Edição original em LP Philips 6349 189
(BRASIL, 1976)


"Meus Caros Amigos" lacks the diversity, emotional range, and formal grace of "Construção". It's too consistent for its own good. Every song here is at least pretty, some are gorgeous, and a few are even emotionally complex enough to register that restless baroque anxiety on "Construção"'s best songs, but I get the sense that, while he's at his peak on "Meus Caros Amigos", he's coasting. On "Construção", he never seems satisfied: there are already plenty of pretty bossa nova and samba songs in the world, and so his exploration of their tropes is ruthlessly interrogative. In a similar fashion to Brian Wilson's "Smile" sessions, "Construção" evolves by refraining previously established melodies over new ones. The basic ingredients of each song on his masterpiece are introduced in the first track, and in an unfolding narrative of sound, each song evolves out of the last. Buarque's feats of re-contextualization can sound shockingly clever. On "Meus Caros Amigos", however, you get a collection of b plus/a minus songs without any conceptual glue to hold them together. They flow smoothly enough. "Meus Caros Amigos" is a minor classic, for sure, but it can seem slight in "Construção"'s shadow. If you're off the heels of that album and desperate for more Buarque, though, you're in luck. There is plenty here that echoes "Construção"'s aesthetic - it's just rarely sublime. After that tragic feeling singular masterpieces can leave you with - that they're not reproducible, that their vision is limited to a 40 minute excursion, this album is a richer way forward than many other second best albums by other artists. (in RateYourMusic)

A década de 1970 viu um Chico Buarque produtivo e intenso, provavelmente o período em que o artista lançou seus álbuns mais importantes. Chico se mostrava naquele Brasil mergulhado numa ditadura militar que já duravam 12 anos, um artista engajado e relevante, não só nos discos que lançava, mas também escrevendo roteiros para peças teatrais e compondo trilhas sonoras para o cinema e teatro. O álbum "Meus Caros Amigos" representa uma espécie de comunhão das ações do cantor nas áreas da música, do cinema e do teatro naquele momento. Lançado em 1976, em pleno governo do presidente militar Ernesto Geisel, "Meus Caros Amigos" traz canções compostas por Chico para o cinema como “O Que Será (A Flor Da Terra)” para o filme "Dona Flor e Seus Dois Maridos", “Vai trabalhar Vagabundo” (para o filme homônimo), “Passaredo” e “A Noiva da cidade” para o filme "A Noiva Da Cidade"; e para o teatro “Mulheres de Atenas” para a peça "Lisa, a Mulher Libertadora", e “Basta Um dia” para a peça "Gota D’Água".
O álbum começa com “O Que Será? (À Flor Da Terra)”, em que Chico Buarque faz um dueto com Milton Nascimento. A música foi tema principal do filme "Dona Flor E Seus Dois Maridos", de Bruno Barreto, baseado no livro homônimo de Jorge Amado, e que estreou nos cinemas em 1976. A faixa seguinte, “Mulheres de Atenas”, de Chico Buarque e do dramaturgo Augusto Boal, foi composta para a peça teatral "Lisa, a Mulher Libertadora", do próprio Boal. O espetáculo era baseado na comédia grega Lisístrata, escrita pelo dramaturgo grego Aristófanes, em 411 a.C. Por muito tempo, erroneamente os autores da canção foram acusados de fazerem apologia à submissão feminina ao machismo. Na verdade, a proposta da canção era justamente o contrário: era alertar as mulheres do nosso tempo a não repetirem a condição de subserviência à que eram condenadas as mulheres da Antiga Grécia, daí o verso 'Mirem-se no exemplo daquelas mulheres de Atenas'. Inspirada nos poemas épicos “Ilíada” e “Odisseia”, ambas de Homero, “Mulheres de Atenas” carrega toda uma atmosfera melancólica na melodia e nos seus versos que demonstram a submissão feminina na Antiga Grécia: 'Elas não têm gosto ou vontade / Nem defeito, nem qualidade / Têm medo apenas / Não têm sonhos, só presságios / O seu homem, mares naufrágios / Lindas sirenas, morenas'.
“Olhos Nos Olhos” foi composta por Chico especialmente para Maria Bethânia gravar, o que acabou acontecendo quando ela gravou para o seu álbum "Pássaro Proibido", lançado em 1976, mesmo ano de "Meus Caros Amigos". Na versão gravada por Chico, o cantor manteve os versos no feminino, da mesma maneira que Bethânia gravou. No bolero “Você Vai Me Seguir”, Chico canta acompanhado do grupo MPB 4 sobre um amante dominador que exerce poder sobre a amada: 'Você vai me seguir / aonde quer que eu vá / Você vai me servir, você vai se curvar...'. Mas no decorrer da canção, ele acaba sendo subjugado pela amada antes submissa: 'Você vai me trair, você vai me beijar / Você vai me cegar e eu vou consentir / Você vai conseguir enfim me apunhalar...'. Fechando o lado B do álbum, “Vai Trabalhar, Vagabundo”, música do filme homônimo, de 1973. Esse samba é sobre um malandro que se julga esperto e quer levar a vida sem fazer o menor esforço.
Abrindo o lado B de "Meus Caros Amigos", o samba “Corrente” apresenta um curioso jogo de inversão de versos. Há quem afirme que seria uma estratégia empregada por Chico Buarque para fazer uma crítica velada à ditadura militar e driblar a censura. A música começa com os versos 'Eu hoje fiz um samba bem pra frente / Dizendo realmente o que é que eu acho / Eu acho que o meu samba é uma corrente / E coerentemente assino embaixo...'. Do meio pro fim, os versos se invertem: 'Isso me deixa triste e cabisbaixo / Por isso eu fiz um samba bem pra frente / Dizendo realmente o que é que eu acho / Eu acho que o meu samba é uma corrente...'. Na sequência, duas canções compostas para o filme "A Noiva da Cidade", de Alex Vianny, e que estreou nos cinemas em 1978: “A Noiva da Cidade” e “Passaredo”. “A Noiva da Cidade” possui versos que fazem alusão às cantigas de ninar do folclore brasileiro ('Que papai tá na roça / E mamãe foi passear...') e ao mesmo tempo, traz versos com um certo tom de erotismo ('Ai, como essa moça é distraída / Sabe lá se está vestida / Ou se dorme transparente...'). Com temática ecológica, “Passaredo” faz um alerta sobre a ameaça predatória do homem sobre as aves. A canção possui uma flauta que parece simular o canto de uma ave, bem condizente com o tema central da música. É talvez a faixa com os arranjos mais bonitos do álbum. Isso se deve ao trabalho de Francis Hime, parceiro de Chico e responsável pela direção artística e pelos arranjos de boa parte das faixas do álbum.
A faixa seguinte é “Basta Um Dia”, música composta por Chico Buarque para a peça teatral "Gota D’Água", em 1975. Com roteiro escrito pelo próprio Chico e por Paulo Pontes, a peça ganhou o Prêmio Molière. No ano seguinte, Chico gravou a canção para "Meus Caros Amigos". O álbum fecha com chave de ouro com “Meu Caro Amigo”, uma canção que Chico e Francis Hime compuseram dedicada a Augusto Boal. Exilado em Portugal e longe do Brasil, Boal buscava notícias da terra natal. A letra da canção foi escrita como se fosse uma carta dirigida a um amigo contando as novidades. Entre um trecho e outro falando de novidades do cotidiano, destaca-se o verso 'Mas o que eu quero lhe dizer que a coisa aqui tá preta', uma referência sutil ao momento político do Brasil na época, sob o domínio de um regime ditatorial. “Meu Caro Amigo” tem um arranjo de choro, o que dá um tom nostálgico à canção. Um grupo de músicos consagrados do choro acompanharam Chico Buarque como o flautista Altamiro Carrilho, o violonista Dino 7 Cordas, o clarinetista Abel Ferreira, o bandolinista Joel Nascimento entre outros.
"Meus Caros Amigos" emplacou quase todas as faixas. “O Que Será (À Flor da Terra)” fez um enorme sucesso, foi uma das músicas mais executadas no rádio em 1976. Enquanto isso, o filme do qual a canção foi tema principal, "Dona Flor E Seus Dois Maridos", levou mais de 10 milhões de espectadores às salas de cinema em todo o Brasil. “Vai trabalhar, Vagabundo”, que já era conhecida do grande público por causa do filme homônimo três anos antes, voltou a fazer sucesso quando foi incluída no album. É impossível ouvir esse samba sem lembrar-se do personagem malandro interpretado por Hugo Carvana, que além de ator protagonista, foi o diretor do filme. “Mulheres de Atenas”, “Olhos Nos Olhos” e “Meu Caro Amigo” também tiveram boa execução radiofônica e estão entre os grandes sucessos da carreira de Chico Buarque.