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quarta-feira, 15 de janeiro de 2020

BREVES (78)

INSCRIÇÕES PARA O ALMOÇO "O MOSQUITO" QUASE A FECHAR...


Realiza-se no próximo sábado, 18 de Janeiro, o tradicional almoço de aniversário da saudosa revista "O Mosquito", a partir das 12:30, este ano no Restaurante A Cinderela (na Av. das Forças Armadas, 22, em Lisboa - frente à antiga Feira Popular, em Entrecampos, perto do Metro e outros transportes).
Como já é também habitual, a organização necessita absolutamente da confirmação individual dos participantes, para poder indicar o número total de convivas ao próprio restaurantealguns dias antes do encontro.
Quem quiser ainda tentar inscrever-se ou obter mais informações pode faze-lo para o seguinte endereço: leonardo.de.sa@gmail.com



BDTECA 2020: UMA MOSTRA "ODEMIRÁVEL"...

A Biblioteca Municipal José Saramago promove, em parceria com a Associação Sopa dos Artistas, a 14.ª edição da "BDteca - Mostra de Banda Desenhada de Odemira".
O evento inicia-se com o Concurso Nacional de Banda Desenhada, que já se encontra a decorrer e cujos trabalhos têm como prazo limite de entrega o dia 14 de Fevereiro. 
As normas de participação no concurso e informações adicionais podem ser consultadas aqui.
Entretanto, inaugura no próximo sábado, 18 de Janeiro, a exposição "Tiras de BD - Segura Net". No âmbito do Dia da Internet Segura, que se assinala no início de Fevereiro, pretende-se alertar, através da banda desenhada, para os perigos da Internet (o cyberbullying, as redes sociais, o plágio, a protecção de dados...). A mostra será, também, exibida nas Bibliotecas Escolares.
Entre 8 de Fevereiro e 5 de Março será a vez de ficar patente, também na Biblioteca, a exposição de banda desenhada "A Viagem do Elefante" (adaptação da obra homónima de José Saramago) por João Amaral. O banda-desenhista estará presente, a 21 de Fevereiro, pelas 10:30, para apresentar o álbum.
Iremos acompanhando a programação da "BDteca" e mantendo informados os nossos leitores...


ANGOULÊME 2020 QUASE A ABRIR PORTAS

A 47.ª edição do Festival BD de Angoulême prepara-se para abrir portas entre 30 de Janeiro e 2 de Fevereiro próximos.
O Festival continua a confiar a concepção do(s) cartaz(es) a três artistas de diferentes nacionalidades, celebrando simbolicamente toda a riqueza dos quadrinhos: Rumiko Takahashi (vencedor do Grande Prémio, em 2019), Charles Burns e Catherine Meurisse. O tema comum a essas ilustrações continua sendo o iniciado no ano passado: "um auto-retrato do artista quando criança, descobrindo as histórias em quadrinhos que originaram a sua paixão e a sua vocação".
Todas as informações sobre o Festival de Angoulême (a programação, os autores convidados, os prémios, venda de bilhetes, alojamento, acessibilidades, etc) podem ser consultadas clicando aqui.


ANIVERSÁRIOS EM FEVEREIRO



Dia 07 - Alejandro Jodorowsky (chileno)
Dia 08 - Victor Drujiniu (romeno)
​Dia 09 - José de Matos-Cruz e Zeu
​Dia 11 - Pedro Morais
​Dia 14 - Fernando Santos Costa
Dia 15 - Matt Groening (estado-unidense)
​Dia 17 - Alejandro Jodorowski (chileno)
​Dia 20 - Sergei e Sanchez Abuli (francês)
​Dia 21 - Luís Pinto-Coelho
​Dia 25 - Eugénio Silva
Dia 28 - Benjamin Bénéteau (francês)
Dia 29 - Paolo Eleuteri Serpieri (italiano)

CR/LB

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

BREVES (23)

"O MOSQUITO" VAI VOAR NA RTP 2
A RTP fez há poucos dias uma reportagem na sede do Clube Português de Banda Desenhada, acerca da exposição comemorativa dos 80 anos de "O Mosquito".
José Ruy e José da Luz foram alguns dos entrevistados.
A transmissão será no próximo dia 16 (terça-feira), por volta das 22:45, no programa "Literatura Aqui", na RTP 2.
José da Luz (o primeiro impressor da máquina de offset que "O Mosquito" viria a adquirir quando a tiragem aumentou significativamente) e José Ruy, visitam a exposição enquanto são captados pelas câmaras da equipa de reportagem da RTP. 


AINDA OS 80 ANOS DE "O MOSQUITO"

No dia 17 (quarta-feira), vão realizar-se, na Biblioteca Nacional, entre as 17:00 e as 20:00, colóquios e palestras relacionados ainda com a exposição dos 80 anos de "O Mosquito". José Ruy, António Martinó Coutinho, Carlos Gonçalves e João Manuel Mimoso serão alguns dos intervenientes.



COIMBRA BD
Eis uma excelente novidade: segundo o "Diário de Viseu", entre os próximos dias 3 e 5 de Março, vai decorrer a primeira edição da Coimbra BD, "uma Mostra Nacional que visa promover e dar a conhecer a banda desenhada e todas as actividades que com ela estão relacionadas".
A autarquia conimbricense, que pretende "colocar a cidade de Coimbra na rota dos eventos nacionais dedicados à banda desenhada", apresentará, em breve, o programa definitivo.


Foto: Madalena Alcantara







JOSÉ BAPTISTA HOMENAGEADO NO CARNAVAL DE LOULÉ
José Baptista (ou Jobat, como também assinava), banda desenhista de renome na BD portuguesa, que infelizmente nos deixou há cerca de três anos, foi alvo de uma bonita homenagem no Carnaval da sua cidade.
Um dos carros alegóricos do cortejo apresentava uma imponente caricatura de Jobat sentado ao estirador, rodeada de desenhos e capas de revistas BD, recordando, assim, a figura de um homem que dedicou grande parte da vida à chamada 9.ª Arte.
Um belo gesto da organização do evento, que aqui registamos. 

domingo, 24 de janeiro de 2016

BREVES (21)

NOVO ÁLBUM DE SPACCA
Da notável obra do grande desenhista brasileiro João Spacca salientam-se os maravilhosos álbuns “D. João Carioca” e “As Barbas do Imperador”, que apresentou na última edição (2015) do Salão de Beja, e que a todos encantou.
Em contrapartida, aí se deliciou a saborear o típico “cozido de grão”...
Pois Spacca terá novo álbum muito em breve, versando a biografia do santo italiano Padre Pio, do qual mostramos uma prancha. Aguardemos, pois, por tal obra anunciada.
Prancha de "Padre Pio" (trabalho ainda inédito)



"A VIAGEM DO ELEFANTE" COM PASSAGEM PELA TURQUIA
Foi com prazer que recebemos a notícia de que João Amaral viu ser publicado na Turquia o seu último álbum, "A Viagem do Elefante", obra adaptada do romance homónimo de José Saramago.
A edição tem chancela da editora Kirmizi Kedi (literalmente, Gato Vermelho).
João Amaral vê, assim, reconhecido o seu trabalho além fronteiras, facto bem pouco habitual entre os autores portugueses. Parabéns, João!



JIM DEL MÓNACO COM NOVO ÁLBUM AINDA ESTE ANO
Entretanto, a dupla Luís Louro e Tozé Simões, que em boa hora regressou à BD depois de um largo interregno, está a trabalhar em mais uma aventura de Jim del Mónaco, com lançamento agendado ainda para este ano (no Festival AmadoraBD?).
Deixamos aqui o trailer desse trabalho, só para aguçar o apetite aos mais impacientes...



"O MOSQUITO" CONTINUA A VOAR
O almoço que, nos últimos anos, se tem vindo a realizar em Lisboa, com o intuito de festejar o aniversário da famosa revista "O Mosquito", teve lugar no passado dia 16 de Janeiro, sendo, até hoje, o mais participado de sempre.
É bem possível que a data redonda que "O Mosquito" cumpriu (80 anos), fosse o definitivo pretexto para que muitos indecisos optassem por marcar presença neste já tradicional convívio bedéfilo. E ainda bem que o fizeram, pois assim a festa foi mais bonita e o espírito "mosquiteiro" voou mais alto...
Imagem do almoço-convívio que bateu o record de presenças

Após o repasto, e já na novel sede do Clube Português de Banda Desenhada (CPBD), os convivas puderam assistir a uma palestra de José Ruy sob o tema "Quando entrei para O Mosquito"...
Imagem da palestre de José Ruy, com boa assistência

...a que se seguiu a inauguração das exposições "80 Anos de O Mosquito" e "Tributo a Eduardo Teixeira Coelho", que se manterão abertas, de aqui em diante, aos sábados, entre as 15:30 e as 18:00 horas, até 12 de Março.
Um agradecimento especial ao CPBD que, gentilmente, nos cedeu as fotos que aqui vos apresentamos.
Inauguração das exposições




ANIVERSÁRIOS EM FEVEREIRO
Dia 09: José Matos-Cruz e Zeu
Dia 11: Pedro Morais
Dia 15: Art Spiegelman
Dia 20: Sergei
Dia 21: Luís Pinto-Coelho e Zenetto
Dia 25: Eugénio Silva

sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

BREVES (20)



3.º SALÃO DE BANDA DESENHADA
DE AVEIRO CELEBRA "O MOSQUITO"
Inaugurou ontem, no Museu de Aveiro - Santa Joana, o 3.º Salão de Banda Desenhada, cujo mote é os 80 anos da revista "O Mosquito".
Destaque para os autores que "nasceram" com aquela revista (onde, obviamente, se inclui Eduardo Teixeira Coelho), mas também para outros autores portugueses que acompanharam a evolução da BD portuguesa noutras publicações como o "Cavaleiro Andante", "Mundo de Aventuras", "Diabrete", "Jornal do Cuto" ou "Tintin".
O salão pode ser visitado até 17 de Janeiro.








EXPOSIÇÃO "ESTÚPIDOS, MALDOSOS E SEMANAIS"... NA BEDETECA DA AMADORA
Também ontem, na cidade da Amadora, inaugurou a exposição documental "Estúpidos, Maldosos e Semanais. Uma Constelação em Torno do Charlie Hebdo".
No dia 23 haverá um debate associado a este evento com hora a divulgar posteriormente.
A exposição ficará patente até 30 de Janeiro e pode ser visitada de terça-feira a sábado, das 10:00 às 18:00 h.



ALMOÇO-CONVÍVIO DOS 80 ANOS DE "O MOSQUITO"
No próximo dia 16, sábado, realiza-se o já tradicional almoço-convívio entre leitores e admiradores da mítica revista "O Mosquito".
Depois do repasto, pelas 16:00 horas, haverá um colóquio com José Ruy ("Como entrei para O Mosquito"), nas novas instalações do Clube Português de Banda Desenhada (antigo CNBDI).



BRONCA EM ANGOULÊME (?)
Trinta nomes, muitos deles de "grandes" do mundo dos quadrinhos como Frank Miller, Chris Ware, Alan Moore, Milo Manara, Stan Lee, Emmanuel Guibert, Quino, Jiro Taniguchi, Joann Sfar ...
Trinta nomes indiscutíveis, mas apenas homens; nenhuma mulher.
O anúncio da lista de autores elegíveis para o Grand Prix no 43.º Festival Internacional de Banda Desenhada de Angoulême (entre 28 e 31 de Janeiro próximo) gerou um rebuliço no meio da nona arte, na última terça-feira, ao ponto de o colectivo de autores apelar para um boicote ao voto destinado a designar os três finalistas desta eleição reservada para profissionais da indústria.
A poucos dias da abertura de portas, a organização de um dos mais prestigiados festivais BD do Mundo tem entre mãos uma pequena batata quente...

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

A VIDA INTERIOR DAS REDAÇÕES DOS JORNAIS INFANTO-JUVENIS na memória de José Ruy (4)


4) A TERTÚLIA NA REDAÇÃO DE "O MOSQUITO"


No anterior artigo expliquei quais os prazos impostos aos colaboradores para a entrega dos seus originais em relação à data da saída do jornal. Tinha de haver uma segurança para, no caso de acontecer algum imprevisto a um autor, a publicação não falhar. 
Cardoso Lopes e Raul Correia formaram uma empresa com o nome de «Edições O Mosquito» e foram editados mais jornais e revistas, como «Engenhocas e Coisas Práticas», «Coleção Aventuras», «Volta ao Mundo» entre outros títulos.
Foi na revista "Engenhocas..." que o Eduardo Teixeira Coelho começou a trabalhar para o Tiotónio. Depois passou também a colaborar na "Coleção Aventuras" antes de se radicar n' "O Mosquito".
Ao fim da tarde normalmente começavam a chegar à redação colaboradores e outros amigos do Tiotónio, como o Eduardo Teixeira Coelho, Stuart Carvalhais (que litografava diretamente nas chapas Offset as capas de sua autoria para a revista «Magazine», uma das publicações das «Edições O Mosquito»), o José Padiña (novelista), o Pintéus de Sousa (que dirigia um jornal humorístico «Riso Mundial» impresso também na oficina de «O Mosquito»), o Capitão Baptista Rosa (diretor da Revista «Filmagem», edição da casa), o Santos Fernando (grande humorista que publicava histórias em jornais do Brasil e estava empregado numa casa de sementes em Lisboa), o António Velez (autor da maioria das construções de armar), o Sena Fernandes (um pintor chinês de Macau que utilizava um dos recantos da redação como ateliê), o Preto Pacheco (pintor com carreira e que fazia companhia ao Sena Fernandes no «seu» espaço), os irmãos do Tiotónio, Álvaro Cardoso Lopes (capitão da equipa de hóquei em patins que levou Portugal a campeão mundial em 1947) e Augusto Lopes (inventor e técnico de som). Também presente o Roussado Pinto, que entretanto já estava integrado na redação do jornal, e o dono da «Agência Upi», Manuel Mesquita dos Santos. Este foi quem fornecia as histórias de origem americana.
A revista "Magazine", que o Stuart litografava diretamente no zinco, sem um original pintado previamente, e uma capa da revista "Riso Mundial".
A irmã mais nova do Tiotónio, Mariana Cardoso Lopes, a Tia Nita, diretora de «A Formiga» suplemento de «O Mosquito», passava por lá só a seguir ao almoço quando saía da faculdade. A reunião dava-se na sala onde eu selecionava as cores. Era a que agradava mais ao Tiotónio. Tinha duas janelas disponíveis para a rua, as outras estavam na sala de composição tipográfica e na sala da máquina e aí não havia espaço nem ambiente para a tertúlia.
A Tia Nita, o Tiotónio, Teixeira Coelho e eu na sala do desenho litográfico
onde se realizavam as tertúlias. 
O suplemento feminino "A Formiga" - capa do n.º 1, páginas centrais de um volume já encadernado...

... e uma das construções de armar de António Velez
Nessas tardes falavam de tudo, de arte, das novas Histórias em Quadrinhos de origem norte americana e francesa, dos acontecimentos recentes, das novidades, de política, e de anedotas algumas verdadeiras que estavam sempre a acontecer a cada um deles. Eu precisava de estar concentrado na seleção das cores mas ia ouvindo deliciando-me. Só quando terminava as chapas podia participar. Eram todos muito simpáticos e tratavam-me de igual, partilhando as conversas. O Stuart que sabia das minhas incursões no Jardim Zoológico para desenhar os animais, um dia ofereceu-me um original seu que saíra pouco antes no Diário de Notícias a apresentar o Circo e onde desenhara uns animais. Conservo-o na minha «galeria» de obras oferecidas pelos amigos.
Um rapaz de que não me lembro o nome e que acompanhava o Pintéus de Sousa, foi certa vez alvo de uma brincadeira. Não assisti ao início mas uma parte do grupo dizia-lhe «…e Saramago» (não tinha nada a ver com o escritor José Saramago, isto passou-se em 1948). O rapaz irritava-se e reagia sempre mal. Então passavam o tempo a dizer-lhe isso, em meio de uma conversa, repentinamente. Escreviam-lhe postais para casa com esse dito, metiam-lhe nos bolsos sem que desse por isso, papéis escritos e quando ia tirar o lenço saltava a frase. Não cheguei a saber quem seria esse Saramago nem o que lhe teria feito, pois limitava-me a ouvir sem perguntar. Cada um dizia o que achava de contar na altura própria. Eu não impunha a minha presença, esperava que a aceitassem.
Esse jogo durou umas semanas. Também lhe telefonavam para o emprego e para casa; ao atender ouvia o clássico «e Saramago!»
Pois era este o ambiente na redação de «O Mosquito». Tratavam-se assuntos sérios, trabalhava-se intensamente para produzir o jornal duas vezes por semana mas havia um sentido de humor inimaginável. Era o extravasar da tensão criada durante um dia pleno de trabalho intenso, que se prolongava por sábados e às vezes domingos.
(continua)

No próximo artigo: COMO ERA A REDAÇÃO DE "O PAPAGAIO" 

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

A VIDA INTERIOR DAS REDAÇÕES DOS JORNAIS INFANTO-JUVENIS na memória de José Ruy (3)


3) AS DECISÕES NA ORIENTAÇÃO DO JORNAL

Como exemplifiquei no artigo anterior, o António Cardoso Lopes, Tiotónio, diretor artístico de «O Mosquito» funcionava como um maestro que perante um naipe de instrumentistas ia dando ordem de entrada a cada um ou a um grupo, conforme achava que a sinfonia ia precisando.
Claro que essas decisões não eram diárias, a redação reunia uma vez por mês, sem dia certo, e estavam presentes além dos diretores, o Eduardo Teixeira Coelho, o José Padiña, a partir da altura em que iniciou a sua colaboração no jornal e o Roussado Pinto depois que o seu jornal «Pluto» acabou e o Tiotónio o acolheu na redação de «O Mosquito». Por vezes reuniam de emergência, como uma vez em que as vendas de «O Mosquito» baixaram numa semana, embora pouco, e era preciso tomar medidas urgentes, novas ideias, novos estímulos.
Foi quando por sugestão do Teixeira Coelho coadjuvado pelo Raul Correia, surgiram rubricas como «Curiosidades de todo o mundo», «A História do Carro», «Secção dos Sábios», «Coisas do Arco-da-Velha» e «Mulheres Celebres».
O Tiotónio, para não sobrecarregar a tipografia, muitas vezes escrevia as legendas
diretamente na chapa de zinco, como nesta página das «Curiosidades».

Mas as novas rubricas não podiam sair logo nessa mesma semana, e quando surgiram à cena já o jornal tinha recuperado as vendas, antes de qualquer alteração. O Tiotónio dizia que o êxito em volume de vendas era uma incógnita. Podia-se planear tudo rigorosamente para dar certo, mas o resultado era imprevisível. Ainda hoje é assim.

A colaboração tinha um avanço de algumas semanas em relação à sua publicação. As provas das histórias inglesas chegavam em pequenos lotes, com irregularidade devido aos efeitos da Segunda Guerra Mundial e alguns episódios perderam-se por terem sido bombardeados os navios que traziam esse correio. Daí as falhas na sua publicação, obrigando a dar pequenos saltos na história, que o Raul Correia compensava num texto a fazer ligação com as cenas anteriores.
Felizmente o autor José Pires de parceria com o Américo Coelho, colecionador, e o José Vilela, editor, têm atualmente publicado essas aventuras completas em livro com as páginas originais que falharam n’ «O Mosquito». E é curioso como tem tido a melhor aceitação da parte dos ingleses.
Capa e prancha do "Fandaventuras Especial" # 1, onde se recupera a 1.ª parte de "O Gavião dos Mares"
Esse avanço permitia ao seu autor evitar a interrupção de uma história se algo lhe acontecesse, mesmo temporariamente. Em 1946 o Teixeira Coelho teve um esgotamento devido ao muito trabalho que desenvolvia. Esteve umas semanas em repouso, mas isso não se sentiu no ritmo da publicação das suas ilustrações. Restabelecido, conseguiu recuperar rapidamente o avanço perdido.
Nessa época não era costume os autores entregarem a história completa antes do início da publicação e acontecia até, embora o argumento estivesse alinhavado desde o princípio, fazerem alterações, às vezes por influência de alguma opinião vinda do público mais chegado que ia acompanhando a história.
Eu próprio tive um percalço na História em Quadrinhos que publiquei nesse jornal. Dei-lhe o título de «O Reino Proibido» e tinha um avanço considerável, pois o jornal continuava a ser bi-semanal.
Aconteceu que nessa época estava a trabalhar no ateliê do Manuel Rodrigues e Sebastião Rodrigues em publicidade, bem como em montras e exposições documentais.
Em dada altura a equipa foi deslocada para Coimbra, pois tínhamos de montar uma exposição na Universidade; o trabalho prolongou-se mais do que o previsto e esgotou-se o avanço que tinha da história sem ter no local condições para continuar a desenhar a continuação.
O Raul Correia estava desesperado e ia escrevendo no jornal, «que por doença do autor ainda não nos é possível neste número…»
Mas só consegui terminar as pranchas em falta quando regressei a Lisboa. Curiosamente, nesse espaço de tempo o formato do jornal havia sido alterado, para o dobro. Valeu-me fazer os originais duas vezes maiores do que o tamanho da publicação.
(Continua)

No próximo artigo: A TERTÚLIA NA REDAÇÃO DE «O MOSQUITO»

sábado, 15 de novembro de 2014

A VIDA INTERIOR DAS REDAÇÕES DOS JORNAIS INFANTO-JUVENIS na memória de José Ruy (2)


2 - A PLANTA DA REDAÇÃO DE "O MOSQUITO"

Conforme descrevi no artigo anterior, a redação de "O Mosquito" a partir de 1939 passou em definitivo para a Travessa de São Pedro, no Bairro Alto em Lisboa. Era em simultâneo redação, administração e oficinas.
A instalação abrangia várias divisões de uma antiga casa de habitação que foi perfeitamente adaptada à função.
Numa sala com duas janelas, de esquina para a Rua dos Mouros e para a Travessa de São Pedro, estava instalado o prelo para o «transporte litográfico» dos desenhos para as chapas de zinco Offset que imprimiam diretamente na máquina Rolland. Numa dessas janelas estava a bancada onde eu desenhava nas chapas de zinco Offset a seleção das cores do jornal. Na outra havia uma mesa destinada à montagem dos «deitados» ou «planos», ou seja a planificação das páginas de cada número do jornal. O técnico transportador era o experiente José Baptista Moreira que viera da litografia Castro, como muitos dos outros elementos.

Para uma melhor compreensão junto um esquema da planta.
Nesta perspetiva que desenhei para o livro «História da BD Publicada em Portugal» pelas
Edições «Época de Ouro», em 1995, mostro como era a Redação/Oficina de "O Mosquito".

1– Patamar da escada. 2– Entrada para a cave onde estava instalado o «granidor» de recuperação das chapas de zinco usadas. 3– Porta da Redação. 4– Corredor principal. 5– Guiché de receção ao público. 6– Casa da máquina de impressão Offset «Rolland». 7– Gabinete do Tiotónio onde estava instalado o telefone. 8– Ligação entre a casa da máquina e a secção de transporte. 9– Secção de montagem, transporte e desenho litográfico; a) Mesa de desenho das cores; b) Mesa da montagem litográfica; c) Prelo litográfico. 10– Secção de tipografia; a)– Bancada tipográfica; b) Impressoras tipográficas automáticas «Minerva»; c) Secretária do contabilista, sogro do Tiotónio. 11– Casa da dobra do jornal e também da expedição de encomendas; a) Máquina de Offset «Rolland» de pequeno formato; b) Bancada da dobra. 12– Gabinete de reuniões; a) Na parede, dois grandes retratos de António Cardoso Lopes e Raul Correia. 13– Casa do corte de papel; a) Guilhotina. 14– Corredor de ligação. 15 e 16– Gabinetes com arquivos de originais e números antigos de «O Mosquito». Roussado Pinto ocupou o gabinete 15 aquando da sua estada na redação. 17– WC e duche. 18– Saguão a céu aberto.

Como funcionava a redação de "O Mosquito"

Um jornal deste tipo pode ter histórias muito bem escritas e desenhadas, mas se não tiver uma orientação bem estruturada pode resultar num falhanço. Chamo a atenção do que aconteceu aos jornais que o Tiotónio dirigiu (embora artisticamente, pois era de uso na época haver também um diretor literário) depois da sua saída. Ele tinha a perceção exata do que o público precisava, sem cair na tentação de lhe dar o que lhe seria mais fácil de assimilar. Por isso "O Mosquito", sendo simplesmente um jornal de entretém, foi considerado pelos seus leitores, ao longo dos tempos, como de cariz didático.
O Cardoso Lopes, Tiotónio, era quem escolhia a colaboração do estrangeiro - Inglaterra e Espanha - e os temas da que era realizada em Portugal. Era ele quem detinha o exclusivo do material inglês, e quando mudou do "Tic-Tac" para criar "O Mosquito", levou as séries consigo.
Não havia repetição de temas na gama das Histórias em Quadrinhos nem das novelas de texto. Os autores destas últimas, Raul Correia, Fidalgo dos Santos, José Padiña, Lúcio Cardador, Orlando Bertoldo Marques ou Roberto Ferreira recebiam indicações para o ambiente da novela que deviam escrever a seguir. Não admitia repetição de temas simultaneamente, e por exemplo, se havia em curso uma história de barcos passada na atualidade, só era aceite outra se fosse vivida na antiguidade.
Por curiosidade, mostro em baixo uma página d’ "O Mosquito" N.º 229, de 30 de Maio de 1940, onde o Raul Correia responde a uma carta do Orlando Marques, que começou a colaborar por essa altura com as suas novelas.
A página d’ "O Mosquito" com a resposta à carta de Orlando Marques
e ao lado o pormenor para se poder ler o conteúdo.

Este critério do Tiotónio era aplicado também nas Histórias em Quadrinhos, com aventuras espaciais, policiais ou decorrentes em zonas exóticas do mundo, já descoberto ou não. Também o género de desenho «sério» era equilibrado com o «cómico» ou humorístico como se passou a chamar. Esse material era de origem inglesa e espanhola. Só muito mais tarde viria a publicar originais dos Estados Unidos da América. Os títulos sempre bem inspirados eram conseguidos pelo Raul Correia num repente, sem ter que pensar muito.
Eis o equilíbrio estabelecido entre histórias humorísticas e de carácter sério, atingindo assim os variados gostos dos muitos leitores. Conheci na altura rapazes que compravam o jornal só por causa de uma das histórias de que gostavam muito. E como eram séries contínuas, estes leitores tornavam-se como que «vitalícios».
A colaboração disponível que vinha do exterior impunha os temas base, por isso o que era construído entre nós tinha de preencher o que faltava no critério de escolha da programação do jornal.
Ao diretor literário Raul Correia competia traduzir os textos e criar uma literatura própria que transformou por completo a qualidade dos argumentos, melhorando-os muito. Escrevia as novelas que contrabalançavam os «Quadrinhos». Era um verdadeiro Poeta e durante muitos anos manteve sem falhar a rubrica «O Avozinho», escrita numa bela prosa rimada.
Se um autor trazia à redação uma história já pronta, focando um tema que se equiparava a um que estava a ser publicado, o Tiotónio guardava-a para a inserir no jornal numa melhor oportunidade. As suas personagens «Zé Pacóvio & Grilinho» tiveram uma grande popularidade, mas n’ "O Mosquito", devido às muitas solicitações ligadas à gerência da oficina e das variadas publicações que aí se publicaram, tiveram pouca presença, embora se publicasse um álbum: «Novas aventuras de Zé Pacóvio e Grilinho».
As personagens do Tiotónio n’ "O Mosquito" e no álbum com uma história completa.
(continua)

No próximo artigo: AS DECISÕES NA ORIENTAÇÃO DO JORNAL

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

A VIDA INTERIOR DAS REDAÇÕES DOS JORNAIS INFANTO-JUVENIS na memória de José Ruy (1)

O BDBD orgulha-se de estrear hoje uma rubrica, que tem a particularidade de ter como autor dos textos um nosso colaborador e amigo, José Ruy, nome grande da banda desenhada portuguesa, que, curiosamente, já aqui foi entrevistado.
Numa casual troca de e-mail's, lançámos o repto a este autor para que nos falasse um pouco sobre a sua experiência nas redacções dos muitos jornais infanto-juvenis por onde passou e José Ruy acedeu, com toda a disponibilidade e prontidão, a esse desafio, contando-nos algumas das suas memórias que, de outro modo, provavelmente se perderiam no tempo.
Agradecemos-lhe por isso, em nosso nome e em nome de todos os que, ainda hoje, recordam com saudade «O Mosquito», o «Cavaleiro Andante« ou o «Diabrete», revistas que faziam as delícias da rapaziada nos anos 30, 40, 50 e 60. 
Esta será, também, uma oportunidade única para os que se interessam pela história da BD portuguesa, já que este conjunto de artigos (quinze no total, ao ritmo de aproximadamente um por mês) lhes permitirá perceber um pouco melhor como eram produzidos estes e outros títulos que tanto sucesso fizeram entre a pequenada daquela altura.  
Comecemos, então, pelo jornal mais emblemática da BD portuguesa: «O Mosquito».


1 - COMO ERAM POR DENTRO AS REDAÇÕES DOS JORNAIS INFANTIS
por José Ruy

Uma das perguntas que tenho ouvido fazer com alguma frequência por quem se interessa em saber mais sobre publicações periódicas para jovens, é de como funcionavam as redações, quais os prazos exigidos aos autores para a entrega dos originais e como era o ambiente nessas verdadeiras fábricas de sonhos.
Posso relatar a minha experiência do que vivi no interior de algumas dessas redações. Comecemos por um jornal infanto-juvenil, particularmente especial e fascinante, que fez história, para além das que publicou: «O Mosquito».

Anúncio publicado no Diário de Notícias descoberto por Leonardo De Sá
e Capa do n.º1, reprodução de Catherine Labey.

A redação era integrada na sua própria oficina e em edifício próprio, melhor dizendo pertença da família do Tiotónio, na Travessa de São Pedro n.º 9 em Lisboa. É certo que a primeira redação deste mítico jornal funcionou provisoriamente na Travessa das Pedras Negras, n.º1 na Litografia Castro onde era impresso. No entanto o Raul Correia (Avozinho) e o António Cardoso Lopes (Tiotónio), diretores literário e artístico, realizavam «O Mosquito» na Amadora onde residiam em moradias geminadas.
Tiotónio e Raul Correia
O Tiotónio deslocava-se à oficina ao fim da tarde, para entregar os originais e desenhar as cores diretamente nas chapas de zinco Offset, depois de terminar a sua função na entidade bancária onde era funcionário.
A correspondência dos leitores era dirigida para a morada do Tiotónio, na Amadora, que a entregava depois ao Raul Correia que respondia no jornal e por vezes mesmo diretamente pelo correio.
Havia também o «Correio da Ti’réne, secção de meninas» dirigido pela irmã mais velha do Tiotónio, Irene Cardoso Lopes, que tratava de bordadinhos para os vestidos das bonecas. Esta secção saiu muito poucas vezes. Só muito mais tarde a irmã mais nova, a Mariana Cardoso Lopes viria a dirigir «A Formiga» com uma periodicidade marcante.
O jornal começou por ser distribuído pela Empresa Nacional de Publicidade detentora do Diário de Notícias. No natal de 1936, no primeiro ano de publicação, saiu um número especial com 20 páginas pelo mesmo preço, 5 tostões, mas com alguns dias de atraso devido a «uma avaria na máquina impressora», segundo explicação dada no próprio número, mas que teria sido, isso sim, pelo acréscimo de 12 páginas às 8 habituais, pois a máquina era lenta e não correspondia ao que lhe exigiam.
Durante três anos o jornal foi ampliando as vendas, obrigando a um aumento crescente da tiragem, praticamente de número para número. No início fora utilizada uma velha máquina com 60 anos já, plana e marginada à mão, quer dizer que o papel era metido folha a folha, por operários especializados, exemplar por exemplar. Quando a tiragem aumentou de 5000 exemplares para 15000 tiveram que passar a impressão para outra máquina mais «moderna» ou melhor dizendo, não tão velha como a anterior. Mas a procura nas bancas de venda era cada vez maior, os assinantes aumentavam e «O Mosquito» atingiu os 15000 exemplares. Passou a ser impresso noutra máquina, a mais rápida da oficina.
Mesmo assim não dava vazão e começaram a surgir problemas de resposta por parte da gráfica, não conseguindo entregar o número de exemplares correspondentes a uma semana.
Saía com um ou dois dias de atraso, mas o público era fiel e esperava a continuação das aventuras com ansiedade e interesse.
A primeira...

...a segunda...

...e a terceira máquinas que na Litografia Castro imprimiram «O Mosquito»

O Tiotónio e o Raul Correia procuraram uma outra gráfica que tivesse capacidade para imprimir o jornal a tempo e horas, mas as que existiam na zona de Lisboa só conseguiriam cumprir os prazos se não aceitassem mais trabalhos de outros clientes, o que significava ocuparem as máquinas a tempo inteiro tornando impraticável o orçamento, que ao subir já não permitia manter o preço de capa de «cinco tostões», metade de um escudo, um dos grandes trunfos do êxito da publicação.
Nessa altura tiveram uma proposta da Empresa Nacional de Publicidade, a sua distribuidora, de aquisição do jornal ficando à mesma os seus diretores com a responsabilidade da edição, mas transformando-se em «assalariados» da Empresa. As condições apresentadas não agradaram ao Tiotónio nem ao Raul Correia.
A famosa impressora Rolland
Então pensaram a sério em montar oficina própria e adquirirem uma máquina muito rápida que conseguisse fazer a tiragem no tempo desejado e pudesse acompanhar a sua possível subida. Foi escolhida por catálogo uma impressora Offset, novo modelo acabado de lançar, a última palavra da marca alemã Rolland. Imprimia numa hora o que as outras máquinas existentes no parque gráfico nacional conseguiam num dia, seis mil exemplares. Em 1939 a redação começou então a funcionar em edifício próprio com as oficinas englobadas.
Foi nesse espaço que tive a felicidade e a oportunidade de trabalhar, a partir de 1947, na seleção manual das cores e também na parte artística depois que o Manuel Velez (irmão do António Velez, autor da maior parte das construções de armar) partiu para a África.
A bancada onde desenhava as cores de «O Mosquito», na janela que dava para a Rua dos Mouros, no Bairro Alto, e a mesa onde o Baptista Moreira montava o jornal. De pé, O Tiotónio.

Vou então contar como funcionava essa redação integrada na oficina.
A instalação abrangia várias divisões de uma antiga casa de habitação que foi perfeitamente adaptada à função.
(Continua)

No próximo artigo: A PLANTA DA REDAÇÃO 

Nota: Apesar de os textos do BDBD não obedecerem ao novo acordo ortográfico, por discordarmos dele, os textos de José Ruy serão publicados segundo as regras desse acordo, por opção do próprio autor.