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quarta-feira, 12 de fevereiro de 2020

Estilo

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   Uma vez fui ao médico.
   - Doutor, estou louco - disse. - Devo estar louco.
   - Tem loucos na família? - perguntou o médico.
-Alcoólicos, sifilíticos ?
   - Sim , senhor. O pior. Loucos, alcoólicos, siflíticos, místicos, prostitutas, homossexuais. Estarei louco?
   O médico tinha sentido de humor, e receitou-me barbitúricos.
   - Não preciso de remédios - disse eu. - Sei historias tenebrosas acerca da vida. De que me servem barbitúricos?
   - A verdade é que eu ainda não havia encontrado o estilo. Mas ouça, meu amigo: Conheço por exemplo a história de um homem velho. Conheço também a de um homem novo. A do velho é melhor, pois era muito velho, e que poderia ele esperar? Mas veja, preste bem atenção. esse homem velhíssimo não se resignaria nunca a prescindir do amor. Amava as flores. No meio da sua solidão tinha vasos de orquídeas.
   O mundo é assim, o que quer? É forçoso encontrar um estilo. Seria bom colocar grandes cartazes nas ruas, fazer avisos na televisão e nos cinemas. Procure o seu estilo se não quer dar em pantanas.
Arranjei o meu estilo estudando matemática e ouvindo um  pouco de música. - João Sebastião Bach. Conhece o Concerto Brandeburguês nº5 ? Conhece com certeza essa coisa tão simples , tão harmoniosa e definitiva que é um sistema de três equações a três incógnitas.  Primário, rudimentar. Resolvi milhares de equações. Depois ouvia Bach.  Consegui um estilo.

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Excerto da prosa ESTILO. de Herberto Hélder , OS PASSOS EM VOLTA

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terça-feira, 18 de junho de 2019

Kagge, o explorador que subiu pela primeira vez os dois Pólos e o Pico do Everest . Uma leitura esmerada

  





 Livro maravilhoso que abandonei há dois dias mas do qual ainda não saí.
   Em contradição, Kagge procura o silêncio e questiona o ruído nos nossos dias, de uma forma filosófica mas transparente .
   Um doce prazer que me provocou o autor e suas experiências . 
   Do ruído e do silêncio , vivo-os de forma empírica, mas felizmente já posso escolher o que mais prazer me dá. O silêncio. Ao ruído, vou lá de vez em quando. O ruído suportável , claro.
Há belas metáforas para a beleza do silêncio mas também para o silêncio no horror. O silêncio profundo em que se cai em frente da obra de arte de Munch, "O Grito".
Kagge, quis sentir o silencio total, e por isso mesmo tornou-se no primeiro explorador a subir o PóloSul, Pólo Norte e Pico do Everest.
Mais tarde , não o vivenciou, mas esteve atento  a uma performancista que explorava o silêncio em instalações no MOMA . Um dia, esta encerrou-se por horas ou dias, não lembro, num quarto à prova de qualquer som . O silêncio não existia . O  pulsar do sangue nas suas veias fazia barulho.
Leiam, que vão gostar.
 "O Grito", de Munch, 1893

segunda-feira, 27 de maio de 2019

A RTP 2, recomendou ...

SINOPSE
Um ladrão estava muito compenetrado, com toda a sua energia canalizada numa fechadura, alheio a qualquer outra coisa. Um homem puro ficou a contemplar o ladrão, observando que este se encontrava num estado invejável de concentração.
- Amigo ladrão - disse o homem puro -, gostaria que fosses meu mestre.
- Teu mestre? - respondeu verdadeiramente perplexo o ladrão. - De que posso eu, um miserável ladrão insignificante, ser mestre?
- Da concentração. Nomeio-te meu mestre. Em troca serei teu mestre.
- De quê?
- Da pureza. Se ambos conseguirmos adquirir estas duas jóias, a pureza e a concentração, o que poderemos temer?
 

quarta-feira, 24 de abril de 2019

Livros, todos os dias , mas ontem, teve dia de honrarias ...

"Um livro por ler, arrumado na estante, conta também a história das aproximações e recuos, da procrastinação e olímpicas desatenções, que é, em parte, a coroa da nossa vida de leitores "

"Os livros que perfazem a fileira mais vasta dos “por ler” permanecem num perpétuo estado de graça, numa eterna gravidez repleta de tudo o que ainda nos poderão dizer. Por isso, queremo-los perto de nós, como uma garantia, um seguro, um instrumento a usar em caso de emergência "

"Os livros perdidos contam a dupla história empolgante da sua posse e da sua incalculável perda. Vivemos mortificados pela possível recuperação porque sabemos, no íntimo, que não podem ser substituídos"

"Nesse sentido, um livro perdido, um livro que, por generosidade, se furtou ao nosso contacto, um livro que alguém, por despeito, atirou ao lixo, será sempre uma página dolorosamente arrancada de nós, mas nunca esquecida "


Em “Não Contem com o Fim dos Livros”, Umberto Eco contava como a recolha e preservação de livros nos mosteiros era a forma mais segura de os salvar, por exemplo, das invasões bárbaras e dos seus fogos punitivos. Guardar livros era o mesmo que salvá-los. Hoje, as coleções privadas, as nossas bibliotecas pessoais, destinam-se menos a salvar os livros do que a salvar-nos a nós próprios. Numa época de produção industrial, é a nossa relação pessoal com eles que os torna únicos.

Excertos da crónica de Bruno Vieira de Almeida, no Expresso Diário de ontem.

sexta-feira, 19 de outubro de 2018

Sugestão. Bom fim de semana

"Em tempos de absoluta ditadura do efémero, surge quase como um bálsamo a possibilidade de leitura de um livro capaz de nos prender à memória de algo tão perene, tão aconchegante, tão sensível como a relação entre um neto e o seu avô. Falo da leitura da muito breve, mas muito bela novela da catalã Tina Vallès, intitulada “A Memória da Árvore”. É um dos textos mais envolventes e comoventes que me foi dado ler nos últimos tempos."
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Valdemar Cruz , Expresso Curto

A história mágica e terna de uma criança que ajuda o avô a lutar contra a perda da memória.

terça-feira, 23 de abril de 2013

Hoje, Dia Mundial do Livro, este foi o meu presente... A VIOLÊNCIA E O ESCÁRNIO


Em todo o homem que não for um crápula subsiste a nostalgia duma revolução triunfante.
ALBERT COSSERY

A violência e o escárnio são aqui duas faces discrepantes da oposição ao pode político vigente. A primeira consubstancia-se na atitude heróica, em que o militante, levando a sério os políticos de Estado, se sacrifica pela causa; a segunda assenta num absoluto desprezo pelas instituições estatais e seus dirigentes, encarando estes últimos como os títeres dum mundo grotesco e aviltante.
A acção desta narrativa decorre paralelamente a esse conflito  Numa grande cidade dirigida por um governador despótico e burlesco, um grupo de amigos, amantes do riso e outros prazeres da vida, inventa uma nova forma de combate político: a farsa-que-não-parece-farsa.E,desenvolvendo uma actividade que profundamente os diverte (e neles aguça o sentido de humor), põem fora do poleiro o detestado líder.
Irónica reflexão sobre o poder, A VIOLÊNCIA E O ESCÁRNIO exprime a par
adoxal e salutar perspectiva de Cossery, que às nevróticas gesticulações dos homens opõe o desprendimento e a contemplação - sempre assente na rejeição do sacrifício.
- Sei apenas duas coisas muito simples, disse Heikal.
- São talvez as que eu próprio sei.
- Sem dúvida. è por isso que aqui estou, e é por isso que podemos falar com toda a franqueza.
- Diz-me então a primeira dessas coisas. Sou todo ouvidos.
- A primeira é que o mundo onde vivemos é regido pela mais ignóbil quadrilha de tratantes que alguma vez pisou o chão deste planeta.
- Subscrevo por inteiro essa afirmação. E a segunda? A segunda é esta: acima de tudo, convém não os levarmos a sério; é isso que eles querem, que os levemos a sério.

Do capítulo V

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

E, pelo mundo dos livros vamos continuando... Hoje, veio-me este à memória...

Memória, História e HistoriografiaCoimbra, Quarteto, 2001.

"O historiador só não se enrederá na sedução consensualizadora da memória e da legitimação da 'história dos vencedores' se tiver a ousadia de também perguntar: que versão do passado domina e quem é que a pretende preservar? E por quê? E o que é que, consciente ou inconscientemente, ficou esquecido?" (Da contra-capa)

Coimbra, Quarteto Editora, 2001

E, para saber mais da bibliografia  do Professor Fernando Catroga e  de outras  conversas, se estiver no FB, pesquise o mural com o nome AMIGOS E ADMIRADORES DO PROFESSOR DOUTOR FERNANDO CATROGA e associe-se.
É uma mais valia...

Pintura de Pedro Pascoinho, 2012


segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Fragmentos...

O jornal i, aqui, dá-nos conta do lançamento do livro "Diário de Luto"de Roland Barthes, o qual espero ansiosamente. Em português , só em Março...
E veio-me à memória como o seu livro, "FRAGMENTOS DE UM DISCURSO AMOROSO", adquirido em 1984, funcionou durante algum tempo como resposta às minhas crises existenciais... Não só a mim, mas a muitos da minha geração...
"Dois poderosos mitos fizeram-nos acreditar que o amor podia, devia sublimar-se em criação estética: o mito socrático (amar serve para criar uma multidão de belos e magníficos discursos) e o mito romântico( produzirei uma obra imortal escrevendo a minha paixão)."

R. B. ( Imagem do Google)