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quarta-feira, 22 de novembro de 2017

ENTREVISTAS (26) - RAFAEL COUTINHO (2.ª parte)

Concluímos hoje a publicação da entrevista iniciada no post anterior.


BDBD - Num jeito de paródia, abordaste “Mónica e Cebolinha”... O Maurício de Sousa não ficou chateado?
RC - Não... acho que ele não leu a história. Não tem tempo para isso. Mas o Sidney Gusman, que me convidou na época, é um cara muito bem humorado e inteligente e, de certa forma, todos ali gostam deste tipo de projecto e brincadeira.
Mónica e Cebolinha adultos, por Rafael Coutinho

BDBD - Afirmas-te mais criando em preto-e-branco e não com a cor. Tens alguma lógica pessoal por esta preferência?
RC - Encaro o preto-e-branco na Banda Desenhada como uma instituição cheia de expressões marcantes e históricas. Para a minha educação em artes, conhecer os trabalhos de Muñoz, de Milazzo ou o preto-e-branco de Jaime Hernandez, Katsuhiro Otomo, Tomaz Ott, Marjane Satrapi, Angeli, Crumb, foi como entender o mundo de outra forma toda vez. Há uma tradição aí, e quando passei a fazer quadrinhos de uma forma mais regular, sinto que sempre encarei isso como se tivesse me perguntando como eu entendia pontilhismo, hachura, luz e sombra, tons aguados ou o próprio tratamento digital dentro dessa tradição. Ao combinar essas técnicas, desenho realista, desenho solto, o que ficaria impreciso e o que puxaria para a abstracção, era como se eu estivesse me posicionando nesse meio, pedindo licença, me encontrando como autor... Mas adoro cor, pinto quadros, faço muitas histórias coloridas. É mais uma ferramenta, não sinto que evito essa. Mas o preto-e-branco foi e é um prazer à parte. Gosto muito.
"Mensur", álbum a preto-e-branco... com uma capa bem colorida

BDBD - Nota-se, de certo modo, uma linha dura e angustiante na tua obra. É assim que vês sempre a vida? Sem alegrias e optimismos?
RC - (riso) Puxa, acho que não!... São sistemas mais complexos do que isso, imagino. Tenho uma predilecção estética para o tratamento realista e uma educação artística que me direccionou para isso. Imagino que isso esteja conectado à forma como fui educado, vendo meus pais lerem certos livros, verem a vida de uma certa forma, filmes que vi na infância e adolescência, mas realmente, não teria como resumir isso tudo. No fim de contas, pouco importa, o facto é que sinto uma atracção muito forte por tragédias secas ou dramas onde uma certa “amargura” se impõe. Acho que conversa com um registo muito realista da vida, onde as desigualdades ocultam muita dor e dureza. E todas as histórias que mais me emocionaram e marcaram na vida tinham a ver com isso: roteiristas, directores e escritores com uma sensibilidade aguda para isso, uma coragem para expor aspectos das relações humanas que poucos têm.

BDBD - Em breves palavras, como defines a situação da Banda Desenhada no Brasil?
RC - Creio que esteja bem, passando por um momento de expansão em termos de quantidade de títulos e interesse tanto por editores quanto pelo público. O melhor da sua história, creio. Mas é difícil fazer essa avaliação sem levar em conta o tamanho do país e a proporção de leitores que realmente compram livros de BD no país. É baixo, se a média é de dois mil livros vendidos, para autores que publicam em editoras de pequeno e médio porte, num país com mais de vinte milhões de habitantes, e então ficamos deprimidos. Mas para quem anda acompanhando a produção intimamente nos últimos anos, é perceptível que há novos e ambiciosos livros circulando no país, e muito graças ao movimento independente de autores, que passaram a se auto-publicar e vender seus livros em eventos e feiras, outra frente que ganhou muita força nos últimos anos.

BDBD - A BD Portuguesa, mesmo minimamente, é conhecida no Brasil?
RC - Infelizmente não, e me pergunto porque não... Mas há mais projectos agora com o envolvimento de portugueses do que jamais houve. Paulo Monteiro foi aqui publicado. O roteirista André Morgado também apareceu nas livrarias e, na cena independente, já é possível participar em conversas onde Pedro Moura é citado, tal como Filipe Abranches ou Amanda Baesa. A Internet agrega um elemento meio  confuso aí, né? Todo o mundo conhece tudo e, mesmo que não seja uma entrada formal no mercado, os autores estão agora ali, a distância de um clique.

BDBD - Quando pensas voltar a Portugal... talvez pelo teu próximo álbum (qual é ele?...)?
RC - Ainda não sei dizer. Não tenho previsão. Tirei um ano para não fazer livros, mas este ano já está acabando. Ano que vem, volto com mais energia, provavelmente para fazer mais alguns volumes de “O Beijo do Adolescente”, série que venho fazendo há uns cinco anos. Há outras propostas em curso, mas nada de concreto.
Duas pranchas da série "O Beijo do Adolescente"

Obrigado, Rafael, por nos teres concedido esta entrevista.
Registamos, ainda, o nosso reconhecimento ao editor Rui Brito pelo apoio prestado.
LB

sexta-feira, 17 de novembro de 2017

ENTREVISTAS (26) - RAFAEL COUTINHO (1.ª parte)

Rafael Coutinho (Foto: www.universohq.com)
É um dos mais marcantes criadores da actual Banda Desenhada brasileira.
Nasceu a 1 de Janeiro de 1980, em São Paulo, onde reside e onde cursou Artes Plásticas na Universidade Estadual.
É filho de outro famoso desenhista brasileiro, Laerte Coutinho, que marcou digna presença no Salão Internacional de BD de Beja, em Maio de 2014.
Por sua vez, Rafael Coutinho, já esteve duas vezes em Portugal: em 2014 (Outubro/Novembro), no Festival da Amadora, onde apresentou o seu álbum “Cachalote”; e em 2017 (Maio), no Festival de Beja, onde apresentou o seu álbum “Mensur”. Ambas as edições são da Polvo, sob coordenação de Rui Brito.
Além de desenhista, Rafael Coutinho é também argumentista, editor, pintor, ilustrador e animador cultural. Muito afável no trato, está sempre atento ao mundo sócio-político que o envolve no dia-a-dia.
Já tem obra notável, da qual salientamos alguns títulos: “O Beijo do Adolescente” (já com três tomos), “Irmãos Grimm em Quadrinhos” (um álbum colectivo, onde participou com a sua versão de “Branca de Neve e os Sete Anões”), “Bang Bang” (álbum colectivo, onde desenhou “Sobre Daisy”), “Cachalote“ (com argumento de Daniel Galera), “Muchacha“ (onde colaborou com seu pai, Laerte Coutinho), “As Surpreendentes Aventuras do Barão de Munchausen” (segundo a obra homónima de Rudolf Erichraspe) e “Mensur”. Acrescente-se ainda que, numa certa linha humorística, parodiou em “Mónica e Cebolinha, Adultos”, personagens célebres de Maurício de Sousa.
Registe-se também que o seu espantoso álbum “Cachalote”, além de editado no Brasil (2010) e em Portugal (2014), também foi editado em França, em 2012.
Daí que, para não “perdermos” mais tempo, urgia esta entrevista que - por ser tão extensa - optámos por publicar em duas partes.

BDBD - Rafael, já vieste por duas vezes a Portugal, aos Festivais da Amadora e de Beja. Em breves palavras, que melhores recordações guardas por estas tuas presenças em terras lusas?
Rafael Coutinho (RC) – Foram duas viagens muito importantes, mas muito diferentes. Fiquei mais tempo na segunda, pude conhecer melhor regiões distintas do país, conheci mais autores, me sentia mais preparado para absorver e aprender sobre o país. A primeira vez, na Amadora, foi muito carregada de emoções relacionadas às nossas origens como colónia portuguesa, coisa que tinha ouvido muito de outros brasileiros.
É emocionante e um tanto paralisante conhecer Portugal pela primeira vez, muita coisa se explica para o brasileiro, e tudo impressiona demais.

BDBD - E da segunda vez?
RC - Já na segunda vez, não só fui muito bem recebido em Beja e pude mergulhar melhor na cultura lusófona, como contei com a ajuda de muitos amigos brasileiros e portugueses, que me acolheram e me orientaram em outras regiões. Pude viajar de combóio do sul ao norte, tive mais tempo mesmo para entender a BD local, entender o contexto, um pouco da história.

BDBD - O teu “Cachalote” também foi editado em França. Isto marca uma boa alegria para a tua carreira?
RC - Marcou na época, mas já faz tempo. Acho importante e emocionante ser publicado fora do país, mas tento focar no que tenho em frente a mim para fazer. Me divido em muitas actividades ao mesmo tempo, coordeno projectos, dou muitas aulas, viajo bastante pelo Brasil. Tirei um ano para não fazer nenhum álbum e poder me reciclar, respirar outros ares e confesso que tem sido bom. Acredito muito nessa frente educativa, somos um país muito grande que se distanciou dos seus leitores. A maior parte da população perdeu o interesse nos quadrinhos, e percebo que há interesse e desejo de se aproximarem mais. Este foi um ano de muita aprendizagem para mim, nessa frente.

BDBD - Sim, mas... e a edição em França?
RC - Esta minha resposta sugere que eu não ligue para o mercado francês, porque foco no território brasileiro, o que não é o caso. Acho que é sonho de grande parte dos autores brasileiros publicar em França, conquistar os corações dos atentos leitores europeus em geral. Há uma idealização muito distante da realidade em relação ao mercado franco-belga no Brasil; os autores ainda acham que o desenhista francês vive tranquilo, sendo bem pago e podendo dedicar-se exclusivamente às suas histórias. Parte disso também se deve a um certo eurocentrismo do meio (o mesmo acontece com o mercado americano), alimentado pela própria postura dos europeus frente ao que é produzido fora dali. Quando o “Cachalote” aí foi publicado, fui a França algumas vezes e pude entender que a realidade é bem diferente, pois ninguém está ficando rico fazendo BD (ou pelo menos, a grande maioria) e que há um inchaço preocupante que se mistura a condições extenuantes de trabalho, coisa que os brasileiros conhecem bem. Ou seja, o livro foi bem, mas a tiragem era baixa, e somos, eu e o Daniel, ainda pouco conhecidos no país. Acabei percebendo o óbvio: o que importa mesmo, são os livros, e tratar de mergulhar fundo nas obras, nos projectos. Mas sim, foi muito bom, tanto para a minha carreira quanto para o meu imaturo ego de artista.


Rafael e Laerte Coutinho, dois dos expoentes
da BD brasileira actual
BDBD - Teu pai, Laerte Coutinho, teve influência para te interessares pelas artes, nomeadamente a Banda Desenhada, ou tal inclinação surgiu por ti próprio?
RC - Ele, claramente, foi uma influência. Ter um pai artista e vê-lo trabalhar diariamente nisso, teve um impacto brutal em mim, assim como a Medicina na vida de minha mãe. Foi muito importante para que eu me preparasse para as dificuldades dessa escolha, e pudesse buscar outras frentes, como animação, pintura, artes visuais, cinema. Mas ele ainda me influencia muito, somos muito amigos e próximos, fazemos projectos juntos, damos aulas. Ele me inspira muito, é uma mulher corajosa, engraçada, muito divertida.

BDBD - E preferes ser um autor total ou trabalhar em parceria com um argumentista como, por exemplo, o Daniel Galera em “Cachalote“?
RC - Ambos os processos me atraem muito. Não saberia separar. Costumo ter muitas coisas ao mesmo tempo, e percebi que buscava intuitivamente por um equilíbrio entre ambas... Projectos colectivos e/ou a solo, um alimentando o outro.
(continua)

terça-feira, 27 de junho de 2017

NOVIDADES EDITORIAIS (122)

LUGAR MALDITO - Edição Polvo. Autores: argumento de André Oliveira e grafismo de João Sequeira.
É uma obra de força por uma jovem parceria nacional, onde se aborda o clima do terror e do insólito, aspectos bem raros na BD portuguesa.
Vigoroso e "assombrador", este álbum foi lançado no 13.º Festival de Beja.
“Lugar Maldito” arrasta-nos pelas terras do Alto Douro, com as angústias do jovem casal Samuel e Maria, mais a filhota Lúcia... Fogem da polícia, mas no casebre inóspito onde se refugiam, sofrem as assustadoras circunstâncias de inexplicáveis fenómenos que se adivinham, provocando um desfecho trágico.


VRÃJITORUL DIN OZ - Edição Aramis. Autor: Serban Andreescu.
Na bibliografia do romancista norte-americano Lyman Frank Baum (1851-1919), salienta-se o famoso romance “O Feiticeiro de Oz” (é um clássico eterno), que mais se notabilizou com a versão cinematográfica realizada em 1939 por Victor Fleming e com Judy Garland no principal papel.
Em 1925, já havia sido realizado outro filme, com Dorothy Dwan...
Pois “O Feiticeiro de Oz” (Vrãjtorul Din Oz) foi agora (2017) adaptado à Banda Desenhada pelo romeno Serban Andreescu.
Com um traço leve e divertido, este álbum, se alguma vez for editado em português, é obra para agradar a leitores de todas as idades.


MENSUR - Edição Polvo. Autor: o brasileiro Rafael Coutinho.
Explica-se: mensur, é uma luta de espadas surgida no século XV por estudantes universitários alemães. Esta prática terá continuado, de um modo quase secreto, até
aos dias de hoje.
E é por este enredo, no Brasil de hoje, que Gringo andarilha, meio perdido, em busca de paz e desejoso de sossegar as angústias que ferozmente inquietam a sua memória, o seu passado pouco limpo...
Gringo é, naturalmente, um jogador do mensur e, pelo seu amargo pesadelo acordado e vivo, terá o final que aguarda...
Rafael Coutinho brilha maravilhosamente nesta obra com um vertiginoso traço a preto-e-branco. Parabéns!
LB