uma prática com pouco exercício neste oeste europeu; embora já algum, como se reconhece - a mero título de exemplo e a propósito do simpósio internacional InvisiblesPlaces/ Souding Cities e dos Jardins Efémeros de 2014 e que se integrou - na investigação de Raquel de Castro e no trabalho de terreno de Luís Antero.
  De facto, se a proximidade do espaço rural com a Natureza permite uma depuração das paisagens de som que é indispensável à sua (re)consideração e interpretação, também um desconcentrado horizonte de reflexão evita ruídos, desta vez mentais, que ensurdecedoramente  povoam os media e as modas ( não os modos) de criação artística, sobretudo no que diz respeito às artes contemporâneas experimentais.


Excerto do livro de João Oliva, Artes e ideias da desconcentração
PRÁTICAS CULTURAIS DE OUTROS CENTROS

E, desta, acrescento eu, mesmo da região centro.

Binaural - literalmente significa "possuindo ou sendo relacionado às duas orelhas".
audição binaural, juntamente com a filtragem de frequências, permite aos animais determinar a direção da origem dos sons. É uma técnica de gravação e reprodução sonora bastante interessante, pois, com apenas dois microfones, é possível criar o efeito de som ambiente. Alguns áudios binaurais também são usados em terapias; tais áudios têm o poder para acessar em uma certa frequência o subconsciente humano, podendo alterar coisas no corpo como a liberação de endorfina, também usados para meditação. Para a gravação são colocados dois microfones acoplados à cabeça de um manequim ("dummy head"). Os microfones devem ser colocados na posição das orelhas. A banda Pink Floyd tem um álbum gravado com essa técnica, The Final Cut, bem como a banda Pearl Jam, que gravou um álbum utilizando esta técnica e o batizou com o próprio nome da técnica, Binaura

sexta-feira, 20 de abril de 2018

Dia Mundial do Livro quase aí, mas já há festejos ....

   No âmbito do Dia Mundial do Livro que se festeja dia 23, deixo AQUI um apontamento da razão da sua existência. Coisa recente...
   Resolvi entrar na festa,  partilhando o livro que ando a ler . Apresentações para quê ? O autor é cá da casa, entenda-se o espaço dos livros...
   Tinha registado a dissertação sobre a cor da cidade de Lisboa, na página 15, a qual também tinha e tenho por hábito de chamar "cidade branca", por três razões :
1ª. porque gosto do branco. 
2ª por influencia do filme , como refere MdeC.
3ª por ternura pela cidade que realmente de "branca" tem pouco. 

Passo a transcrever o que tão bem o escritor descodifica, o homem que também me fez aprender a cor "magenta", através da leitura do seu livro, "A Sala Magenta". Cor de que parece muito gostar.

"Quanto à cor de Lisboa, de tons sempre variáveis com o fluir das estações e os caprichos dos sóis e das atmosferas, disponho-me a jurar e a declarar notarialmente que branca não é. Basta subir-se ao miradouro da Senhora do Monte, ali a S. Gens, ou ao terraço do Hotel Sheraton, ou àquele enorme edifício azul que fecha a alameda dom Afonso Henriques nos altos da Barão de Sabrosa, ou mesmo ao humilde convés dum cacilheiro, para poder verificar que a cidade, descontando o grená rugoso dos telhados, varia entre os rosas-suaves, os verdes esbatidos, os amarelos-doces, em milhentas tonalidades que não fazem mal à vista. Lá terá as suas brancuras aqui e além, mas estão preciosamente colocadas, para compor o todo.
   Mas isto dos gostos e de cores, parece que não é para discutir. Já foi, mas agora não é para discutir.

...

O que importa asseverar por agora é que,  ainda que a cor magenta não venha nos dicionários, o que quase a candidata à inexistência, lançada naquela rua, desmerece tanta gritaria e intolerância

Sempre gostei de Lisboa. Uma aprendizagem com o tempo e as circunstancias. Não sou lisboeta, mas quase... De cá para lá e de lá para cá, Lisboa/Cascais, mais a itinerância da vida de professora. E foi a atravessar o Tejo, de cacilheiro, durante quatro anos, e que a partir de Maio eu já me bronzeava e olhava apaixonadamente a partir do exterior do barco, a cidade, o Castelo de S.Jorge. Um enamoramento que por ironia do destino ou dos concursos,  atirou comigo e em boa hora , para a escola da freguesia do Castelo, para uma escola desconhecida de muitos e muito bonita, onde fiquei durante 10 anos. 
  Dali, a cidade não parecia branca, mas "grená rugoso dos telhados".

quinta-feira, 8 de março de 2018

efeméride ou nem por isso , 8 de Março

QUANDO LÉLIA TRABALHA

Quando Lélia trabalha , a vender o seu corpo ,pagam-lhe pouco ou pagam-lhe com uma sova. E quando rouba , os polícias roubam-lhe o que ela roubou além disso roubam-lhe o corpo. Diz Angélica , dezasseis anos , atirada para a rua da cidade do México :

- Eu disse à minha mãe que o meu irmão tinha abusado de mim , e ela pôs-me fora de casa . Agora vivo com um rapaz e estou grávida. Ele diz que me vai apoiar, caso eu tenha uma menino. Se for menina , não sei.


MULHERES, de Eduardo Galeano
Pintura de Fernando Botero




MÁRMORE QUE RESPIRA

Afrodite foi a primeira mulher despida da escultura grega.
Praxiteles talhou-a com a túnica tombada a seus pés , e a cidade de Cós exigiu que a vestisse . Mas outra cidade , Cnido, deu-lhe as boas-vindas e ofereceu-lhe um templo ; e em Cnido viveu a mais mulher das deusas , a mais deusa das mulheres.
Embora estivesse encarcerada e muito bem guardada , os guardas não conseguiram evitar ainvasão dos que estavam loucos por ela.
Num dia como o de hoje , farta de tanto assédio , Afrodite fugiu .
Mulheres, Eduardo Galeano

terça-feira, 18 de julho de 2017

Pausa, que não de férias, mas também ... Se gostam de Corto Maltese, surpreendam-se

Ler texto todo AQUI

Pausa neste Mar .... Até que a vontade me volte .
Boas férias a quem passa e um enorme abraço . tão grande como Corto....
Parece que Mitterrand, perguntado sobre que personagens o impressionavam ou o seduziam, apontava para Corto Maltese. Matreirice, seria uma imitação mais elegante, mas escassamente menos narcísica, de um De Gaulle que afirmava que só temia a concorrência da popularidade de Tintin. Cada um vinha do seu tempo e, se ambos sobreviveram com um “perfume de lenda”, como escreve Umberto Eco sobre Corto, o facto é que foi Hugo Pratt quem marcou a imaginação que trespassa as fronteiras do espaço e da imaginação. Por isso, Corto Maltese é o herói moderno que sobrevive à sua contemporaneidade.
Talvez as pistas sobre este marinheiro maltês, filho de uma cigana de Sevilha e de outro marinheiro perdido, que nasceria em 1887 e cresceria no bairro judeu de Córdoba, ou seja, sem pátria, assistindo depois às guerras inaugurais do novo século, estejam por aí espalhadas: Italo Calvino participara na preparação de um guião de um filme, “Tikoyo e o tubarão” (1962, Folao Quilici), sobre uma criança que fala com o seu amigo tubarão, e horizontes oníricos desse tipo foram sendo explorados por muitos autores (veja-se a “Balada” ou “Mu”); e, evidentemente, a literatura de viagens aventurosas, de Rimbaud a Jack London, povoara a juventude de Hugo Pratt. Pratt, aliás, cresceu na Etiópia, viveu em Buenos Aires e Veneza, e sobretudo, percorreu as fábulas em que se mistura com Corto, a que dá forma no dia 10 de julho de 1967, com “A Balada do Mar Salgado” – fez agora cinquenta anos.

terça-feira, 4 de julho de 2017

PARA NASCER, POUCA TERRA; PARA MORRER, TODA A TERRA ( Alexandre O´Neill ) (1)

Em Portugal, nunca deixamos cair um objecto: ele é que nos escapa das mãos. E, claro, a culpa não é nossa. Aliás, neste país vale tudo no jogo das relações entre as pessoas , menos ter culpa. Ou, melhor dizendo, da culpabilização fazemos nós uma arma. De um modo geral, podemos afirmar que , dentre as várias maneiras de  dividir a sociedade, uma delas é em culpados e não culpados. De quê, não se sabe bem. Pode nascer-se culpado sem que forçosamente se acredite no pecado original; è admissível que se morra sem culpa, apenas porque sim.
«A culpa não foi minha!», dirá a empregada doméstica ou a criança olhando para os cacos do prato que lhe escapou das mãos. E, provavelmente, tanto a criança como a empregada doméstica terão razão... É que tudo traz consigo uma espécie de fatalidade: o «destino» de um objecto pode extinguir-se nas nossas mãos porque assim estava determinado, predeterminado. O respeito que se tem por um criminoso «de morte», quando o crime dele é passional e não crapuloso, enraiza na mesma crença obscura. 
A gestação do medo, através desse complicado caminho de culpa e não culpa, começa no leite que se mama. Os telhados portugueses não têm só antenas de TV. Têm, ainda têm, sob formas tradicionais ou formas de banda desenhada, os papões que vêm inquietar o sono dos meninos:


Chó!Chó! Papão
sai de cima do telhado,
deixa o menino dormir
seu soninho descansado

E a verdade é que este papão - o culpabilizador por excelencia - se corporizou durante cinquenta anos, para o comum dos portugueses, na polícia que a todo o momento podia irromper por uma casa e levar este ou aquele para lhe espremer  culpas ou, depois, apresentar-lhe desculpas ....

....
(continua)

Crónica do livro, JÁ CÁ NÃO ESTÁ QUEM FALOU, ALEXANDRE  Ó NEILL (compilação póstuma)

quarta-feira, 3 de maio de 2017

Dia Mundial da Liberdade de Expressão

"Reflita por um minuto neste começo do dia na importância que tem uma imprensa forte, livre e de qualidade para que os nossos dias (os meus e os seus) corram melhor. Veja e ouça António Guterres falando sobre o assunto, repare nesta notável coleção de cartoons e anote o que está a ser preparado no mundo. Não perca o que o investigador dinamarquês Flemming Rose escreve sobre como a (nossa) Europa corre o risco de precipitar no abismo o sistema que garante a liberdade de expressão (sabia que na Turquia há mais jornalistas presos que em qualquer outro país do mundo – um terço do total – incluindo China, Coreia do Norte e Cuba?). As notícias são sombriasEduard Snowden, o homem que denunciou a espionagem da NSA e agora vive na Rússia, vai ser entrevistado hoje aqui. E, por favor, não se esqueça que só em 2016 morreram 57 jornalistas no exercício da sua profissão. Porque o jornalismo importa."






sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

Ainda Almada Negreiros e bom fim de semana...

O que me apeteceu partilhar hoje,  das leituras matinais, Expresso Curto, por Nicolau dos Santos.
... mas também porque ontem ao fim da tarde foi inaugurada uma das maiores retrospetivas da sua obra na Fundação Gulbenkian (que hoje abre ao público) não pude deixar de me lembrar da forma como José de Almada Negreiros, “Poeta d’Orpheu, futurista e tudo”, termina o seu “Ultimatum futurista às gerações portuguesas do séc. XX”: “O povo completo será aquele que tiver reunido no seu máximo todas as qualidades e todos os defeitos. Coragem, Portugueses: só vos faltam as qualidades”.
E noutro texto, “Manha e falso prestígio, os dois males de que sofre a vida portuguesa”, Almada zurze sem dó nem piedade: “Entretanto, a nossa querida terra está cheia de manhosos, de manhosos e de manhosos, e de mais manhosos. E numa terra de manhosos não se pode chegar senão a uma terra de falsos prestígios. É o que há mais agora por aí em Portugal: os falsos prestígios”. O texto foi publicado no Diário de Notícias em 3 de Novembro de 1933. E sim, não vou escrever o óbvio.
Almada era assim. Abrasivo, implacável, polemista (o muito glosado Manifesto Anti-Dantas é talvez o melhor exemplo), cujo talento extravasou para múltiplas atividades. Há 24 anos que não havia uma mostra antológica da sua obra visual. São mais de 400 peças, que percorrem os 50 anos de trabalho da figura de proa do modernismo português. Pelo olhar das netas, Rita e Catarina de Almada Negreiros, o Expresso visitou “José de Almada Negreiros: Uma maneira de ser moderno”, e propõe uma viagem pela Lisboa do artista.
O(s) mundo(s) de Almada são o tema de capa da revista E deste sábado. Mas não pode deixar de ir à Gulbenkian.
E se quiser conhecer melhor o seu pensamento, então é indispensável que leia “Almada Os Painéis A Geometria E tudo”, um conjunto de entrevistas que o jornalista António Valdemar fez a Almada, com epicentro nos Painéis de São Vicente de Fora, “um dos temas fundamentais, polémicos e mais absorventes da cultura portuguesa”.
Já agora também não pode deixar de ir visitar a exposição de um grande amigo de Almada e um artista genial, infelizmente desaparecido aos 30 anos: Amadeo de Souza Cardozo. Está no Museu Nacional de Arte Contemporânea do Chiado e invoca a exposição individual que Amadeo realizou de 4 a 18 de dezembro de 1916 na Liga Naval Portuguesa. Almada, aliás, não faz a coisa por menos: “Amadeo de Souza Cardozo é a primeira descoberta de Portugal na Europa no século XX. O limite da descoberta é infinito porque o sentido da descoberta muda de substância e cresce em interesse – por isso que a descoberta do caminho marítimo prá Índia é menos importante que a exposição de Amadeo de Souza Cardozo na Liga Naval de Lisboa”.

segunda-feira, 3 de outubro de 2016

Boa semana e outono a vosso gosto. O meu, vai agora para Roth e para o outono também

“Compreender as pessoas não tem nada que ver com a vida. O não as compreender é que é a vida”, escreve Nathan Zuckerman, alter ego de Philip Roth

Jornal Público de ontem




Gosto de estar no meu Mar à Vista mas via pc.... 
É deste porto de abrigo que visito outros "cais" de onde tenho andado arredada.
Depois de muitas" tropelias ", despesas e simpatia do meu técnico, volto ao Windows 7, depois do abominável 10 me ter deixado um pouco a paciência em água....

E agora vou dormir , mas sem antes continuar a ler o apaixonante livro de P. Roth,  A MANCHA HUMANA.

segunda-feira, 5 de setembro de 2016

leituras estivais que não são breves...

Pensou os mesmos pensamentos inúteis - inúteis para um homem como ele, sem nenhum grande talento a não ser para Sófocles: como pode um destino ser acidental... ou como tudo pode parecer que é acidental quando é inescapável.

A Mancha Humana, Philip Roth (excerto)

quinta-feira, 30 de junho de 2016

leituras breves... , mas profundas

ESCRITO
NA PEDRA
“Os jogos infantis são graves ocupações. Apenas os adultos
brincam” Henri Barbusse (1873-1935), escritor francês

Jornal Público de hoje.


(uma das faces do berço de família)

segunda-feira, 20 de junho de 2016

leituras breves, mas profundas... Vida

...

é a vida, vulnerável, tremulamente riscada e tenazmente arriscada na vontade de a compreender e manter firme, nesse hirto virtuoso, assaz curioso, a dar ares de poderoso. Entre-o-pode-e-não-pode, o tem-te e não-caias, raia a imensidão incerta, no trémulo pontão e serena escuridão, que não deixa perceber se é para andar, se é para ficar, para cair ou erguer. E assim, por entre os pingos da chuva, rompemos e permanecemos na caminhada alada. Umas tantas vezes no fio da navalha, por onde calha, a suster portes, a pedir sortes, e fracos ou fortes, gemendo e rogando, andando, tentando não cair até ao fim de um caminho encurtado.

Do livro, ESTRANHOS DIAS À JANELA, EXCERTO DO CONTO "VULNERABILIDADES", de Mário Jorge 
Branquinho

Pintura sobre acrílico, autor desconhecido, "A àrvore da Vida"

terça-feira, 10 de maio de 2016

o carteiro toca sempre duas vezes...

ao terceiro toque, o melhor é não abrir a porta....

Hoje, foi o que me apeteceu, talvez por gostos também inconfessáveis.
...
Qual é o seu gosto inconfessável?
Essa pergunta tem resposta imediata:um tipo que se confessa tanto como eu não tem gostos inconfessáveis, tem gostos.E depois confessa-os, não por desplante, prosápia, gabarolice. Talvez por gosto. Não vou fazer trocadilho, mas é o gosto de revelar uma faceta humana, que em mim descobri, e transmiti-la a outrem . Gostos inconfessáveis na minha idade... isso nem ao S. Pedro confesso. É o confessor mais provável que tenho à minha frente.

...
Entrevistas a Luís Pacheco, O Crocodilo que Voa, edições Tinta da China

domingo, 21 de fevereiro de 2016

"a Escrita"... bom domingo

A Dúvida, a Solidão, logo... a Escrita

Na vida, chega um momento - e penso que ele é fatal - ao qual não é possível escapar, em que tudo é posto em causa: o casamento, os amigos, sobretudo os amigos do casal. Tudo menos a criança. A criança nunca é posta em dúvida. E essa dúvida cresce à sua volta. Essa dúvida, está só, é a da solidão. Nasce dela, da solidão. Podemos já nomear a palavra. Creio que há muita gente que não poderia suportar o que aqui digo, que fugiria. Talvez seja por essa razão que nem todos os homens são escritores. Sim. Essa é a diferença. Essa é a verdade. Mais nada. A dúvida é escrever. É, portanto, também, o escritor. E com o escritor todo o mundo escreve. É algo que sempre se soube. 
Creio também que sem esta dúvida primeira do gesto em direcção à escrita não existe solidão. Nunca ninguém escreveu a duas vozes. Foi possível cantar a duas vozes, ou fazer música também, e jogar ténis, mas escrever, não. Nunca. 
Marguerite Duras, in "Escrever" 
Desenho de Maria Helena Vieira da Silva, 1949