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quinta-feira, 13 de março de 2014

IL TROVATORE, Theatro Municipal de São Paulo, Março de 2014

IL TROVATORE ABRE A TEMPORADA 2014 DE ÓPERAS DO THEATRO MUNICIPAL DE SÃO PAULO. CRÍTICA DE ALI HASSAN AYACHE DO BLOG DE ÓPERA E BALLET

O Theatro Municipal de São Paulo abriu a temporada de óperas 2014 no último dia 08 de Março com Il Trovatore de Giuseppe Verdi, título esse que possuí características ímpares na ópera Verdiana. Começando pelo libreto: História maluca, cheia de reviravoltas e absurdos onde boa parte da ação se passa antes de subir a cortina. A violência do texto e a falta de coesão estão presentes em toda a ópera, consegue ser mais confuso que a ópera  L'Africaine de Meyerbeer. Desfilam uma cigana, cavaleiros apaixonados, morte por engano, assassinato de criança, guerras e sangue por todo lado. Tudo sem nexo que beira ao absurdo.
Il Trovatore segue em cartaz nos teatros líricos devido à música de Verdi, essa sim um absurdo de criatividade. Cenas com impacto dramático de alto nível onde são exploradas a valsa e a mazurca com melodias expressivas. Árias extensas, duetos carregados de emoção e cenas corais tem música arrebatadora. Verdi vence o obstáculo de um libreto fraco e pífio compondo música da mais alta qualidade, melodias que penetram como uma flecha na alma dos espectadores.
 A produção do Theatro Municipal de São Paulo mostrou acertos na escolha dos solistas e algumas derrapadas. Os cenários de Sergio Tramonti são interessantes, trazem dois blocos que se movem em uma única direção e caracterizam bem algumas cenas, após o terceiro ato ficam demasiadamente repetitivos e entediantes. A luz de Pasquali Mari deixou tudo na penumbra, uma escuridão condizente com o enredo, embora algumas cenas pudessem ter melhor tratamento. A opção pelo monocromático da luz amarela soa repetitiva demais e sem criatividade. Os figurinos de Alessandro Ciammarughi optam pelo tradicional e mostram uma Espanha de antigamente.
A direção de Andrea de Rosa oscila entre momentos interessantes e alguns absurdos. Utiliza os cenários de forma criativa explorando todo o espaço cênico. Os personagens são caracterizados para mostrar as mazelas e torturas que sofrem por amor e o desejo de vingança. Teatro e canto se unem para tocar o espectador. A ideia de colocar uma fogueira estilizada no centro do palco é uma bela sacada, nela a história começa e termina. Fazer Manrico morrer queimado e de pé soa tão absurda como o libreto, se está no inferno que abrace o capeta. 

Susanna Branchini, foto Internet

Vocalmente os solistas se mostraram de excelente nível, comecemos com a Leonora de Susanna Branchini, soprano detentora de bela voz lírico-spinto com agudos sólidos, projeção vocal enorme, daquelas que enchem o teatro e interpretação cênica convincente. Sua Leonora esbanja vigor e densidade vocal, mostra uma interpretação moderna da personagem, teatro e canto unidos em uma inesquecível interpretação. Stuart Neill esteve no Municipal em 2013 cantando Radames da ópera Aida de Verdi, fez um Manrico com belos agudos, tenor de voz pouco extensa compensa isso com agudos brilhantes e uma boa sustentação das notas. Interpretação cênica fraca, seu personagem se mostra sem emoção e consistência. 
Alberto Gazale mostrou bons graves com seu Il Conte de Luna, abusou deles em termos de força e vigor. Sua voz se mostra sempre consistente colocando credibilidade no personagem. Aliado a uma boa interpretação cênica fez com que seu personagem fosse sempre regular ao longo de toda a apresentação. 
A dona da noite, a rainha da cocada foi o mezzo-soprano Marianne Cornetti, a mulher arrebentou como Azucena, sobraram graves extensos e uma vocalidade de timbre impressionante. Voz escura, densa, arrebatadora e consistente em todos os registros que sobrevoam a orquestra e chegam limpos à plateia. Interpretação cênica louvável de uma grande atriz, Marianne Cornetti conhece a fundo sua personagem e a interpreta com segurança e convicção. Um grande achado essa mezzo-soprano. 

 Stuart Neill,foto Internet
Destaque o mezzo-soprano Ana Lucia Benedetti, em sua pequena participação mostrou boa musicalidade com agudos coloridos e um fraseado correto. Fez uma Inez de bom nível cênica e vocalmente, cantora que entende a importância de fazer papéis menores e se dedica a eles com afinco, quero muito vê-la cantando personagens de maior expressão.
Correta, mas correta mesmo a cobrança de R$ 5,00 pelo programa completo. Antes distribuído gratuitamente não era devidamente valorizado pelos espectadores e muitos o descartavam nas lixeiras do centro. Cobrando ele passa a ser valorizado e só quem se interessa em tê-lo paga. Quem não compra recebe um programa menor e bem mais simples.

sábado, 15 de junho de 2013

NABUCCO, New National Theater, Tóquio, Junho de 2013 / Tokyo, June 2013




Nabucco é uma das primeiras óperas de Verdi, com libretto de Temistocle Solera, que conta a história do rei Nabucodonosor da Babilónia. Foi o primeiro grande êxito do compositor, estreado durante a ocupação austríaca do norte da Itália. O famoso coro dos escravos hebreus Va, pensiero, sull'ali dorate tornou-se um hino do nacionalismo italiano.

Desta vez vou falar menos da ópera e mais da vivência que tive em Tóquio.


 O New National Theatre faz parte do Opera Palace da cidade, uma construção muito recente, moderna e de uma beleza de cortar a respiração. A arquitectura é belíssima, o espaço de uma harmonia formidável, com lagos entrecortados por estruturas de pedra criando um ambiente repousante e de um impacto visual marcante.


 O teatro é uma das muitas salas existentes no complexo, tem uma entrada ampla e magnífica e é de grandes dimensões. Tudo está imaculadamente limpo e arranjado, a decoração é sóbria, a funcionalidade inexcedível e o conforto assinalável. 


 Imediatamente antes do início do espectáculo há os habituais avisos sobre a proibição de tirar fotografias ou fazer gravações durante o espectáculo. Mas nestes há sempre aspectos interessantes (sobre os quais, um dia mais tarde, escreverei algo). Desta vez, em japonês e em inglês, também se pede às pessoas para não se inclinarem para a frente porque perturbam a visibilidade de quem está sentado atrás e informa-se que, em caso de sismo, deveremos permanecer sentados até nos indicarem uma saída em segurança, dado que o edifício foi construído com a mais avançada tecnologia anti-sísmica.


 Sendo o povo japonês talvez aquele que, no mundo, mais gosta de tirar fotografias, ninguém o fez dentro do teatro e sempre que tentei registar fotograficamente, para memória futura, alguns dos momentos inesquecíveis para mim desta experiência única, fui imediatamente convidado, com toda a correcção, a não fotografar. Por isto a escassez de imagens.


 E passo já a comentar a postura dos japoneses. São o povo mais cortês e educado que conheci até hoje! No dia a dia não há ninguém que não tente ajudar empenhadamente, apesar da barreira da língua. Só vindo ao Japão se consegue apreciar a dignidade e respeito com que tratam os estrangeiros (e entre si). Há uma influência significativa do ocidente, sobretudo na imagem corporal e vestuário, mas a essência da cultura oriental nipónica é constante e impressionante. A sensação de segurança é absoluta e, no mar de gente que circula por Tóquio, a ordem e respeito pelos outros não são frequentes, são a única forma de estar!

Em relação ao espectáculo em si, diria que o “eurotrash” chegou em força a Tóquio. A encenação do inglês Graham Vick é horrorosa. Do pior que já vi. O cenário é rico, toda a acção se passa dentro de um moderníssimo centro comercial actual com vários andares e escadas rolantes entre eles. Os hebreus são os sofisticados visitantes e compradores, e os assírios um grupo de assaltantes mal vestidos com cabeças de porco, máscaras dos “anonymous” ou outras, que tudo saqueiam e destroem. E é assim até ao fim do espectáculo. Um nojo!


 Pelo contrário, a música foi de elevada qualidade. A direcção musical esteve a cargo do maestro Paolo Carignari. A Tokyo Philarmonic Orchestra foi grande e competente e o New National Theatre Chorus foi absolutamente excepcional.


 Também os solistas tiveram interpretações notáveis. O barítono Lucio Gallo fez um Nabucco vocalmente muito aceitável, bem audível e expressivo, o mezzo Mariane Coretti foi a melhor da noite na Abigaille pérfida que nos ofereceu. A cantora tem uma voz enorme e soube utilizá-la de forma superior, cativando sempre em todas as intervenções. Também o baixo Konstantin Gorny foi um Zacharia competente, com um timbre muito interessante e um registo grave assinalável. Os cantores japoneses foram excelentes, nomeadamente o tenor Higuchi Tatsuya como Ismael e o mezzo Taniguchi Mutsumi como Fenena. Nos papéis secundários foram também muito bem o soprano Ando Fumiko como Anna, o tenor Uchiyama Shingo como Abdallo e o baixo Tsumaya Hidekazu como Grande Sacerdote.


 O público manteve-se totalmente silencioso durante o espectáculo. Não se ouviu uma tosse ou qualquer outro ruído, apenas os aplausos, calorosos, mas sempre só depois de a música terminar.


 Apesar da encenação abjecta, foi uma noite que não esquecerei.

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Nabucco, New National Theater, Tokyo, June 2013

Nabucco is one of the first operas by Verdi, with libretto by Temistocle Solera, which tells the story of King Nabucco of Babylon. It was the first great success of the composer because it was released during the Austrian occupation of northern Italy. The famous chorus of the Hebrew slaves Va, pensiero, sull'ali dorate became an anthem of Italian nationalism.

This time I will talk less on the opera and more of the experience I had in Tokyo.

The New National Theatre is part of the city Opera Palace, a very recent, modern construction of breathtaking beauty. The architecture is beautiful, the place is of a formidable harmony with lakes interspersed with stone structures creating a relaxing environment and a striking visual impact.

The theater is one of the many existing rooms in the complex, and has a wide magnificent and large entrance. Everything is immaculately clean and organized, the decor is sober, of unsurpassed functionality and remarkable comfort.

Immediately before the start of the performance we heard the usual warnings about the prohibition to take photographs or make recordings during the performance. But there are always interesting aspects on these warnings (on which, later on, I will write something). This time, in Japanese and in English, they also urged people not to lean forward because they disrupt the visibility of who is sitting back and inform that, in case of earthquake, we should remain seated until we were indicated a way out in safety, since the building was built with the most advanced technology against earthquakes.

The Japanese people are, perhaps, those in the world who like more to take photographs, but nobody did it within the theatre. When I tried to take some for future memory of the unforgettable moments for me during this unique experience, and for this blog, I was immediately invited not to do it, in the most polite way. Hence the lack of pictures in this post.

And I now comment on the the Japanese public. This people is the most courteous and polite I met until today! On day by day there is none that does not try to help assiduously, despite the language barrier. Just when we are in Japan we can appreciate the dignity and respect with which they treat foreigners (and each other). There is a significant influence of the West, especially in body image and clothing, but the essence of oriental japsnese culture is constant and impressive.
The feeling of safety is absolute, and the constant characteristics of the thousands of ​​people flowing through Tokyo are sympathy, order, discipline and respect for others!

Regarding the performance, I would saythe that  "Eurotrash" arrived in full to Tokyo.
The staging by English director Graham Vick is horrible. The worst I've seen. The scenery is rich, the action happens inside a modern shopping mall with several floors with escalators between them. The Hebrews are sophisticated buyers and visitors, and the Assyrians a group of robbers dressed in evil pig heads, masks of "anonymous" or similar. They plunder and destroy everything. And i tis so until the end of the performance. Disgusting!

In contrast, the music was of high quality. Musical director was conductor Paolo Carignari. The Tokyo Philharmonic Orchestra was great and competent and the N
ew National Theatre Chorus was absolutely exceptional.

Also the soloists gave outstanding interpretations. The baritone Lucio Gallo was a vocally very acceptable, very audible and expressive Nabucco. Mezzo Mariane Coretti was the best of the night as the perfidious Abigaille. The singer has a big voice and knew how to use it, always captivating in all interventions. Also the bass Konstantin Gorny was a competent Zacharia, with a very interesting timbre and remarkable bass register. The Japanese singers were excellent, especially  tenor Tatsuya Higuchi as Ishmael and mezzo Taniguchi Mutsumi as Fenena. In supporting roles also were well, soprano Ando Fumiko as Anna, tenor ​​Shingo Uchiyama as Abdallo, and bass Tsumaya Hidekazu as High Priest.

The public remained completely silent during the performance. A cough or any other noise was not heard, just the warm applause, but always only after the music ended.

Despite the abject staging, it was a night I will not forget.

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sábado, 6 de agosto de 2011

AIDA - Royal Opera House - 11 Março e 2 Abril 2011


(review in english below)

O FanaticoUm já teve a oportunidade de comentar a Aida que ambos vimos na Royal Opera House da temporada 2010-2011. A única diferença é que tive a oportunidade de assistir a a duas récitas e com dois elencos que não foram totalmente diferentes mas que deu para que cada uma fosse uma experiência diferente e única - o Radamés de Alagna e Ventre, a Amneris de Borodina e Cornetti, e o Amonastro de Volle e Almaguer.



Em linhas gerais, e talvez por nunca ter assistido a outras Aidas em palco, não achei a encenação particularmente incoerente e inconsistente, apesar de a achar num meio termo entre o Egito e Marte...



Roberto Alagna surpreendeu-me mais que Carlo Ventre, embora ambos não tenham entrado bem na ária Celeste Aida.







Olga Borodina esteve soberba, embora Marianne Cornetti tenha dado conta do recado também.





Achei a Aida de Liudmyla Monastyrska de grande qualidade vocal, com projecção invejável denotando apenas alguma incapacidade de alterar a dinâmica da voz adaptando-a aos sentimentos relacionados com o cantava em determinadas passagens - mas é uma cantora a seguir no futuro até porque aparece em muitas das temporadas dos grandes teatros para 2011-2012, inclusive como Aida.


Michael Volle é um dos meus barítonos favoritos e esteve espectacular, ao mesmo nível que esteve Carlos Almaguer (pela idade mais sugestivo de ser pai de Aida).





Vitalij Kowaljow, que não apreciei muito como Wotan em Milão, esteve bem, até porque o seu timbre é bonito e a personagem denota alguma seriedade constante e um pesar interpretativo que não necessita de grande modulação (o que notei menos bem no seu Wotan).





Brindley Sherratt é um baixo de grande qualidade vocal e interpretativa.



Deixo-vos as habituais fotos das chamadas ao palco de ambas as récitas.


AIDA - Royal Opera House - 11 March e 2 April 2011




FanaticoUm did comment on this Aida production that we both saw at the Royal Opera House in this season 2010-2011. The only difference is that I had the opportunity to see it two times and with slightly different casts – the Radames of Alagna and Ventre, the Amneris of Borodina and Cornetti and the Amonastro of Volle and Almaguer.



In general, and perhaps because I have never attended other Aidas on stage, I did not find the staging particularly incoherent or inconsistent, despite being in half way from Egipt and Mars...



Roberto Alagna surprised me more than Carlo Ventre, although both not being brilliant in the aria Celeste Aida.







Olga Borodina was superb, although Marianne Cornetti presented Amneris in a very pleasant way.





I found the Aida of Liudmyla Monastyrska of high vocal quality, with enviable projection showing only a failure in changing the dynamics in order to adapt the voice to the correct feeling in the text. But she is a singer to follow in the future as she appears in several opera seasons in 2011-2012, including in the role of Aida.

Michael Volle is one of my favourite baritones and he was spectacular as Carlos Almaguer was but this more suggestive of Aida’s father due to his age.





Vitalij Kowaljow, who I did not like as Wotan in Milan, was very good, because his tone is beautiful and his character denotes a constant and serious posture that does not require a large interpretative modulation (capability that was missing in his Wotan...).



Brindley Sherratt is a bass of great vocal quality and a scenic presence.





I leave you with the usual photos of the curtain calls of both performances.

sexta-feira, 10 de junho de 2011

AIDA – Royal Opera House, Londres, Abril de 2011


(review in English below)

 Aida é uma ópera de G. Verdi, com libretto de Antonio Ghislanzoni. Foi encomendada para ser estreada no Teatro de Ópera do Cairo, inaugurado dois anos antes, em 1869 (com Rigoletto), ano da abertura do canal do Suez. Foi composta à maneira da grand opera francesa, com cenas de grande esplendor, orquestração e coros imponentes, que glorificam o Egipto antigo. Contudo, está também repleta de cenas de grande lirismo em que as personagens principais exprimem os diferentes sentimentos por que passam ao longo da ópera.

A história passa-se no Egipto, na época dos faraós. Radamès, guerreiro egípcio, gostaria de comandar o exército contra a investida dos agressores etíopes, o que vem a acontecer. Ama Aida, escrava etíope e é desejado por Amneris, filha do rei do Egipto. Amneris vê confirmadas as suas suspeitas de que Aida é a sua rival, depois de lhe dizer que Radamès havia sido morto em combate. Mas Radamès regressa em glória, após uma vitória militar, na qual fez muitos prisioneiros etíopes, entre eles Amonastro, rei da Etiópia e pai de Aida, mas cuja identidade os egípcios desconhecem. Os prisioneiros etíopes são libertados e o rei oferece Amneris em casamento ao guerreiro egípcio. Quando Aida espera Radamès nas margens do Nilo aparece Amonastro que apela ao seu patriotismo de princesa etíope e a convence a descobrir os planos militares do egípcio. Ela assim faz, depois de ver forjado o pedido para fugirem juntos. Radamès entrega-se quando percebe que traiu o Egipto. Amneris tenta convencê-lo a justificar a sua acção mas ele nega-se e é condenado à morte. Ela protesta, em vão, contra a sentença. Quando Radamès é sepultado vivo verifica que Aida entrou voluntariamente no túmulo para morrer com ele.


 Aida é uma das óperas de Verdi que mais gosto de ver pois, quando bem cantada e encenada, permite a apreciação de um espectáculo grandioso. Infelizmente, não foi o que aconteceu desta vez em Londres.

A encenação de David McVicar não foi do meu agrado, apesar de estar repleta de efeitos cénicos. Os personagens estavam caracterizados de forma algo bizarra, não sendo nada clara a referência ao Egipto ou à Etiópia. Como o wagner_fanatic me disse, a acção passou-se algures entre o Egipto e Marte. Houve cenas violentas com frequência, sem trazerem qualquer mais valia ao espectáculo. Os cenários não eram minimalistas mas também não surtiram o efeito marcante esperado por mim. Tudo um pouco confuso e abstracto.

O público, pela primeira vez em Londres, teve um comportamento lamentável. As tosses constituíram um coro constante durante toda a récita. Aplausos fora te tempo também foram frequentes. Acresceu a isto o facto (que sempre considero deplorável) de alguns cantores se fazerem aos aplausos no final das suas árias. Aconteceu com vários mas foi marcante com Carlo Ventre que nem sequer os merecia.

A direcção foi de Fabio Luisi e destacou-se pela qualidade. Também a Orquestra e o Coro estiveram ao nível de excelência habitual. Para mim, foram os melhores da noite.

Aida foi cantada pelo soprano ucraniano Liudmyla Monastyrska, em substituição de Micaela Carosi, que se retirou por estar grávida A voz era encorpada e limpa, a emissão forte mas as nuances de que a personagem está repleta ao longo da acção não existiram. Houve excessiva homogeneidade na forma de cantar, sem laivos de lirismo. O desempenho cénico da cantora também não ajudou pois esteve, sobretudo, preocupada com o canto. No computo final, uma Aida aceitável.


 Amneris é a personagem que mais aprecio na ópera. Foi cantada pelo mezzo americano Marianne Cornetti, também em substituição de Olga Borodina, por doença. Foi uma surpresa agradável para mim, pois a última vez que a havia ouvido aqui tinha ficado mal impressionado. Fez uma Amneris credível, a voz esteve sempre bem, tanto no registo mais grave como no agudo, foi sólida ao longo de toda a récita e, apesar da forma como foi vestida (da qual não teve a menor responsabilidade), conseguiu imprimir algum movimento à sua representação.


 Radamés foi cantado pelo tenor uruguaio Carlo Ventre. Foi o mais fraco da noite. O timbre é banal, a emissão foi irregular, os agudos em grande esforço e muitas vezes mais gritados que cantados. E, como referi, fez-se escandalosamente aos aplausos, que não merecia. Cenicamente, um desastre.


 Michael Volle, barítono alemão, cantou de forma soberba o papel de Amonastro, rei da Etiópia. É possuidor de uma voz muito bem timbrada, ágil e potente. O cantor foi muito convincente na interpretação do rei prisioneiro.

Ramfis foi interpretado pelo baixo ucraniano Vitalij Kowalow. Foi outra das boas interpretações da noite. A voz ouviu-se com qualidade, consistência e boa projecção.

O baixo inglês Brindley Sherratt fez um Rei do Egipto de qualidade, oferecendo-nos uma voz audível e interessante, sobretudo no registo mais baixo.


 Iniciei este texto referindo que gosto muito desta ópera porque permite desfrutar de um espectáculo grandioso, cénico e vocal. Apesar do excepcional desempenho do maestro, da orquestra e do coro, e de desempenhos muito bons de alguns cantores, não foi isso o que senti. E foi pena, pois a minha expectativa era grande.

Faltou a magia…



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Aida - Royal Opera House, London, April 2011

Aida is an opera of G.
Verdi, with libretto by Antonio Ghislanzoni. It was ordered to be premiered at the Cairo Opera House, that opened two years earlier, in 1869 (with Rigoletto), the year of opening of the Suez Canal. It was composed in the way of French grand opera, with scenes of great splendour, majestic orchestration and choirs, glorifying the ancient Egypt. However, it is also filled with scenes of great lyricism in which the main characters express the different feelings they experience throughout the opera.

The story is set in Egypt at the time of the pharaohs. Radamès, an Egyptian warrior, wishes to command the army against the onslaught of the Ethiopians. He loves Aida, an Ethiopian slave and he is loved by Amneris, daughter of the king of Egypt. Amneris confirms her suspicions that Aida is her rival, after telling her that Radamès had been killed in combat. But Radamès returns in glory, after a military victory, which made many Ethiopian prisoners, including Amonastro king of Ethiopia and Aida's father, but whose identity is unaware of the Egyptians. Ethiopian prisoners are freed and the king offers Amneris in marriage to the Egyptian warrior. When Aida waits for Radamès on the banks of the Nile Amonastro appears and appeals to her patriotism as an Ethiopian princess and convinces her to discover the plans of the Egyptian army. She does so and Radamès surrenders when he realizes he has betrayed Egypt. Amneris tries to convince him to justify his action but he refuses and is sentenced to death. Amneris protests in vain against the sentence. When Radames is buried alive he finds Aida in the tomb. She voluntarily entered there to die with him.

Aida is one of Verdi's operas I most like to see because when it is well sung and staged, it becomes an excellent performance. Unfortunately, it was not what happened this time in London.

I did not like the staging by David McVicar, despite being full of scenic effects. The characters were featured in a somewhat bizarre way, without any clear reference to Egypt or Ethiopia.  As wagner_fanatic mentioned, the action was somewhere between Egypt and Mars. There were several violent scenes, often without bringing any value to the performance. The staging was not minimal but it did not produce the expected effects on me. All was a bit confusing and abstract.

The audience, for the first time in London, had a disappointing behavior. Coughs were constant throughout the performance. Premature applause were also frequent. Some singers, at the end of their arias, had a behaviour “asking” for the audience applause (which always is a shame). This happened with several but with Carlo Ventre it was too much, and he even did not deserve them.

The dconducting of Fabio Luisi and was noted for the high quality. Also the orchestra and choir were at their usual level of excellence. For me, these were the best of the night.

Aida was sung by Ukrainian soprano Liudmyla Monastyrska replacing Micaela Carosi, who cancelled due to pregnancy. Her voice was full bodied and clean, she had a strong emission but the nuances of the character throughout the action did not exist. There was too much homogeneity in the singing. Artistically, she was not good because she was only worried about the singing. In summary, only an acceptable Aida.

Amneris is the character I most appreciate in the opera. It was sung by American mezzo Marianne Cornetti also replacing Olga Borodina, due to illness. She was a pleasant surprise for me because the last time I had heard her here she had not impressed me positively. She played a credible Amneris. Her voice has always well, both on low and on high registers. She was solid throughout the performance and, despite the way she was dressed (which was none of her fault), she managed to give us an interesting artistic performance. She was very good.

Radamès was sung by the Uruguayan tenor Carlo Ventre. He was the weakest of the night. The timbre is vulgar, the voice is irregular, the high notes were in great effort and often more shouted than sung. And, as I said, he had a behaviour appealing to the applause of the audience that, ultimately, he, did not deserve. Artistically he was a disaster.

Michael Volle, German baritone, sang superbly the role of Amonastro, king of Ethiopia. He possesses a beautiful, agile and potent voice. He gave us a very convincing interpretation of the prisoner king.

Ramfis was interpreted by Ukrainian bass Vitalij Kowalow. He was another good singer of the night. His voice was heard with quality, consistency and good projection.

English bass Brindley Sherratt played the King of Egypt with quality, giving us an audible and interesting voice, especially in the lower notes.

I began this text stating that I love this opera because it lets you enjoy a grand (vocal and scenic) performance. Despite the exceptional performance of the conductor, the orchestra and the choir, and some very good singers, that's not what I felt. And I regret it because my expectations were high.

The magic was absent ...

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quinta-feira, 26 de novembro de 2009

DON CARLO – Royal Opera House, Londres, Junho de 2008 e Outubro de 2009

A ópera passa-se no Séc. XVI. Estabelece-se um tratado de paz entre a França e Espanha com o casamento da princesa Elisabete de Valois filha de Henrique II e Don Carlos, filho de Filipe II e herdeiro do trono espanhol. Don Carlos passeia incógnito na floresta de Fontainebleau e aí encontra Elisabete. Dá um retrato de si próprio e ela percebe que é com ele que vai casar. Trocam sentimentos de felicidade que são interrompidos com a notícia de uma alteração ao tratado de paz. Por decisão do pai, Elisabete irá casar com o rei Filipe II e não com o filho. Elisabete aceita a decisão mas ficam ambos devastados. Carlos refugia-se no mosteiro de San Yuste, onde se recolheu o avô, Imperador Carlos V antres de morrer. Lá encontra-se com o amigo Rodrigo, marquês de Posa, que lhe recorda que o povo da Flandres continua oprimido pela Espanha. Elisabete, agora rainha, está com a princesa Eboli quando recebe de Rodrigo uma missiva de Carlos, referindo que deve confiar no amigo. Carlos quer que ela convença o rei a mandá-lo para a Flandres. Chega Filipe e Rodrigo pede-lhe para terminar a opressão do povo da Flandres, o que ele recusa. Confessa-lhe que suspeita que a rainha e o filho não lhe são fieis e pede a Rodrigo para os vigiar. À noite, nos jardins do palácio Carlos procura encontrar-se com Elisabete mas a mulher que pensa ser ela é Eboli, que o ama e, quando se vê rejeitada, jura vingar-se. Numa praça em frente da catedral de Valladolid, enquanto hereges são queimados vivos, um grupo de enviados da Flandres pede paz ao rei Filipe II, que recusa. Carlos pede ao pai a regência da Flandres mas, ao vê-la negada, pega na espada contra ele. É desarmado por Rodrigo, que é feito Duque pelo rei, como sinal de reconhecimento. Filipe lamenta a falta de amor de Elisabete e, em diálogo com o Grande Inquisidor, obtem permissão para sacrificar o filho e para entregar Rodrigo à inquisição. Surge Elisabete que é acusada pelo rei de adultério com Carlos. Desmaia e Filipe percebe que ela é inocente. Surge Eboli que confessa à rainha que a acusou falsamente e que ela é amante do rei. Rodrigo encontra-se com Carlos e pede-lhe para manter a causa do povo da Flandres. É assassinado pela inquisição, mas antes diz a Carlos para se encntrar com Elisabete no mosteiro. Elisabete, no mosteiro de San Yuste, encontra-se com Carlos, que está decidido a partir para a Flandres e faz votos de felicidade num próximo mundo. Surgem Filipe e o Grande Inquisidor. O espírito de Carlos V materializa-se e diz que o sofrimento é inevitável e só cessará no céu.

O enredo desta ópera em 5 actos, de Giuseppe Verdi, não é dos mais claros, mas a ópera tem momentos musicais de invulgar beleza, nomeadamente os duetos entre Carlos e Elisabete, Carlos e Rodrigo e, sobretudo, entre Filipe e o Grande Inquisidor. A produção da ROH é, mais uma vez, assombrosa. A encenação é de Nicholas Hynter, que não se poupou a esforços para montar um espectáculo rico, diversificado e deslumbrante. Uma das encenações mais notáveis a que assisti. Na direcção musical houve diferenças marcadas entre o ano da estreia, 2008, em que António Pappano extraiu da orquestra o seu melhor e 2009, em que Semyon Bychkov não esteve ao mesmo nível, o que foi pena.
Os elencos tiveram diversos interpretes em comum, mas as diferenças foram interessantes:
Carlos foi interpretado em 2008 por Rollando Villazón e em 2009 por Jonas Kaufmann. Villazón estava já na fase de cancelamentos frequentes mas, para mim, esteve bem. Devo confessar que é um dos intérpretes actuais que mais gosto, por isso talvez tenha uma natural tolerâcia. Esteve bem, a sua voz de belíssimo timbre e projecção acertada esteve sempre presente. Contudo, Villazón é um excelente exemplo do que há de melhor nos interpretes actuais da ópera – associa a boa prestação vocal a uma excelente presença em palco. Cenicamente é insuperável, a figura ajuda muito, o que dá grande credibilidade à interpretação. Jonas Kaufmann foi soberbo na representação, apesar de um estilo bem diferente. Esteve afinadíssimo e é detentor de uma voz poderosa. É um tenor com um timbre baritonal que dá um encanto muito próprio às suas interpretações. A figura é excelente e, cenicamente, é convincente.
No papel de Rodrigo tivemos Simon Keenlyside nas duas récitas. Voz poderosíssima, barítono do melhor que já ouvi, timbre muito agradável, excelente actor em palco. E as árias que Verdi lhe reservou fazem justiça a um bom cantor, mesmo que não interprete bem, que não foi, de todo, o caso.
Concluindo as principais vozes masculinas, passo aos baixos. Ferruccio Furlanetto foi Filipe II nas duas récitas. Que voz! O chão da ROH deve ter tremido várias vezes. Uma potência insuperável, um tímbre invulgar num baixo e uma excelente presença em palco. A voz enchia totalmente a sala e os nossos sentimentos. Foi, talvez, o melhor nas duas récitas. O Grande Inquisidor foi Eric Halfvarson em 2008 e John Tomlison em 2009. Mais duas vozes poderosíssimas que, com a dádiva de Verdi, nos proporcionam os melhores momentos do espectáculo. Ambos foram excelentes mas, mais uma vez, devo confessar uma preferêcia pessoal por Tomilson.
Marina Poplavskaya foi Elisabete de Valois nas duas récitas. É um soprano russo de boa figura, que se faz ouvir em qualquer lugar e considerada actualmente dos expoentes máximos dos sopranos. Na minha opinião, não questionando a força da emissão, acho que sofre de um “pecado” frequente em muitas cantoras de leste – dureza excessiva e falta de sentimento na voz, sobretudo notória no dueto de amor do primeiro acto com Carlos. Inserida num conjunto diferente de cantores, brilharia de outra forma mas, neste naipe, esteve aquém dos outros, apesar do grande aplauso do público.
Finalmente Eboli que foi interpretada por Sonia Ganassi em 2008 e por Marianne Cornetti em 2009. Foram muitro diferentes! Ganassi esteve bem melhor, cumpriu com dignidade e valentia o papel, cenicamente correcta, mas não atingiu aquele patamar mágico que sempre esperamos. Também a sua voz não é a mais indicada para este papel. Cornetti limitou-se a cumprir, sem brilho, o papel.
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