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terça-feira, 14 de abril de 2026

BREVES (124)

 

HOMENAGEM MERECIDA A AUGUSTO TRIGO

A exposição de Banda Desenhada “Augusto Trigo: o rigor e o detalhe” ficará patente no átrio do Cine-Teatro Caridade, entre 15 e 26 de Abril, inserida na 45.ª edição da Feira do Livro de Moura.
Trata-se de uma co-produção entre a Câmara Municipal de Moura, o Gicav e o Clube Português de Banda Desenhada.

Augusto Trigo, nascido em Bolama (Guiné-Bissau), em 1938, é um dos mais consagrados e reconhecidos autores da nossa BD.
Em 1999, foi homenageado no 9.º salão Moura BD, onde lhe foi outorgado o Troféu "Balanito de Honra".
Em 2009, com texto de Jorge Magalhães, Augusto Trigo desenhou em seis pranchas «Histórias de Mouras» para o álbum coletivo “Salúquia: a Lenda de Moura em Banda Desenhada”, sob edição da Câmara mourense. Seria a derradeira obra em BD da prolífica e inesquecível dupla J. Magalhães/A. Trigo.

No sábado, 18 de Abril, às 18:00 horas, no Espaço da Feira do Livro, a CMMoura, o GICAV e o CPBD homenagearão Augusto Trigo, seguindo-se a apresentação do fanzine “O menino que rabiscava paredes” e “Na pista de um sonho” (edição exclusiva da Câmara Municipal de Moura).

A exposição seguirá, depois, para Viseu onde será exposta na Feira de São Mateus, em Agosto próximo, e na sede do CPBD, em data ainda a designar. Posteriormente, a exposição fará uma digressão por escolas, bibliotecas e outras entidades que a pretendam ter patente.
CR

domingo, 7 de abril de 2024

MEMÓRIAS DO MOURA BD (3) - 1992: nova entidade organizadora

Texto e pesquisa: Carlos Rico
Fotos: Luiz Beira, Jornal "A Planície" e https://crba.edu.pt/seccao-moura/

 

A partir de 1992, o salão passou a ter como entidade organizadora a Câmara Municipal de Moura, que recebeu o testemunho da Escola Secundária.
O local escolhido para instalar a "2.ª Exposição de BD de Moura" (a designação oficial nas primeiras edições) foi o antigo Café Cantinho, um espaço emblemático da cidade que, após o seu encerramento no final dos anos 80, serviu como sala polivalente albergando iniciativas culturais promovidas pela Câmara ou com a colaboração desta. Ali ocorreram regularmente exposições de pintura, fotografia e artesanato, algumas edições da Feira do Livro, iniciativas escolares diversas... Mais tarde, o espaço seria adaptado a Galeria Municipal de Arte e, um pouco mais tarde ainda, ali passou a funcionar - mantendo-se até hoje - a Secção de Moura do Conservatório Regional do Baixo Alentejo.
Durante três anos (entre 1992 e 1994) ali se instalou o Moura BD. 
Muito bem localizado (na Rua da República, uma das principais do centro da cidade) o local era, contudo, demasiado curto para a dimensão que o salão pretendia um dia atingir. Mas, por ora, era um grande avanço, já que permitia ao salão abrir-se à população, em vez de estar confinado apenas ao público escolar, como na edição inaugural...
Fachada do antigo Café Cantinho, hoje a Secção de Moura do Conservatório Regional do Baixo Alentejo. Assinalada a vermelho a zona do edifício que o Moura BD ocupou em 1992.

Quanto ao salão propriamente dito, tornou a ser constituído exclusivamente pela digressão do material da Sobreda BD desse ano e contou com a presença de Mestre José Ruy (o “Convidado de Honra”) que, no último sábado, explicou ao pouco público presente (o salão ainda não garantira um público fiel) um pouco da sua experiência como banda desenhista e algumas das técnicas que utilizava para criar as suas histórias.
Estiveram também presentes, como representantes do Grupo Bedéfilo Sobredense, Luiz Beira, Mara Andrade, Hélder Carrilho e Rá (isto é, Rui Alves). Alguns destes autores realizaram uma pequena sessão de desenho ao vivo, tal como eu tinha feito durante toda a semana também.
Como nota curiosa, durante o jantar tive a oportunidade de conversar mais demoradamente com José Ruy. Meio a brincar, ocorreu-me perguntar-lhe qual seria a possibilidade de ele realizar, um dia, a História de Moura em Banda Desenhada. Apesar da pronta abertura demonstrada pelo autor, por motivos que, em devido tempo, aqui vos contarei o projecto nunca chegou a ir para a frente. Contudo, esta conversa daria azo a que, anos mais tarde, surgissem não um mas dois álbuns de banda desenhada de que falarei, também, com mais pormenor, em futuros artigos...

(continua)

Um momento de descontração entre os elementos do GBS que visitaram Moura.
Da esquerda para a direita: Hélder Carrilho, eu, Mara Andrade, o luso-finlândes
Stefan Cândido e Ana, a esposa de Rá (que está desenhando, em primeiro plano)

A "Digressão Sobreda BD" era ainda a única exposição do salão.

Jantar-convívio, onde se podem ver (da esquerda para a direita): Álvaro Azedo (adjunto do Presidente da Câmara), Hélder Carrilho, Rá, Ana, Mara Mendes, Stefan (todos do GBS), José Ruy e eu. Falta apenas o Luiz Beira, o autor da fotografia...




Biografia de José Ruy

José Ruy Matias Pinto nasceu na Amadora, a 9 de Maio de 1930. Tirou o curso de desenhador litógrafo na Escola António Arroio (Lisboa). É aos catorze anos que começa a publicar banda desenhada em "O Papagaio". E nunca mais parou, a ponto de se tornar o nosso desenhista com quase toda a sua obra editada em álbum. Dizemos quase, precisamente porque ainda não se recuperaram para a versão álbum, as suas primeiras criações, pormenor que teria e terá muito interesse para os coleccionadores e estudiosos da sua carreira. Citam-se, como exemplos soltos, as histórias "Os Cavaleiros do Vale Negro", "Homens do Mar", "A Bravura de Chico", "Nico e Cartucho em Raptores", "Piratas do Ar", etc.
A sua vasta obra foi, também, publicada através de uma imensidão de revistas como "O Papagaio", "O Mosquito", "Cavaleiro Andante", "Mundo de Aventuras", "Tintin", "Cadernos de Banda Desenhada", "Selecções BD", etc.
Expôs a sua BD pelos mais diversos pontos de Portugal, mas também, no Brasil, Japão, Roménia, Alemanha, China, França e Cabo Verde.
Foi homenageado na Sobreda, Amadora, Moura, Beja, Lisboa, Porto, Setúbal, Bulgária e na cidade de Belém (Brasil). Na sua Amadora natal, uma avenida e uma escola básica, têm o seu nome.
Adaptou para a 9.ª Arte, diversos exemplos literários de Alexandre Herculano, Fernão Mendes Pinto, Wenceslau de Moraes, Gil Vicente, Luiz de Camões, Alves Redol e do brasileiro José de Alencar.
Focou algumas vezes o humor e elaborou algumas histórias de mera ficção e várias biografias, a saber: o Infante Dom Henrique, Nicolau Coelho, Pêro da Covilhã, Wenceslau de Moraes, Gutenberg, Almeida Garrett, Charles Chaplin, Columbano Bordallo Pinheiro, Humberto Delgado, Alves dos Reis, Jorge Dimitrov, Aristides de Sousa Mendes, Martins Sarmento, Leonardo Coimbra e João de Deus.
Elaborou uma sinopse de "História da Cruz Vermelha", traduzida em onze idiomas e distribuída em mais de 150 países.
Alguns álbuns têm versões traduzidas: "A História de Macau" (em cantonês), "Aristides de Sousa Mendes" (em hebraico, francês e inglês) e, no nosso dialecto mirandês, "O Mirandês", "Os Lusíadas" e "João de Deus".
A título de curiosidade, indicam-se alguns títulos-álbuns fundamentais da bibliografia de mestre José Ruy: "O Bobo", "Os Lusíadas" (três tomos), "Levem-me Nesse Sonho", "A Ilha do Futuro", "As Aventuras de 4 Lusitanos e 1 Porca", "Ubirajara", "Amarante", a série "Porto Bomvento", "Humberto Delgado", "Peter Café Sport e o Vulcão do Faial" (edição elaborada nos Açores), o álbum colectivo "Salúquia", "Autos das Barcas", "Farsa de Inês Pereira", "Auto da Índia", etc, etc.
José Ruy faleceu a 23 de Novembro de 2022, aos 92 anos, tendo trabalhado afincadamente quase até ao final da vida (apenas parou no último mês, quando a doença já não lho permitia).
Já depois de falecer foram publicados os seus últimos trabalhos: "Lendas Japonesas" e "O Mistério dos Templários" (dois belos álbuns, com edição Polvo) e "A Passagem Impossível" (a derradeira obra, que deixou toda esboçada e legendada, com poucas páginas entintadas, mas que mereceu a aposta da Ala dos Livros e obteve, quase unanimemente, a aclamação da crítica e dos leitores).





sexta-feira, 2 de fevereiro de 2024

MEMÓRIAS DO MOURA BD (2) - 1991: começa a aventura

Texto e pesquisa: Carlos Rico
Fotos: Orlando Fialho, Pinto Moreira e Luiz Beira

Publicado que está, há mais de três anos, o artigo inaugural desta série, e tendo nessa altura apelado (mediante o anúncio que continua visível na coluna da direita do BDBD) para que os nossos leitores nos facultassem eventuais fotografias ou vídeos que tivessem relacionados com o tema, não obtivemos, até hoje, praticamente qualquer contributo para juntar aos nossos arquivos.
Apesar de ainda mantermos a esperança de poder receber uma imagem ou um vídeo inéditos, que nos façam recordar momentos por nós entretanto esquecidos, decidimos não esperar mais e avançar para a publicação destas "Memórias do Moura BD". 
Se entretanto aparecer algum material extra (fotos, vídeos, recortes de imprensa, testemunhos...), ele será muito bem-vindo e, naturalmente, acrescentá-lo-emos ao respectivo post.  
Comecemos, então, esta verdadeira viagem no tempo...


Em 1991, num ano capicua (sinal de sorte?), surgiu o Salão Internacional de Banda Desenhada de Moura, uma iniciativa inédita na altura por terras alentejanas (só uma década e meia mais tarde surgiria o Festival de Beja) que veio colocar no mapa da BD a cidade de Salúquia.
Mais tarde conhecido pelos amantes da 9.ª Arte como "Moura BD", o salão teve, contudo, nas primeiras quatro edições outras designações: "Exposição de BD de Moura" ou "Expo BD de Moura". Como se percebe até por estes pormenores, eram tempos em que o salão ainda gatinhava e procurava encetar o seu próprio caminho...
A edição inaugural incluiu, apenas e só, a primeira de várias digressões que as Jornadas Internacionais de Banda Desenhada da Sobreda (Sobreda BD) fizeram a Moura. Para tal contribuíram a vontade e o entusiasmo de Luiz Beira - fundador do Grupo Bedéfilo Sobredense (GBS) e o grande obreiro da Sobreda BD - e o empenho do Director da Escola Secundária de Moura na altura, Prof. António Borralho, que, tendo visitado por acaso o salão sobredense, logo aceitou a sugestão de uma digressão a Moura, com algum do material em exposição.
E assim aconteceu: a 20 de Maio de 1991 (uma segunda-feira!) a Escola Secundária de Moura abria portas à banda desenhada e dava início a uma aventura que durou mais de duas décadas.

Entrada da Escola Secundária de Moura (anos 90)

A exposição, basicamente constituída por cópias de pranchas, capas e biografias de autores, ficou patente no átrio por essa altura utilizado como sala de convívio dos alunos. Hoje em dia esse espaço já não existe, infelizmente, em virtude das polémicas obras sofridas pela escola há alguns anos, que reformularam por completo - e sem necessidade, diria eu - todo o edifício...

A sala de convívio dos alunos da Escola, onde a 1.ª Exposição de Banda Desenhada de Moura ocorreu, nuns painéis colocados na parede à direita.

O mesmo átrio, fotografado no ângulo oposto.

A banda desenhada holandesa foi um dos destaques da Digressão da Sobreda.
Infelizmente, esta foi uma das pouquíssimas fotos que se tiraram do salão.
Outros tempos, em que o telemóvel e as selfies eram apenas uma miragem...

Por sugestão e convite do Prof. Borralho, durante os cinco dias da semana fiz sessões de desenho ao vivo sendo essa a única actividade paralela que o salão incluiu no seu programa. No sábado, 25, último dia do salão, as presenças do grande ilustrador Carlos Alberto Santos (o autor "Convidado de Honra"), de Luiz Beira e de Hélder Carrilho (ambos em representação do GBS) foram o ponto alto da primeira edição.
Carlos Alberto Santos (cujo trabalho sempre admirei) conversando comigo,
durante a visita ao salão. Por trás de ambos, a única imagem existente
dos painéis com a exposição vinda da Sobreda.

Em jeito de balanço, podemos dizer que a exposição teve a grande virtude de “abrir caminho”, digamos assim, apesar de ser uma iniciativa virada quase exclusivamente para o público da própria Escola (o público em geral e as outras escolas não corresponderam). Mas ficou lançada a semente que, com os anos, cresceu, floriu e deu frutos…
(continua)



Biografia de
Carlos Alberto Santos

De seu nome completo Carlos Alberto Ferreira dos Santos, nasceu em Lisboa a 18 de Julho de 1933. 
Pessoa ultra-afável e genial artista, dedicou-se sobretudo à Banda Desenhada e à sua magnífica e gloriosa Pintura. 
Para além disso, tinha pessoalmente duas grandes paixões: a Ópera e... os gatos.
Das inúmeras e belíssimas capas que criou, salientamos as da colecção “Mundo de Aventuras”, a do álbum colectivo “Salúquia” (editado, em 2009, pela Câmara Municipal de Moura, na que seria a sua última participação como capista numa publicação BD) e as eróticas da revista “Zakarella”.
Para o “Jornal do Cuto”, elaborou também (para além de capas e ilustrações avulsas) as belas separatas “Quadros da História de Portugal” 
(sob o pseudónimo M. Gustavo).
Ilustrou várias colecções de cromos como "História de Portugal" (um rotundo êxito, com mais de vinte edições!), "Trajos Típicos de Todo o Mundo", "História de Lisboa", "Romeu e Julieta", "Pedro Álvares Cabral", "Camões", "Bandeiras do Universo", "A Conquista do Espaço", etc.
Ilustrou, também, textos de Raul Correia, para os Amigos do Livro, nas colecções "A Vida de Jesus", "Histórias do Avôzinho", "Histórias de Todo o Mundo Contadas às Crianças" e "Lendas Portuguesas".
Na sua BD, contam-se, entre outras: “A História Maravilhosa de João dos Mares”; “Camões” (com texto de José de Oliveira Cosme, publicado a preto e branco no “Mundo de Aventuras” e reeditado num álbum a cores, anos mais tarde, pela Asa); “O Rei de Nápoles” (com argumento de Jorge Magalhães), o seu último trabalho na 9.ª Arte, no álbum colectivo “Contos das Ilhas” (ed. Asa), mais tarde reeditado, a preto e branco, no semanário “O Louletano”; “O Infante Santo”; “O Santo Condestável”; “O Combate de Pembe”; “A Espada Nazarena”; “Ousadia Triunfante”; “Capitão Bravo”; “O Almirante das Naus da Índia” (com texto de Olga Alves); “O Escudo do Sarraceno” (com texto de Hermínio Rodrigo) e, segundo Júlio Diniz e em oito fascículos, “Os Fidalgos da Casa Mourisca”.
Afastado por largos anos da BD, por problemas que lhe afectavam a visão, dedicou-se exclusivamente à Pintura, donde imensos e deslumbrantes quadros, muitos deles patentes em entidades culturais de Portugal e do estrangeiro.
Com a sua partida, a 1 de Novembro de 2016, ficou mais um vazio no panorama cultural português.






quinta-feira, 23 de setembro de 2021

BREVES (98)

 OS SELOS E A BANDA DESENHADA

O Clube Português de Banda Desenhada inaugurou no passado dia 11, na sua sede, sita na Avenida do Brasil, n.º 52-A, na Falagueira (Amadora) uma exposição denominada "Os Selos e a Banda Desenhada".
A exposição ficará patente até finais de Outubro e poderá ser visitada aos sábados à tarde.
Recordemos, a propósito, que o Festival Amadora BD decorrerá naquela cidade entre 21 de Outubro e 1 de Novembro próximos.


LAMIRÉS E ZUNZUNS
O clássico "Lendas Japonesas" de JOSÉ RUY, ​vai ser reeditado na íntegra, em álbum. Era bem preciso este gesto editorial. A responsável, ao que consta, será a Polvo, que se felicita desde já.

JORGE MIGUEL, que tem estado a ser editado com êxito em França (e tem alguns álbuns em português) vai ter uma justa exposição focando toda a sua obra no próximo Salão-BD da Amadora. Enfim, faz-se justiça!

O jovem viseense ​DANI ALMEIDA, ​vai finalmente estrear-se na BD, via um álbum colectivo que está a ser programado pela editora Escorpião Azul. Força, pessoal!

Está prevista a presença do grande desenhista galego MIGUELANXO PRADO, ​no próximo Comicon Portugal, em Dezembro próximo. Boa ​sorte, Miguelanxo!


CONTINUAMOS À PROCURA DE FOTOS E VÍDEOS DO MOURA BD...

A todos aqueles que visitaram o salão Moura BD 
continuamos a apelar para que nos enviem fotos ou vídeos de alguma das dezoito edições deste festival, que decorreu entre 1991 e 2013.
Pretendemos ilustrar um conjunto de artigos que estamos a preparar, sobre a história deste salão, a publicar brevemente aqui no blogue.
Até agora, os nossos esforços têm sido infrutíferos mas estamos certos de que, algures, no fundo de uma gaveta ou de um baú de recordações, ou numa qualquer pasta esquecida de um velho CD, haverá uma foto ou um vídeo que poderá fazer toda a diferença quando contarmos a história do Moura BD.
Quem nos ajuda?


"O AMOR INFINITO" TAMBÉM CHEGOU À TURQUIA!
“O Amor Infinito que te tenho”, o belo álbum de estreia de Paulo Monteiro, foi agora editado na Turquia pela Flaneur Books, com o título “Sonsuz Aşk ve diğer hikâyeler”.
“O Amor Infinito que te tenho” foi publicado em Portugal (Polvo), Brasil (Balão Editorial), Espanha (Edicions de Ponent), França (6 Pieds Sous Terre), Polónia (Timof Comics), Roménia (Revers), Sérvia (Komiko) e Turquia (Flaneur). Algumas histórias foram publicadas em alemão, checo, galego, estónio e inglês.
Daqui enviamos um grande abraço de parabéns ao Paulo por este feito!


MORREU OLMO, CRIADOR DE DON CELES
Com 99 anos, faleceu no passado dia 8 de Setembro o cartunista espanhol Luis de Olmo Alonso. Conhecido simplesmente como "Olmo", foi, muito provavelmente, o desenhador que publicou durante mais anos consecutivos uma tira diária de um mesmo personagem.
Em 1945 criou, em La Gaceta del Norte, uma banda desenhada "ao estilo das então publicadas nos Estados Unidos". Surgiu, assim, Don Celes que, desde essa data, foi publicado praticamente de forma ininterrupta, perfazendo uma estimativa de 15.000 tiras(!). A série passou a ser publicada, a partir de 1969, no jornal El Correo Español-El Pueblo Vasco, tendo Olmo trabalhado até ao dia da sua morte...
Em 2010 foi galardoado com o Prémio Notarial de Humor da Universidade de Alicante e em 2012 recebeu o prémio de "Ilustre de Bilbao".
Que descanse em paz!


ANIVERSÁRIOS EM OUTUBRO
Dia 01 - Harold Canizales (colombiano)
Dia 02 - Joe Sacco (maltês)
Dia 10 - José Pires
Dia 12 - Siro (francês)
Dia 15 - Derradé
Dia 16 - José Carlos Fernandes
Dia 17 - Augusto Trigo
Dia 19 - David Rubin (espanhol)
Dia 21 - Rui Pimentel
Dia 22 - Yuri Jigunov (russo)
Dia 24 - Ziraldo (brasileiro)
Dia 26 - Susa Monteiro
Dia 27 - Mauricio de Sousa (brasileiro)
Dia 28 - Denis Béchu (francês)
Dia 31 - Claudio Villa (italiano)
CR/LB

quarta-feira, 31 de março de 2021

BREVES (92)

PRÉMIO JORGE MAGALHÃES PARA ARGUMENTO DE BD
A editora Ala dos Livros, num gesto que aplaudimos e apoiamos plenamente, promove, a partir deste ano, o "Prémio de Argumento para Banda Desenhada Jorge Magalhães".
O Prémio - uma iniciativa da família de Jorge Magalhães (1938-2018) e da Ala dos Livros (a editora que os seus netos fundaram) - visa dignificar e valorizar o argumento de banda desenhada.
Implicitamente, esta iniciativa homenageia, também, o próprio Jorge Magalhães, figura ímpar no panorama bedéfilo português, considerado por muitos como um dos melhores argumentistas portugueses de sempre (foi autor de inúmeros contos e argumentos para BD publicados em jornais, revistas, álbuns e blogues), bem como investigador de renome e editor ou coordenador de revistas como o "Mundo de Aventuras", "Selecções BD", "O Mosquito" (5.ª série) ou "Heróis Inesquecíveis".
As candidaturas ao Prémio serão aceites até ao próximo dia 30 de Junho e o regulamento completo pode ser consultado aqui.


O MESTRE NÃO PÁRA: JOSÉ RUY ILUSTRA SÉRIE DOCUMENTAL DE ANTÓNIO-PEDRO VASCONCELOS
O Coronel Silva Carvalho, um dos protagonistas do "Golpe das Caldas", trocando impressões com José Ruy, enquanto este recolhia informação para a reconstituição dos acontecimentos (Foto: Gazeta das Caldas)
Segundo notícia veiculada pela Gazeta das Caldas, o conceituado realizador António-Pedro Vasconcelos está a trabalhar numa série documental, em seis episódios, intitulada "Conspiração", onde se propõe contar os acontecimentos que deram origem à Revolução do 25 de Abril de 1974.
Numa reedição recente do álbum de banda desenhada "Nascida das Águas", José Ruy acrescentou-lhe um capítulo sobre o chamado "Golpe das Caldas" (uma primeira tentativa falhada de golpe de Estado, ocorrida a 16 de Março desse mesmo ano de 1974). Por esse motivo, José Ruy foi convidado por António-Pedro Vasconcelos para ser seu consultor na série, colaborando, também, com várias ilustrações (algumas delas inéditas) onde reconstitui tudo aquilo que não foi fotografado ou filmado na época, por ser secreto.
"É com base em vinhetas existentes, e noutras novas que vou desenhar, que será feita a reconstituição dos acontecimentos", afirma José Ruy para quem ter sido escolhido como consultor desta série "é uma enorme honra".


PROCURAMOS REGISTOS DO MOURA BD!
Continuamos a solicitar a colaboração dos nossos leitores no sentido de nos ajudarem a contar a história do Moura BD, o Salão Internacional de Banda Desenhada de Moura, entretanto já desaparecido mas com muita coisa ainda por dizer.
Para aqueles que, eventualmente, tenham alguma vez visitado o salão e tenham também registado em fotografia ou vídeo alguma das suas dezoito edições, pedimos o favor de partilharem connosco esses documentos, que depois aqui publicaremos, naturalmente com os devidos créditos.
Podem entrar em contacto connosco através do nosso e-mail: bdbdblogue@gmail.com.
Desde já o nosso obrigado.


FALECEU CARLOS COSTA
Carlos Costa (02.03.1928-07.03.2021)
Faleceu no passado dia 7 de Março, poucos dias depois de completar 93 anos (e não 80, como erradamente a imprensa divulgou), Carlos Costa. 
Nome importante no panorama musical português, conhecido como um dos elementos fundadores do Trio Odemira, teve, também, um papel de relevo na Banda Desenhada. Para além de fervoroso coleccionador, fundou as Edições Época d'Ouro, onde publicou títulos como "História da BD Publicada em Portugal" (em dois volumes), "O Mosquito - 60.º Aniversário", "O Mosquito - Aventuras & Curiosidades", "A Arte de Bem Navegar - Navios Europeus do Séc. XIV ao Início do Séc. XVI", "Cavaleiro Andante", "ETCoelho - a Arte e a Vida" e "Dicionário dos Autores de Banda Desenhada e Cartoon em Portugal".
A sua paixão pelo "Mosquito" levou-o a imprimir, também, uma bela (e, hoje em dia, rara) colecção de calendários de bolso com variadas capas desta revista.
Presença assídua nos festivais e salões BD, falámos com ele em Dezembro passado, onde trocámos desejos de Boas Festas. Como sempre, a sua contagiante boa disposição desviou a conversa da frágil situação de saúde que atravessava. Pediu-nos o favor de lhe enviarmos, logo que possível, alguns números dos Cadernos Moura BD que lhe faltavam. E despedimo-nos até um dia destes...
Que descanse em paz.


ANIVERSÁRIOS EM ABRIL
Dia 01 - Philippe Fenec (francês)
Dia 03 - Daniel Ceppi (suíço)
Dia 05 - Carlos Pessoa
Dia 08 - Sérgio Macedo (brasileiro)
Dia 14 - Nelson Martins
Dia 18 - Victor Mesquita
Dia 27 - Andy Genen (luxemburguês)
Dia 30 - Jakob Klemencic (esloveno)
CR/LB

sexta-feira, 1 de janeiro de 2021

MEMÓRIAS DO MOURA BD (1) - Prólogo

Texto: Carlos Rico



O Salão Internacional de Banda Desenhada de Moura, ou simplesmente "Moura BD" como era popularmente conhecido entre o público bedéfilo, foi um evento que durou vinte e três anos, num total de dezoito edições, o que faz dele um dos festivais ou salões de BD portugueses de maior longevidade.  
Ao longo da sua existência foi assunto em muitos meios de comunicação (jornais, revistas, rádios, televisões, blogues e sites) e, evidentemente, nas redes sociais, mas nem sempre foi tratado com o rigor e a exactidão exigidos. Algumas informações erradas (que, como é sabido, se propagam como uma praga, mediante o sempre fácil e tentador copiar-colar que tantos usam como ferramenta) ou detalhes e episódios caricatos que nunca antes foram contados, fizeram-me pensar que seria útil escrever a história deste salão para que a memória futura não apague ou trunque aquele que foi um projecto em que eu e muitos outros trabalhámos tantos anos e do qual tenho tão gratas recordações.
A determinada altura, propus à Câmara Municipal de Moura a criação de um site para o Moura BD que colocámos on line contendo, entre outras informações, um pequeno historial do salão. Com o desaparecimento deste, o site foi, também ele, desactivado mas decidi aproveitar todo esse material (que eu próprio produzira, em 2005, para inclusão numa exposição retrospectiva), para servir de base a esta série de artigos que hoje iniciamos no BDBD.
Tentarei auxiliar-me daquilo que resta deste projecto: registos escritos e fotográficos, depoimentos vários e a maior fonte onde poderei ir buscar velhas recordações, a minha própria memória.
Em cada artigo teremos:
1 - Uma ficha técnica (com as datas em que cada edição funcionou, as exposições que incluiu, as publicações que se lançaram, os prémios que se outorgaram...)
2 - Um bloco de texto onde se contará, de forma mais ou menos concisa, a história de cada edição do salão
3 - Uma mini-biografia dos autores homenageados 
4 - Uma nota de rodapé, com curiosidades ou episódios caricatos ocorridos
5 - Recortes de imprensa ou testemunhos de personalidades do meio bedéfilo que marcaram presença no salão
6 - Uma galeria de imagens/vídeos
A respeito deste último ponto, aproveito a ocasião para apelar àqueles que nos estão a ler e que, porventura, registaram, algum dia, imagens do Moura BD em fotografia ou vídeo, que, se assim o entenderem, nos façam chegar esses ficheiros via e-mail. Desde já agradeço essas eventuais colaborações pois serão, certamente, um precioso contributo para a história de um salão que, embora extinto, continua a permanecer na memória de quantos tiveram a oportunidade de o visitar em pelo menos uma ocasião.
(continua)

quarta-feira, 22 de julho de 2020

MEMÓRIAS DE JOSÉ GARCÊS (1928-2020)


José Garcês
(23/07/1928-15/07/2020)
Passou já uma semana desde que o Ricardo me ligou e disse, de forma serena e conformada: "O meu pai faleceu, Carlos!"
Embora nunca se esteja verdadeiramente preparado para uma notícia destas, a verdade é que há algum tempo que todos temíamos este desenlace. Não foi, por isso, uma surpresa. Mas foi, naturalmente, um choque ouvir que José Garcês - o Sr. Garcês, como eu, de forma carinhosa e respeitadora o gostava de tratar -, fazedor de histórias aos quadradinhos e de construções de armar absolutamente preciosas, nos tinha deixado...
José Garcês, com os seus 91 anos (faltavam-lhe poucos dias para completar 92 quando faleceu), é alguém de quem eu tenho muitas e gratas memórias. Aqui vos deixo algumas...
Muito antes de conhecer José Garcês pessoalmente, já eu admirava o seu trabalho. Admirava, em especial a forma como desenhava os cavalos, sempre com crinas e caudas enormes desfraldadas ao vento. Quem tiver dúvidas sobre a autoria de um desenho de José Garcês, veja os seus cavalos, únicos e inimitáveis, e essas dúvidas dissipar-se-ão de imediato. 
Diga-se que Garcês era um especialista no desenho de animais. Tigres, leões, elefantes, girafas, antílopes, búfalos, raposas, pavões, águias... qualquer bicho desenhado por José Garcês era uma obra-prima. Basta pegar no seu álbum dedicado ao Jardim Zoológico de Lisboa ou num outro dedicado ao Lince Ibérico para se perceber do que estou a falar. E por falar nisto, lembrei-me agora que este álbum do Lince Ibérico foi lançado em Moura, há alguns anos! Mais uma memória - entre tantas outras - que agora me surgiu...
À esquerda, capa de "O Falcão", onde se pode observar um dos célebres cavalos
de crinas ao vento desenhado por Garcês. À direita, capa do álbum "Jardim Zoológico de Lisboa".
Capa e prancha de "Lince Ibérico - sua história em Portugal", que teve o seu lançamento oficial em Moura,
em Junho de 2011 (ver imagens abaixo).
 

Mas, como ia dizendo, muito antes de conhecer pessoalmente José Garcês, já eu admirava o seu belo traço. Teria eu uns oito anitos quando os meus pais me ofereceram um livro de passatempos, com umas ilustrações que me despertaram imenso a atenção. Na altura eu não sabia (até porque os desenhos não estavam assinados nem identificados na ficha técnica) mas tratava-se de ilustrações de José Garcês. Só muito mais tarde, quando aprendi a reconhecer o traço, percebi isso.

Duas das ilustrações de Garcês, in "Passatempos 2" - Ed. SEL - Sociedade Editorial Ld.ª (meados dos anos 70).


Depois, aos poucos, tomei conhecimento de outros trabalhos deste mestre da BD, em revistas antigas que colecciono e, em especial, em alguns álbuns que, aqui e ali, ia comprando para enriquecer a minha bedeteca: "O Tambor" (com texto de Jorge Magalhães), "Eurico, o Presbítero" (adaptação da obra de Alexandre Herculano), "D. João V, uma vida romântica" (com texto de Mascarenhas Barreto), "O Falcão"... entre muitos outros.
Alguns exemplos de álbuns de Garcês da minha Bedeteca pessoal

Chegamos a 1992, ano em que visitei, pela primeira vez, o salão da Sobreda (organizado pelo meu parceiro de blogue, Luiz Beira). Aí comecei a travar conhecimento com os grandes nomes da BD nacional e europeia. José Garcês lá estava, também, entre os desenhadores convidados, destacando-se pelos seus cabelos (já) brancos, penteados para trás, fato elegante, postura séria, de início, mas, depois de algum tempo de convívio, de trato agradável e fraternal.
José Garcês (o quinto a contar da esquerda), durante uma sessão colectiva de homenagens a
banda desenhistas na Sobreda BD. 
Em 1995, propus que fosse José Garcês o autor em destaque no salão Moura BD. Prestes a cumprir, dentro de alguns meses, cinquenta anos de carreira, achei que seria a altura certa para o homenagearmos. Assim aconteceu. 
Lembro-me de ter ido a sua casa, na Amadora, recolher os trabalhos que iríamos expor no salão, e de ter ficado encantado com uma série de quadros pendurados nas paredes do corredor, com maravilhosos motivos medievais realizados a tinta da China e aguarela
Em 1995, o salão de Moura dava os seus primeiros passos e não tinha ainda as condições que, com o tempo, viria a adquirir. O espaço era curto e a exposição ficou muitíssimo aquém daquilo que José Garcês merecia. Ainda assim, a homenagem foi bonita, e teve a particularidade de ter sido a primeira vez que o Troféu Balanito foi instituído. Coube, pois, a Garcês ser o primeiro desenhador a receber o Troféu Balanito de Honra. Desde essa altura, sempre que o visitei no seu estúdio, Garcês apontava para a estante e mostrava-me, orgulhoso e sorridente, o "troféu de Moura".
Pormenor da sala principal do salão. Ao centro algumas pranchas de José Garcês.
Garcês no uso da palavra durante a sessão de homenagem de que foi alvo em Moura, em 1995.
Da esquerda para a direita: Baptista Mendes, Artur Correia, eu, José Garcês,
Manuela Colaço (Presidente da Junta da Sobreda) e Eng.º Manuel Mestre (Presidente da Câmara de Moura). 
Passámos a encontrar-nos regularmente em festivais e salões, onde ele e a esposa Manuela apareciam, quase sempre, acompanhados dos casais amigos Artur/Belmira Correia, e Carlos/Amélia Baptista Mendes. 
Moura, Viseu, Amadora ou Sobreda eram pontos de encontro anuais que nos permitiam manter contacto, trocar impressões, esclarecer dúvidas... e matar saudades, que era o mais importante.
Garcês dialogando com Zé Manel e Rá, durante o salão Moura BD 2004.
Garcês e Artur Correia, amigos de longa data, visitaram o Moura BD durante anos a fio.
Aqui os vemos durante a sessão de encerramento do salão de 2004.
Com a esposa Manuela e Belmira Correia, durante o almoço-convívo do Moura BD 2004
José Garcês, eu, Luiz Beira e Sergei, no Festival da Amadora (2006)
Uns anos depois, trouxemos até Moura a bela exposição "Desenhar a Música" (numa parceria com o extinto CNBDI), onde Garcês (e a esposa Manuela) estiveram presentes na inauguração.
Uma das ilustrações da exposição "Desenhar a Música"
Em 2009, Garcês participou, também, no projecto colectivo "Salúquia: a lenda de Moura em banda desenhada", realizando uma história em três pranchas, no seu peculiar estilo. Lembro-me que, quando lhe demos um prazo de dois meses para entregar a sua participação, protestou imenso dizendo que era muito pouco tempo, até porque tinha outro álbum para terminar entre mãos. Não sei como resolveu o assunto mas a verdade é que nos entregou as três pranchas de Salúquia a tempo e horas e sem perda de qualidade.
Pranchas 1 e 2 de "A Lenda da Moura Salúquia" (2009)


Talvez um ano mais tarde, ainda entusiasmado com o tema de Salúquia, telefonou-me e propôs-se fazer a história da cidade de Moura em BD (e não apenas a lenda). Reencaminhei a proposta a quem de direito mas, por razões várias, o projecto foi ficando sempre em stand-by, nunca chegando a passar dessa fase. Garcês telefonava-me, semanalmente, tentando saber se sempre era para avançar ou não: "Olhe que eu agora, já com oitenta e muitos, ainda desenho, Carlos Rico, mas, de um momento para o outro, isto tudo muda!".
Como estava certo o José Garcês! Num instante tudo muda, de facto...
Passaram-se apenas alguns anos. O GICAV convidou-me para restaurar e paginar a história "Viriato", publicada originalmente no Cavaleiro Andante, a fim de ser recuperada em álbum. Uma casual troca de impressões entre mim e Garcês (registada sob a forma de notas numa das páginas finais do álbum), revelou-nos informações preciosas acerca de como "Viriato" fora produzido. Essa foi, para mim, a parte mais gratificante nesse trabalho que, diga-se, deixou Garcês extremamente satisfeito com o resultado final, apesar de algumas dúvidas iniciais (Garcês não gostava, especialmente, de ver reeditada esta história por ser uma das suas primeiras e considerar que não teria suficiente qualidade...).

Capa e prancha de "Viriato" - Ed. Gicav / Câmara Municipal de Viseu (2015)

Garcês publicou ainda, depois disso, mais dois álbuns, "História de Silves" e "Santo António de Lisboa" (este último onde era bem notória a decadência no traço, devido à idade avançada e a problemas na visão). 
O último álbum de Garcês,
Santo António em banda desenhada
Até que, vencido pela idade, foi obrigado - é este o termo - a colocar de lado os pincéis e os lápis. 
Um dia, liguei-lhe, como habitualmente, para saber notícias. Fiquei desolado quando, do outro lado da linha, uma voz ofegante e triste me disse: "Carlos Rico, eu já não desenho! A minha vista não deixa!..."
...
O seu estado de saúde foi piorando de forma gradual. Uma vez fui visita-lo a casa, aproveitando uma deslocação ao Festival da Amadora.
Eu, o Luiz Beira, o Carlos Gonçalves, o Carlos Moreno e o nosso motorista Tói Pio, fomos recebidos por um Garcês já muito frágil, mas de braços estendidos e sorriso na cara.
No pouco tempo que demorámos (talvez um quarto de hora, pois não queríamos de todo cansa-lo nem incomoda-lo) procurou na estante um exemplar do seu trabalho mais recente, a "História de Silves", para me oferecer. "Obrigado, Sr. Garcês, mas a sua editora enviou-me um exemplar para casa!" - disse-lhe eu, arrependido ainda antes de terminar a frase, por lhe ter roubado, inconscientemente, aquele momento de prazer. Virou-se para o Luiz Beira, o Carlos Gonçalves e o Carlos Moreno e obteve a mesma resposta: todos eles já tinham o álbum. Restava o nosso motorista. "Tem algum filho a quem possa interessar este livro?" - perguntou-lhe o Garcês, já pouco crente. "Tenho sim, uma menina!" - respondeu o Tói. "Então tome! Ofereço-lho com muito gosto!" - disse, finalmente, com um grande  e contagiante sorriso.
Só por isso valeu a pena aquela visita.
Foi a última vez que nos vimos, é certo, mas gosto de pensar para comigo que a derradeira imagem que me ficou de José Garcês foi a de um homem feliz.
Que descanse em paz!
Carlos Rico

Nota: Em meu nome e em nome do Luiz Beira, deixo aqui um voto de condolências à família, em especial ao filho Ricardo, que acompanhou o pai algumas vezes nas deslocações aos salões de Moura e Sobreda, e com quem chegámos a encetar contacto, há alguns meses, para produzir uma exposição de homenagem a José Garcês... A exposição-homenagem acabará por se fazer no próximo ano, logo que as circunstâncias o permitirem, mas infelizmente já a título póstumo.


José Garcês recebendo das mãos do Presidente da Câmara de Moura,
Eng.º Manuel Mestre, o Troféu Balanito de Honra (1995)
Garcês no seu estirador, trabalhando numa prancha
O Mosteiro da Batalha, uma das mais fabulosas construções de armar desenhadas por Garcês,
das quais era um exímio e reconhecido especialista.
Artur Correia, José Garcês e Osvaldo de Sousa, observando a decoração do tecto do salão Moura BD 2004.