Mostrando postagens com marcador literatura. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador literatura. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 7 de novembro de 2019

A Revolução dos Bichos - George Orwell

Terminei de ler este livro, que foi publicado em 1945 no Reino Unido. Uma crítica ao totalitarismo da União Soviética de Stalin, e atualmente, ainda é válida como um alerta a qualquer tipo de governo autoritário e hipócrita, seja ele de direita ou esquerda.

A fábula mostra perfeitamente como os ideais de uma sociedade justa - por mais bem intencionados que sejam - podem tornar-se uma ameaça quando impostas por um líder autoritário. 

A ignorância e a exploração dos trabalhadores - que desconhecem o seu poder e importância como geradores de riqueza - são o combustível para a manutenção da elite. Um líder autoritário, como o porco Napoleão da fábula, pode distorcer os ideais, manipular a história, e fazer alianças justamente com quem tratava antes como inimigo. Não há preocupação com os menos favorecidos, há somente interesse próprio.

O socialismo falhou, e a ditadura de Stalin matou milhões de pessoas, matou mais que o nazismo. O capitalismo também falhou, e somente permanece porque é o modelo econômico que favorece a elite. Se houvesse justa divisão de renda, o capitalismo seria viável, pois o único problema deste modelo econômico é que após a geração de lucro pelo trabalhador, este fica com a menor fatia, não há justa divisão. E se considerarmos todas as pessoas mortas em guerras por petróleo e território, e todas as pessoas que morrem de fome devido à exploração, o capitalismo matou muito mais que Stalin.

Em tempos de falsos leões (que na verdade também são porcos), o livro de George Orwell é uma obra que indico a todos. Juntamente com "1984", do mesmo autor, "Fahrenheit 451" de Ray Bradbury, "Admirável Mundo Novo" de Aldous Huxley e "Laranja Mecânica" de Anthony Burgess formam uma biblioteca indispensável de alerta sobre os perigos da desinformação, da manipulação de ideias e fatos, da perda de liberdade em prol de segurança, da falta de consciência de classe e da falsa esperança de que líderes autoritários são a solução para países em desenvolvimento.

segunda-feira, 16 de setembro de 2019

Diário de Guantánamo

A jornalista Mahvish Rukhsana Khan relata neste livro as atrocidades que o Governo americano cometeu contra os presos em Guantánamo, uma prisão para “terroristas”. Sim, há terroristas em Guantánamo, mas a grande maioria dos presos são pessoas comuns, que viviam suas vidas comuns no Oriente Médio: médicos, professores, jornalistas, pastores de ovelhas, dentistas. E por que estão lá? Porque foram entregues por pessoas de mau caráter, por parentes que não gostavam deles, por pessoas que deviam a eles e os entregaram como conspiradores para que não precisassem pagar suas dívidas, ou simplesmente porque o governo americano, através de seus militares, considerou que fossem ameaças…

Como pode um homem de 80 anos que não pode caminhar ser considerado uma ameaça pelo governo dos EUA? Sim, haviam presos idosos e doentes que foram torturados e tiveram sua liberdade negada pelos EUA. 
Graças a Mavish e uma equipe de advogados americanos, alguns deles puderam recorrer e lutar por justiça, sobrevivendo à tirania do governo americano e retornando às suas famílias.

Um livro indispensável para que quer conhecer o lado negro do imperialismo americano.


segunda-feira, 2 de setembro de 2019

Admirável Mundo Novo - Aldous Huxley

632 anos depois de Ford. Isso mesmo, o nosso Ford, que nesta distopia se tornou um deus para o que restou da humanidade. É em 632 depois de Ford que a história se passa... e a humanidade não é mais a mesma: Condicionamento de classes, manipulação genética, criação de classes destinadas a determinados trabalhos... e uma felicidade imposta a todos através da soma, uma droga que faz você se sentir muito bem, mesmo quando as condições são adversas.

É assustador pensar que a classe alta adoraria que as classes menos favorecidas aceitassem sua condição de trabalhadores sem outro destino, e se sentissem "felizes" com isso. No livro, aqueles que por algum motivo não aceitaram tal condicionamento da humanidade, foram excluídos da sociedade, moram em reservas, como "selvagens".

Ao contrário do que acontece no livro 1984, em Admirável Mundo Novo o sexo é incentivado, até mesmo com erotização infantil. O que não é permitido é o amor, a formação de famílias, o sentimentalismo. 

A sociedade se divide em alfas, betas, gamas, deltas e ípsilons, que se classificam ainda em "+" ou "-", de acordo com suas funções. Nenhum ser humano nasce de relações sexuais, todos são gerados em laboratório e condicionados de acordo com as necessidades do sistema. Os termos "pai" e "mãe" são uma ofensa, algo que não deve ser pronunciado, e remetem a uma sociedade inferior, que não existe mais. O crescimento demográfico é controlado e a sociedade importa mais que o indivíduo.

Este livro, assim como 1984, Fahrenheit 451 e outras distopias, é um alerta para nossa própria sociedade, que vive somente para o trabalho, cultiva um desejo desesperado de sucesso e busca a felicidade como status a ser divulgado a todos ao seu redor, esquecendo-se de realmente viver a vida e enfrentar as coisas como elas realmente são.

O livro foi publicado em 1932. 

quarta-feira, 14 de agosto de 2019

Os Miseráveis

Estou lendo a obra prima de Victor Hugo - Os Miseráveis. Que livro fascinante! Victor Hugo mostra de perto as dificuldades enfrentadas pelos menos favorecidos. A pobreza extrema, a injustiça, o desprezo. O livro nos faz chorar.

Como não torcer por Jean Valjean? Como não amar Fantine e Cosette? Que personagens maravilhosos, que beleza e pureza que eles nos passam ao enfrentarem suas dificuldades, ao chorarem e sofrerem. 

O livro foi publicado em 1862, e continua tocando os corações dos sensíveis até o dia de hoje.

Abaixo, alguns dos trechos mais marcantes:

"Enquanto esperamos, estudemos as coisas que já não existem. É necessário conhecê-las, ainda que só para evitá-las. As contrafações do passado tomam falsos nomes e gostam de ser chamadas de futuro. Este fantasma, o passado, está sujeito a falsificar seu passaporte. Coloquemo-nos a par da armadilha. Desconfiemos. O passado tem um rosto, a superstição, e uma máscara, a hipocrisia. Denunciemos o rosto e arranquemos a máscara." (Pág 550)

"Está na moda uma estranha mas cômoda maneira de suprimir as revelações da história, invalidar os comentários da filosofia e eliminar todos os fatos constrangedores e todas as questões obscuras." (Pág 555)

"Estes teóricos  (...) têm um procedimento bem simples, aplicam ao passado um reboco a que dão o nome de ordem social, direito divino, moral, família, respeito pelos antepassados, autoridade antiga, tradição santa, legitimidade, religião; e vão gritando: 'Vejam! Tomem isso, homens de bem!' Essa lógica também era conhecida dos antigos. Cobriam de cal uma novilha preta, e diziam: 'É branca'." (Pág 557)


"Esses homens que se agrupavam sob diferentes denominações, mas que podiam, todos, ser designados pelo título genérico de socialistas, tratavam de perfurar essa rocha para dela fazer jorrar a água viva da felicidade humana.
(...)
Todos os problemas que os socialistas se colocavam, as visões cosmogônicas, os sonhos e o misticismo colocados de lado, podem ser reduzidos a dois problemas principais. 
Primeiro problema: produzir a riqueza. 
Segundo problema: reparti-la. 
O primeiro problema contém a questão do trabalho. 
O segundo contém a questão do salário. 
No primeiro problema, trata-se do emprego das forças. 
No segundo, da distribuição do que se produziu. 
Do bom emprego das forças resulta o poderio público. 
Da distribuição do que foi produzido resulta a felicidade individual. 
Por boa distribuição deve-se entender, não distribuição igual, mas distribuição equitativa. A primeira igualdade é a equidade. 
Da combinação destas duas coisas, poderio público no exterior, felicidade individual interna, resulta a prosperidade social. 
Prosperidade social significa felicidade para o homem, liberdade para o cidadão, grandeza para a nação." (Pág 881)

"De onde viemos? Há mesmo a certeza de que nada fizemos antes de nascermos? A terra não deixa de ter semelhanças com uma prisão. Quem sabe se o homem não é um condenado pela justiça divina? Olhem a vida de perto. Ela é feita de tal modo que por toda parte se vê punição." (Pág 1027)

domingo, 11 de março de 2018

Fahrenheit 451 - Ray Bradbury

O que dizer de Fahrenheit 451? O livro de Ray Bradbury é uma lição, pois a distopia ali apresentada é quase o que vivemos hoje. Não há ainda ninguém queimando livros, mas há muitos desprezando o conhecimento e inibindo a educação para que tudo pareça correto, para que não vejamos o que realmente ocorre na sociedade.

Na distopia apresentada no livro, os bombeiros queimam os livros que são encontrados nas casas, pois livros são uma ameaça. E como dizia Heinrich Heine: "Onde se lançam livros às chamas, acabam por queimar também os homens". As demais personagens vivem dedicando toda sua vida a uma espécie de vida virtual, apresentada nas telas gigantes dentro de suas casas, interagindo com personagens aos quais chamam de família, esquecendo de viver e se socializar com seus entes queridos reais. 

Montag, um bombeiro, conhece Clarisse, que é uma menina "estranha", pois sua família ainda "perde tempo" conversando e rindo, e ela caminha pelas calçadas, sentindo os cheiros, a luz do sol, a brisa, vivendo sua vida, questionando e aprendendo coisas novas. E esse jeito de Clarisse incomoda, e depois impressiona Montag, que acaba abandonando seu posto de bombeiro, entendendo o poder de um livro, o poder de questionar, de conversar, de aprender e de viver de verdade.

Leia o livro e questione, aprenda, opine, converse, sorria. Faça como Clarisse, mesmo que os outros te mandem para um psiquiatra. Não vivemos a vida se não a questionarmos, se continuarmos fechados olhando para as paredes das redes sociais ou das respostas prontas. Precisamos ler e aprender, precisamos carregar o conhecimento conosco, pois algum dia - como Montag descobriu - essa carga poderá ajudar alguém.

terça-feira, 13 de junho de 2017

Livros que me fazem bem - Plantão da Noite

Estou lendo novamente este romance de Irwin Shaw. Não sei explicar o que me atrai neste livro com cara de romance barato de banca, mas é uma história que me faz sentir bem.

Não sei se é Douglas Grimmes com suas preocupações e desilusões, não sei se é Miles Fabian com sua facilidade de se integrar ao mundo, não sei se são os belos locais europeus visitados ou mesmo o simpático senhor italiano Quadrocelli com sua risada.
 
É a história de alguém que saiu do nada, e - mesmo cometendo um erro - venceu. A história de alguém em quem a vida bateu, alguém que perdeu suas asas, seus sonhos. Talvez o tubo de papelão com dinheiro encontrado no hotel tenha sido não um roubo, mas um presente do destino. Douglas Grimmes mereceu este presente.

E os quadros pintados por Ângelo Quinn retratando as andanças de seu pai? Mesmo não conhecendo os locais e não vendo as pinturas, fico impressionado com a beleza e melancolia descritas na tela. São livros assim que nos prendem, livros simples, histórias simples, mas que tem algo de familiar.

De tempos em tempos preciso ler Plantão da Noite. E há também outros livros e filmes que preciso rever de vez em quando, mas tratarei deles futuramente aqui.

Abaixo, Sag Harbor, onde Douglas vai morar com Evelyn numa casinha a beira-mar após resolver voltar para os EUA.

quarta-feira, 5 de abril de 2017

Último Turno - Stephen King SEM SPOILERS

Provando que um ótimo autor de livros de terror pode ser um ótimo autor de livros policiais, Stephen King finaliza magistralmente a trilogia Bill Hodges com o terceiro livro, intitulado "Último Turno".

Comecei a ler esta trilogia por acaso, pois peguei o primeiro livro emprestado (Mr. Mercedes), e quando comecei a ler, não consegui mais parar. Logo de início, King nos conta quem é o assassino, e mesmo assim você continua lendo ávidamente página após página tentando entender como funciona a mente deste psicopata e qual sua influência em suas vítimas.

Já no segundo livro, "Achados e Perdidos", Bill Hodges, nosso querido detetive aposentado enfrenta um outro assassino, um fã obsessivo que mata por seu "amor" à literatura, enquanto o psicopata do primeiro livro está internado numa clínica de traumatismo à beira da morte...

No terceiro livro, "Último Turno" - título escolhido pela esposa de Stephen King - uma pequena dose de terror é acrescentada à trama policial, e nos vemos pulando de coisas inexplicáveis para fatos totalmente explicáveis. No fim, o mal é vencido, e os fatos se ajustam para o término da história de uma maneira que só Stephen King sabe fazer.

A trilogia nos deixa com saudade dos personagens, nos deixa torcendo pra que eles continuem tendo sucesso em outras histórias das quais não vamos saber. O livro nos faz entender e admirar pessoas que não são entendidas ou admiradas por puro preconceito. É policial, é uma pequena dose de terror, mas é também uma lição para fazermos sempre o que precisa ser feito.

quinta-feira, 30 de março de 2017

Os Miseráveis

Hoje ganhei de presente um dos maiores clássicos da literatura mundial: Os Miseráveis. Um ótimo presente para clarear nossas ideias e nos fazer lembrar que muitos vivem em tristeza e injustiça, sem esperança. Vivemos num mundo tão injusto, tão cruel e insensato, que as misérias que assolam os menos favorecidos apenas mudam de face, mudam de lugar, mudam de época, mudam seus meios de ataque. Mas o resultado é sempre o mesmo.

Já comentei com a Larissa várias vezes que há pessoas que lutam tanto, se esforçam tanto e não vêem resultados. A vida não as favorece. É sempre a velha história, a dificuldade que assola tantos para que uns poucos tenham o que não precisam.

Os Miseráveis foi escrito em 1862 por Victor Hugo. Uma magnífica obra que denuncia todas as injustiças humanas. Uma crítica social atemporal. Um homem que rouba um pão e é condenado a 19 anos de prisão. Uma jovem que é abandonada pelo namorado quando tem uma filha. Uma menina explorada por um casal, sendo forçada a trabalhar o dia inteiro. Histórias tristes e marcantes que viram a sociedade humana pelo avesso, mostrando o lado injusto e triste de vidas que lutam por justiça e felicidade.


sexta-feira, 17 de março de 2017

A Batalha de Eduardo Spohr

Estou lendo o livro Anjos da Morte, de Eduardo Spohr. Um livro incrível que, como comentávamos outro dia, mesmo que a história não fosse tão boa, só a pesquisa feita pelo autor já valeria a leitura. Amarrando a história das principais guerras com a história de seus personagens, Eduardo Spohr envolve seus leitores com uma excelente trama.

É tão interessante ver em cada página que viramos citações e referências vividas pelo autor, coisas que já ouvimos no nerdcast e que sabemos que fazem parte da vida do autor, de sua cultura e de sua experiência. Até mesmo os títulos de alguns capítulos nos fazem lembrar de outros filmes e outras histórias de que o autor gosta.

Acredito que o segredo de uma boa escrita, o segredo para criarmos uma obra interessante é justamente isso: colocar no papel suas próprias referências, sua vida. É falar daquilo que você viveu, daquilo que você gosta e conhece. Se você é um aspirante a escritor como eu, acredito que o caminho seja esse. Foi isso que fez com que A Batalha do Apocalipse deixasse de ser apenas um manuscrito dentro de um armário e se tornasse uma obra conhecida em vários países.

Eu e a Larissa fomos para Florianópolis em 2013 e tivemos a honra de conhecer Eduardo Spohr, que é um cara humilde e muito aberto a falar sobre tudo que faz parte da cultura nerd, e sobre o interesse em escrever, essa vontade que tanta gente tem, mas que poucos conseguem pôr em prática. 

A técnica é importante, o conhecimento da língua é importante. A capacidade de desenvolver uma trama é importante, mas o principal é escrever porque gosta. Escrever porque ama. Todo o reconhecimento e até mesmo o dinheiro que pode vir depois não devem ser almejados quando ainda estamos escrevendo. A única coisa que precisamos fazer é gostar do que estamos produzindo. O resto virá depois, no tempo certo.

Florianópolis - SC - 2013

segunda-feira, 13 de março de 2017

O Sol é Para Todos

Depois de ler o excelente livro de Harper Lee - sim, eu disse EXCELENTE, embora alguns discordem - tive a sorte de encontrar na Netflix o filme, de 1963. O filme é em preto e branco, e com excelentes atores: Mary Badham interpreta Scout, Gregory Peck (falecido em 2003) interpreta Atticus Finch e Brock Peters (falecido em 2005) interpreta Tom Robinson.

O filme - dirigido por Robert Mulligan - segue de perto a história original, onde em 1932 no Alabama um negro é acusado de violência e estupro contra uma jovem branca, e Atticus o defende no tribunal, apesar de toda a cultura racista da época. Esse interesse de Atticus pela justiça acaba interferindo na sua vida e na vida de seus filhos, mas mesmo assim ele mantem seu senso de dever ao defender o pobre Tom Robinson, ensinando a seus filhos que a Justiça, assim como o sol, deve ser para todos. 

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

Forrest Gump - "Idiota é quem faz idiotices"

Forrest Gump: O Contador de Histórias. Um dos poucos filmes que, apesar de ser classificado muitas vezes como comédia, me emocionou de verdade, porque traz um único e simples ensinamento: "Você deve fazer o melhor com o que Deus deu para você".

Ganhador de seis Oscars, o filme foi lançado em 1994 e dirigido por Robert Zemeckis. É baseado no romance de Winston Groom, escrito em 1986. 

Quarenta anos de história dos Estados Unidos contados pelo ponto de vista de um simples homem com "QI baixo", que nasceu com problemas na coluna e que não estava nem aí para os acontecimentos dos quais participou. Isso é demonstrado várias vezes no filme pelo personagem de Tom Hanks.

Atravessando eventos como a Guerra do Vietnã - onde fez um grande amigo, que aprendeu o valor que Forrest tinha - o personagem nunca se abala, independente da situação. Em sua simplicidade, Forrest faz uma boa ação atrás da outra, ajudando outras pessoas e fortalecendo-se a si mesmo.

Ele conhece presidentes, inspira Elvis Presley e John Lennon, se torna amigo de um negro mesmo afirmando ser descendente do fundador da KKK, denuncia o caso Watergate sem saber, enfrenta o Furacão Carmen, investe na Apple - definida por ele como "um negócio de frutas" - e inspira frases e smiles.

Deixando de lado a fatia de humor do filme, é uma grande lição. Nos inspira e emociona profundamente. Podemos enfrentar a vida sabendo que merdas acontecem, e quando nos taxarem de idiotas, podemos dizer com confiança: "Idiota é quem faz idiotices".

Edição por computador inserindo o personagem de Tom Hanks numa cena real acontecida em 1963 em frente à Universidade do Alabama, envolvendo uma questão racial discutida pelo presidente Kennedy e o governador George Wallace

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

Sou brasileiro e não desisto nunca

Esta crônica eu escrevi em 2012 quando estávamos - eu e a Larissa - fazendo um curso de crônicas promovido pelo SESC. Ela foi publicada em algum lugar numa certa coletânea de crônicas dos alunos deste curso, coletânea esta que nunca vi...


Sou brasileiro e não desisto nunca

Seu Luis acordou pela manhã com a voz dos filhos reclamando que não havia leite e teriam novamente que tomar café preto antes de sair para a escola, sinal de que sua mulher não havia recebido o Bolsa Família deste mês. Ah, esse Governo, não tem jeito mesmo. O filho mais velho, já com seus treze anos, aproveitou a oportunidade para fugir da obrigação e disse:

- Quer saber? Não vou pra aula sem café!

Jogou a mochila em um canto do sofá, pegou uma bola velha de couro, jogou dentro de uma sacola e saiu levando o precioso objeto. A mãe gritou um “volte aqui, moleque” mais por obrigação que por vontade própria, mas o garoto já estava longe.

A vida era dura, seu Luís tinha pouco estudo. Casou novo, e agora não tinha tempo pra terminar o ensino médio. Já haviam lhe falado em escola para adultos, mas era complicado. Como ele iria passar suas noites numa sala de aula, sendo que estava acostumado com o futebol e a roda de samba? Ele precisava viver.

Enquanto pensava, Luís levantou esfregando os olhos para espantar o sono. No meio do caminho para o banheiro, pegou uma garrafa de cachaça que encontrou no armário e tomou um gole, fazendo uma careta. Após lavar o rosto, sentou-se à mesa. Seu café estava servido: uma fatia de pão amanhecido, café fraco sem leite, e o mau-humor de sua mulher.

Foi trabalhar, mas chegou atrasado, pois passou no bar do Chico pra marcar o pagode pra mais tarde. Luís tocava pandeiro, e se fosse dedicado ao trabalho como era ao pandeiro, os problemas da construção civil no Rio de Janeiro seriam menores. Quando chegou na obra, os pedreiros já estavam pedindo massa.

- Ô chefe, desculpa o atraso aí...

- Tudo bem, Brasil (seu chefe o chamava pelo sobrenome, lembrando os tempos de exército), só quero saber se você confirmou o pagode pra hoje à noite.

- Tá firmado. É só levar a cerveja. Já tem quem toque e também quem dance...

- Essa é a melhor parte!

É sexta-feira. Luís Brasil está feliz. Recebeu seu dinheirinho e vai ao pagode mais tarde, com muita cerveja e muita mulher. Tinha baile funk no morro do Engenho, mas Luís não ia. Quando comparecia, era só pra ver as funkeiras.  No sábado vai ter jogo do Mengão no Maraca, Luís Brasil, torcedor fiel, não vai faltar. Tá certo que o transporte do morro até o estádio é complicado e caro, e o ingresso do jogo, mais caro ainda. E em casa, a carne e o leite haviam acabado, e o gás já estava dando seus últimos suspiros de vida na cozinha, mas o dinheiro do ingresso e da cerveja era sagrado, e por isso, mantido longe das vistas de sua mulher. Eu preciso de um pouco de diversão – pensava o Brasil – não posso viver só me preocupando com o trabalho! Quando os filhos reclamavam, a consciência doía um pouco, mas logo passava, e o sorriso malandro voltava a estampar a face de Luís Brasil. Um dia – pensava ele – as coisas vão melhorar. Afinal, sou brasileiro, e não desisto nunca.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

Língua e Linguagem - Rui Barbosa

Certa vez, Rui Barbosa chegou em casa e ouviu um barulho estranho vindo de seu quintal. Foi averiguar e constatou haver um ladrão tentando levar seus patos de criação. Então aproximou-se vagarosamente do indivíduo e, surpreendendo-o ao tentar pular o muro com seus patos, disse-lhe:

"- Oh, bucéfalo anácrono! Não o interpelo pelo valor intrínseco dos bípedes palmípedes, mas sim pelo ato vil e sorrateiro de profanares o recôndito da minha habitação, levando meus ovíparos à sorrelfa e à socapa. Se fazes isso por necessidade, transijo; mas se é para zombares da minha elevada prosopopeia de cidadão digno e honrado, dar-te-ei com minha bengala fosfórica, bem no alto da tua sinagoga, e o farei com tal ímpeto que te reduzirei à quinquagésima potência que o vulgo denomina nada."

O ladrão, confuso. perguntou:

"- Dotô, rezumino... eu levo ou dêxo os pato?"


domingo, 8 de janeiro de 2017

Achados e Perdidos

Acabei de ler o segundo livro da trilogia Bill Hodges, de Stephen King: Achados e Perdidos. Quem achou que Stephen King não se daria bem no gênero policial, errou feio. King escreve de uma maneira fantástica, prendendo o leitor e lhe proporcionando alguns sustos de vez em quando.

Bill Hodges agora possui uma agência de investigação onde trabalha com Holly. Quando ele resolve ajudar uma adolescente amiga da irmã de Jerome, o que parece ser um caso de envolvimento com dinheiro ilícito acaba se mostrando algo muito maior e mais perigoso. Também é interessante ver King mostrando em pequenos momentos da história algumas cenas envolvendo poderes paranormais durante as visitas de Bill Hodges ao vilão do livro anterior - Mr. Mercedes. Uma trama envolvendo literatura e os perigos que podem ser causados por um leitor fanático.

Pra quem lembra de Misery, Achados e Perdidos é um retorno à obsessão.

quinta-feira, 17 de novembro de 2016

Animais Fantásticos e Onde Habitam

Há um livro do mundo de Harry Potter que cataloga 75 espécies de animais mágicos encontrados nos cinco continentes. O livro didático de Hogwarts, após ter sua versão para os trouxas publicada, foi adaptado para o cinema, estreando hoje. 

Dirigido por David Yates (que já dirigiu Harry Potter), o filme é situado aproximadamente 70 anos antes de Harry Potter e conta a história de Newt Scamander (Eddie Redmayne), um famoso magizoologista que chega a Nova Iorque levando consigo sua maleta onde ele carrega animais fantásticos que coletou em suas viagens pelo mundo. Alguns animais acabam fugindo e Newt precisa recapturá-los urgentemente.


sábado, 29 de outubro de 2016

Stephen King no The Late Late Show

Já li alguns livros de Stephen King, dentre eles "Desespero" e "Mr. Mercedes". Li "Sobre a Escrita" duas vezes, e não conheço outro livro que nos ensine tanto sobre a arte de escrever. Stephen King é uma máquina de criar histórias boas e sabe prender o leitor, fazendo-o virar página após página sem parar. É claro e direto, dono de um humor sarcástico e agressivo que faz parte de sua marca nas histórias que criou. Confira essa entrevista, que foi ao ar em 06 de agosto de 2012.  

domingo, 16 de outubro de 2016

Mas que Inferno! (SPOILERS)

Caríssimos senhores Ron Howard e Dan Brown (sim, eu sei que você fez parte da equipe produtora do filme):

Em primeiro lugar, quero lembrá-los de que se não temos coragem de fazer um filme cuja obra original chama-se Inferno, respeitando esta obra, não há purgatório que resolva.

Se você leu o livro, Ron Howard, deve lembrar que uma das descrições mais insistentes de personagem de Dan Brown é a da doutora Sienna Brooks: cabelos louros presos em um rabo de cavalo, que depois descobre-se que era uma peruca, pois a mesma tinha a cabeça raspada. Não era uma mulher bobinha (que não consegue fechar totalmente a boca, ficando com aquele biquinho irritante de peixe morrendo o filme todo) fingindo inteligência o tempo todo, com cabelos pretos e franja de adolescente indecisa...

A doutora Elizabeth Sinskey no livro é a mulher de longos cabelos prateados, e não GRISALHA! No livro, Robert Langdon acabou de conhecê-la, eles não tem um caso no passado, e não ficam recordando encontros na chuva.

Onde está Christoph Bruder, o violento agente do Suporte ao Monitoramento e Crise (SMI)? Onde está Jonathan Ferris, do Consórcio?  E Vayentha, a assassina? Aquela maluca disfarçada de policial não tem nada a ver com a personagem descrita no livro.

No livro que você escreveu, Dan Brown, Sienna é uma seguidora da causa de Zobrist, mas ela se arrepende no final ao descobrir que o vírus deixaria um terço da população estéril. Ela abre o jogo e é anistiada pela OMS e se dispõe a ajudar Elizabeth Sinskey  a lidar com os problemas decorrentes da contaminação.

O filme termina - não sei se vocês perceberam - TOTALMENTE DIFERENTE  do livro! A ameaça de esterilidade nem sequer é mencionada! Quem não leu o livro nem ficou sabendo do que se tratava o vírus! O que é isso? É o "politicamente correto" em ação? A humanidade não pode perder (mesmo sabendo que um dia vai perder)? No livro o vírus não é contido, porque o Zobrist do livro não era um barbudo idiota namorador, e foi muito inteligente ao liberar o vírus dias antes da chegada de Langdon e da OMS ao local. 

Quando Langdon chega ao local, o vírus já havia se espalhado por todo o planeta, e o câncer conhecido pelo nome de humanidade já estava com seu destino traçado. Nunca mais nasceriam autores que venderiam seus livros para serem alterados e adaptados ao cinema, jogando fora sua história por dinheiro. Nunca mais nasceriam diretores e executivos covardes que mudariam totalmente uma obra, jogando lixo nas telas do cinema para que os leitores da obra original ficassem indignados. ESSE foi o final verdadeiro da história. Bom, vocês devem saber disso, estou aqui apenas para lembrá-los...

Cordialmente,

Sérgio Rodrigues



Sienna "Boca Aberta" Brooks e Dr. Robert Langdon na versão purgatório

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

"Mr. Mercedes" e "Achados e Perdidos" - Stephen King

Li há alguns dias atrás o novo livro - agora policial - de Stephen King, "Mr. Mercedes". Stephen King nos conta logo de saída quem é o psicopata, acabando com o suspense. Mas nos compensa com a possibilidade de acompanharmos o detetive aposentado Bill Hodges em sua investigação para caçar o assassino. 

Hodges se aposentou, e sentia-se culpado por não ter descoberto quem foi o autor de um massacre numa feira de empregos. Ele sentia-se desanimado e às vezes até pensava em dar um fim à sua vida monótona, até que surge uma pista, uma carta, e vemos Bill Hodges "renascer" e voltar a ativa, mesmo estando fora da polícia. Contando com suas habilidades e dois amigos excêntricos - pra não dizer malucos - decide caçar o assassino e impedi-lo de cometer um novo massacre.


E SAIU O SEGUNDO LIVRO DA TRILOGIA BILL HODGES! Intitulado "ACHADOS E PERDIDOS", já está nas livrarias. E as resenhas que tenho visto têm me deixado mais desesperado ainda para ler o novo livro. Dicas: A história envolve livros, um escritor, Bill Hodges (claro!) e lembra algo de "Misery - Louca Obsessão".

quarta-feira, 20 de julho de 2016

Escritores, opiniões e traumas

A opinião dos outros pode ferir, marcar fundo, construir, destruir, incentivar, desmotivar. Mas é importante sabermos identificar o momento certo de dar ou não atenção às críticas que nos são dirigidas, embora isto seja difícil (eu mesmo tenho tentado aprender a lidar com isso). A história está cheia de casos curiosos onde vidas foram destruídas ou construídas dependendo de como essas pessoas souberam encarar as opiniões alheias. 

Em 1961, um menino escrevia contos de terror e levava para a escola, onde os vendia aos colegas, garantindo assim alguns trocados. Um de seus contos chamava-se A Mansão do Terror, e foi muito bem recebido por seus amigos. O sucesso foi tanto que seu autor foi chamado à sala da direção, onde a diretora, srta. Hisler, o admoestou dizendo que ele não podia transformar a escola num mercado, ainda mais para vender lixos como A Mansão do Terror. - Você tem talento - ela disse - Por que desperdiçá-lo?

Muitos anos se passaram, e este autor continuou lutando contra o trauma causado pela diretora "preocupada" com o destino do talento que ele possuía. O tempo passava e ele ainda sentia vergonha do que escrevia, mas continuou escrevendo contos e livros de terror mesmo assim. Mas o trauma foi superado e o sucesso e o reconhecimento vieram. O nome deste autor? Stephen King.


domingo, 15 de maio de 2016

Raskólnikov e as pessoas extraordinárias - Crime e Castigo

Estou lendo Crime e Castigo, do grande escritor russo Fiódor Dostoiévski, que o escreveu quando estava preso em Omsk, privado de toda dignidade e consumido pelo frio, fome e trabalho forçado incessante, além de crises epiléticas e outras moléstias, mas sempre imaginando como viveria ao recuperar a liberdade.

O personagem principal é Raskólnikov, um jovem que saiu de sua cidade deixando mãe e irmã, e foi estudar direito em São Petersburgo. Logo ele vê seus recursos acabarem, e o pouco dinheiro que sua mãe viúva lhe envia mal dá para seu sustento. Vendo-se nesta situação, Raskólnikov comete um crime, e como afirma o livro, "...consumado o crime, o castigo se põe em marcha."


Mas o que me chamou atenção foi um texto, escrito pelo próprio Raskólnikov, em um de seus trabalhos de faculdade, que intitula-se - de acordo com a memória de outro personagem - "Do Crime". Transcrevo abaixo a explanação do próprio Raskólnikov sobre o trecho que me pôs a pensar:

"Em geral, as pessoas com novas ideias, as pessoas minimamente capazes de fazer, ao menos, algo novo, nascem extremamente poucas, até, eu diria, estranhamente poucas. Apenas está claro que a ordem de aparecimento das pessoas e de todas essas categorias e subdivisões deve ser determinada, com muita certeza e precisão, por alguma lei da natureza. Desconhecemos, bem entendido, essa lei hoje, mas eu acredito que ela existe e, no futuro, pode tornar-se conhecida. Essa enorme massa humana, esse material existe na terra somente para que, afinal de contas, por meio de algum esforço, mediante algum processo até agora misterioso, com o auxílio de algum cruzamento de clãs e gêneros, apareça enfim nesse mundo, nem que seja só uma de mil pessoas, um homem minimamente autônomo. Um homem cuja autonomia seja mais ampla nasce, quem sabe, um só entre dez mil pessoas (...). Um homem de autonomia mais abrangente ainda nasce sozinho entre cem mil pessoas. Um homem genial surge sozinho no meio de milhões de pessoas, e os grandes gênios, os timoneiros da humanidade, nascem, talvez, no passar de vários milhares de milhões de pessoas que vivem na terra. Em suma, eu não vi aquela retorta, em que todo o processo se faz. Mas certa lei, sem dúvida, existe e deve existir: não há casualidade nisso."

Várias vezes pensei a respeito disso antes mesmo de conhecer a obra. Como explicar gênios do mundo financeiro e científico como Bill Gates, Steve Jobs, Albert Einstein, Miguel Nicolelis? Como explicar grandes escritores como Tolkien, Asimov e o próprio Dostoiévski? Não desmerecendo o esforço e a capacidade de cada um deles, mas eu sempre penso nos que tentaram e não conseguiram, e talvez a única explicação seja essa pré-determinação, essa escolha natural dos vencedores. Somos todos capazes, mas na maioria covardes, ou o herói é apenas um covarde que foi empurrado para a frente? Não seria mais provável que o vencedor seja alguém com o "gene da vitória" já inserido em seu DNA? 

Sempre me questiono e sofro junto com as pessoas que vejo batalharem a vida toda, trabalharem - mais até do que outras - e não alcançarem seus objetivos, não alcançarem uma vida digna, não alcançarem seus sonhos. Há tanta gente competente ocupando postos incompatíveis com elas, e há tanta gente ignorante ocupando lugares de honra. Algumas vezes não é falta de esforço, nem de coragem, nem de capacidade, é apenas falta de sorte mesmo. E como explicar isso? Talvez era isso que incomodava o jovem Raskólnikov, destituído de seus sonhos, deitado em sua cama pobre, em seu quarto "que mais parecia um armário". Talvez seja esse o sentimento que cria o desespero e a falta de fé. Raskólnikov buscava uma explicação, e a única que encontrou foi essa seleção natural, determinada por algum ser superior. 

É apenas um texto, apenas uma história, e eu até torço para que a verdade não esteja nessas linhas.