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sexta-feira, 10 de julho de 2015

HERÓIS INESQUECÍVEIS (37) - O PONTO


A 29 de Agosto de 1951, no n.º 852 da saudosíssima revista “Diabrete”, aconteceu um estoiro maravilhoso: o nascimento do herói-BD, O Ponto!...
Pela “estranja”, nada constava de semelhante. Por cá, foi uma firme e encantadora sacudidela na “modorrinha nacional” (como diria Fialho de Almeida), tanto nos leitores como no seio dos nossos desenhistas de então.
Treze pranchas, do n.º 852 ao n.º 864 da já citada revista “Diabrete”, encantaram-nos e divertiram-nos com a história “Loja de Bonecos” ou “O Mistério do Cofre Sarapintado”... 
Pranchas de "Loja de Bonecos", in "Diabrete" (1951)

Foi a loucura das loucuras pela mestria da arte e do humor non sense de mestre Fernandes Silva (1931-2010). Não havia nada que se parecesse pela Banda Desenhada, mormente na nossa, na portuguesa... Era uma incrível narrativa “disparatada” e encantadora!
O herói?... Simplesmente, “O Ponto, o Detective Sem Rosto”.
Pois ele é atrevido e desastrado, pequenino, com uma enorme cabeça (lembrando um aumentado ovo de avestruz), sem qualquer traço no rosto, mas tendo como adereços, o chapéuzito e o clássico cachimbo, que era típico na época em todos os detectives. Só um talento extraordinário como foi (e é) Fernandes Silva teria e teve a deliciosa “loucura” de inventar O Ponto. Na verdade, uma maravilha!...
Ainda nesse 1951, o “Diabrete” publicou a segunda aventura de O Ponto, do n.º 875 ao n.º 887, com o título “Novas Aventuras Por Causa de Uma Talhada de Melão”. Mais tarde, em 1992, com total e amiga autorização do autor, esta narrativa foi publicada no n.º 8 dos “Cadernos Sobreda-BD”.
Pranchas de "Novas Aventuras por Causa de Uma Talhada de Melão", in "Diabrete" (1951)

Depois... depois, só por 1955, agora na revista “Flecha”, apareceu a terceira e tão esperada aventura de O Ponto, intitulada “O Ponto, Detective Privado”.
Durou do n.º 12 ao n.º 37. Mas, desoladoramente para os bedéfilos, ficou incompleta pois a revista finou-se subitamente e o nosso desenhista, desiludido, desinteressou-se... Que pena!
Pranchas de "O Ponto, Detective Privado", in "Flecha" (1955)

De qualquer modo, a revista “Flecha” maltratou quanto baste a publicação desta aventura: começou por prancha/página e passou a tiras mesquinhas em rodapé. Incrível atentado!...
O Ponto, será levianamente apelidado de anti-herói. Mas os anti-heróis não são também heróis?... De qualquer modo, é um marco indelével na BD Portuguesa.
Obrigado, Fernandes Silva!
LB

Capas de "Almada BD Fanzine" #6 (1991) e "Cadernos Sobreda BD" #8 (1992),
publicações onde O Ponto foi personagem em destaque.

domingo, 23 de fevereiro de 2014

O MISTÉRIO FERNANDES SILVA

Fernandes Silva
Este é, talvez, um caso inédito (pelo menos, é o primeiro) do BDBD: que é feito de Fernandes Silva?... Quem nos ajuda a saber, o que quer quer seja, deste altíssimo valor da nossa BD? Deixamos aqui o nosso apelo, tão fraterno quão bedéfilo!
Ora agora vamos lá à vida, personalidade e invejável obra de Fernandes Silva.
De seu nome completo António Fernandes da Silva, nasceu em Lisboa a 18 de Agosto de 1931.
Frequentou a famosa escola-forja de desenhistas ilustres, Escola António Arroios.  
Há pouco mais de três anos, data em que terei (eu, LB) tido o último contacto pessoal com este mestre, vivia ele na Brandoa.
Como opção pessoal da sua personalidade, evitou (ou evita) de todo os "altos" convívios. Em encontros pessoais - mais duas ou três pessoas (ainda vá...) - era de uma afabilidade exemplar. Cuidado: digo "foi, era, é..." porque nada sei do mestre!
Eu telefonava-lhe sempre a 18 de Agosto, pelo seu aniversário, mas esse telefone já não existe!... Sabe-se, nos meios da BD, que tem um filho... de quem ninguém tem um qualquer contacto!...
Consegui-lhe duas entrevistas (que redundaram numa mútua amizade de encontros de ocasião), uma para o extinto semanário lisboeta "Branco e Negro" e outra para o "Almada BD Fanzine" n.º 6. 
Foi homenageado pelo conjunto da obra no Salão "SobredaBD/2000". Óbvio, não esteve presente, mas recebeu o respectivo "Troféu Sobredão" em sua casa, via correio postal, que agradeceu.
Até há pouco tempo, era normal encontrarmos Fernandes Silva, aos sábados de manhã, na FNAC (Chiado) ou na feira semanal de livros e postais, na  Rua Anchieta. Depois..."desapareceu". Ninguém sabe dele!... Nem eu, nem o seu amigo A.J.Ferreira, nem o Leonardo De Sá, nem o José Manuel Vilela, nem o Geraldes Lino... Que mistério!
Mestre José Ruy (mais ou menos seu vizinho), a meu pedido, incomodou-se a ir procurá-lo... Foi um incómodo amigo que deu no zero ou, como versejou o grande poeta Reinaldo Ferreira (filho), "um voo cego a nada". E agora?
Fernandes Silva pertence e pertencerá a um lugar de extrema honra de quatro grandes da Banda Desenhada Portuguesa de alto coturno: Eduardo Teixeira Coelho, Fernando Bento e, na linha explicitamente humorística, além dele próprio, também o extraordinário Artur Correia.
Ilustrador e desenhista (BD), Fernandes Silva estreou-se em 1950 no suplemento "República dos Miúdos" (do extinto jornal lisboeta "República"). 
Depois, demarcou-se bem nas publicações "Diabrete", "Cavaleiro Andante", "Flecha", "Pisca-Pisca" e "Camarada" (2.ª fase), sempre agarrando qualquer atento leitor bedéfilo tanto pelo seu traço fino e cativante como pela sua genial loucura do non sense da maioria da sua obra. Formidável!
Um dos seus primeiros heróis foi o traquina garoto "Cuca".
Aventura de "Cuca" publicada no "Cavaleiro Andante" (n.º 283)
Aventura de "Cuca" publicada no "Camarada" (n.º 10)

Mas o herói que o projectou com plena justiça e entusiasmo para a bela fama e popularidade, foi o incrível e avassalador "O Ponto", um detective de cabeça redonda e sem rosto e (lógico) fumador de cachimbo, tão herói como desastrado, que participou em três aventuras: duas no saudoso "Diabrete", que foram "Loja de Bonecos" e "Por Causa de uma Talhada de Melão" (esta, reeditada no n.º 8 dos "Cadernos Sobreda BD") e, na revista "Flecha", a terceira aventura que ficou tristemente incompleta porque a revista em questão se finou subitamente!...
"Loja de Bonecos"  ("Diabrete" n.º 856)

"Por Causa de uma Talhada de Melão" ("Diabrete" n.º 883)

Uma outra loucura da sua arte, é "O Estranho Caso do Dr. Rapioca", publicada no "Diabrete" (do n.º 867 ao 874) e reeditada no "Almada BD Fanzine", n.º 6.
Prancha publicada no "Diabrete" (n.º 867)

Mas, porém, todavia, contudo... para além da irresistível paixão por "O Ponto", a cereja no topo do bolo da obra belíssima de Fernandes Silva, assenta em pleno na sua espantosa adaptação à BD (considerada, invejável e internacionalmente, como uma das mais belas e conseguidas) do clássico literário de Lewis Carroll, "Alice no País das Maravilhas" (história publicada no "Cavaleiro Andante" do n.º 1 ao n.º 26, com as duas últimas pranchas, a quatro cores, no respectivo suplemento, "O Pagem").
Prancha publicada no "Cavaleiro Andante" (n.º 18)

Criminosamente - é o termo - nenhuma obra deste genial autor-BD existe, até hoje, em álbum!... O único, justo e respeitável carinho, aproximativo, foram os exemplares (esgotados) no "Almada BD Fanzine" e "Cadernos Sobreda BD", acima citados.
Capas das publicações da Sobreda BD dedicadas a Fernandes Silva

Muito, muito e muito aqui fica por se dizer sobre a admirável vida e carreira de Fernandes Silva, assuntos que ficarão para uma provável e futura abordagem. Até lá, e uma vez que os contactos com o detective "O Ponto" não estão a funcionar, perguntamos (em re-apelo de ajuda):
- Que é feito desse grande senhor da BD Portuguesa que assinava como Fernandes Silva? 
LB

N.º Especial do "Cavaleiro Andante" (Junho de 1953)


Ilustração para o "Pisca-Pisca" (n.º 1)

Ilustração para o "Pisca-Pisca" (n.º 3)
Ilustração para o "Pisca-Pisca" (n.º 3)

Agradecemos a Carlos Gonçalves a cedência de algumas imagens para este post.