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sábado, 18 de julho de 2015

A VIDA INTERIOR DAS REDAÇÕES DOS JORNAIS INFANTO-JUVENIS na memória de José Ruy (9)


9) A ARTE GRÁFICA E AS ILUSTRAÇÕES

Deixei claro no artigo anterior as alterações profundas realizadas na redação d’O Papagaio, e também no aspeto do jornal que passou a ser um suplemento da revista «Flama» do mesmo grupo editorial, «Renascença Gráfica». 

Embora o processo que apresentei no artigo anterior, de usar papel «Fabriano» e lápis litográfico para fazer a cor sobre os desenhos, de modo que resultasse com o aspeto de meias-tintas, mesmo em zincogravura, pensei arranjar um outro mais prático e que pudesse também ser utilizado facilmente pelos colegas. Pedi para que na União Gráfica fizessem uma zincogravura de uma trama, como se pode ver na imagem, e tirassem provas de prelo em papel acetinado mas fino. As provas tinham o formato das tiras dos nossos originais que executávamos em tamanho grande. O ponto desta trama reduziria conjuntamente com o desenho dando então uma tonalidade cerca de 30% da intensidade da cor forte.
Sobre os originais a traço depois de desenhados a tinta-da-china sobrepunha essas tiras, e à transparência, tapava com guacho branco as zonas que queria ficassem brancas, sem trama, e com tinta-da-china pintava o que desejava ficasse em cor forte. Veja-se o exemplo em baixo, os desenhos do traço e da cor, prontos a serem reproduzidos em zincogravura.

Quando os desenhos eram reduzidos para o tamanho em que iam ser impressos na revista, a trama apertava, apresentando à vista o aspeto de meio-tom como se pode observar em baixo, à esquerda.
Em cima à esquerda a ilustração no tamanho em que foi impressa n’O Papagaio.
À direita uma ilustração do Vítor Silva mostrando como usou estas tiras de papel impresso com a trama. A imagem está no formato do original, antes da redução.
Exemplo das Histórias em Quadrinhos do Vítor Silva com a aplicação deste processo. À direita uma das vinhetas antes da redução, para se poder ver o ponto a olho nu, sem auxílio de lupa. Desta forma as reproduções mantinham-se em zincogravura, não obtendo esbatidos mas conseguindo uma meia-tinta uniforme e sem ser preciso usar «fotogravuras» que eram mais caras.
Mas foi apenas o Vítor Silva quem também utilizou este meu processo, pois sendo igualmente um profissional gráfico reconheceu a vantagem da inovação. A arte gráfica tem em tudo o que fazemos para reproduzir, uma notória importância no efeito que pretendemos conseguir no final do trabalho, ao ser impresso.
Esta nova redação d’O Papagaio/Flama passou a ter outra vida, com mais movimento, com a presença de outros colaboradores da revista mãe, e entre eles destaco o Neves de Sousa, um jovem a formar-se em jornalismo, muito magro (sublinho isto porque depois deitou muito corpo) e que estava sempre com pressa, a correr de um lado para o outro. Simpaticamente o Carlos Cascais alcunhou-o de «Ventoinha». Ele sabia mas não se importava e até achava graça. Criei então uma personagem com esse nome, que entrou em algumas histórias publicadas n’O Papagaio.
Esta personagem «Ventoinha» representava um jovem jornalista que sofria toda a espécie de azares. Por exemplo, quando ia ver o resultado das fotografias tiradas, verificava que se tinha esquecido de meter o rolo na máquina, e coisas assim.
Nessa altura publiquei uma série de pequenas histórias em que o cenário escolhido foi o território português.
Continuávamos, os colaboradores, sem ter qualquer imposição de temas nem alteração ao que apresentávamos. O clima era saudável e gostavam do nosso trabalho pois íamos evoluindo. O Carlos Cascais, poeta e escritor, colaborava com poemas e contos que ilustrávamos.
A última história dessa série que publiquei foi um pouco mais longa do que as outras, e viria a ser mesmo a derradeira neste suplemento.
Foi com o semblante fechado que o Carlos Cascais, num dia triste, nos transmitiu uma notícia que recebera da administração: tinham decidido acabar com o suplemento infantil. Achavam que não se justificava mantê-lo pois não tinham qualquer indício de interesse vindo do público.
Era natural, uma vez que não havia uma secção de correio dos leitores dando-lhes a possibilidade de colocarem questões, justificando respostas e estabelecendo o diálogo.
Estávamos no início da década de 50 do século XX quando «O Papagaio» deixou de «palrar». Dizia-nos o Frei Diogo depois dessa decisão que não tinham recebido uma única carta a perguntar o motivo de terem acabado com o suplemento, nem a demonstrar terem sentido a sua falta. O Vítor Silva ainda se manteve algum tempo a ilustrar contos e novelas para a "Flama".

(Continua)

No próximo artigo: A REDAÇÃO DE "O CAVALEIRO ANDANTE"

quinta-feira, 25 de junho de 2015

A VIDA INTERIOR DAS REDAÇÕES DOS JORNAIS INFANTO-JUVENIS na memória de José Ruy (8)


8) A NOVA REDAÇÃO E A TRANSFORMAÇÃO DO JORNAL

Tive oportunidade, no artigo anterior, de descrever as peripécias e modificações na redação d’O Papagaio, e a importância da arte gráfica no resultado do trabalho de desenho iniciado no estirador.

Em 1949 foi-nos anunciado, aos colaboradores do jornal "O Papagaio", de que ia haver uma fusão de publicações no Grupo Editorial «Renascença Gráfica» e que este jornal seria integrado como suplemento na revista "Flama", que existia já.
A redação passou a funcionar na instalação da União Gráfica, Rua de Santa Marta, n.º 48, primeiro andar, em Lisboa.
"O Papagaio" perdeu a sua independência e passou a ser um destacável da revista e impresso só a preto e uma cor.
Imagens destacadas de recentes anúncios de venda na Internet, de exemplares (já raros).
A revista "Flama" ficou com 24 páginas, sendo 12 impressas pelo processo «Rotogravura» que melhor se aproxima do aspeto da fotografia, com uma sobrecarga a vermelho, em tipografia, na capa e contracapa. O resto do interior era em tipografia, com algumas páginas a duas cores, onde foi incluído "O Papagaio" que passou a ser então uma «Secção Infantil» ou um «Suplemento».
Primeiro começou por ocupar três páginas da revista e mais tarde passou a duas , uma folha para dobrar ao meio fazendo quatro páginas mais pequenas, mas a pesar de tudo com melhor arrumação para o conteúdo. Havia contos nas páginas fora do suplemento que continuaram a ser ilustrados por nós.
O diretor da revista era o jovem desportista Mário Simas, e o chefe de redação o Frei Diogo, pessoa espetacular, conhecedor do que fazia e de um valor humano invulgar.
O Carlos Cascais manteve-se como responsável pelo suplemento e também por outras secções. Desta vez tínhamos um diretor presente e a relação entre nós, os colaboradores e os dirigentes era ótima.
Tínhamos menos espaço disponível na revista, por isso o aproveitamento passou a ser mais rigoroso e equilibrado. As Histórias em Quadrinhos ficaram praticamente entregues ao Vitor Silva e a mim.
Foi nesta fase que iniciei uma série a que chamei de «Lendas Japonesas», baseada em traduções de Wenceslau de Moraes, dando largas à minha apetência pelas culturas orientais.
Como o processo gráfico se tinha alterado tivemos de nos adaptar, o que me levou a criar soluções técnicas para tirar um melhor partido do efeito, mas tendo em conta não encarecer o orçamento oficinal da revista.
A cor que se sobrepunha aos originais a traço era agora desenhada separadamente por nós e reproduzida em zincogravura para o processo tipográfico.
Eis o primeiro modelo, com a página no formato da revista e, ao lado, depois da transformação em 4 páginas, metade do tamanho.  A cor sobre o preto variava entre o vermelho, o azul, o verde ou um tom-de-mel.
A ilustração de Natal é do meu amigo Vítor Silva.
Nas cores não tínhamos possibilidade de fazer meias-tintas, pois a zincogravura era só a traço, preto e branco; para o conseguirmos precisaríamos de utilizar a «fotogravura» que era bem mais cara e que não estava previsto no orçamento da revista.
Lembrei-me então de experimentar fazer o desenho da cor sobre papel Fabriano e empregar lápis litográfico (bem negro) tirando partido do grão do papel para criar esbatidos por meio do granitado.
Mostro aqui uma das vinhetas das «Lendas», que eram desenhadas ao dobro para beneficiarem da redução. A cor era feita sobre o papel «Fabriano» sobreposto ao original e trabalhada à transparência com tinta-da-china e lápis litográfico. Depois de feita a zincogravura a impressão final ficava com o aspeto da terceira imagem, dando realmente a ilusão de esbatidos. A cor era dada na máquina na altura da impressão.
Entretanto o Mesquita dos Santos dono da «UPI», União Portuguesa de Imprensa, frequentador das tertúlias n’O Mosquito, abordou-me por causa destas «Lendas Japonesas» que estava a publicar na "Flama". Sabendo que eram feitas zincogravuras para a impressão, e que estas depois da publicação ficavam postas de parte, pois a revista não iria repetir as histórias, avançou com uma proposta singular.
Eu passaria a fazer os desenhos para a agência que me pagava o mesmo que a "Flama", e a «UPI» encarregava-se de fazer as gravuras e cedê-las à revista por um preço simbólico, um quarto do seu custo, mais o preço dos desenhos. Depois da impressão as gravuras seriam devolvidas à agência.
A partir dessas gravuras a «UPI» faria «Flans» ou moldes num material especial, uma fibra muito leve parecida com o cartão. Derretendo chumbo sobre esse molde conseguia-se o equivalente à gravura original. Essa operação era chamada de «estereotipia».
Os «Flans», devido à sua leveza, podiam ser enviados pelo correio com portes acessíveis, para jornais de África, por exemplo, destinados a novas publicações.
No destino, depois de feita a estereotipia, podiam inserir as ilustrações nas revistas e livros. Nos anos 40 a tipografia era o processo mais usado nessas paragens. Eu receberia 50% do que cada jornal pagasse. Era uma novidade, pois pela primeira vez este tipo de operação se fazia em Portugal relativamente a Histórias em Quadrinhos nacionais.
Quando o Mesquita dos Santos apresentou a proposta à "Flama" a administração mostrou-se desconfiada. Onde estaria o lucro da agência, se lhe cediam as gravuras por um preço muito abaixo do custo? Embora o Mesquita lhes explicasse o plano, custou a convencerem-se, mas venceu o facto de pouparem dinheiro. Por isso a partir de certa altura no cabeçalho das «Lendas» surgiu o nome da «UPI».
O Mesquita dos Santos enviou as propostas para jornais de África…

(Continua)



No próximo artigo: A ARTE GRÁFICA E AS ILUSTRAÇÕES

segunda-feira, 18 de maio de 2015

A VIDA INTERIOR DAS REDAÇÕES DOS JORNAIS INFANTO-JUVENIS na memória de José Ruy (7)


7) ALTERAÇÕES NA REDAÇÃO

No artigo anterior dei nota do ambiente na redação d’O Papagaio, das regras e da liberdade que tínhamos quanto aos temas a abordar. Hoje considero termos também influído nas modificações que se deram.
Em dada altura o Roussado Pinto fez a sua aparição na redação d’O Papagaio, como colaborador. Começou a escrever contos que acompanhava com desenhos do Vítor Péon, feitos para um projeto falhado de outro jornal depois que o «Pluto» acabou, e trazendo material de autores ingleses e espanhóis. Foi acentuando a sua influência considerando-se um ajudante do Carlos Cascais.
O aspeto do jornal modificou-se então.
A nova colaboração trazida para o jornal pelo Roussado Pinto.
Eram de origem inglesa, espanhola e portuguesa, do Vítor Péon.
O volume da colaboração prestada pelo Roussado Pinto era notório. Em algumas histórias assinava mesmo o seu nome mas usava pseudónimos para não dar o aspeto de monopólio. Um deles era «Luís António», como se pode ver na página com a história «Uma Boa Ratoeira».

Na tabela de preços entre as páginas com histórias ilustradas e as ilustrações soltas havia um desequilíbrio considerável.
As páginas em Quadrinhos eram pagas a 20 escudos e as ilustrações do interior a 7 escudos e cinquenta centavos. Como uma página de narrativa gráfica continha vários desenhos, seis, oito, se fosse paga como as ilustrações soltas valeria 45 escudos.
Então começámos a reduzir o número de vinhetas fazendo quatro por página, como compensação.
Entretanto no início de 1948 o Roussado Pinto decidiu fazer o argumento de uma História em Quadrinhos para eu ilustrar. Fiquei satisfeito, mesmo tendo que dividir o valor a receber, pois ia trabalhar numa história melhor concebida. Foi o primeiro argumentista que tive, pois os enredos eram e têm sido sempre de minha autoria, com poucas exceções. Chamou-lhe «Os Cavaleiros do Vale Negro».
Mas o Roussado Pinto estipulou que faríamos essa história com seis vinhetas, para conseguirmos uma sequência mais dinâmica em cada episódio. Tinha toda a razão. Dividimos os 20 escudos, 15 para o desenho e 5 para o texto. A partilha entre o argumentista e o desenhador foi sempre nesta proporção, salvo em casos especiais e sempre de comum acordo.
Mas passámos a ter muito pouco avanço, ele fornecia-me o argumento duas semanas antes da publicação, o que me obrigava a um ritmo acelerado, para não falhar a entrega.
Nessa altura já trabalhava n’O Mosquito, continuava a estudar na Escola António Arroio e esta colaboração tinha de ser feita em serões.
A história ia-se desenrolando com o tempero que o autor do texto sempre aplicou em doses certas nos seus argumentos, contos e novelas.
Mas a sua relação com o Carlos Cascais começou a não ser pacífica. O Roussado Pinto punha e dispunha sem o consultar, alterava histórias que estavam programadas e chegou a contactar a administração com uma proposta de que não cheguei a saber o conteúdo, mas que desagradou ao Carlos Cascais, por ter sido nas suas costas. Brigaram e o Cascais impôs a sua posição de chefe de redação.
Intuí, por frases soltas, que teria feito uma tentativa no sentido de substituir o Carlos Cascais.
O Roussado Pinto voltou as costas e afastou-se. Deixou «Os Cavaleiros do Vale Negro» órfãos de argumentista, e voltando-se para mim, disse que continuasse a história, pois tinha boas condições para isso.
Sem saber o que ele imaginara para o seguimento da aventura, pois as sequências eram improvisadas à última da hora, fui dando rumo aos acontecimentos. Mas caí na tentação errada de voltar às quatro vinhetas por página.
O Vítor Silva criava secções com curiosidades, bem desenhadas, e realmente a estrutura do jornal estava muito diferente do que há quatro anos atrás.
A administração d’O Papagaio certo dia reclamou na «Litografia Salles» que usando este jornal 4 cores, o seu aspeto gráfico não se comparava ao d’O Mosquito, só com 3 cores. O Salles, dono da gráfica e que conhecia o meu trabalho, contactou o Baptista Moreira, o transportador litógrafo de O Mosquito, para me convidar a ir litografar um número d’O Papagaio, para provar à administração do jornal que podiam fazer melhor. Uma parte do problema estava no orçamento muito à pele, que não dava para a oficina poder convidar um oficial profissional para esse trabalho, que era executado por aprendizes. Mas como a comparação tinha sido com O Mosquito, fez questão de ser o mesmo autor das cores a fazer esse trabalho.
Não sei se por coincidência, se o Carlos Cascais deu um jeito nisso, o número marcado para a experiência tinha na capa e nas centrais desenhos meus a ilustrar um conto também de minha autoria.
Pedi autorização ao Tiotónio, que me disse não ter o meu exclusivo e que estivesse à vontade. Na «Litografia Salles» não usavam aerógrafo e levei o d’O Mosquito emprestado.
Foi neste número 710 de O Papagaio que as cores foram litografadas por mim. Claro que a «Litografia Salles» depois apresentou uma proposta ao jornal, que para manter o aspeto gráfico obtido teriam de cobrar mais, e esse pormenor determinou que ficasse tudo como antes.
Mas no ano seguinte…
(Continua)

No próximo artigo: A NOVA REDAÇÃO E A TRANSFORMAÇÃO DO JORNAL 

quarta-feira, 22 de abril de 2015

A VIDA INTERIOR DAS REDAÇÕES DOS JORNAIS INFANTO-JUVENIS na memória de José Ruy (6)


6) NOVOS COLABORADORES

Descrevi no artigo anterior a minha chegada à redação de "O Papagaio" e as diferenças em relação à d’O Mosquito. As experiências foram diferentes, mas aproveitei-as para alicerçar os meus conhecimentos tanto na arte gráfica como na técnica de trabalhar as ilustrações para serem reproduzidas.
Depois de estar mais ambientado na redação d’O Papagaio levei comigo o meu colega da Escola António Arroio, o Vítor Silva, que sendo o mais novo era de todos nós o que melhor desenhava já. Ficou também colaborador, o que podemos chamar de residente.
O Carlos Cascais era uma pessoa simpática e conhecedora do assunto, e em vez de me dispensar das colaborações, até estar mais maduro como seria lógico, pelo contrário continuou a apoiar-me. Encetámos uma boa amizade e o ambiente na redação tornou-se até familiar.
Alguns estudos à pena que fiz do Carlos Cascais (em cima, à esquerda), destinados a ilustrar um conto,
e do seu filho (em cima à direita) que usei também como modelo para a história "Homens do Mar" (em baixo),
com argumento de outra colega da escola, Margarida Ângela, que também levei para a equipa de "O Papagaio".
A Margarida viria a ser também a autora do argumento da primeira história do Garcês
publicada n' O Mosquito e intitulada "O Inferno Verde"

Pois o Artur Correia, que aparecera pelo seu pé, era vizinho do Vítor Silva e do Garcês, e só muito mais tarde, por via deste último colega nos aproximámos. Desenhava um género cómico ou humorístico em que viria a afirmar-se.
Página de uma história com desenhos do Vítor Silva...
...e também desenhos do Artur Correia que enviara para a colaboração dos leitores, chegando depois a fazer algumas histórias ilustradas com argumento de um amigo seu que assinava "Carlos Seca" (?) 

Esses encontros na redação prolongavam-se a trocar impressões e conversas.
Por vezes aparecíamos à noite, depois do jantar, quando o nosso estudo e o trabalho o permitiam. No entanto nada comparável com a tertúlia da redação de "O Mosquito".
Confraternizávamos já com os operadores e locutores do Rádio Renascença, cujos estúdios ficavam ao lado da sala da redação, separados por um corredor. Pelas vigias circulares nas portas à prova de som, espreitávamos curiosos o aspeto do seu interior.  
A partir de uma certa hora da noite punham música gravada em bobinas de fita com longa duração, e os locutores mais livres nessa altura costumavam vir larachar connosco um bocado vendo os desenhos e contar histórias. Depois deixavam-nos ir ao interior dos estúdios enquanto transmitiam os pacotes de música cujos títulos iam anunciando de espaço a espaço.
Eu e o Vitor Silva pedíamos-lhes para colocarem no ar músicas do nosso agrado, como o «Bolero» de Ravel, «Scheherazade» e «O Voo do Moscardo» de Rimski Korsakov, «A Dança Ritual do Fogo» de Manuel de Falla e outras que escutávamos enlevados pelos altifalantes instalados nas outras salas. Era um fascínio; para nós essa componente sonora fazia parte integrante da redação.
Um dia o José Garcês pediu-me para o apresentar no jornal, o que achei dispensável, pois era lógico ele apresentar-se sozinho sem precisar de padrinho. Mas fez questão e lá o «levei pela mão». Chegou a fazer umas três aventuras.
"Tonito Cowboy", uma das três histórias que José Garcês publicou n' O Papagaio
O José Garcês atingira já nessa altura uma craveira cimeira, pois era também o mais velho do grupo. Começou a publicar os seus originais depois de nós, por conselho do Mestre João Rodrigues Alves que achava ser preferível ele esperar algum tempo mais até alcançar um nível mais maduro. E tinha razão, a idade influi muito no modo de observar as coisas. Aos dezoito anos temos uma melhor capacidade de visão e na maneira de conseguir resultados do que aos catorze. Estávamos todos a começar e "O Papagaio" proporcionou-nos essa experiência e a maturação indispensável através da prática e observação do resultado entre o que desenhávamos e a impressão no papel.
Toda a colaboração tinha de ser realizada também com um avanço em relação à data da publicação, sem ser necessário entregar a história completa. Também não nos marcavam limites no número de páginas nem impunham temas. Havia uma liberdade total.
(Continua)

No próximo artigo: ALTERAÇÕES NA REDAÇÃO 

terça-feira, 3 de março de 2015

A VIDA INTERIOR DAS REDAÇÕES DOS JORNAIS INFANTO-JUVENIS na memória de José Ruy (5)


5) COMO ERA A REDAÇÃO DE "O PAPAGAIO"


Contei no artigo anterior como se criou e funcionava uma tertúlia na redação de "O Mosquito", aos fins de tarde. Terminei assim a descrição do que assisti nos anos em que trabalhei nesse jornal, que para mim foram anos de ouro. Sob o aspeto cultural, claro.
Quando aos 14 anos acompanhado pelo meu pai me desloquei ao jornal "O Papagaio" a mostrar os meus desenhos, fui recebido pela chefe de redação Helena Arroyo que gostou deles e pediu uma história para o número de Natal que estava próximo. Sugeri fazer o desenho de um «Presépio» que ela logo destinou para as páginas centrais. Corria o ano de 1944.

Eram desenhos incipientes, os que fazia, já nessa altura tinha a nítida noção disso, mas para melhorar o traço era importante ver o trabalho publicado, só assim podendo observar as alterações surgidas depois de ser reproduzido e de ter passado pela «calandra mecânica». O processo gráfico era muito diferente do que se nos apresenta hoje, com o digital.
Não havia ainda a fotocópia para nos mostrar o efeito da redução. Utilizava uma lente de uns óculos antigos de meu pai que era míope. Posta em posição entre o original e o meu campo de visão conseguia ver a imagem mais pequena. Ajudava mas era insuficiente, pois além da redução, havia no acto da impressão o engrossar do traço, o que obrigava a evitar fazer muitos pormenores que depois se transformariam em pequenos borrões.
Isto passou-se três anos antes de ingressar na equipa de "O Mosquito".
Fiquei colaborador efetivo e passei a frequentar uma ou duas vezes por semana a redação, que estava instalada numa das salas da Rádio Renascença, na Rua Capelo, perto de onde se encontrava a Biblioteca Nacional. Era sempre pelo fim da tarde, altura em que a Helena Arroyo exercia ali o seu trabalho, pois tinha outras ocupações, creio que de professora.
A primeira novela que escrevi para "O Papagaio", com ilustração, e que durou vários números. A capa junta anunciava outra novela de minha autoria, «O Assalto ao Correio».

A sala da redação era ampla, com grandes janelas que deitavam para a Rua Ivens. Cheirava a alcatifas e à madeira dos móveis, nada parecido com o odor adocicado das tintas de impressão da redação de "O Mosquito" que tinha em fundo o som cadenciado da máquina a imprimir, das oito horas até à meia-noite.
O Méco, pai do grande artista Zé Manel, também colaborava com os seus deliciosos desenhos. Pertencia à equipa de "O Século Ilustrado" dirigida pelo Mestre João Rodrigues Alves com quem eu tinha aulas na Escola António Arroio.
Era quase sempre pelo telefone que lhe indicavam os pormenores das ilustrações que precisavam. Depois, quando se dirigia para «O Século» passava de raspão pel’O Papagaio para entregar o material. Era raro encontrarmo-nos na redação, só por coincidência, mas com frequência eu visitava a sala de desenho do "Século" para falar com o Mestre Alves e encetei aí uma boa amizade com o Méco, o Domingos Saraiva e o Baltazar.
Alguns colaboradores também enviavam para "O Papagaio" o material pelo correio, por morarem fora de Lisboa.
Neste jornal cada um combinava fazer a história que lhe apetecia e gostava mais.
No jornal mostraram como se fazia "O Papagaio", só com fotos da oficina tipográfica faltando as da litografia, descrevendo apenas essa parte, como se mostra no texto ampliado para se poder ler melhor.

As capas e contracapas em conjunto com as páginas centrais eram impressas na «Litografia Salles» mas o interior era impresso pelo processo tipográfico nas oficinas da União Gráfica que pertencia ao mesmo grupo editorial, incluindo a Rádio Renascença.
O interior do jornal era preenchido com contos, novelas e pequenas secções sempre ilustradas.
Criaram entretanto um «Concurso dos Cognomes dos Reis de Portugal» e confiaram-me a tarefa de fazer as ilustrações.

Este concurso durou muitos meses. Fui-me «desengomando» conforme as possibilidades e os fracos conhecimentos que tinha.
Pouco tempo depois a Helena Arroyo saiu e o Carlos Cascais, que tinha dirigido a extinta revista «Faísca», foi preencher o seu lugar.
Durante todo o tempo da minha colaboração n’O Papagaio nunca vi o diretor que também não interferia na sua orientação. Era apenas o responsável perante a «censura» que exigia como garante, uma pessoa reconhecidamente idónea e diplomada. Quem punha e dispunha era o chefe de redação.
Ao sabor da nossa imaginação e seguindo as tendências da época, fazíamos histórias de piratas e corsários, polícias e ladrões e aventuras no Oeste americano, com lutas contra os índios, sem que alguma vez nos interpelassem nem «aconselhassem» a escolher outro tema. O ambiente na redação era agradável e simpático, numa constante troca de opiniões e sugestões.

(Continua)

No próximo artigo: NOVOS COLABORADORES