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quarta-feira, 21 de novembro de 2012

"O Segredo de Beethoven", hoje, porque sim...


Ainda Beethoven... (continuação )

E, no entanto, o mesmo homem que assim se lamentava, no abismo da sua desgraça, tinha escrito, nesses seis meses passados no campo, a alegre e exuberante 2.a Sinfonia!

Beethoven tinha o hábito de compor ao ar livre, muitas vezes durante os seus longos passeios. Ele próprio dizia:


Perguntais onde vou buscar as minhas ideias? Isso não sei dizê-lo com o menor grau de certeza; elas chegam sem que eu as chame, quer directa, quer indirectamente. Quase poderia agarrá-las com as mãos, em plena Natureza, nos bosques, durante os meus passeios, no silêncio da noite, nas primeiras horas da madrugada. O que as desperta são esses estados de espírito que no caso do poeta se transmutam em palavras, e no meu em sons, que ressoam, bradam e trovejam até, por fim, tomarem dentro de mim a forma de notas2.

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Crises... mas as de Beethoven...

 A "melancolia" talvez se devesse à sua surdez. Esta surdez, o mais terrível dos males para um músico, começou a manifestar-se já em 1796, e foi-se agravando cada vez mais, até que, em 1820, Beethoven praticamente já não ouvia. No Outono de 1802 o compositor escreveu uma carta, conhecida como "testamento de Heiligenstadt", destinada a ser lida pelos irmãos após a sua morte; nela descreve, em termos comoventes, o seu sofrimento quando se apercebeu de que a doença que o afectava era incurável:

Tenho de viver quase só, como alguém que tivesse sido banido; só posso conviver com os homens na medida em que a absoluta necessidade o exige. Se me aproximo das pessoas, sou tomado de um profundo terror e receio expor-me ao perigo de que alguém se aperceba do meu estado. E assim tem sido nestes últimos seis meses que passei no campo [...] que humilhação para mim quando alguém ao meu lado ouvia uma flauta ao longe e eu não ouvia nada, ou alguém ouvia um pastor a cantar e de novo eu nada ouvia. Tais incidentes quase me levaram ao desespero, por pouco não pus termo à vida - só a minha arte me deteve. Ah, parecia-me impossível deixar o mundo antes de transmitir tudo o que sentia ter dentro de mim [...] Oh Providência - concede-me ao menos um dia de pura alegria -, há tanto tempo que a verdadeira alegria não ecoa no meu coração [...]1.
Adágio da 9.a Sinfonia, ouvir...

in, História da Música Ocidental