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domingo, 27 de agosto de 2017

HISTÓRIAS EM QUADRINHOS - ARTE COM MUITA OFICINA (4)

Por: José Ruy


No post anterior verificámos como os autores de histórias em quadrinhos nos Estados Unidos, eram «obrigados» a estruturar as suas pranchas, de modo a poderem ser publicadas nos jornais dos vários Estados, em formatos diversos.
Podemos verificar que neste novo arranjo de uma página de Milton Caniff não foi preciso amputar partes de desenhos, devido à estrutura seguida pelo autor, o que facilitou a paginação.
Pode parecer incómodo para um autor fazer composições sujeitas a estas regras, mas veja-se como Caniff conseguiu um perfeito equilíbrio não só nos planos como na maneira de narrar a história.

Mas conforme o prometido, vou demonstrar como sofri influência no processo de cor deste notável desenhador.
Quando observei o efeito conseguido pela cor, nos desenhos de Milton Caniff, apercebi-me da importância desse pormenor na narrativa gráfica.
Milton Caniff nas suas composições tirava partido dos grandes planos, como se pode ver nas duas vinhetas acima. A aplicação que fazia dos negros conseguia já esse efeito imediato entre o primeiro plano e os últimos. Mas para acentuar mais essa diferença, ele manuseava a cor de modo magistral, tornando os quadrinhos decorativos, o que não lhe tirava a seriedade.


Nesta vinheta, os efeitos de luz bem distribuídos complementam o ambiente dramático da cena.

Repare-se neste enquadramento, e embora com o jogo de cor pastel, este consegue vincular o clima criado entre as duas personagens.

Caniff não se limitava a pintar a história só para lhe dar cor, mas sim que essa cor ajudasse a «explicar» melhor os desenhos. Não lhe interessava distribuir os tons de carne em todas as caras e mãos, ou a manter a tonalidade real das vestimentas de cada personagem.
Foi essa técnica que me fascinou e passei a utilizar nos meus desenhos quando eram impressos com cor.
Desta maneira separo os planos por meio de silhuetas de cor, para conseguir um efeito de diferenciação nas composições, como nestas duas vinhetas da minha história em quadrinhos «Peregrinação de Fernão Mendes Pinto».
(continua)  

domingo, 23 de julho de 2017

HISTÓRIAS EM QUADRINHOS - ARTE COM MUITA OFICINA (2)

Por: José Ruy


Em 1934, Milton Caniff foi desafiado pelo editor do «New York Daily News» para criar uma tira diária passada no lendário e misterioso Oriente.
E mudou-se com «armas e bagagens» para New York.
Caniff pouco sabia dessa parte do mundo e teve de se documentar com rigor sobre a história da China, dos costumes dos seus habitantes e das tradições de família que transitavam através de gerações. De tal modo, que parecia ter habitado nesse país, pela maneira realista como criava e desenhava os ambientes.
Eis a primeira tira de apresentação dessa série diária.

Terry Lee era um rapazinho que viajava pela misteriosa China acompanhado por um mentor - Pat Ryan, um aventureiro - e por mais personagens. Apareceu ao público a 22 de outubro de 1934.

Em dezembro desse mesmo ano Caniff passou também a participar nas séries independentes desse jornal, publicadas ao domingo. As aventuras dessas séries funcionando com as mesmas personagens, tinham argumentos diferentes, nada tendo a ver com a história que decorria diariamente nas tiras.

Estas tiras eram publicadas diariamente, menos ao sábado e ao domingo. Ao contrário de outros autores norte-americanos e até ingleses, Caniff não repetia no início da tira do dia seguinte, o fim do que acontecia na anterior. Mantinha uma tal fluência na narrativa, que tornava dispensável a leitura das legendas para se compreender a história.
Outros jornais, mesmo na Europa, reuniam estas tiras editadas de segunda a sexta-feira e formavam páginas que publicavam semanalmente. Tanto a sequência do movimento como o desenrolar da ação não se ressentiam pela intermitência na publicação dia a dia. Era como se tivesse sido concebida de início como uma página inteira. Em todas as tiras podemos ver a assinatura do autor, bem como o carimbo da agência editora.

Uma página com cor das edições de domingo, ainda no princípio da série...

...e um original desenhado a tinta-da-china, uns anos mais tarde.
Nota-se que o autor trabalhava estas últimas páginas em duas metades que eram unidas na altura da reprodução, pois os originais tinham uma grande dimensão. Uma cópia do título, em papel de jornal, era colada na vinheta inicial apenas para marcar a posição, pois a agência sobrepunha em todas as pranchas a matriz que possuía.
Assinala-se aqui uma notável evolução no desenho.


A personagem Terry Lee foi crescendo, alistou-se na Força Aérea e chegou a combater na Segunda Guerra Mundial. Por essa altura Caniff foi convidado a desenhar uma tira exclusiva para sair nos jornais militares e mais tarde doou esses originais às Forças Armadas.
No decorrer da História de ficção, em 1942, Terry foi expulso pelos japoneses de uma ilha do Pacífico. Isso teve uma tal repercussão junto do público, que o Pentágono pediu ao autor para que o herói reconquistasse a ilha, a bem do ego nacional.
Precisamente nessa data, o mestre Rodrigues Alves contou-me, bem como aos meus colegas, que numa das encruzilhadas do argumento que se desenrolava no Oriente, Caniff idealizou uma situação em que Terry e os seus companheiros que combatiam os piratas chineses, se encontravam encurralados sem possibilidade aparente de escaparem.
Por coincidência, e sem que Caniff soubesse, decorria uma situação idêntica com as tropas americanas que lutavam no Pacífico, mas em que os japoneses eram os encurralados. Como o herói Terry não poderia sucumbir, e admitindo a hipótese de o inimigo acompanhar a série, o desfecho que o autor desse ao enredo podia ser utilizado para que os sitiados conseguissem escapar. Tal era o rigor do argumento.

O Alto comando das Forças Armadas norte-americanas manteve Caniff isolado no seu ateliê, com guarda à vista, para ver qual a saída que ele criava para a situação, e verificar tratar-se de um caso de espionagem lesa pátria, ou simplesmente de uma coincidência.
Não me recordo como Caniff desfez o «imbróglio», mas contou o Mestre Alves que entretanto os japoneses foram mesmo derrotados, antes da continuação da história nas páginas dos jornais. Um alívio para Milton Caniff que tinha de salvar o seu herói sem que a estratégia pudesse ajudar o inimigo na situação real.
Esta personagem, embora criada por Milton Caniff, tinha os direitos cativos pelo «Chicago Tribune-New York Daily News Syndicate» e apesar da série ter alcançado o maior sucesso, mesmo internacionalmente, o autor não era dono do título. Desgostoso, Caniff aceitou a proposta de Marshall Field, editor do «Chicago Sun» para produzir uma tira própria.
(continua)

quarta-feira, 19 de março de 2014

A BD A PRETO E BRANCO (9) - As escolhas de Luiz Beira (9)



JOSÉ RUY (1930). 
Nascido na Amadora, tem exposto e tem sido publicado nos mais diversos países. É o desenhista português com o maior número de álbuns editados, focando os mais diversos temas. Há bons anos a esta parte, tem apostado na cor, mas não podemos olvidar o seu traço pelo preto e branco.
Prancha de "Porque Não Hei-de Acreditar na Felicidade?"
Prancha de "Amaterasu, a Deusa da Luz do Sol" (da série "Lendas Japonesas")

MILO MANARA (1945). 
É mais um italiano a brilhar com o seu talento gráfico no preto-e-branco. Foi desenhista de alguns argumentos de Hugo Pratt. Tem obra de peso (às vezes, espraiando-se pelo campo erótico-pornográfico), sempre muito aplaudida. Numa vertente menos conhecida, porém marcante, abordou em jeito de julgamento judicial, algumas figuras da História. Daqui, por exemplo, o caso do paranóico e cruel "Robespierre".


Prancha de "Robespierre"
Prancha de "Verão Índio"




MILTON CANIFF (1907-1988). 
Aqui temos um dos mais admirados e clássicos desenhistas norte-americanos, inspirador - e às vezes "copiado" - de tantos outros colegas, fossem ou não seus compatriotas. Fabuloso no seu preto-e-branco!... Para além de "Terry e os Piratas", o seu "Steve Canyon" entusiasmou e ainda hoje entusiasma muito bom bedéfilo.
Prancha de "Steve Canyon"

Prancha de "Terry and the Pirates"



Nota: A rubrica "A BD a Preto e Branco" é subdividida entre as escolhas pessoais de Luiz Beira (10 posts e 30 autores) e de Carlos Rico (idem), num total de 60 autores! As duas imagens que ilustram a obra de cada autor foram criteriosamente escolhidas por Luiz Beira e Carlos Rico e por esta ordem serão sempre apresentadas.