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sexta-feira, 7 de março de 2014

LA SONNAMBULA, Liceu, Barcelona, Fevereiro de 2014 / February 2014


(review in english below)
(www.facebook.com/fanaticos.opera)

 Mais uma vez assisti a La Sonnambula de V. Bellini, na encenação de Marco Arturo Marelli, desinteressante e já muito vista, passada num hotel / estância de inverno. O enredo pode ler-se aqui.



 Embora a orquestra tenha tido um bom desempenho, o maestro Daniel Oren não foi empolgante, impôs um tempo frequentemente "empastelado" e, com frequência, não deu a primazia aos cantores. O coro esteve em grande forma.


 A primeira nota de grande louvor vai para a Amina do soprano italiano Patrizia Ciofi. A cantora tem uma presença em palco impecável e com enorme sentido dramático, para além de uma boa figura, apesar de já não ser a jovem noiva que retrata. A voz tem uma invulgar musicalidade e, embora no registo grave ser menos sólida, no médio foi excelente e brilhou nos agudos, apesar de serem alcançados aparentemente em esforço, mas sempre lá. Acima de tudo, o que mais me impressionou foi a entrega total da cantora à personagem e a verdade com que a interpretou. Fantástica!




 Juan Diego Florez já adquiriu o estatuto de estrela planetária no firmamento operático há muito e, aqui em Barcelona, é particularmente apreciado, com toda a justiça, diria eu. São precisas décadas para surgir um cantor com as qualidades vocais de Florez para a interpretação belcantista. Tem uma musicalidade imaculada, o canto é de uma elegância única e o resultado final é fabuloso. Já tive o privilégio de o ver ao vivo várias vezes (como está registado neste blogue), até comoElvino. Nunca cancelou uma récita das que assisti e também nunca me desiludiu nas interpretações que presenciei. Continua a ser, para mim, um dos muito poucos cantores no activo que proporcionam interpretações que ilustram que a ópera é a mais fascinante expressão artística e que, nos dias de hoje, se conseguem viver momentos de prazer tão únicos como os melhores de que há registo discográfico. Apesar de ser Elvino, personagem idiota que encarna nesta ópera, encanta-nos em cada uma das suas intervenções.




 A Lisa do soprano italiano Eleanora Buratto foi óptima. A cantora tem uma voz cheia, bonita e projectou-a com mestria. A interpretação cénica foi outra mais valia que não deixou ninguém indiferente. Estou certo que a ouviremos cada vez mais vezes em papéis solistas, dada a qualidade que revelou.


 O baixo barítono italiano Nicola Ulivieri foi o elo menos forte como conde Rodolfo. A voz é agradável e esteve sempre bem nas diversas intervenções, mas vi vários outros condes mais expressivos.


 Nos papéis secundários a mezzo Gemma Coma-Alabert, apesar de ter tido um ataque de tosse em pleno segundo acto, esteve bem como Teresa. Também cumpriram sem destoar Àlex Sanmartí como Alessio e Jordi Casanova como notário.




 Mas a noite foi de Patrizia Ciofi, de Juan Diego Florez e de todos os que assistiram a esta Sonnambula inesquecível no Liceu de Barcelona!






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La Sonnambula, Liceu, Barcelona, February 2014

I had the chance to see again La Sonnambula by V. Bellini, in Marco Arturo Marelli’s unattractive staging, in a winter hotel / resort. The plot can be read here.

Although the orchestra performed well, conductor Daniel Oren was not exciting, often imposing a "jammed" time and often not giving primacy to singers.
The choir was excellent.

The first note of high praise goes Italian soprano Patrizia Ciofi’s Amina. The singer has a immaculate stage performance and a huge dramatic power, in addition to a nice figure, although no longer the young bride being portrayed. The voice has an unusual musicality and although in the lower register she was less solid, the medium register was excellent and she was fantastic in the top notes, although apparently achieved in effort, but always in tune. Above all , what impressed me most was that Ciofi gave everything she has to her interpretation of the character. Fabulous!


Juan Diego Florez has long acquired the status of a planetary star in the operatic world, and here in Barcelona he
​​is particularly appreciated. I totally agree. We have to wait decades for a singer with the vocal belcanto qualities do Florez to appear.Has has an immaculate musicality, his singing has a unique elegance and the final result is fabulous. I've had the privilege of seeing him live several times (as is recorded in this blog), including asElvino. He never cancelled a performance that I attended and he also never disappointed me in the performances that I witnessed. For me he remains one of the very few singers still singing which provide performances that illustrate that opera is the most fascinating artistic expression and that in present days, we can live moments of pleasure as unique as the best that have been recorded so far. Despite being Elvino, an idiot character of this opera, he delighted us in each of his interventions.

Italian soprano Eleanora Buratto was great Lisa.She has a powerful, beautiful voice and she projected it masterfully. The artistic performance was another asset that left no one indifferent. I am sure we will hear her more often in soloist roles, given the qualities revealed.

Italian bass baritone Nicola Ulivieri was the weaker link as Count Rodolfo. The voice is pleasant and he was always well, but I have seen saw several other more exciting counts.

In secondary roles, mezzo soprano Gemma Coma-Alabert, despite having a coughing fit in the middle of the second act, was fine as Teresa. Also very well were Àlex Sanmartí as Alessio and Jordi Casanova as the notary.

But the night was of Patrizia Ciofi, Juan Diego Florez, and all who attended this unforgettable Sonnambula at the Liceu in Barcelona!

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sábado, 17 de abril de 2010

La SONNAMBULA – Wiener Staatsoper, Viena, Abril de 2010

De Vicenzo Bellini, um dos meus compositores favoritos (confesso-me um grande apreciador do belcanto), La sonnambula é a sua ópera que já tive oportunidade de ver mais vezes, muitas delas fruto do acaso, mas quase sempre com excelentes intérpretes. E, novamente, foi isso que aconteceu em Viena.

As minhas expectativas estavam no nível mais elevado, pois teria a oportunidade de ver juntos dois dos meus cantores favoritos, Natalie Dessay e Juan Diego Flórez. E, seguramente, não era o único pois qualquer destes artistas mas, sobretudo, Florez, faz esgotar todas as récitas em que actua, tal a expectativa que cria, sem nunca, até à data e que seja do meu conhecimento, defraudar.

A encenação de Marco Arturo Marelli é moderna, não particularmente excitante, mas decente e passada, toda ela, num cenário de festa de casamento (num hotel de montanha). Enfim, afinal esse é o enredo principal…

O maestro foi, novamente, Marco Armiliato que voltou a não estar bem, criando algumas dificuldades aos cantores, mas menores que no Rigoletto que vira na véspera. Dito isto, passo não tanto a uma crítica, mas mais a um exercício laudatório.
Natalie Dessay foi, como sempre, uma artista estupenda. No difícil papel de Amina, esteve cenicamente irrepreensível e vocalmente ao nível que esperava. A figura, pequena, magra e frágil, é inversamente proporcional à voz, pujante e segura. Não sendo já uma menina, faz um papel convincente, enche facilmente uma sala grande como esta, canta e representa com enorme credibilidade e emoção, e comove qualquer apreciador do estilo. Confesso que, por vezes, me pareceu ter ligeiras dificuldades vocais mas, se assim foi, foram superadas com maestria técnica e, no compto final, deu-nos uma interpretação magnífica da personagem.


Elvino foi interpretado por Juan Diego Flórez, um dos artistas que persigo sempre que posso e que nunca me desiludiu, como referi. Mais uma vez foi sublime! Já vai sendo um lugar comum, mas acho que esta foi a sua melhor interpretação que presenciei. A técnica vocal é prodigiosa, o talento extraordinário, a musicalidade única, o timbre belíssimo, os agudos fáceis e luminosos, o fraseado perfeito e o trinar na estratosfera surge com uma naturalidade que o faz parecer trivial. É, em minha opinião, a perfeição no belcanto, para a qual não há rival na actualidade, que provoca uma emoção e entusiasmo no público como raramente se vê. Conto-me entre os admiradores incondicionais de Juan Diego Flórez e a minha admiração não sofre qualquer beliscadura pelo facto de o artista não ter uma voz enorme (mas tem uma técnica perfeita) nem ser, do ponto de vista teatral, um óptimo actor, apesar de manter uma figura excelente para os papeis que representa.

Se as duas personagens principais foram excepcionais, o mesmo direi dos restantes artistas. Michele Pertusi foi um conde Rodolfo seguro, convincente e de voz potente e muito agradável. A jovem Theodora Gheorghiu foi uma Lisa brilhante, cénica e vocalmente, mostrando uma frescura e suavidade na voz que penso que lhe trarão grandes interpretações no futuro. Também Janina Baechle como Teresa e Tae Joong Yang como Alessio estiveram em grande forma.

Tive o privilégio de assistir a um superior espectáculo de ópera, um daqueles que nos fazem sentir que vivemos uns momentos mágicos onde, para além dos cantores principais terem estado ao seu melhor nível, todos os restantes foram óptimos e poderiam ter sido solistas em qualquer espectáculo de ópera. Um espanto!


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O PÚBLICO EM VIENA

Viena é seguramente um dos melhores teatros do mundo para ver ópera. É uma sala grande, não particularmente bonita no auditório principal, mas magnífica em todos os outros recantos.
O público, maioritariamente austríaco mas com muitos estrangeiros, sobretudo japoneses, veste-se a rigor, o que não deixa de ser interessante e nos recorda que, mesmo na Austria, assistir a um espectáculo de ópera não é uma trivialidade do dia a dia. As tosses são escassas e não ouvi quaisquer ruidos perturbadores à minha volta. Contudo, disse-me um amigo que lá encontrei numa das récitas que, uma mulher russa sentada atrás de si, atendeu e falou ao telemóvel mais de uma vez!! (Só pode ser a excepção que confirma a regra!).
Aqui ouve-se verdadeiramente tudo o que os compositores escreveram. Muito conhecedor das obras em cena, não há aplausos intempestivos em nenhum momento, podendo apreciar-se a música até ao fim. É um dos raros teatros de ópera de primeira grandeza onde tal acontece. Uma maravilha! Quando é altura de aplaudir, se os intérpretes são bons (o habitual neste teatro), não se poupam a demonstrar satisfação que, quando os cantores são excepcionais, para além dos aplausos, dos bravos, dos assobios, das flores e de outras manifestações de júbilo, também surgem pateadas que, entre nós, teriam significado oposto.

Neste teatro, aliás como em tudo na Austria, os horários cumprem-se ao minuto. Apenas para se ter uma ideia do que pode acontecer, na récita da Sonambula que vi, e que deveria terminar às 22h00, a prestação da Natalie Dessay e, sobretudo, do Juan Diego Flórez foi de tal qualidade que, com os aplausos que lhes foram presenteados, o espectáculo terminou próximo das 22h45m!



O que verdadeiramente me surpreendeu e pensava ser impossível é o mercado negro da venda de bilhetes. É à descarada, à porta do teatro, ou mesmo dentro dele quando chove, pedindo-se quantias exorbitantes (e há sempre quem pague, pois as récitas estão esgotadas há muito). Não compreendo como isto é permitido num local destes, mas foi assim nas 4 récitas que vi.