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terça-feira, 25 de junho de 2013

#365Livros - #Livro176 - COSMOS




Cosmos
Carl Sagan

Nunca um cientista conseguiu inculcar na cabeça das pessoas os mistérios do Universo de forma tão leve e desprovida de rebuscamento quanto Carl Sagan. Em Cosmos, o gênio da astronomia abrange não só está ciência, mas também matemática, biologia e talvez até filosofia. Tentando desvendar o Universo, Carl Sagan discorre sobre o ser humano como parte deste Universo tão rico e fascinante, de forma agradável porém sem perder a seriedade da Ciência. A obra virou uma das mais famosas séries de ciência da história da televisão, tão fascinante que você assiste – ou lê – e nem percebe o tempo e o Universo passarem sobre você...

quinta-feira, 20 de junho de 2013

#365Livros - #Livro171 - O MUNDO ASSOMBRADO PELOS DEMÔNIOS


O Mundo Assombrado Pelos Demônios
Carl Sagan

“A Ciência é a maneira de desmascarar os que fingem conhecê-la.”
Este livro do defensor e divulgador da ciência Carl Sagan, fala sobre o analfabetismo científico, o fato de estarmos propensos e presos a crenças vãs e sem fundamento. Sagan afirma que o crescimento da pseudociência e do misticismo tem emburrecido o ser humano, afastando-o do conhecimento verdadeiro e necessário ao seu desenvolvimento pleno. Sagan defende o ensino da ciência na escola através de métodos experimentais, e não apenas da leitura de livros, e - como afirma na capa do livro - vê a Ciência como uma vela no escuro.

sexta-feira, 1 de março de 2013

#365Livros - #Livro60 - BILHÕES E BILHÕES



Bilhões e Bilhões
Carl Sagan

Carl Sagan estréia tarde no nosso projeto, deslize meu, mas estréia em grande estilo - seria assim de qualquer forma - com uma coletânea de vários textos sobre a vida, o universo, tudo mais. Publicado pela esposa de Sagan, após a morte do autor, a obra reúne 19 artigos de Sagan sobre diversos assuntos, o aborto, a existência de vida em outros planetas, uma certeza palpável na vida de Sagan, o aquecimento global, entre outros temas. Aqui no blog, já trouxemos alguns trechos desse livro fantástico e interessantíssimo. Sagan foi um dos maiores cientistas da história da humanidade, um homem que trouxe a ciência para o cotidiano. Morreu cedo, de uma maneira terrível, mas seu legado permanecerá sempre que existir alguém tentando entender e aceitar o universo.

sábado, 19 de janeiro de 2013

#365Livros - #Livro19 - CONTATO

Contato
Carl Sagan

Estamos sozinhos no Universo? Após anos buscando uma resposta, a equipe da Dra. Arroway descobre um sinal de rádio que pode indicar a existência de outros seres no espaço. Quando decidem estudar e entender a mensagem, descobrem que trata-se de um convite. A Terra está pronta para aceitá-lo?
Excelente romance de divulgação da ciência escrito por aquele que foi uma das mentes mais importantes do nosso tempo. Este livro prende, diverte e instrui o leitor, dando-lhe a chance de pensar e aprender.


quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Clarice sem Cabeça

Após a explosão, o planeta tornou-se caos. Não havia mais cidades, somente um grande deserto, formado por crateras de bombas e restos do que fora um dia a civilização humana. Os sobreviventes fugiam, escondiam-se, lutavam entre si pela sobrevivência. Como alimento, restaram alguns animais, deformados pelos efeitos da guerra, da impureza do ar e da água, mas estes animais tornaram-se muito mais violentos, lutando também por sua sobrevivência.
Certos grupos de humanos tornaram-se canibais, caçando outros humanos, outros sobreviventes, tomando suas posses e devorando-lhes a carne. A luta era constante, a esperança morreu na guerra. Só restou a loucura. Esses canibais perderam o sentimento e o interesse por seus semelhantes, e, aos poucos, perderam também a razão. Os gases tóxicos, a radiação, o clima hostil, as doenças, tudo isso contribuiu para a deterioração do cérebro destes seres, que se tornaram animais perigosos. Vagavam sem rumo, na maioria das vezes feridos, sem alma, as carnes caindo de seus corpos. Tornaram-se zumbis.
Entre os poucos sobreviventes que mantinham a razão, e que haviam se unido em pequenos grupos para combater os zumbis, destacaram-se líderes que começaram a orientar os demais. Eram ex-militares, caçadores, pessoas disciplinadas e que sabiam como se defender e sobreviver neste ambiente hostil. Treinaram os homens e mulheres, ensinando-os a atirar, se defender, caçar, lutar e encontrar comida no deserto hostil da Terra. Dentre os aprendizes, destacou-se um jovem, que gostava muito de ler, e sabia tudo a respeito de sistemas de comunicação, matemática e física. Fã de Asimov, Clark, Rowling, Sagan, Tolkien e Hawking, sua mente era uma vasta biblioteca. Se a guerra não tivesse acontecido e as bombas não tivessem destruído a civilização, ele seria um nerd. Mas nos dias atuais, ele era um achado, e escolheu pra si o apelido de Hunter. Parecia arrogância, mas não era.
Certo dia, Hunter saiu para encontrar comida. Caminhou a tarde toda, e havia encontrado pouca coisa num velho depósito subterrâneo. Cansado, demorou-se muito na volta para a base. A noite caiu, e alguns homens resolveram ir ao encontro do nerd, preocupados com sua demora.
Hunter caminhava oculto na sombra, sob um viaduto destruído, tentando atingir uma saída que acessava uma antiga avenida. Estava atento, mas preocupado. Havia um canto cego, uma pequena “esquina” pela qual teria que passar, e onde não teria uma visão completa da saída, devido aos entulhos do desabamento do viaduto, que caiu formando uma muralha. Mas este era o único caminho. Caminhava silenciosamente, dedo no gatilho, sentidos alertas. O canto escuro se aproximava, e Hunter acionou a lanterna embutida em seu fuzil. Mais um passo, e mais outro. Pronto, o canto escuro foi contornado, e a fraca luz da lua entre as nuvens negras já podia ser vista. Foi quando Hunter a viu. Era magra, alta, cabelos pelo ombro. A fraca claridade não deixava ver as feições da jovem, e ele precisava saber se ela era apenas uma sobrevivente apavorada, ou um zumbi faminto. Hunter percebeu que ela carregava algo, abraçado contra o peito, e iluminou-a, descobrindo que o objeto era um livro. Quando a luz da lanterna permitiu ver o título estampado na capa, Hunter não teve dúvida: abriu fogo, explodindo a cabeça da jovem e dando-lhe uma morte instantânea. Os amigos que saíram à sua procura e já estavam próximos, correram em seu auxílio guiando-se pelo barulho do tiro, mas o problema já estava resolvido, e Hunter, um pouco assustado, sussurrou:
- Não sei se era um zumbi, mas o livro é a prova de que ela não tinha mais cérebro...
O corpo sem vida estava no chão, ainda abraçado ao livro em cuja capa se lia: “Clarice na Cabeceira".

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

A Temperatura do Planeta Terra - Carl Sagan

O que determina a temperatura média da Terra, o clima planetário? A quantidade de calor liberada pelo centro da Terra é muito pequena se comparada com a quantidade que o sol espalha sobre a superfície do globo. Na verdade, se o sol fosse desligado, a temperatura da Terra cairia tanto que o ar congelaria, e o planeta seria coberto por uma camada de neve de nitrogênio e oxigênio de dez metros de espessura. Bem, sabemos quanta luz solar cai sobre a Terra, aquecendo-a. Não podemos calcular qual seria a temperatura media da superfície da Terra? É um calculo fácil – ensinado nos cursos elementares de astronomia e meteorologia, outro exemplo do poder e beleza da quantificação.

A quantidade de luz solar absorvida pela Terra tem de equivaler em media à quantidade de energia irradiada de volta para o espaço. Não pensamos comumente na Terra como um corpo celeste que irradia para o espaço, e quando voamos sobre a Terra à noite, não a vemos brilhar no escuro (exceto as cidades). Mas é porque estamos vendo à luz visível comum, o tipo de luz a que nossos olhos são sensíveis. Se olhássemos alem da luz vermelha – a vinte vezes o comprimento de onda da luz amarela, por exemplo – veríamos a Terra brilhando na sua própria luz infravermelha fria e estranha, mais na região do Saara do que na Antártida, mais durante o dia do que à noite. Não é a luz solar refletida pela Terra, mas o calor do próprio corpo do planeta. Quanto mais energia recebemos do sol, mais a terra irradia de volta para o espaço. Quanto mais quente a terra, mais ela brilha no escuro.

O que contribui para aquecer a Terra depende do grau de brilho do Sol e do grau de reflexão da Terra (tudo o que não for refletido de volta para o espaço é absorvido pelo solo, as nuvens e o ar. Se a Terra fosse perfeitamente lustrosa e reflexiva, a luz solar que incide sobre sua superfície não a aqueceria nem um pouco). É claro que a luz solar refletida está principalmente na parte visível do espectro. Assim, iguale o dado de entrada (que depende de quanta luz solar a Terra absorve) ao dado de saída (que depende da temperatura da Terra), equilibre os dois lados da equação e vai obter a temperatura prevista da Terra. Uma canja! Nada mais fácil! Você calcula, e qual e a resposta? 
 
O nosso cálculo nos diz que a temperatura media da Terra deveria ser de aproximadamente 20°C abaixo do ponto de congelamento da água. Os oceanos deveriam ser blocos de gelo, e todos nós deveríamos estar congelados. A Terra seria inóspita a quase todas as formas de vida. O que há de errado com o calculo? Será que cometemos um erro?

Não cometemos exatamente um erro no cálculo. Apenas deixamos um dado de fora: o efeito estufa. Assumimos implicitamente que a Terra não tinha atmosfera embora o ar seja transparente em comprimentos de onda visíveis comuns (exceto em lugares como Denver e Los Angeles), é muito mais opaco na parte infravermelha térmica do espectro, em que a Terra gosta de irradiar para o espaço. E isso faz toda a diferença do mundo. Acontece que alguns dos gases no ar à nossa frente – dióxido de carbono, vapor de água, alguns óxidos de nitrogênio, metano, clorofluorcarbonetos – são bastante absorventes no espectro infravermelho, mesmo quando são completamente invisíveis na luz visível. Se uma camada desse material é colocada acima da superfície da Terra, a luz solar ainda penetra até o solo. Mas quando a superfície tenta irradiar de volta para o espaço, o caminho é bloqueado por esse cobertor de gases absorventes no espectro infravermelho. O resultado é que a Terra tem de aquecer um pouco para atingir o equilíbrio entre a luz solar que recebe e a radiação infravermelha emitida. Se calcularmos o grau de opacidade desses gases na infravermelha, a quantidade do calor do corpo da Terra que eles interceptam, conseguiremos a resposta correta. Descobriremos que, em media – uma media que leva em conta as estações, a latitude e as horas do dia –, a superfície da Terra deve estar a uns 13°C acima de zero. É por isso que os oceanos não congelam, que o clima é adequado para a nossa espécie e para a nossa civilização.

A nossa vida depende de um equilíbrio delicado de gases invisíveis que são componentes secundários da atmosfera da Terra. Um pouco de efeito estufa é muito bom. Mas se acrescentamos mais gases-estufa – como temos feito desde o inicio da revolução industrial – absorvemos mais radiações infravermelhas. Tornamos o cobertor mais espesso. Aquecemos ainda mais a Terra. 

(Carl Sagan, Bilhões e Bilhões, pgs. 78-83.)

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

O Mundo que Chegou Pelo Correio - parte 4 - final (Carl Sagan)

"O nosso mundo grande é muito semelhante a esse mundo pequeno, e somos muito parecidos com os camarões. Mas há, pelo menos, uma diferença importante: ao contrario dos camarões, somos capazes de mudar o nosso meio ambiente. Podemos fazer conosco o que um dono descuidado daquela esfera de cristal pode fazer com os camarões. Se não cuidarmos, podemos aquecer o nosso planeta pelo efeito estufa atmosférico ou esfriá-lo e escurecê-lo com as conseqüências de uma guerra nuclear ou de um grande incêndio num campo petrolífero (ou ignorar o perigo de um impacto causado por um asteróide ou um cometa). Com a chuva ácida, a diminuição da camada de ozônio, a poluição química, a radioatividade, a destruição das florestas tropicais, e uma dúzia de outros ataques ao meio ambiente, estamos puxando e esticando o nosso pequeno mundo em direções bem pouco compreendidas. A nossa civilização pretensiosamente avançada pode estar alterando o delicado equilíbrio ecológico que evolui com dificuldade ao longo do período de 4 bilhões de anos da vida sobre a Terra.
Os crustáceos, como os camarões, são muito mais antigos que as pessoas, os primatas ou até os mamíferos. As algas remontam a 3 bilhões de anos atrás, muito antes dos animais, quase até a origem da vida sobre a Terra. Todos têm trabalhado juntos – plantas, animais, micróbios – por muito tempo. O arranjo de organismos na minha esfera de cristal é antigo, muito mais antigo que as instituições culturais que conhecemos. A tendência a cooperar tem sido dolorosamente extraída por meio do processo evolucionário. Aqueles organismos que não cooperam, que não trabalharam uns com os outros, morreram. A cooperação está codificada nos genes dos sobreviventes. Faz parte da sua natureza cooperar. É a chave para a sua sobrevivência.
Mas nós, humanos, somos recém-chegados, pois só surgimos há uns poucos milhões de anos. A nossa presente civilização técnica tem apenas algumas centenas de anos. Não tivemos muitas experiências recentes de cooperação voluntaria entre as espécies (ou até entre a mesma espécie). Somos muito inclinados ao curto prazo e quase nunca pensamos no longo prazo. Não há garantia de que seremos bastante sábios para compreender o nosso sistema ecológico fechado em todo o planeta, ou para modificar o nosso comportamento de acordo com esse entendimento.
O nosso planeta é indivisível. Na América do Norte, respiramos oxigênio gerado na floresta tropical brasileira. A chuva acida das indústrias poluentes no meio oeste norte-americano destrói florestas canadenses. A radioatividade de um acidente nuclear na Ucrânia compromete a economia e a cultura Lapônia. A queima de carvão na China aquece a Argentina. Os clorofluorcarbonetos liberados por um ar-condicionado na Terra Nova ajudam a causar câncer de pele na Nova Zelândia. Doenças se espalham rapidamente ate os pontos mais remotos do planeta e requerem um trabalho medico global para serem erradicadas. E, sem duvida, a guerra nuclear e um impacto de asteróide representam um perigo para todo o mundo. Gostando ou não, nós, humanos, estamos ligados com nossos colegas humanos e com as outras plantas e animais em todo o mundo. As nossas vidas estão entrelaçadas.
Se não fomos agraciados com um conhecimento instintivo que nos mostre o que fazer para que nosso mundo regido pela tecnologia seja um ecossistema seguro e equilibrado, devemos descobrir como fazê-lo. Precisamos de mais pesquisa cientifica e mais controle tecnológico. É provavelmente muito cômodo esperar que um grande Zelador do ecossistema venha à Terra e corrija os nossos abusos ambientais. Cabe a nós a tarefa.
Não deve ser tão difícil assim. Os pássaros – cuja inteligência tendemos a denegrir – sabem o que fazer para não sujar o ninho. Os camarões, com cérebro do tamanho de partículas de fiapos, sabem o que fazer. As algas sabem. Os microorganismos unicelulares sabem. Já é hora de sabermos também."

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

O Mundo que Chegou Pelo Correio - parte 3 (Carl Sagan)

"As fantasmagóricas cascas mortalhas e o raro corpo morto de um camarão não permanecem por muito tempo. São comidos, em parte pelos outros camarões, em parte pelos microorganismos invisíveis que proliferam no oceano desse mundo. E assim nos lembramos de que essas criaturas não trabalham sozinhas. Elas precisam umas das outras. Elas cuidam umas das outras – de um modo que não sou capaz de fazê-lo. Os camarões tiram oxigênio da água e exalam oxigênio. Eles respiram mutuamente os gases que são refugos dos outros. Seus refugos sólidos também passam pelas plantas, animais e microorganismos. Nesse pequeno éden, os moradores têm um relacionamento extremamente íntimo.
A existência dos camarões é muito mais tênue e precária que a de outros seres. As algas podem viver muito mais tempo sem s camarões do que os camarões podem viver sem as algas. Os camarões comem as algas, mas as algas se alimentam principalmente de luz. Por fim – ate hoje não sei a razão – os camarões começaram a morrer um a um, chegou o momento em que restava apenas um deles, mordiscando mal-humorado – assim parecia – um raminho de alga ate morrer. Um pouco para minha surpresa, eu me peguei chorando a morte de todos eles. Acho que foi em parte porque eu chegara a conhecê-los, um pouco, mas em parte, eu sabia, foi porque eu temia um paralelismo entre o seu mundo e o nosso.
Ao contrario de um aquário, esse pequeno mundo é um sistema ecológico fechado. A luz entra no mundo, mas ele não recebe nada mais – nem alimento, nem água, nem substancias nutritivas. Tudo deve ser reciclado. Exatamente como na Terra. Em nosso mundo maior, nós também – plantas, animais e microorganismos – vivemos um dos outros, respiramos e comemos os refugos uns dos outros, dependemos uns dos outros. A vida em nosso mundo é também energizada pela luz. A luz do sol, que passa pelo ar claro, é colhida pelas plantas e lhes dá força para combinar dióxido de carbono com água e assim formar carboidratos e outros materiais comestíveis, que por sua vez constituem a dieta principal dos animais."

terça-feira, 19 de outubro de 2010

O Mundo que Chegou Pelo Correio - parte 2 (Carl Sagan)

"Depois de algum tempo, começamos a poder distinguir os indivíduos. Um camarão está na muda, abandonando o seu velho esqueleto para criar espaço para o novo. Mais tarde, podemos ver o que restou – a casca transparente, como uma mortalha, pendendo rígidamente de um ramo, seu amigo ocupante cuidando de seus afazeres com uma nova carapaça luzidia. Eis um ao qual está faltando uma pata. Teria havido um furioso combate pata a pata, talvez por causa do afeto de uma devastadora beldade casadoira?
De certos ângulos, o topo da água é um espelho, e um camarão vê o seu próprio reflexo. Será que consegue se reconhecer? Mais provavelmente, apenas vê o reflexo como mais um camarão. De outros ângulos, a espessura do vidro curvo os amplifica, e então posso ver como eles realmente são. Observo, por exemplo, que têm bigodes. Dois deles correm para o topo da água e, incapazes de romper a tensão da superfície, batem no menisco. Depois, aprumados – um pouco espantados, imagino – afundam suavemente para o fundo da esfera. Suas patas estão cruzadas de modo casual, pelo menos é o que quase parece, como se a façanha fosse rotina, nada digno de contar na carta para a família. Eles são senhores de si.
Se consigo ver claramente um camarão pelo cristal curvo, imagino que ele deve ser capaz de me ver, ou pelo menos o meu olho – um grande disco preto avultando, com uma coroa marrom e verde. Na verdade, às vezes, quando estou observando um que mexe agitadamente nas algas, ele parece se enrijecer e olhar para mim. Temos feito contato ocular. Eu me pergunto o que ele acha que vê.
Depois de um ou dois dias de preocupações com o trabalho, acordo, dou uma olhada no mundo de cristal... todos parecem ter desaparecido. Eu me censuro. Não preciso alimentá-los, dar-lhes vitaminas, mudar a sua água, nem levá-los ao veterinário. Tudo o que tenho de fazer é cuidar para que não fiquem muito na luz, nem muito tempo no escuro, e que estejam sempre a temperaturas entre 40° e 85° F. (acima dessas temperaturas, acho que eles viram sopa, deixando de ser um ecossistema.) Por falta de atenção, eu os teria matado? Mas então vejo um deles colocando a antena para fora atrás de um ramo, e compreendo que eles ainda estão com boa saúde. São apenas camarões, porem depois de algum tempo começamos a nos preocupar com eles, a torcer por eles. Se ficamos a cargo de um pequeno mundo como esse, e conscienciosamente nos preocupamos com a sua temperatura e níveis de luz, então – fosse qual fosse a nossa intenção no inicio – acabamos por nos importar com aqueles que estão lá dentro. No entanto, se estiverem doentes ou morrendo, não podemos fazer muita coisa para salvá-los. De certo modo, somos mais poderosos que eles, mas eles fazem coisas – como respirar água – que não fazemos. Somos limitados, poderosamente limitados. Até nos perguntamos se não é cruel colocá-los nessa prisão de cristal. Mas nos tranqüilizamos com o pensamento de que pelo menos ali eles estão a salvo das baleias com barbatanas na boca, dos vazamentos de óleo e do molho de coquetel."

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

O Mundo que Chegou Pelo Correio - parte 1 (Carl Sagan)

Vou transcrever aqui um texto grande, mas muito bom, de Carl Sagan extraído do livro "Bilhões e Bilhões". Vou dividí-lo em partes. Vale a pena lê-lo, fala sobre o mundo em que vivemos, a preservação deste mundo, e a falta de bom senso do ser humano, que se acha a mais inteligente das criaturas...

"O mundo chegou pelo correio. Estava marcado “frágil”. No embrulho, havia um adesivo com a figura de um pequeno globo partido. Eu o abri cuidadosamente, temendo ouvir o tilintar de cristal quebrado ou descobrir cacos de vidro. Mas estava intacto. Com as duas mãos, tirei-os da caixa e o ergui à luz do sol. Era uma esfera transparente, com água mais ou menos pela metade. O numero 4210 estava indicado numa etiqueta não muito visível. Mundo número 4210: devia haver muitos desses mundos. Cautelosamente, eu o instalei no suporte de acrílico que veio junto e fiquei observando.
Podia ver a vida lá dentro – uma rede de ramos, alguns incrustados com algas verdes filamentosas, e seis ou oito pequenos animais, a maioria cor-de-rosa, saltando, ao que parecia, entre os ramos. Alem disso, havia centenas de outras espécies de seres, tão abundantes nessas águas quanto os peixes nos oceanos da Terra. Mas eram todos micróbios, muito pequenos para que eu pudesse vê-los a olho nu. Evidentemente, os animais rosa eram camarões de uma variedade apropriadamente despretensiosa. Eles logo atraiam a atenção, porque estavam muito ocupados. Alguns tinham pousado nos ramos e estavam caminhando sobre dez patas e abanando muitos outros apêndices. Um deles estava dedicando toda a sua atenção, além de um considerável numero de patas, ao ato de comer u filamento de planta. Entre os ramos, cobertos de algas assim como as arvores na Geórgia e no norte da Flórida se cobrem de barbas-de-pau, podia-se ver outro camarão movendo-se como se tivesse um compromisso urgente em algum outro lugar. Às vezes eles mudavam de cor, ao passarem nadando de um ambiente para outro. Um era pálido, quase transparente; outro, laranja, com um constrangido rubor vermelho.
Sob alguns aspectos, é claro, eram muito diferentes de nós. Tinham seus esqueletos de fora, respiravam água, e uma espécie de anus estava desconcertadoramente localizado perto de suas bocas. (mas eram exigentes no que dizia respeito à aparência e limpeza, possuindo um par de patas especializadas com cerdas semelhantes a escovas. De vez em quando, um camarão dava em si mesmo uma boa esfregadela.)
Mas, sob outros aspectos, eles eram como nós. Era difícil não perceber. Tinham cérebro, coração, sangue e olhos. Aquela agitação de apêndices natatórios impulsionando-os pela água traia o que parecia ser um evidente sinal de propósito. Quando chegavam ao seu destino, atiravam-se aos filamentos de alga com a precisão, delicadeza e diligencia de um gourmet aficionado. Dois deles, mais aventureiros que o resto, erravam pelo oceano desse mundo, nadando bem acima das algas, explorando languidamente o seu domínio."

sábado, 25 de setembro de 2010

Cotidiano Pré Histórico (Carl Sagan)

Mais um texto de Carl Sagan. Interessante como ele descreve o cotidiano de uma família, um grupo pré histórico, como se ele fizesse parte desse grupo. Nos faz parar e pensar nos primórdios da humanidade. Ao analisarmos a organização do ser humano, chegamos à conclusão que não evoluímos tanto assim...


"Andamos por aí. Com nossos filhos e nossos pertences nas costas, seguimos em frente – perseguindo a caça, procurando os buracos de água. Armamos um acampamento por algum tempo, depois partimos de novo. Para providenciar os alimentos para o grupo, os homens em geral caçam, as mulheres em geral colhem. Carne e batatas. Um típico bando itinerante, geralmente uma família extensa de parentes de sangue e de afinidade que chega a algumas dúzias. Anualmente, muitos de nós, com a mesma língua e cultura, se reúnem – para cerimônias religiosas, para comerciar, arranjar casamentos, contar histórias.
Estou me atendo aos caçadores, que são homens. Mas as mulheres têm poder social, cultural e econômico. Elas colhem os produtos essenciais – as castanhas, as frutas, os tubérculos, as raízes, bem como as ervas medicinais, caça pequenos animais e fornecem informações estratégicas sobre os movimentos dos animais grandes. Os homens também colhem alguma coisa e fazem grande parte do “trabalho doméstico” (mesmo que não existam casas). Mas a caça – só para obter alimento, nunca por esporte – é a ocupação constante de todo macho capaz.
Os meninos pré-adolescentes caçam pássaros e pequenos mamíferos com arcos e flechas. Já adultos, são peritos em conseguir armas; em aproximar-se furtivamente da presa, matá-la e abatê-la; e em carregar os pedaços de carne de volta para o acampamento. O primeiro abate bem sucedido de um grande mamífero indica que o jovem se tornou adulto. Em sua iniciação, incisões rituais são feitas em seu peito ou braços, e uma erva é esfregada nos cortes para que, quando cicatrizados, apareça uma tatuagem desenhada. É como as fitas de campanha – só de olhar para o seu peito, já se sabe alguma coisa de sua experiência de combate.
Dentre uma confusão de marcas de cascos, podemos dizer com precisão quantos animais passaram; a espécie, os sexos e as idades; se algum estava manco; há quanto tempo passaram; a que distância estão agora. Alguns animais jovens podem ser capturados por luta em campo aberto; outros, com arremessos de estilingue ou bumerangues ou apenas por um lançamento de pedras preciso e forte. É possível abordar animais que ainda não aprenderam a temer o homem e matá-los a pauladas. Em distâncias maiores, contra presas mais cautelosas, atiramos lanças ou flechas envenenadas. Às vezes temos sorte e,com um ataque habilidoso, conseguimos forçar um bando de animais a cair numa emboscada ou a se precipitar de um penhasco.
O trabalho de equipe entre os caçadores é essencial. Para não assustar a caça, devemos nos comunicar por uma linguagem de sinais. Pela mesma razão, precisamos manter nossas emoções sob controle; tanto o medo como o júbilo são perigosos. Somos ambivalentes a respeito da presa. Respeitamos os animais, reconhecemos nosso parentesco em comum, nos identificamos com eles. Mas se refletimos muito sobre sua inteligência ou sua dedicação aos filhotes, se sentimos pena deles, se reconhecemos profundamente que são nossos parentes, nossa dedicação à caçada esmorece. Levamos para casa menos alimentos, e nosso bando pode se ver mais uma vez em perigo. Somos obrigados a criar uma distância emocional entre nós e eles."

quinta-feira, 29 de julho de 2010

Grandes macacos - não me interpretem mal

Parafraseando o Sr. K, opinião é como traseiro. Cada um tem o seu, e dá quem quer. Eu não gosto muito de esportes. Acompanho com um interesse vago as olimpíadas, gostaria de poder praticar tenis de mesa, concordo que os esportes são importantes para uma vida saudável. Entretanto você jamais será saudável se jogar futebol e se entupir de cerveja ou outras drogas ou anabolizantes. Mas o assunto não é esse. Sou uma pessoa muito feliz por não ter orkut e detestar futebol. Mas o assunto tampouco é esse. O fato é que, observem bem... existe algum esporte mais primitivo e grotesco do que o futebol? Ouvi um comentario do Marvin sobre o assunto e concordei. Baseados em trechos do livro Bilhões e Bilhões, de Carl Sagan, chegamos à conclusão de que os esportes são as guerras do homem moderno. Sem caçadas, combates, os homens - sim, principalmente eles - saciam sua sede de sangue nos esportes. Parece grotesco, mas não é. Analisem: O ser humano se prepara com afinco para uma competição esportiva. A vitória é seu objetivo supremo. Alguns levam essa busca às últimas consequências. Sempre haverá um perdedor, a grande marca da guerra. Sim, as batalhas nos campos dos esportes são batalhas civilizadas, sem sangue, sem mortos - pelo menos normalmente - mas são resquícios das batalhas dos nossos ancestrais. São a guerra moderna, os combates que incitam nosso instinto guerreiro. E repito: não conheço esporte mais grotesco do que o futebol. Inclusive o americano. Todos aqueles homens suados, imundos, se batendo, cuspindo no gramado, descabelados, desarrumados ao extremo, violentos, ignorantes. Se batem por 90 minutos para no final o cara de preto bem arrumado recolher a bola... sim, esse é o esporte dos machos...

domingo, 4 de julho de 2010

Carl Sagan (parte II)

Conforme o prometido, aqui está mais um capítulo do artigo de Carl Sagan, se você quer ler a parte I, CLIQUE AQUI.

"Na esteira dos desastres do ônibus espacial Challenger e da usina nuclear de Chernobyl, somos lembrados de que podem ocorrer fracassos catastróficos na alta tecnologia, apesar de nossos melhores esforços. No século de Hitler, reconhecemos que loucos podem alcançar o controle absoluto sobre estados industriais modernos. É apenas uma questão de tempo até que ocorra um erro sutil imprevisto nas máquinas de destruição em massa, um fracasso crucial na comunicação ou uma crise emocional num líder nacional já sobrecarregado de problemas. Em toda parte, a espécie humana gasta quase 1 trilhão de dólares por ano, a maior parte pelos Estados Unidos e pela União Soviética, nos preparativos para a intimidação e a guerra. Talvez, depois de um exame preliminar, decidissem ser mais conveniente ter um pouco de paciência e esperar que nós nos autodestruíssemos.
 
Estamos numa situação de risco. Não precisamos de invasores alienígenas. Nós próprios já geramos perigos suficientes. Mas são perigos invisíveis, aparentemente muito distantes da vida cotidiana, exigindo pensamentos cuidadosos para serem compreendidos e envolvendo gases transparentes, radiação invisível, armas nucleares que quase ninguém realmente viu em uso – em vez de um exército estrangeiro com intenções de saquear, escravizar, estuprar e assassinar. Os nossos inimigos comuns são mais avessos a serem personificados, mais difíceis de odiar do que um Shahanshah, um Khan ou um Führer. E reunir as forças contra esses novos inimigos exige de nós esforços corajosos da Terra, mas especialmente os Estados Unidos e a União Soviética – somos responsáveis pelos perigos que agora enfrentamos."

 

quinta-feira, 17 de junho de 2010

Carl Sagan (parte I)

                    A partir de hoje trarei aqui alguns textos de autoria de Carl Sagan, o grande astrônomo e divulgador da Ciência. Este homem foi um ser humano incrível, e seus livros mudaram a maneira de ver o mundo de muita gente. Eu li "Bilhões e Bilhões", um livro incrível, onde ele fala do nosso dever de preservar o planeta, o qual ele vê como nossa casa. E tambem fala de sua luta contra a doença que tirou sua vida.
Em 1988, ele foi convidado a escrever um artigo sobre o relacionamento entre EUA e União Soviética. O artigo seria publicado simultaneamente nos periódicos de maior circulação nos dois países. Nessa época, Mikhail Gorbachev tateava para dar aos cidadãos soviéticos um pouco de liberdade de expressão e Ronald Reagan tentava mudar lentamente sua postura de “Guerra Fria”. Algumas frases e palavras foram consideradas “perigosas” para o cidadão soviético médio e consequentemente modificadas de acordo com a vontade do governo soviético. Vale a pena ler:



                    “Se ao menos os extraterrestres estivessem prestes a invadir a Terra, disse o presidente norte-americano ao secretário-geral soviético, então os nossos países poderia se unir contra um inimigo comum. Na verdade, há muitos exemplos de adversários mortais, engalfinhados durante gerações, que deixaram de lado as diferenças para enfrentar uma ameaça ainda mais urgente: as cidades-estados gregas contra os persas; os russos e os polovtsys (que tinham saqueado Kiev) contra os mongóis; ou, quanto a isso, os norte-americanos e os soviéticos contra os nazistas.



                    Uma invasão alienígena é evidentemente improvável. Mas há um inimigo incomum – na verdade, uma série de inimigos comuns, alguns de ameaça sem precedentes, todos peculiares à nossa época. Derivam de nossos crescentes poderes tecnológicos e de nossa relutância em abandonaras vantagens visíveis de curto prazo pelo bem-estar de mais longo prazo de nossa espécie.



                    O ato inocente de queimar carvão e outros combustíveis fósseis aumenta o efeito estufa do dióxido de carbono e eleva a temperatura da Terra, de modo que em menos de um século, segundo algumas projeções, o meio-oeste norte-americano e a Ucrânia soviética – atuais celeiros do mundo – podem ser convertidos em algo parecido com os desertos de vegetação enfezada. Gases inertes, aparentemente inofensivos, usados para a refrigeração, diminuem a camada protetora de ozônio. Aumentam a quantidade da mortal radiação ultravioleta do Sol que chega até a superfície da Terra, destruindo grande número de microorganismos desprotegidos que estão na base de uma cadeia alimentar bem pouco compreendida – em cujo topo precariamente oscilamos. A poluição industrial norte-americana destrói as florestas no Canadá. Um acidente num reator nuclear soviético põe e perigo a antiga cultura da Lapônia. Epidemias grassam por todo o mundo, aceleradas pela moderna tecnologia dos transportes. E inevitavelmente há outros perigos que, com nosso habitual foco arrogante de curto prazo, ainda nem sequer descobrimos.



                    A corrida de armas nucleares, iniciada em conjunto pelos Estados Unidos e pela União Soviética, transformou o planeta numa armadilha com 60 mil armas nucleares – número mais do que suficiente para eliminar as duas nações, pôr em risco a civilização global e talvez até acabar com o experimento humano de 1 milhão de anos. Apesar de protestos indignados de intenções pacíficas e de obrigações em tratados solenes para reverter a corrida de armas nucleares, os Estados Unidos e a União Soviética ainda conseguem construir um n úmero considerável de novas armas nucleares a cada ano, suficiente para destruir toda cidade de bom tamanho no planeta. Quando solicitados a se justificar, cada um aponta seriamente para o outro.