Com surpresa,
constato que não escrevo aqui sobre óperas vistas em transmissão MetLive há um
ano! As desculpas serão várias, incluindo outros colegas “de blogue” terem-no
feito com melhor qualidade, falta de tempo e de entusiasmo, impossibilidade de
assistir a algumas (poucas) transmissões. Contudo, uma das razões importantes
será aquela sensação com que sempre fico que a amplificação sonora distorce a
realidade das vozes e a excessiva preocupação em focar grandes planos faciais
dos cantores compromete a apreciação cénica do espectáculo.
Manon
Lescaut de G. Puccini
foi transmitida em Março pela Fundação Gulbenkian.
A encenação de Richard Eyre transportou a acção para a
França ocupada durante a 2ª guerra mundial e, apesar de vistosa, não me pareceu
consistente. Nos dois primeiros actos houve um excesso de escadas nos cenários
(que até mereceram a crítica de Brindley Sherratt). No 3º os prisioneiros
entram para o navio no porto de Havre para serem deportados. Para onde? Para a
América (com a conivência dos Nazis)? Para um edifício em ruínas, que é o
cenário do 4º acto, algures na imaginação de Richard Eyre e dos espectadores.
O maestro Fabio Luisi ofereceu-nos mais uma
excelente direcção musical, com grande intensidade dramática, como a obra o
exige.
Em relação aos
cantores, foi uma récita aquém do que é habitual. O jovem tenor Zach Borichevsky abriu o espectáculo no
papel de Edmundo, numa interpretação banal. Ainda assim, melhor que o barítono Massimo Cavalletti que foi o sargento
Lescaut, irmão de Manon, um desempenho sem qualquer interesse, vocal ou cénico.
Pelo contrário, o
baixo Brindley Sherratt foi óptimo
como Geronte de Ravoir, tesoureiro real e amante de Manon. Muito bem
cenicamente, apesar das escadas, e com uma voz bem timbrada e expressiva.
Roberto Alagna entrou tardiamente na produção para substituir
Jonas Kaufmann (outro cantor que sofre regularmente de “cancelite”) no papel de
Des Grieux. Confesso que, de entre os tenores tidos como mais apreciados da
actualidade, Alagna é aquele que menos aprecio. E, mais uma vez, assim foi.
Acho que não tem voz para a personagem que requer registos médio e agudo
sólidos. Tal não aconteceu e as notas agudas (que até são habitualmente
alcançadas com eficácia por Alagna), foram quase sempre em esforço, roçando a
estridência. Cenicamente esteve melhor, tanto na parte inicial mais apaixonada
como na intensidade dramática do final.
E chegamos à
Manon de Kristine Opolais. O papel é
complexo e muito exigente, tanto cénica como vocalmente. No primeiro acto é uma
jovem ingénua e apaixonada, no segundo uma sedutora, deslumbrada e fútil, no
terceiro uma escorraçada em pânico e, no final, uma mulher perdida e moribunda.
Exige um soprano de grande versatilidade, capaz de transmitir todos estes
sentimentos. Opolais é uma mulher bonita e com um corpo bem adequado à Manon
mas não conseguiu encarnar toda a complexidade da personagem. Faltou-lhe
amplitude vocal e, no registo mais agudo, cantou em esforço. Nos dois primeiros
actos foi pouco convincente, melhorou substancialmente no terceiro e fez um
quarto acto absolutamente deslumbrante em intensidade dramática, cénica e
vocal. É pena que tenha sido só no final.
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