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quarta-feira, 14 de março de 2012

Leituras...


Lembras-te jóia, daquele bacalhau
que comemos em Viana do Castelo?
Parece que foi ontem, mas já lá vão dez anos!
Ainda tinhas muito cabelo...


Chovia nesse dia, bem me lembro.
Deixaste  no comboio o guarda-chuva.
Quem te mandou levar toda a viagem
a fazer olhinhos à viúva?

Contos largos... Mas quando o bacalhau,
Como tu disseste: deu à costa,
esqueceste o guarda-chuva e a viúva
e perguntaste a mim: góta não góta?

Ó jóia! E o azeitinho! Aquilo sim!
P'ra comer só no Norte, só no Norte!
E depois... Na pensão... Os pés juntinhos...
Foi mais forte do que nós, muito mais forte!

TROMPE L' OEIL, de Alexandre O'neil

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Bom fim de semana com coisas do Natal

Rosto de Natal

Caiu sobre o país uma cortina de silêncio
a voz distingue o homem mas há homens que
não querem que os demais se elevem sobre os animais
e ao que aos outros falta têm eles a mais
no dia de natal eu caminhava
e vi que em certo rosto havia a paz que não havia
era na multidão o rosto da justiça
um rosto que chegava até junto de mim de nicarágua
um rosto que me vinha de qualquer das indochinas
num mundo onde o homem é um lobo para o homem
e o brilho dos olhos o embacia a água
Caminhava no dia de natal
e entre muitos ombros eu pensava em quanto homem morreu por um deus que nasceu
A minha oração fora a leitura do jornal
e por ele soubera que o deus que cria
consentia em seu dia o terramoto de manágua
e que sobre os escombros inda havia
as ornamentações da quadra de natal
Olhava aquele rosto e nesse rosto via
a gente do dinheiro que fugia em aviões fretados
e os pés gretados de homens humilhados
de pé sobre os seus pés se ainda tinham pés
ao longo de desertos descampados
Morrera nesse rosto toda uma cidade
talvez pra que às mulheres de ministros e banqueiros
se permita exercitar melhor a caridade
A aparente paz que nesse rosto havia
como que prometia a paz da indochina a paz na alma
Eu caminhava e como que dizia
àquele homem de guerra oculta pela calma:
se cais pela justiça alguém pela justiça
há-se erguer-se no sítio exacto onde caíste
e há-de levar mais longe o incontido lume
visível nesse teu olhar molhado e triste
Não temas nem sequer o não poder falar
porque fala por ti o teu olhar
Olhei mais uma vez aquele rosto era natal
é certo que o silêncio entristecia
mas não fazia mal pensei pois me bastara olhar
tal rosto para ver que alguém nascia

Poema de Ruy Belo


Desenho de Júlia Costa

terça-feira, 1 de novembro de 2011

ERA UMA VEZ...




Presente, sempre que a sua arte e engenho o desejarem, ERA UMA VEZ...
Elis, é sinónimo de vida... É o nosso pão por por deus, neste dias de finados. O pão do nosso espírito... a força do sentir na sua potencia mais elevada.



Uma lágrima por Elis


Sarava Elis


Quando te vi
e te ouvi cantar assimElis
como só tu cantavas
percebi que nunca mais
deixaria de gostar
da música do teu país

O fogo do teu olhar
aquele palco tão pequeno
prá força de um "arrastão"
Teu "upaneguinho" ligeiro
cabia todo ele inteiro
dentro da minha emoção

"Fascinação" nesse encanto
que trazia até à gente
outra gente tão igual
sabia a mar e a ternura
e dava-nos essa loucura
de viver para sonhar

Contigo
vai um pouco
desta alma de mulher
comum
vulgar
e o carinho por alguém
que atingiu o mundo inteiro
com esse tiro tão certeiro
de dizer tudo a cantar

Com Vinicius e com Brel
Com Lennon e contigo
parte um sonho
e "aquele abraço"
Fica também a certeza
tão triste
densa
e imensa
nesse "trem"
que descarrila
e a que a gente
chama VIDA

Que te guarde em bom lugar a Senhora da Aparecida

1 de Novembro de 2011 22:13






(do comentário da amiga ERA UMA VEZ )

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Que calor...















Tabuada de multiplcar

Bem bom é ter juízo
Melhor ainda juizinho
Se soltas do pescoço o guizo
Podes ir por mau caminho.
Olha que sensato é o pato
e que rato não caça gato
Nem mulher usa calças
Ehomensnãopõemvestidodealças.
Se fores casto e mui cauto
E esperas sempre a tua vez
Não voarás talvez mui alto
Mas serás um bom portugês.
Pois pensar em vez de fazer
(jáládiziaopresidentedajunta)
É como jejuar em vez de comer
Dá saúde e faz crescer
(a quem? Boa pergunta)

De Rui Zink, in Revista Egoísta de Outubro

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011



AUTO-RETRATO

O'Neill (Alexandre), moreno português,
cabelo asa de corvo; da angústia da cara,
nariguete que sobrepuja de través
a ferida desdenhosa e não cicatrizada.
Se a visagem de tal sujeito é o que vês
(omita-se o olho triste e a testa iluminada)
o retrato moral também tem os seus quês
(aqui, uma pequena frase censurada…)
No amor? No amor crê (ou não fosse ele O'Neill!)
e tem a veleidade de o saber fazer
(pois amor não há feito) das maneiras mil
que são a semovente estátua do prazer.
Mas sofre de ternura, bebe de mais e ri-se
do que neste soneto sobre si mesmo disse…

Alexandre O' Neill

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

.



Amores de António e Cleopatra


Pelas tuas mãos medi o mundo
E na balança pura dos teus ombros
Pesei o ouro do Sol e a palidez da Lua.

Sophia de Mello Breyner Andresen

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010






A RELATIVA ETERNIDADE

Cruzo a rua e vejo
sobre a montanha
para além da Lagoa
nuvens matinais
iluminadas
contra um céu muito azul

como na primeira manhã do mundo

(ainda que
em todos os dias do ano
quando faz sol
essa festa matinal se tenha
repetido
por séculos)

mas pouco importa:
é hoje manhã pela primeira vez

ainda que
antes de terem aqui chegado os portugueses
já ali estivessem a montanha
o céu azul
e as nuvens a se esgarcarem

quer houvesse
ou não
(como agora)
alguém para vê-los
e então me digo:
se o mundo dura tanto
e eu tão pouco
importa pouco
se ele não for eterno

De Ferreira Gullar. do livro Em alguma parte alguma, José Olympio editora
Hoje, em S. Paulo, inaugura uma exposicão retrospetiva de F. Gullar, no âmbito dos seus 80 anos. Mas... eu estou a 400 Km. Só sonho...

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Jet lag... mas com poesia


INSÓNIA


É alta madrugada. A culpa
joga dama comigo
no entressono. Cismo
que ela me engana
mas não bispo o seu logro.
Ganho? Perco? Blefo?
Afinal, qual de nós rouba no jogo?


De Ferreira Gullar, do livro, Em alguma parte alguma