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segunda-feira, 31 de agosto de 2020

sexta-feira, 28 de agosto de 2020

SÉRGIO GODINHO: "Canto Da Boca"

Edição original em LP Philips 6330066
(PORTUGAL, 12 de Setembro de 1981)

OST: "Kilas, o Mau da Fita"

Edição original em LP Philips 6330056
(PORTUGAL, 25 de Fevereiro de 1981)

Na memória da obra de José Fonseca e Costa (1933-2015), "Kilas, o Mau da Fita" constitui uma referência incontornável - na sua origem está a vontade de recuperar e transfigurar toda uma tradição cómica que passa pelo teatro de revista. Quando relembramos a obra de José Fonseca e Costa, pensamos desde logo no seu empenho em revisitar momentos críticos da história de Portugal e também no gosto em explorar os territórios do melodrama. E pensamos também no seu sentido de humor - precisamente à maneira de "Kilas, o Mau da Fita". Alguns dos momentos mais célebres da comédia cinematográfica portuguesa, em particular nas décadas de 1930/40, estão ligados à tradição do teatro de revista. "Kilas, o Mau da Fita" é um filme que acredita na possibilidade de revisitar essa tradição. As personagens vivem tanto das suas componentes cómicas como da personalidade dos respectivos intérpretes. Não admira, por isso, que este tenha sido um filme que conferiu especial evidência aos nomes principais do seu elenco - em particular, como é óbvio, Mário Viegas no papel do Kilas e também Lia Gama, transfigurando-se e cantando como Pepsi Rita.

Uma comédia divertida que é também uma sátira a um certo meio português e ao comportamento machista que nele reina. Kilas, numa das mais populares interpretações de Mário Viegas, é um marginal "à portuguesa", e os seus modos imitam os dos gangsters de cinema. "Kilas, o Mau da Fita" foi um grande sucesso comercial na viragem dos anos 70 para os 80. A banda sonora, aqui apresentada, tem assinatura de Sérgio Godinho. Para a história, o filme ficou também como um dos maiores sucessos de sempre da produção cinematográfica portuguesa. Estreado em Fevereiro de 1981, foi de facto um fenómeno que pôs toda a gente a falar do cinema em Portugal. De memórias suadas, carne mole, medos medíocres, vícios e nicotina, surge Kilas - aturdido pela pequenês do físico, tacão alto a deitar figura, de arrogância por medida. Entre tipos marginais e mitos precários de uma farsa passional, eis a criatura mais popular e característica deste filme português. Estilizada por José Fonseca e Costa em "Kilas, o Mau da Fita" - um dos maiores sucessos no pós-25 de Abril.

SÉRGIO GODINHO: "Campolide"

Edição original em LP Orfeu STAT 094
(PORTUGAL 1979, Novembro 23)

Um disco, um estúdio, uma história

A imagem é um retrato quase banal: um homem e uma caixa de viola numa estação de comboios, um relógio onde ainda não são duas horas, um cartaz na parede com o mesmo homem e a mesma viola, gente normal em volta. O homem da viola é Sérgio Godinho, a estação, lê-se no painel de azulejo sobre a porta, é Campolide. Há 38 anos, o homem, a viola e a estação tornaram-se num disco com dez canções sem tempo. "Campolide" é o sexto álbum de originais de Sérgio Godinho, quarto gravado e publicado após o 25 de Abril e o regresso a Portugal do compositor. É, também, o segundo e último que grava para a etiqueta Orfeu, de Arnaldo Trindade. "Campolide", porém, não é sequer o título de qualquer das canções deste álbum. Chama-se assim, apenas, porque foi gravado nos estúdios localizados no 103-C da Rua de Campolide, ao tempo propriedade da empresa de Arnaldo Trindade e conhecidos como «estúdios de Campolide», onde gravaram algumas das mais importantes figuras da música portuguesa. Foi aqui, por exemplo, que em 1969 Adriano Correia de Oliveira registou o histórico "O Canto e As Armas", sobre poemas de Manuel Alegre. Adriano cumpria o serviço militar, tal como Rui Pato, que o acompanhou à viola: «O disco foi gravado durante duas noites de patrulha da polícia militar do alferes Adriano, com ele fardado e com a pistola, o capacete e a braçadeira poisados em cima do piano, e o jipe a passear por Lisboa, com a cumplicidade de certos militares amigos», contaria Rui Pato, muitos anos depois. Adriano foi apenas uma das vozes que se fizeram ouvir nos estúdios de Campolide, que durante anos estiveram para Lisboa um pouco como os estúdios de Abbey Road para a capital inglesa. De Zeca Afonso a Fausto Bordalo Dias, passando por Carlos Mendes, Maria da Fé ou Tony de Matos, praticamente não houve nome grande da música portuguesa que por ali não tenha passado. Não admira, pois, que acabasse por ser nome próprio de um disco. Este, de Sérgio Godinho.


"Campolide", publicado em 1979, tem uma ficha técnica de luxo: Carlos Zíngaro, Pedro Caldeira Cabral, Pedro Osório, Guilherme Inês, Luís Caldeira ou José Eduardo são alguns dos participantes, a que se juntam as colaborações especiais de Adriano Correia de Oliveira, Fausto, José Afonso e Vitorino. Dos dez temas desse disco, destacam-se “Arranja-me um Emprego”, “Cuidado com as Imitações”, “Espectáculo” ou “Lá em Baixo”. Ou “Quatro Quadras Soltas”, o único registo que reúne de uma assentada Sérgio, Fausto, Adriano e Zeca. De resto, não é gratuito dizer que a vida musical de Sérgio Godinho está, desde o início ligada a Campolide: foi para a Sassetti, outra editora histórica, sedeada na Avenida Conselheiro Fernando de Sousa, que gravou dois discos a partir do exílio ("Os Sobreviventes", em 1971, e "Pré-Histórias", em 72) e os dois primeiros após a revolução ("À Queima-Roupa", em 74, e "De Pequenino se Torce o Destino", em 76) . Depois, já na Orfeu, é nos estúdios de Campolide que grava o aclamado "Pano-Cru", de que fazem parte algumas das suas canções mais emblemáticas, como “Balada da Rita”, “A Vida é Feita de Pequenos Nadas”, “Feiticeira” e, principalmente, “O Primeiro Dia”. E, finalmente, "Campolide". Criados nos anos 60, os estúdios de Campolide viriam mais tarde a mudar de mãos, mas não de rumo. Como Estúdios Rádio Triunfo, depois Namouche, e finalmente Xangrilá, o 103-C da Rua de Campolide continuou até há pouco tempo a acolher vozes e personagens importantes da música portuguesa. Agora, restam as memórias de algumas gravações que fizeram história. Como o disco de Sérgio Godinho. (Viriato Teles)

quarta-feira, 26 de agosto de 2020

"A princípio é simples, anda-se sózinho..."


Edição original no LP Orfeu STAT 062
(PORTUGAL, Maio de 1978)



A Sassetti, que integrava a etiqueta Guilda da Música onde tinha lançado os seus quatro primeiros albuns, estava longe de, em 1977, responder aos desejos de Sérgio Godinho, então com uma carreira que crescia em solidez e popularidade. Entre a concorrência, na altura, a Arnaldo Trindade era, a par da Valentim de Carvalho, quem tinha o maior acervo de artistas portugueses, o maior catálogo. Para lá gravavam, então, nomes como os de José Afonso, Adriano Correia de Oliveira, Fausto ou Vitorino, aos quais a partir daquele ano se juntou o nome de Sérgio GodinhoPrimeiro trabalho, portanto, a ser editado pela Orfeu da Arnaldo Trindade, em Maio de 1978, “Pano Cru”, o quinto album de originais do Sérgio é ainda hoje, quase 40 anos depois (!), o meu favorito entre todos. Com um som de Moreno Pinto em que os graves, predominantes, conferiam logo desde a primeira faixa («...muito boa noite, senhoras e senhores...») um impacto sonoro de grande profundidade, “Pano Cru” concretiza os sinais de mudança indiciados no trabalho anterior. É um album-charneira na discografia de Sérgio Godinho que contém dez temas de grande qualidade. Como se costumava dizer, no tempo do vinil, um album em que só era necessário levantar a agulha para mudar de lado.


Um desses temas, “O primeiro dia”, tornou-se numa espécie de cartão de visita, e ainda hoje é apontado como um dos mais evidentes temas de referência da sua obra (talvez apenas suplantado, uns anos mais tarde, pelo também emblemático “Com um brilhozinho nos olhos”). Em Janeiro de 2000, numa lista de Canções Portuguesas do Século, segundo os leitores do DN, a canção surgiu em terceiro lugar, logo depois de “Povo que lavas no rio” por Amália Rodrigues e “Grândola vila morena” de José Afonso. «"Hoje é o primeiro dia do resto da tua vida" é uma frase que me é naturalmente atribuída, mas o que é irónico é que nem sequer é minha», lembra Sérgio Godinho - «existia desde há muito e eu, aliás, faço questão de assumir isso na canção: “...e vem-nos à memória uma frase batida...”. É uma canção que fala da regeneração dos afectos e das forças numa situação de ruptura. Poderá ser o final de um amor, ou ter interpretações mais latas, o final de um qualquer ciclo.» Anos mais tarde, em 1995, Sérgio Godinho interpretou ao vivo uma versão italiana traduzida por ocasião da atribuição do prestigiado Prémio Tenco, entregue por um evento anual de grande projecção em Itália, a Rassegna Della Canzone d’Autore. Uma preciosa raridade em disco, “Roba di Amilcare”, esta versão encontra-se apenas editada no país de origem do certame. «“O galo é o dono dos ovos” é uma canção que tem muita carpintaria. Procurei ser conciso a nível das metáforas, algo que aprendi com tipos como o Brassens, mais tarde o Chico Buarque. Gosto que uma canção seja bem carpinteirada, o que não impede que não tenha depois surpresa, irreverência, desvarios, e de repente uns pregos de fora.»


“Pano Cru” tem, como habitualmente, a presença de grandes músicos: Pedro Osório (piano, acordeão), Carlos Zíngaro (violino, cavaquinho), Paulo Godinho (baixo) e Guilherme Scarpa (bateria), para além do próprio Sérgio (viola) e de algumas outras colaborações esporádicas, como Carlinhos Tumbadoura (ferrinhos) ou Armindo Neves (viola-solo em “Feiticeira”). Nos coros destaque-se o suporte de Fausto, Shila e Eugénia Melo e Castro. A capa do disco surpreendeu então muita gente. «Era uma fotografia retocada à mão pelo gráfico Zé Brandão, e a foto de dentro uma brincadeira durante a sessão de estúdio, que serviu também para quebrar qualquer imagem mais séria. Era preciso, nessa altura...» Em Espanha o album conheceu edição, todavia com capa diferente e título traduzido para espanhol: “Retor”. «Foi uma iniciativa simpática, mas que não teve repercussão nenhuma. Para mim, e para três ou quatro espanhóis, é apenas um objecto de colecção.» Aliás raríssimo, difícil de encontrar nas feiras do disco que correm a Península Ibérica.


«A princípio é simples, anda-se sózinho,
passa-se nas ruas bem devagarinho
está-se bem no silêncio e no burburinho
bebe-se as certezas num copo de vinho
e vem-nos à memória uma frase batida:
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida!

Pouco a pouco o passo faz-se vagabundo
dá-se a volta ao medo e dá-se a volta ao mundo
diz-se do passado que está moribundo
bebe-se o alento num copo sem fundo
e vem-nos à memória uma frase batida:
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida!

E é então que amigos nos oferecem leito,
entra-se cansado e sai-se refeito
luta-se por tudo o que se leva a peito
bebe-se e come-se se alguém nos diz bom proveito
e vem-nos à memória uma frase batida:
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida!

Depois vêm cansaços e o corpo fraqueja
olha-se para dentro e já pouco sobeja
pede-se o descanso por curto que seja,
apagam-se dúvidas num mar de cerveja
e vem-nos à memória uma frase batida:
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida!

E enfim duma escolha faz-se um desafio
enfrenta-se a vida de fio a pavio
navega-se sem mar sem vela ou navio
bebe-se a coragem até dum copo vazio
e vem-nos à memória uma frase batida:
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida!

E entretanto o tempo fez cinza da brasa
outra maré cheia virá da maré vaza
nasce um novo dia e no braço outra asa,
brinda-se aos amores com o vinho da casa
vem-nos à memória uma frase batida:
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida!»

SÉRGIO GODINHO: "De Pequenino..."

Edição original em LP Sassetti DP 064
(PORTUGAL 1976, Abril 14)

Este quarto album de Sérgio Godinho solidificava, em 1976, a sua presença nos cenários da música popular portuguesa. Disco de transição e procura, “De Pequenino Se Torce O Destino” completa com “À Queima Roupa” o que poderíamos hoje, à distância, recordar como o “díptico” político na sua discografia. Mas retoma já o prazer das liberdades poéticas e indica experiências que se materializariam no album seguinte, dois anos depois. A participação de Fausto nos arranjos e direcção musical confere a este disco um notável esforço de aperfeiçoamento: «Trocávamos então experiências musicais e achei que era boa ideia partilharmos a responsabilidade dos arranjos que, de qualquer maneira, não são muito sofisticados. São arranjos onde geralmente a guitarra tem uma presença central.» Além de Fausto, que assina inclusivé a música de “O Namoro” sobre um poema do poeta angolano Viriato da Cruz (único tema que em todo o disco não é da autoria de Sérgio Godinho), há músicos cujos nomes surgem pela primeira vez associados à obra do Sérgio. É o caso de Carlos Zíngaro, que terá uma presença muito mais determinante no album posterior, "Pano-Cru". No album estão ainda incluídas duas das canções compostas por Sérgio Godinho para o filme “Os Demónios de Alcácer Quibir” de José Fonseca e Costa, onde também participou como actor: a canção-título e “Cantiga do Camolas”.


Como revés do recente 25 de Novembro de 1975 (as gravações realizaram-se logo no início de 1976), o disco conheceu um processo de boicote nas rádios: «Houve um efectivo controlo das rádios por gente mais conotada com a direita. Havia uma pressão muito grande no sentido de não se passar um determinado número de coisas. As canções deste disco passaram muito pouco na rádio na altura. Até porque houve uma espécie de autocensura, aliás pouco assumida, da parte de muita gente que então fazia rádio. Era quase como se concluísse: eles passaram tanto nos últimos dois anos, que a gente agora vai deixar o éter respirar. Como se alguém estivesse em perigo de “intoxicação”...» (extractos de “Retrovisor – Uma biografia musical de Sérgio Godinho, de Nuno Galopim, edição Assírio & Alvim, Maio 2006)

SG: "À QUEIMA ROUPA"

Edição original em LP Guilda da Música DP 016
(PORTUGAL 1974, Outubro 13)


Este terceiro trabalho de Sérgio Godinho é um album que tem o 25 de Abril de 1974 como centro de gravidade. Algumas canções (como a “Etelvina”, “Cão Raivoso” ou “De Coração e Raça”) foram ainda concebidas e gravadas no Canadá, outras (como "Independência" ou a famosa “Liberdade” que abre o disco) surgiram no rescaldo da Revolução. Mas a finalização do LP aconteceu já em Portugal, no outono, altura em que o cantor regressou de vez à sua terra. Por coincidência, no momento em que soube dos acontecimentos políticos em Portugal, Sérgio Godinho, então a viver no Canadá, estava na iminência de fazer as malas para uma viagem à Europa. «O meu pai ia fazer 60 anos a 10 de Maio e queria reunir os três filhos. Iriam ter comigo a França, onde o meu irmão Paulo então vivia. Mas quando cheguei a Paris já não encontrei os meus amigos. Alguns tinham partido no dia anterior, no “avião do Cunhal”.


Era o 1º de Maio, vejam lá só que data, um dia de calor, as ruas desertas, eu a tentar saber o que se passava em Portugal e lá o povo todo a comemorar. Tentei certificar-me, sendo um refractário, se havia riscos ao entrar e sair de Portugal. Disseram-me para vir, havia um vazio de autoridade em muitos sectores e nas fronteiras também, não ia haver problemas. E assim vim. De longe, de muito longe, como diria o Zé Mário. No dia em que cheguei fui logo “raptado” para participar num daqueles cantos improvisados que, durante algum tempo, se chamaram “cantos livres”. Foi, penso eu, no átrio da Faculdade de Letras. E na mesma noite fui cantar ao São Luiz numa sala repleta de gente e entusiasmo. E poucos dias depois fui ao Porto ver a minha família e amigos.» Continuemos a reviver as memórias do Sérgio daqueles excitantes dias: «Era muito emocionante perceber que as pessoas conheciam bem as canções, eu que nunca as tinha tocado ao vivo na minha terra. Lembro-me de cantar, entre outras, o “Que Força é Essa”, o “Pode Alguém Ser Quem Não é” e o “Maré Alta”, que me deu um frisson especial. Cantar 'a liberdade está a passar por aqui', que antes tinha sido uma premonição, na própria altura em que isso se estava a tornar realidade, era incrível!»


Fruto do tempo em que surge, “À Queima Roupa” é habitualmente descrito como um dos albuns politicamente mais explícitos da obra de Sérgio Godinho. Sem o panfletarismo imediato que dominaria casos paradigmáticos da canção política pura e dura (com uma proliferação de casos musicalmente menores e com exemplos maiores nos dois primeiros albuns do GAC), Sérgio Godinho retratava o seu tempo, aderia à Revolução, mas não colocava a qualidade poética da escrita em segundo plano, evitando assim uma rendição incondicional à doutrina e urgência de certas manifestações contemporâneas.


A edição de “À Queima Roupa” assinala, de certa forma, o início da carreira de palcos de Sérgio Godinho que, então, passou inevitavelmente pelas muitas sessões de “canto livre” que se disseminavam de norte a sul do País. O facto de ter editado os primeiros dois discos no estrangeiro e de não ter podido actuar em Portugal não correspondia ao que seria um percurso natural. Acentuou-se assim a ideia, ainda hoje firme em si, de procurar satisfazer em palco o que não tinha resultado como queria em estúdio: «Não consigo conformar-me com o facto de a versão gravada ser a versão definitiva. Acho que o disco é um momento importante na vida da canção. É um casamento, onde se faz a boda é no disco. Mas depois a vida continua e a vida da canção também continua. E, como os amores, pode morrer de morte natural ou ganhar vida nova. Podemos fazer transformações que são como os filhos que nascerão dela. Esse é o percurso natural de vida e morte de uma canção.» “À Queima Roupa” mereceu prémios, como os trabalhos anteriores. Entre eles o de "Melhor Album do Ano", para a Rádio Renascença. (extractos de “Retrovisor – Uma biografia musical de Sérgio Godinho, de Nuno Galopim, edição Assírio & Alvim, Maio 2006)

quinta-feira, 23 de julho de 2020

sábado, 4 de abril de 2020

As Pré-Histórias do Sérgio


Edição original no LP Guilda da Música DP 024
(PORTUGAL 1972, Setembro 24)


Editado cerca de um ano após o album de estreia, este “Pré-Histórias” é um disco pensado on the road: com efeito, as dez canções que o compõem foram escritas ao longo das andanças do autor, na altura integrado no grupo teatral Living Theatre: Paris, Brasil, Holanda. Por exemplo, “A Noite Passada” (uma das suas mais belas canções de sempre) foi começada em Paris e continuada numa viagem de autocarro à Bahia, depois, com uma grande ganza numa praia de São Salvador e terminada já na prisão (onde toda a troupe passaria mais de dois meses por causa de uma violenta campanha movida por uma associação de extrema-direita brasileira). As palavras sugerem o momento: «A noite passada um paredão ruiu / pela fresta aberta o meu peito fugiu / estavas do outro lado a tricotar janelas / vias-me em segredo ao debruçar-te nelas...»


Mas demos a palavra ao próprio Sérgio Godinho: «Este segundo album é mais ágil que "Os Sobreviventes". Não tem um tom tão denso, tão pesado. Foi bom começar com o “Barnabé”, que resume em pinceladas breves e fortes o que era o Portugalzinho de então». Mais que no disco anterior, “Pré-Histórias” reflecte uma atenção maior por elementos da música tradicional portuguesa. Um fascínio pelo trabalho de Michel Giacometti, uma admiração continuada pela obra de José Afonso e uma confessa adesão ao lado “pícaro” de algumas canções de António Mafra sugeriram caminhos, que a personalidade de Sérgio Godinho talhou de um modo muito particular, num todo onde as influências folk também foram marcantes.


Como Sérgio Godinho admite, o album não é verbal nem tematicamente tão denso quanto o fora o primeiro: «Há, de certo modo, um propósito assumido de claridade e depuração.» Tal como acontecera no album de estreia, “Pré-Histórias” foi um disco premiado, uma vez mais, pela Casa da Imprensa, que o apontou como Disco do Ano, em 1973. De comum, ambos os discos tiveram igual sorte junto ao mercado português, isto é, este foi também retirado pela censura pouco depois da sua edição.


Como apontamento final sobre um disco que fez história, realcemos que a capa, desenhada à distância, sempre desagradou ao próprio Sérgio Godinho. Era a chamada interpretação literal que ele não queria nem imaginara: «Nunca pensei nos Flinstones nem em imagens caricaturais. O propósito era, precisamente, pegar, como muitas vezes faço, em conceitos adquiridos e dar-lhes um outro sentido.» Os sobreviventes... pré-histórias..., títulos que, quase intuitivamente, eram premonitórios em relação ao 25 de Abril, que se aproximava, à queima-roupa...

(extractos de “Retrovisor – Uma biografia musical de Sérgio Godinho, de Nuno Galopim, Maio 2006)


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