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quinta-feira, 6 de fevereiro de 2020

Este curto e brilhante ensaio de George Steiner, recém lançado pela Âyiné, divide-se em três partes: Aqueles que queimam livros, O povo do livro e Os dissidentes do livro.
Steiner é um mestre absoluto. Erudito e metódico, ele é autor de um impressionante número de clássicos para os estudiosos de humanidades — entre os quais Nenhuma Paixão Desperdiçada, Lições dos Mestres e este livro que ora comento.
Steiner não é um otimista, mas dá alguns remédios: os livros seriam um meio seguro para nos tornamos melhores. Pode parecer algo já muitas vezes dito, mas o que vale é a argumentação certeira de Steiner. Li o livro fazendo inúmeras anotações, não dá para abrir meu exemplar sem que se vejam frases ou parágrafos sublinhados. Tudo parece fundamental, necessário, perfeito.
A primeira parte trata do encontro, da relação entre leitor e livro. Esta é imprevisível, vulnerável à mudanças de espírito ou de idade, muito semelhante às afinidades mediadas por Eros.
O encontro com o livro, assim como aquele encontro com o homem ou a mulher destinada a mudar nossas vidas, pode ser completamente casual. O texto que vai nos converter a uma fé, que vai nos fazer aderir a uma ideologia, que dá a nossa existência um fim ou um critério, pode estar a nos esperar na estante de livros de ocasião, de usados, com desconto. Talvez empoeirado e esquecido, ao lado do livro que procurávamos. (…) Um texto é sempre capaz de ressuscitar. Walter Benjamin ensinava, Borges construiu sua mitologia: um livro jamais é impaciente. Ele pode esperar séculos para despertar um eco vivificante.
A segunda parte trata dos judeus e de seu amor pelos livros. Trata do fato de um religioso judeu ter de ler e estudar a Torá, de ser um povo que tem um lápis na mão ao ler um livro. Também fala na resistência da igreja católica à invenção da imprensa. A invenção de Gutenberg serviu muito mais aos protestantes, pois os católicos desejavam seguir com a informação oral, pelos padres.
A terceira parte fala sobre a tirania do celular, o livro digitalizado e sobre as condições políticas e culturais que favorecem ou não o livro. Fala-se da postura dos escritores e filósofos nazistas — habitantes de um país altamente culto e produtivo mesmo durante Hitler –, de Wagner, da variedade demencial de lançamentos de livros — 121 mil novos títulos são lançados no Reino Unido a cada ano — e de sua efemeridade, pois se não vendem vão para o balcão de ofertas em 20 dias. Fala-se também na relação entre censura — a grande propulsora de metáforas, segundo Borges — e criatividade.
Sem dúvida, um livro de um mestre, um clássico moderno.
Escrito em 2018
Retirado DAQUI

terça-feira, 12 de novembro de 2019

Talvez assim tenha nascido o nome do grande romance .... «Sinais de Fogo" , centenário de Jorge de Sena


Acendi um cigarro. Onde iria jantar? Não me apetecia comer. Apetecia-me fugir. Para onde e porquê? E, de repente ouvi dentro da minha cabeça uma frase: «Sinais de fogo as almas se despedem, tranquilas e caladas, destas cinzas frias.» Olhei em volta. De onde viera aquilo? Quem me dissera aquilo? Que sentido tinha aquela frase?Tentei repeti-la para mim mesmo: «Sinais de fogo... » Mas esquecera-me do resto. Com esforço reconstituía a sequência: »Sinais de fogo os homens se despedem, exaustos e espantados, quando a noite da morte desce fria sobre o mar.» Não tinha sido aquilo. Não era aquilo. E que significava? Seriam versos? Repeti mentalmente: «Sinais de cinza os homens se despedem, lançando ao mar os barcos desta vida». Novamente as palavras eram outras, ou quase as mesmas mas diversamente. Tirei um papel do bolso, e escrevi: »Sinais de fogo os homens se despedem lançando ao mar os barcos desta vida». Reli o que escrevera. E depois? Olhei o mar que escurecia , com manchas claras que ondulavam largas. Os barcos iam pelo mar fora, e nalguns havia lanternas acesas. Porquê? »Nas vastas águas...» Nas vastas águas... Era a absurdo. Eu fazendo versos? Porquê? Amarrotei o papel e deitei-o fora.  Mal amarrotado, ele foi descendo num voo balanceante, até que posou numa rocha. Aí, vacilou, aquietou-se, e, numa reviravolta súbita, deixou-se cais para o meio das pedras e sumiu. Era quase noite escura. Voltei para a cidade.



in, Sinais de Fogo, pág. 153/154




Mas quantas personagem /s encontro que ainda fizeram parte da minha adolescência, quanto mais não fosse por interpostos familiares. 

E, como já tenho escrito a Figueira da sua adolescência era diferente da minha infância e puberdade...
32 anos nos separam e tardiamente descobri Jorge de Sena e só em 2012 li Sinais de Fogo.  Hoje raleio com outro olhar e sigo lhe os passos ...  Afinal os caminhos dele também foram os meus em meados do séc. XX . Quase de certeza que a a casa onde passava férias, Rua Fernandes Coelho,  estaria ligada a uma escola primária que frequentei .  A casa está lá ao abandono. 


Em relação ao tio , que tinha sido tropa e era professor num colégio.



Mas o cómico é ele exigir, tu sabias? , que a gente o trate por senhor tenente. Fica uma fera quando alguém o trata por »professor», por «senhor doutor». Responde logo que doutor ele é da mula ruça, mas que ~e mais competente que os lentes de Coimbra. O doutor Carvalho que é lente de Coimbra, esse às vezes diz-lhe, meio sério e meio a brincar, que ele devia tirar o curso de matemática. 




Pág. 148



Ora este DR. Carvalho a que se refere Jorge de Sena, de certeza que é o Professor Doutor Joaquim de Carvalho (aqui), lente na Universidade de Coimbra até Salazar o deixar....


Livro com 662 paginas. Não tenho pressa.