O BDBD orgulha-se de estrear hoje uma rubrica, que tem a particularidade de ter como autor dos textos um nosso colaborador e amigo, José Ruy, nome grande da banda desenhada portuguesa, que, curiosamente, já aqui foi entrevistado.
Numa casual troca de e-mail's, lançámos o repto a este autor para que nos falasse um pouco sobre a sua experiência nas redacções dos muitos jornais infanto-juvenis por onde passou e José Ruy acedeu, com toda a disponibilidade e prontidão, a esse desafio, contando-nos algumas das suas memórias que, de outro modo, provavelmente se perderiam no tempo.
Agradecemos-lhe por isso, em nosso nome e em nome de todos os que, ainda hoje, recordam com saudade «O Mosquito», o «Cavaleiro Andante« ou o «Diabrete», revistas que faziam as delícias da rapaziada nos anos 30, 40, 50 e 60.
Esta será, também, uma oportunidade única para os que se interessam pela história da BD portuguesa, já que este conjunto de artigos (quinze no total, ao ritmo de aproximadamente um por mês) lhes permitirá perceber um pouco melhor como eram produzidos estes e outros títulos que tanto sucesso fizeram entre a pequenada daquela altura.
Comecemos, então, pelo jornal mais emblemática da BD portuguesa: «O Mosquito».
1 - COMO ERAM POR DENTRO AS REDAÇÕES DOS JORNAIS INFANTIS
por José Ruy
Uma das perguntas que tenho ouvido fazer com alguma
frequência por quem se interessa em saber mais sobre publicações periódicas
para jovens, é de como funcionavam as redações, quais os prazos exigidos aos
autores para a entrega dos originais e como era o ambiente nessas verdadeiras
fábricas de sonhos.
Posso relatar a minha experiência do que vivi no interior
de algumas dessas redações. Comecemos por um jornal infanto-juvenil,
particularmente especial e fascinante, que fez história, para além das que
publicou: «O Mosquito».
Anúncio publicado
no Diário de Notícias descoberto por Leonardo De Sá
e Capa do n.º1, reprodução
de Catherine Labey.
A redação era integrada na sua própria oficina e em edifício
próprio, melhor dizendo pertença da família do Tiotónio, na Travessa de São
Pedro n.º 9 em Lisboa. É certo que a primeira redação deste mítico jornal
funcionou provisoriamente na Travessa das Pedras Negras, n.º1 na Litografia
Castro onde era impresso. No entanto o Raul Correia (Avozinho) e o António
Cardoso Lopes (Tiotónio), diretores literário e artístico, realizavam «O
Mosquito» na Amadora onde residiam em moradias geminadas.
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| Tiotónio e Raul Correia |
O Tiotónio deslocava-se à oficina ao fim da tarde, para
entregar os originais e desenhar as cores diretamente nas chapas de zinco
Offset, depois de terminar a sua função na entidade bancária onde era
funcionário.
A correspondência dos leitores era dirigida para a morada
do Tiotónio, na Amadora, que a entregava depois ao Raul Correia que respondia
no jornal e por vezes mesmo diretamente pelo correio.
Havia também o «Correio da Ti’réne, secção de meninas»
dirigido pela irmã mais velha do Tiotónio, Irene
Cardoso Lopes, que tratava de bordadinhos para os vestidos das bonecas. Esta
secção saiu muito poucas vezes. Só muito mais tarde a irmã mais nova, a Mariana
Cardoso Lopes viria a dirigir «A Formiga» com uma periodicidade marcante.
O jornal começou por ser distribuído pela Empresa
Nacional de Publicidade detentora do Diário de Notícias. No natal de 1936, no
primeiro ano de publicação, saiu um número especial com 20 páginas pelo mesmo
preço, 5 tostões, mas com alguns dias de atraso devido a «uma avaria na máquina
impressora», segundo explicação dada no próprio número, mas que teria sido,
isso sim, pelo acréscimo de 12 páginas às 8 habituais, pois a máquina era lenta
e não correspondia ao que lhe exigiam.
Durante três anos o jornal foi ampliando as vendas,
obrigando a um aumento crescente da tiragem, praticamente de número para
número. No início fora utilizada uma velha máquina com 60 anos já, plana e
marginada à mão, quer dizer que o papel era metido folha a folha, por operários
especializados, exemplar por exemplar. Quando a tiragem aumentou de 5000
exemplares para 15000 tiveram que passar a impressão para outra máquina mais
«moderna» ou melhor dizendo, não tão velha como a anterior. Mas a procura nas
bancas de venda era cada vez maior, os assinantes aumentavam e «O Mosquito» atingiu os 15000 exemplares. Passou a ser impresso noutra máquina, a mais
rápida da oficina.
Mesmo assim não dava vazão e começaram a surgir problemas
de resposta por parte da gráfica, não conseguindo entregar o número de exemplares
correspondentes a uma semana.
Saía com um ou dois dias de atraso, mas o público era fiel e esperava a continuação das aventuras com ansiedade e interesse.
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| A primeira... |
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| ...a segunda... |
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| ...e a terceira máquinas que na Litografia Castro imprimiram «O Mosquito» |
O Tiotónio e o Raul Correia procuraram uma outra gráfica
que tivesse capacidade para imprimir o jornal a tempo e horas, mas as que
existiam na zona de Lisboa só conseguiriam cumprir os prazos se não aceitassem mais
trabalhos de outros clientes, o que significava ocuparem as máquinas a tempo
inteiro tornando impraticável o orçamento, que ao subir já não permitia manter
o preço de capa de «cinco tostões», metade de um escudo, um dos grandes trunfos
do êxito da publicação.
Nessa altura tiveram uma proposta da Empresa Nacional de
Publicidade, a sua distribuidora, de aquisição do jornal ficando à mesma os
seus diretores com a responsabilidade da edição, mas transformando-se em «assalariados»
da Empresa. As condições apresentadas não agradaram ao Tiotónio nem ao Raul
Correia.
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| A famosa impressora Rolland |
Então pensaram a sério em montar oficina própria e
adquirirem uma máquina muito rápida que conseguisse fazer a tiragem no tempo
desejado e pudesse acompanhar a sua possível subida. Foi escolhida por catálogo
uma impressora Offset, novo modelo acabado de lançar, a última palavra da marca
alemã Rolland. Imprimia numa hora o que as outras máquinas existentes no parque
gráfico nacional conseguiam num dia, seis mil exemplares. Em 1939 a redação começou então a funcionar em edifício
próprio com as oficinas englobadas.
Foi nesse espaço que tive a felicidade e a oportunidade
de trabalhar, a partir de 1947, na seleção manual das cores e também na parte
artística depois que o Manuel Velez (irmão do António Velez, autor da maior
parte das construções de armar) partiu para a África.
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A bancada
onde desenhava as cores de «O Mosquito», na janela que dava para a Rua dos
Mouros, no Bairro Alto, e a mesa onde o Baptista Moreira montava o jornal. De pé,
O Tiotónio.
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Vou então contar como funcionava essa redação integrada
na oficina.
A instalação abrangia várias divisões de uma antiga casa
de habitação que foi perfeitamente adaptada à função.
No próximo artigo: A PLANTA DA REDAÇÃO
Nota: Apesar de os textos do BDBD não obedecerem ao novo acordo ortográfico, por discordarmos dele, os textos de José Ruy serão publicados segundo as regras desse acordo, por opção do próprio autor.