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quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

WINTERREISE / VIAGEM DE INVERNO, Carneghie Hall, New York / Nova Iorque, October / Outubro de 2016


 (text in English below)
Winterreise (A Viagem de Inverno) é um belíssimo ciclo de canções que Franz Schubert compôs, com poemas de Wilhelm Müller. Descrevem várias considerações e estados de alma de um viajante triste, melancólico e desesperado, no Inverno. Segundo Susan Youens, quando Schubert musicou estes poemas, estava confrontado com o seu provável destino. Em 1828, quando concluiu a composição do ciclo, já se sabia que a sífilis (de que sofria) levava à demência e paralisia geral, antes da morte. Schubert viria a morrer poucos meses depois, com 31 anos.



A interpretação esteve a cargo de dois ingleses, Thomas Adès (piano) e Ian Bostridge (tenor).

Foi um concerto de qualidade inexcedível. Adès, também compositor de ópera contemporâneo, foi brilhante na forma como tocou, imprimindo as tonalidades adequadas, quase sempre tristes, frias e obscuras, da música de Schubert.



Ian Bostridge foi excepcional na forma como cantou. A voz é muito bonita e o cantor revelou uma enorme emotividade e intensidade dramáticas, em plena consonância com o piano e com o tom obsessivo e escuro da música. Faz gestos excessivos enquanto canta, mas o que se ouve é de qualidade insuperável.




Um momento alto da presente temporada.

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Winterreise / WINTER JOURNEY, Carneghie Hall, New York, October 2016

Winterreise (The Winter Journey) is a beautiful song cycle that Franz Schubert composed for Wilhelm Müller's poems. It describes various considerations and moods of a sad, melancholic and desperate traveller, in the winter. According to Susan Youens, when Schubert set to music these poems, he was confronted with his likely destination. In 1828, when he completed the cycle of composition, it was known that syphilis could lead to dementia and general paralysis before death. Schubert would die soon after, 31 years old.

The interpretation was in charge of two Englishmen, Thomas Adès (piano) and Ian Bostridge (tenor).

It was a concert of unsurpassed quality. Adès, also a composer of contemporary opera, was brilliant in the way he played the piano highlighting the appropriate tones, often sad, cold and dark, of Schubert's music.

Ian Bostridge was exceptional in the way he sang. The voice is very beautiful and the singer revealed a huge emotion and dramatic intensity, fully in line with the piano and the obsessive and dark tone of the music. He makes excessive gestures while singing, but what we hear is of unsurpassed quality.

A highlight of this season.


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sábado, 20 de fevereiro de 2016

Tosses! e WINTERREISE, Fundação Gulbenkian. Fevereiro de 2016



Assisti ontem na Fundação Gulbenkian à Winterreise (Viagem de Inverno), ciclo de canções de F. Schubert com base em poemas de Wilhelm Müller, numa produção multimédia originária do Festival d’Aix-en-Provence, com encenação e criação visual de William Kentridge.



Imediatamente antes do início do espectáculo, entrou em palco o director do Serviço de Música da Gulbenkian, o finlandês Risto Nieminen que, num português muito aceitável, pediu ao público para desligar os telemóveis e para não tossir, o que quebraria a concentração do cantor!! (Até demonstrou como, em necessidade imperiosa, se deveria proceder). Repetiu em inglês, mas apenas pediu para desligar os telemóveis. Logo por detrás de mim uns estrangeiros comentaram que se podia tossir apenas em inglês... E, sabem que mais, o pedido foi eficaz!! Praticamente não se ouviram tosses e, as poucas que ouvi, foram nos intervalos das canções! Por favor Risto, volte sempre!!

Já muitas vezes eu e outros autores deste blogue salientámos a excessiva frequência com que o selecto público da Gulbenkian tosse nos concertos e, quando começam as tosses, propagam-se exponencialmente, como se de uma competição se tratasse, tipo “vamos ver quem tosse mais alto” ou “vamos ver quem consegue perturbar mais o espectáculo” ou “vamos estabelecer um diálogo tússico a muitas vozes”! Ter o director da Música da Gulbenkian a pedir para não se tossir só prova que, de facto, o desrespeito dos “tossidores” pelos outros é marcante! E a prova de que é um fenómeno que mereceria uma análise, no mínimo, comportamental e psico-sociológica, foi o que assistimos ontem, em pleno inverno e num dia de frio em que, depois do puxão de orelhas, não se tossiu! Repito o apelo – Risto, volte sempre!!

O espectáculo foi visualmente muito interessante, mas o que mais interessava era a música. A interpretação foi de elevado nível. Markus Hinterhäuser ao piano foi fabuloso na forma como interpretou as canções de Schubert e, para mim, foi o melhor de todo o espectáculo.



O conceituado barítono alemão Mathias Göerne não deixou os seus créditos por mãos alheias e também nos ofereceu uma interpretação marcante em sensibilidade e intensidade dramáticas, para as quais muito contribui a qualidade e beleza invulgar do timbre vocal. O único senão foi a inspiração ruidosa que ocasionalmente fez, que muito perturbou a beleza da interpretação vocal.

Foi um excelente espectáculo mas, o que mais o marcou, foi a eficaz intervenção de Risto Nieminen pedindo, apenas aos portugueses, para que não tossissem!!


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