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terça-feira, 11 de maio de 2021

terça-feira, 18 de agosto de 2020

FAUSTO: "Histórias De Viageiros"

Edição original em LP Orfeu STAT 093
(PORTUGAL 1979, Novembro 6)


Lá vem a Nau Catrineta
Que tem muito que contar!
Ouvide agora senhores,
Uma história de pasmar.

Passava mais de ano e dia
Que iam na volta do mar,
Já não tinham que comer,
Já não tinham que manjar.
Deitaram sola de molho
Para o outro dia jantar;
Mas a sola era tão rija,
Que a não puderam tragar.
Deitam sortes à ventura,
Qual se havia de matar;
Logo foi cair a sorte
No capitão-general.
– «Sobe, sobe, marujinho,
Àquele mastro real,
Vê se vês terras de Espanha,
As praias de Portugal!»
– «Não vejo terras de Espanha
Nem praias de Portugal;
Vejo sete espadas nuas
Que estão para te matar.»
– «Acima, acima, gajeiro,
Acima, ao tope real!
Olha se enxergas Espanha,
Areias de Portugal.»
– «Alvíssaras, capitão, 
Meu capitão-general!
Já vejo terras de Espanha,
Areias de Portugal.
Mais enxergo três meninas
Debaixo de um laranjal:
Uma sentada a coser,
Outra na roca a fiar,
A mais formosa de todas
Está no meio a chorar.»
– «Todas três são minhas filhas,
Oh! quem mas dera abraçar!
A mais formosa de todas
Contigo a hei-de casar.»
– «A vossa filha não quero,
Que vos custou a criar.»
– «Dar-te-ei tanto dinheiro,
Que o não possas contar.»
– «Não quero o vosso dinheiro,
Pois vos custou a ganhar.»
– «Dou-te o meu cavalo branco,
Que nunca houve outro igual.»
– «Guardai o vosso cavalo,
Que vos custou a ensinar.»
– «Que queres tu, meu gajeiro,
Que alvíssaras te hei-de eu dar?»
– «Eu quero a nau Catrineta,
Para nela navegar.»
– «A nau Catrineta, amigo,
É de el-rei de Portugal.
Pede-a tu a el-rei, gajeiro,  | bis
Que ta não pode negar.»

"A Nau Catrineta", de Almada Negreiros
«"A Nau Catrineta" foi provavelmente o nome popular de algum navio favorito: diminutivo de afeição posto na Ribeira das Naus a algum galeão "Santa Catarina", ou coisa que o valha. Dar-lhe-iam esse apelido coquete por sua airosa mastreação, pelo talhe elegante de seu casco, por algumas dessas qualidades graciosas que tanto aprecia o olho exercitado e fino da gente do mar. Ou talvez é o nome suposto de um navio bem conhecido por outro, que o discreto menestrel quis ocultar considerações pessoais e respeitos humanos. Entre as narrativas em prosa que já citei, há uma por título – "Naufrágio Que Passou Jorge de Albuquerque Coelho, Vindo do Brasil no ano de 1565" – que não está muito longe de se parecer com a do romance presente. Larga e difícil viagem, temporais assombrosos, fome extrema, tentativas de devorarem os mortos, resistência do comandante a esta bruteza, milagroso surgir à barra de Lisboa quando menos o esperavam, e quando menos sabiam em que paragens se achassem – tudo isto há na prosa da narração; e até o poético episódio de estarem a ver os monumentos e bosques de Sintra sem os reconhecer – como na xácara se viam, pela falsa miragem do demónio, as três meninas debaixo do laranjal.» (Almeida Garrett, in "Romanceiro", Lisboa, 1843)

segunda-feira, 13 de janeiro de 2020

terça-feira, 3 de dezembro de 2019

FAUSTO: "O Despertar dos Alquimistas"

Edição original em LP CBS 26486
(PORTUGAL 1985, Abril 19)

I can’t help having mixed feelings both about Fausto in a general manner and this album in particular; the inflated ambitious way in which these arrangements seem to have been prepared down to the smallest detail and the pomposity of the instrumentation with strings, horns and choirs all but contribute to enable any eventual sparks of spontaneity; furthermore, his frequent recurring to traditional Portuguese Folk music traditions where the form is normally left predictably untouched and the varied instrumentation can’t disguise a repetitiveness which may be very suitable for a popular dance hall  but becomes irking on record; equally irking is his too serious way of singing filled with arabesques and clichéd expressiveness. However, I also find that the best parts on the album are precisely those that make use of some of these elements, and the elaborate arrangements and the Classical care put in the making on the opening mini-epic “A Memória dos Dias” clearly make it one of the - if not The - album’s highlights; also strong is the both passionate and conformist song of love and delusion “Em Poucas Palavras”, a dichotomy enhanced by the contrast between the Portuguese 12-stringed guitar of Pedro Caldeira Cabral and the strings and French horn and coincidentally the only other piece where pianist Mário Laginha contributes, this time around  with dreamy arpeggios.


On a distinct register is the atmospheric “Quando o Inverno Chegar” with its pedaling tone, Emilio Cao accordion (sanfona) arabesques, the Indian inflections provided by the sitar and ceremonial percussions  and the enthralling anxiety of the choir, whereas the closing title track recurs to a beautifully sorrowful strings arrangements where the celli stand out in cool contrast with the naïve waltzing acoustic guitars of Fausto and Dudas on the one hand and the militant male choir on the other on a positive final note. It’s also impossible to ignore the quality of the lyrics and the way they are sometimes valued and made sound true thanks to the afore mentioned sophisticated singing; but if this album very much follows the “editorial” line of "Por Este Rio Acima“ - and the re-collaboration with producer, musical director and orchestrator (and percussionist, flutist and choir member) Eduardo Paes Mamede is no stranger to the fact - , it’s also true that it lacks a solid script such as its predecessors’ and everything ends up sounding more abstract and intellectual. (in RateYourMusic)

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2019

FAUSTO: "Madrugada Dos Trapeiros"

Edição original em LP Orfeu STAT 040
(PORTUGAL 1977, Agosto 25)

Fausto Bordalo Dias grava, em 1977, "Madrugada dos Trapeiros" (Orfeu), um dos discos fundadores da música popular portuguesa e que, embora com algumas particularidades decorrentes do momento histórico, aborda temáticas que hoje, decorridos quarenta anos, são preocupantemente actuais: desigualdades sociais, desemprego, condições de trabalho lesivas da dignidade humana, redução da mulher a mercadoria sexual, questões ambientais, etc. «Tendo como ponto básico de partida a música tradicional e a criação de raiz urbana, no seio da qual ganha alento novo a tendência para a fusão de elementos vários provenientes de influências diversas» (cit. Mário Correia), o trabalho surge também como reacção à invasão avassaladora e uniformizadora da música anglo-americana (mais propriamente do pop-rock): «Sempre me opus e resisti à tirania do rock e do pop em Portugal pelo que isso representa de normalização da música» (cit. Fausto). Infelizmente, o problema ainda está por resolver e muitos têm sido os danos causados à nossa música de maior valia e autenticidade, perante a indiferença olímpica dos poderes político-culturais. Parafraseando Viriato Teles, «"Madrugada dos Trapeiros" é, ainda, um disco com uma profunda carga política, mas onde é já possível vislumbrar as novas preocupações estéticas do seu autor, nomeadamente através da utilização sistemática de elementos tradicionais – o embrião, afinal, daquilo que virá a ser conhecido como Música Popular Portuguesa. O disco inclui aquele que permanece como um dos maiores êxitos do músico: "Rosalinda", um belíssimo manifesto ecológico [contra a central nuclear que pretendiam construir em Ferrel, Peniche], que foi, inclusivamente regravado em Espanha por Luis Pastor». Destaque ainda para a belíssima e algo esquecida "Mariana das Sete Saias", canção que versa o problema social da prostituição, assunto que Carlos Mendes também cantou na altura ("Amélia dos Olhos Doces") e que Vitorino retomará, quinze anos mais tarde, no álbum "Eu Que me Comovo por Tudo e por Nada" (EMI-VC, 1992). (in anosdaradio)

FAUSTO: "Um Beco Com Saída"

Edição original em LP Orfeu STAT 034
(PORTUGAL, 1975)

Um ano depois da Revolução de Abril, Portugal encontrava-se atolado em pleno Gonçalvismo, com o PREC quase a atingir o seu zénite e os meses de Verão a anunciarem-se “escaldantes”. A euforia musical que tinha inundado as ruas e as salas de espectáculo do País chegava então aos discos. Salvo pontuais e raras excepções, a canção política do Portugal pós-revolucionário transformou-se num programa de princípios com evidente carga pedagógica e, sobretudo, ideológica. Defendia-se o poder popular, a reforma agrária, o combate ao capitalismo, a celebração do operário e do camponês. Tractores e enxadas viravam protagonistas em canções feitas sob certas regras implícitas que promoviam frequentemente a eficaz descodificação da mensagem, a repetição do slogan, a fácil memorização da melodia, a transmissão da ideia. Este “Um Beco Com Saída” de Fausto não fugiu à regra, se bem que diferenciando-se por uma qualidade musical bebida directamente em raízes populares. Gravado por José Fortes nos estúdios da Rádio Triunfo, em Lisboa, o album contava com a colaboração de alguns nomes da chamada canção de intervenção, como Sérgio Godinho ou Adriano Correira de Oliveira. Os arranjos e direcção musical eram obviamente do próprio Fausto e a banda de apoio era formada por Fausto (guitarra rítmica), Júlio Pereira (guitarra-solo, piano e bouzouki), Vitorino (acordeão e 1ª voz em “O Tocador”), Paulo Godinho (viola baixo), Guilherme Inês (bateria), Filipe Zau e Pintinhas (percussões) e Sheila (coros).

FAUSTO: "Pró Que Der e Vier"

Edição Original em LP Orfeu STAT 025 
(PORTUGAL, Junho 1974)
...
aconteça o que acontecer
não temos nada a perder
dê no que vier a dar
assim não podemos ficar...
... e haja lá o que houver
estou p’ró que der e vier.

Contemporâneo de “À Queima Roupa” de Sérgio Godinho, este segundo album de Fausto é de igual modo um trabalho concebido antes de Abril de 1974 e editado já com a Revolução em curso. Gravado no país vizinho, em Madrid, “Pró Que Der e Vier” inclui temas de grandes poetas portugueses, como Eugénio de Andrade e Mário Henrique Leiria e tem acompanhamento vocal de Adriano Correia de Oliveira, José Afonso e Vitorino, que tem aqui o seu primeiro registo sonoro em disco. Na parte instrumental, e para lá do próprio Fausto, registe-se a presença de Júlio Pereira e de vários músicos espanhóis, que conferem ao album um som de grande qualidade sonora, onde se encontram bem patentes as raízes africanas de Fausto, adquiridas durante a infância e a adolescência em terras angolanas.

Com efeito, Carlos Fausto Bordalo Gomes Dias, nasceu a 26 de Novembro de 1948 em pleno Oceano Atlântico, a bordo do navio Pátria que transportava os seus pais para a antiga colónia portuguesa. Por muitos considerado o mais importante compositor vivo da música popular portuguesa, Fausto teve um início de carreira recheado de indecisões. E ainda em Angola que forma a sua primeira banda, o grupo pop "Os Rebeldes". Já em Portugal, frequenta o Instituto Superior de Ciências Sociais e Política Ultramarina (ISCSPU), e é em plena vida académica que grava o primeiro album, “Fausto” (1969), de onde é extraído para single (EP Philips) o tema “Chora amigo chora”. O disco ganha o prémio "Revelação" do programa Página Um da RR. 


Em declarações proferidas à revista Flama em 1970, Fausto hesita ainda na continuidade do trabalho musical: «nunca acreditei muito na minha voz, nem ainda hoje acredito. Já pensei várias vezes na data em que vou largar "isto". (...) Dizem-me que devo continuar, mas não sei bem se será até no próximo mês de Junho que porei o ponto final. Depois, cantarei apenas para os amigos e para mim próprio.» A realidade dos factos e dos anos encarregou-se de desfazer as dúvidas do então jovem estudante. Eleito presidente da direcção da Associação dos Estudantes do ISCSPU, Fausto viu o seu nome não ser homologado no cargo pelo Ministério da Educação, em consequência de um certo comprometimento político da sua actividade musical. E, como castigo, é chamado a cumprir o serviço militar, embora possuísse todas as condições para ter um adiamento. Em resultado, Fausto recusa-se a comparecer no quartel e é considerado refractário. É obrigado, por esta razão, a suspender os estudos universitários, permanecendo no entanto clandestinamente no País.

Entretanto conhece Manuel Freire que o apresenta a Adriano Correia de Oliveira e este, por sua vez, a José Afonso. É deste modo que se inicia a sua aproximação ao movimento renovador da canção portuguesa que, para além dos nomes citados tem ainda em Luís Cília, Vieira da Silva, José Mário Branco ou Sérgio Godinho as maiores referências daquela época. Os espectáculos ao vivo sucedem-se um pouco por todo o lado, quer em Portugal quer no estrangeiro (Espanha, França, Inglaterra e Alemanha tornam-se destinos de inúmeras actuações). Após o eclodir da Revolução de Abril desenvolve com todos os outros uma intensa actividade política e cultural por todo o País, iniciando também uma nova faceta, a de produtor e arranjador musical através de colaborações constantes em trabalhos alheios. Em Maio de 1974 é um dos membros fundadores do GAC – Grupo de Acção Cultural (juntamente com José Mário Branco, Afonso Dias e Tino Flores), do qual se separa em Setembro desse mesmo ano, para prosseguir a sua carreira a solo. A partir de 1988 (ano em que recebe o prémio José Afonso), os seus trabalhos tornam-se mais espaçados (edita apenas 3 albuns até aos dias de hoje), e em 1994 é condecorado com a Ordem da Liberdade.

DISCOGRAFIA (Albuns Originais):

- 1970 - Fausto
- 1974 - Pró Que Der e Vier
- 1975 - Um Beco Com Saída
- 1977 - Madrugada dos Trapeiros
- 1979 - Histórias de Viajeiros
- 1982 - Por Este Rio Acima
- 1985 - O Despertar dos Alquimistas
- 1987 - Para Além das Cordilheiras
- 1988 - A Preto e Branco
- 1994 - Crónicas da Terra Ardente
- 2003 - A Ópera Mágica do Cantor Maldito
- 2011 - Em Busca das Montanhas Azuis

quinta-feira, 19 de julho de 2018

"A Voar Por Cima Das Águas" By FAUSTO & ORLANDO COSTA

A OBRA-PRIMA DE FAUSTO

Original released on Double LP Triângulo TR002/3
(PORTUGAL 1982, November 19)

«Nos vinte e um anos que duraram os meus infortúnios em que por vários acidentes de trabalho que me sucediam, atravessei muita parte da Ásia, como nesta minha viagem se pode muito bem ver, vivi entre a abundáncia e a miséria, entre vencedores e vencidos, sempre cuidando no regresso onde todas as minhas mágoas seriam consoladas.» (in "Peregrinàçao", de Fernäo Mendes Pinto)


"Por Este Rio Acima", a obra-prima absoluta de Fausto Bordalo Dias é também um dos discos mais importantes da música portuguesa de sempre. Tendo como fonte de inspiração a obra "Peregrinação", de Fernão Mendes Pinto, Fausto apresenta um duplo álbum conceptual, seguindo do princípio ao fim uma ideia coerente e concretizando-a de forma magistral, dando-nos um trabalho que na verdade supera tudo o que até aí fora feito em Portugal e ainda hoje não igualado nem mesmo pelo próprio Fausto, apesar da tentativa feita em "Crónicas da Terra Ardente" (Sony, 1994), o segundo capítulo sob o signo da Diáspora Lusitana. "Por Este Rio Acima" é simplesmente um caso ímpar na música popular portuguesa, quer do ponto de vista da complexidade da proposta e da sua genial execução quer da extraordinária profundidade musical da obra. Além da riqueza melódica e harmónica, então ainda pouco usual na música popular portuguesa, Fausto aprofunda quase até ao limite a invenção que já vinha de "Madrugada dos Trapeiros" (Orfeu, 1977) e de "Histórias de Viageiros" (Orfeu, 1979) e a exploração de uma nova rítmica, a partir da tradição portuguesa. Este trabalho a todos os títulos superlativo e referencial, – de que se não deve esquecer o precioso contributo de Eduardo Paes Mamede na produção, direcção musical e arranjos (partilhados com o próprio Fausto), e o magistral desempenho de uma plêiade de músicos de excelência, marca de forma decisiva a música popular portuguesa e afirma Fausto como um dos grandes criadores do nosso tempo. (in Portal do Fado)


Créditos:

Arranjos – Eduardo Paes Mamede e Fausto
Orquestrações, direcção musical e produção – Eduardo Paes Mamede
Captação de som – José Fortes, Rui Novais, Luís Flor
Misturas – José Fortes, Luís Flor em "O barco vai de saída" e "A guerra é a guerra"
Capa – José Brandão
Foto – João Castel-Branco

Gravado entre Março a Setembro de 1982 no Angel Studio, em Lisboa
Edição remasterizada em CD (SBM Super Bit Mapping) em 1984 
(Columbia COL 489485 2)


Once I said here that Quarteto 1111 were the best band from the mother land... Forgive me oh my lord! After a 15 year carreer Fausto managed to release the album that is the almagam of the noble portuguese spirit. A country that is not just some poor european backyard, not a spanish region, and surely a place that deserves much more respect than it has (read some of the underrated XIV-XVI centuries history), especially here in the shallow memory and arrogant land of Brazil. "Por Este Rio Acima" is a jewel that contains the Rural Portugal folk music added by some Chico Buarque overtones but all of that fried in some portuguese sadness, sometimes even crimson-like... Such a pity that most people won't be able understand the poetry behind those lyrics which tells us some true storie of a portuguese man and its travel to Southeastern Asia, crossing both the Atlantic and the Indic Oceans (in a wooden boat that maybe would fit in your toilet). Overall what you get is a truly lyric epic progressive folk adventure (Listen to: "Lembra me um sonho lindo") into some of the most usually forgotten european cultures. (in RateYourMusic)

"Eu Vi Este Povo a Lutar" By JOSÉ MÁRIO BRANCO, SÉRGIO GODINHO e FAUSTO

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