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quarta-feira, 15 de maio de 2019

LA GAZZA LADRA, Teatro Nacional de São Carlos, Lisboa, Maio 2019



(review in English below)

O Teatro de São Carlos apresentou a ópera La Gazza Ladra de Rossini. Infelizmente foi em versão concerto, pelo que apenas pudemos ouvir. Foi um bom espectáculo que se deveu, sobretudo, à escolha dos intérpretes principais. Foram trazidos vários cantores estrangeiros jovens, de bom nível, que contracenaram com cantores portugueses, estes na maioria em papéis menos exigentes.

Rossini não é para todos, instrumentistas ou cantores e, com esta tolerância em mente, assistimos a um bom espectáculo. O maestro foi o jovem italiano Sesto Quatrini que esteve bem, com resposta à altura quer da Orquestra Sinfónica Portuguesa, quer do Coro do Teatro de São Carlos.


A qualidade dos cantores solistas foi bastante homogénea e acima do que habitualmente nos é oferecido, mas alguns destacaram-se pela sua superior qualidade. A Ninetta foi cantada pela soprano georgiana Sofia Mchedlishvili. De entre as senhoras foi, de longe, a melhor. Tem uma voz de timbre agudo mas agradável, afinada e sempre bem audível sobre a orquestra. Safou-se na coloratura.



O Gianetto foi o tenor italiano Michele Angelini, uma voz adequada à interpretação rossiniana, boa projecção e bem timbrada. Foi muito bom. O baixo italiano Mirco Palazzi interpretou de forma surpreendente o Magistrado. Tem uma voz grave sempre bem colocada, muito expressiva e foi, para mim, o melhor da noite.



Num patamar um pouco mais abaixo estiveram o baixo italiano Ugo Guagliardo como Fernando, pai de Ninetta, e a mezzo também italiana Paola Gardina, de voz escura mas por vezes pouco audível, no papel masculino de Pippo.



Os solistas portugueses foram a mezzo Cátia Moreso que esteve bem como Lucia embora, por vezes, tenha roçado a estridência, o excelente baixo André Henriques como Ernesto e Pretor, o melhor dos nacionais apesar do papel pequeno, e o tenor Marco Alves dos Santos como Isacco e Antonio, sempre bem como nos habituou. Mais discretos estiveram os barítonos Luís Rodrigues como Fabrizio e João Merino como Giorgio. Ana Serro teve uma pequena mas simpática presença como a pega.



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LA GAZZA LADRA, Teatro Nacional de São Carlos, Lisbon, May 2019

The Teatro de São Carlos presented the opera La Gazza Ladra by Rossini. Unfortunately it was in concert version, so we could only hear it. It was a good show that was mainly due to the choice of the main performers. A number of good young foreign singers were brought along with Portuguese singers, mostly in less demanding roles.

Rossini is not for everyone, instrumentalists or singers and, with this tolerance in mind, we witnessed a good performance. The maestro was young Italian Sesto Quatrini who was well, with a good response from both the Portuguese Symphony Orchestra and the São Carlos Theater Choir.

The quality of the soloist singers was quite homogeneous and above what is usually offered to us, but some stood out for their superior quality. Ninetta was sung by Georgian soprano Sofia Mchedlishvili. Among the ladies she was by far the best. Shee has a high-pitched but pleasant voice, tuned and always well audible over the orchestra. She got away in th coloratura.

Gianetto was the Italian tenor Michele Angelini, a voice adequate to the rossinian interpretation, good projection and nice timbre. He was very good. Italian bass Mirco Palazzi interpreted superiorly the Magistrate. He has a bass voice always well tuned, very expressive and was, for me, the best of the night.

On a little lower quality level were Italian bass Ugo Guagliardo as Fernando, father of Ninetta, and Italian mezzo Paola Gardina, dark voice but sometimes not very audible, in the trousers role of Pippo.

The Portuguese soloists were mezzo Cátia Moreso who was as well as Lucia although at times she has touched the stridency, the excellent bass André Henriques as Ernesto and Pretor, the best of the nationals despite the small role, and the tenor Marco Alves dos Santos as Isacco and Antonio, always well as we are used to. More discreet were the baritones Luís Rodrigues as Fabrizio and João Merino as Giorgio. Ana Serro had a small but nice presence as the bird.

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sexta-feira, 22 de fevereiro de 2019

CRÍTICO FELIZ É AQUELE QUE ESCREVE SOBRE ÓPERA. O BARBEIRO DE SEVILHA NO THEATRO MUNICIPAL DE SÃO PAULO



Foto, cena de O barbeiro de  Sevilha, foto Internet.

Estreou a primeira ópera da temporada no Theatro Municipal de São Paulo. O problema é que ninguém sabe quando será a próxima, ou se existirá próxima. Críticos de ópera felizes são aqueles que se concentram e escrevem sobre os espetáculos em si. Nós no Brasil somos poucos e temos que nos preocupar em reclamar das lambanças administrativas pelo Brasil afora. Ultimamente críticas de óperas estão ficando raras e em segundo plano devido à falta delas nos teatros nacionais.
   A questão que faço é quem escalou o elenco da ópera O Barbeiro de Sevilha de Rossini? Sabemos que o Teatro Municipal de São Paulo não tem um diretor artístico, então fica a pergunta, quem é o responsável pela escalação dos solistas? Alguém da Secretaria Municipal de Cultura, da Fundação Theatro Municipal ou do Instituto Odeon. Digo isso porque os solistas mostraram desigualdades vocais únicas, alguns feras e outros imaturos.
   O Figaro de Michel de Souza apresentou voz correta, bem postada com boa atuação cênica. Luisa Francesconi oscilou vocalmente, já a vimos estupenda em outros tempos. Não encontrou no dia 14 de Fevereiro a melhor voz para a personagem Rosina. 
   Jack Swanson é jovem e despreparado para interpretar o Conde de Almaviva, sua voz pequena, sem brilho e de pouca projeção é inapta a um solista. Sávio Sperandio e Carlos Eduardo Marcos são cantores experientes e entregaram excelentes Doutor Bartolo e Don Basilio. 
   Desse vez não teve "Nabuccada"! Cleber Papa opta por uma direção clássica e segura. Tudo fica envolvente, agradável e impactante. A movimentação dinâmica dos envolvidos faz o enredo fluir arrancando gargalhadas do público. Os cenários e figurinos de José de Anchieta transportam a ação para a época do libreto, típicos da Commedia Dell'Arte. Os cenários simples e figurinos coloridos dão o tom cômico correto. Acertaram em todos o quesitos.
   A Orquestra Sinfônica Municipal regida pelo sempre competente Roberto Minczuk apresentou sonoridade  e volume compatível com a ópera. Alguns desencontros com os solistas se fizeram presentes. A ideia de colocar a abertura da ópera com a orquestra suspensa no fosso não ajuda e não atrapalha. O Coro Lírico esteve mais uma vez em grande nível sempre recheado de solistas. Muito bem ensaiado por Mário Zaccaro.
  Acabo de ser informado que teremos a ópera Rigoletto de Verdi no Theatro Municipal de São Paulo. Temos que depender de fontes para sabermos o que será apresentado, por que a direção não se manifesta e informa a temporada de 2019?

Texto de Ali Hassan Ayache

terça-feira, 7 de agosto de 2018

IL BARBIERE DI SIVILGIA, Arena di Verona, Agosto / August 2018


(review in English below)

Texto de wagner_fanatic 

Nesta fase da minha vida de melómano, e sendo eu um Wagneriano (não estrito, é certo...), só mesmo uma lenda para me fazer ir a sítios onde nunca pensei ir, teatros e localidades, reforçando simultaneamente o meu gosto por Verdi. Essa lenda é Leo Nucci.



Já diversas vezes comentei com os outros membros deste blog que... cheguei tarde a Leo Nucci. Adivinha-se o seu adeus aos palcos cénicos em Setembro de 2019 no Scala, no papel que Verdi, sem o saber, escreveu para ele: Rigoletto. E foi neste papel que o vi pela primeira vez ao vivo em Janeiro de 2018, em Parma. Já se seguiram o seu último Miller, em Abril em Zurique, Germont no São Carlos de Nápoles em Maio, Macbeth em Liège em Junho e agora, o seu Figaro na Arena di Verona.








Nucci não resistiu em voltar mais uma vez a este palco que pisou mais de 100x (penso que totalizará 115 com a récita de 8 de Agosto) mesmo após ter dito que não voltaria depois da sua récita isolada do Rigoletto em 2017. Acompanhado de um elenco de luxo, onde figuraram nomes como Ferruccio Furlanetto, Nino Machaidze, Dmitry Korchak e Carlo Lepore (este substituindo o inicialmente anunciado Ambrogio Maestri), e sob a direção de um inspiradíssimo e venerado Daniel Oren.






Estava com algum receio da Arena. Tinha dúvidas se a qualidade sonora seria aceitável e se não iria assistir a um espetáculo de massas, vendendo ópera como se de um circo se tratasse. Mas não! O local é realmente mágico! Só assim realmente se manteria por 96 edições e sempre com grandes nomes da lírica. Tem-se a sensação de palco operático mas a “sala clássica” abre-se enormemente num dos mais bonitos tetos que existem, mudando de filtro à medida que o crepúsculo quente de Verão entra na noite densa.





Com o calor vem os leques das senhoras, cujo barulho de abano pode irritar o mais nervoso dos melómanos mas, mesmo assim, tolera-se, porque o calor é grande e estamos num local onde a Ópera saiu do seu usual habitat e se sente que é verdadeiramente de todos. As comodidades habituais de uma casa de Ópera tradicional estão presentes: temos casas de banho que imaginei que seriam portáteis mas não, estão feitas na estrutura da própria Arena, com as paredes em pedra, e temos locais onde se pode comprar bebidas antes ou no intervalo; entre vendedores de gelados com geleiras a tiracolo nas bancadas mais superiores, outros vendem programas e... leques... As cadeiras são confortáveis e há sempre a possibilidade de optimizar o conforto com almofadas que se vendem à entrada para aqueles que ficam nas bancadas mais superiores, onde o assento é de pedra e o conforto glúteo se adivinha menos agradável.

A encenação deste Barbeiro de Sevilha é de Hugo de Ana, reposta e não nova, e passa-se inteiramente num jardim labiríntico, onde sobressaem diversas rosas gigantes. Todos os pormenores cénicos e direção de atores levam a uma perfeita harmonia com o espírito cómico Rossiniano. Termina com um magnífico fogo de artifício por detrás do palco, causando um efeito final marcante.




Nucci esteve brilhante! Este é um papel cómico, ao invés dos outros em que o vi e, talvez por isso, mas acredito também por estar na Arena, a sua felicidade era evidente em cada passo, em cada nota, em cada agradecimento, valorizando sempre o público, a Orquestra e o Maestro. No final da ária Largo al factotum, quando eu já não esperava um bis, eis que do público saem, após aplausos estrondosos, pedidos de bis ao qual acedeu. Mágico! Arranhou num dos agudos em ambas as vezes mas perfeito em tudo o resto. Fazendo uma verdadeira “rasteira ao Tempo”, continua a mostrar que, quando se vive a vida com humildade, sem snobismos, sem procurar fama fácil, assente no trabalho, na dedicação e na paixão pela Música e Ópera durante já mais de 50 anos, a Vida (e, para mim, Deus) dá de volta o privilégio de “um pouco mais”.





Os seus pares estiveram à altura, numa noite que sendo “dele” só assim o foi por ser também “deles”. Ainda temos algumas oportunidades para o ouvir antes desse dia agridoce que será 22 de Setembro de 2019. Espero ir conseguindo participar na sua energia e paixão até lá. Com o que já vi e com o que, se Deus quiser, ainda está para vir, uma coisa poderei sempre lembrar - 2018 foi, é e será sempre, para mim, Ano Nucci!








Texto de wagner_fanatic



IL BARBIERE DI SIVILGIA, Arena di Verona, August 2018

Text by wagner_fanatic 

At this stage of my life as a music lover, and being a Wagnerian (not strict, that's right...), just a legend to make me go to places where I never thought to go, theaters and localities, while reinforcing my taste for Verdi . This legend is Leo Nucci.

Already several times I commented with the other members of this blog that ... I arrived late to Leo Nucci. His adieu to the scenic stages is predicted in September 2019 at La Scala, in the role that Verdi unknowingly wrote to him: Rigoletto. And it was in this role that I first saw him live in January 2018 in Parma. I already followed his last Miller, in April in Zurich, Germont in the Sao Carlo in Naples in May, Macbeth in Liège in June and now, his Figaro in the Arena di Verona.

Nucci could not resist coming back to this stage that he has stepped more than 100x (I think he will complete 115 with the recital of August 8) even after saying that he would not return after his isolated recital of Rigoletto in 2017. Accompanied by a cast with names like Ferruccio Furlanetto, Nino Machaidze, Dmitry Korchak and Carlo Lepore (replacing the initially announced Ambrogio Maestri), and under the direction of an inspired and revered Daniel Oren.

I was afraid of the Arena. I doubted whether the sound quality would be acceptable and whether we would not attend a mass show, selling opera as if it were a circus. But not! The place is really magical! Only thus would it really be maintained for 96 editions and always with great lyric names. It has the feel of operatic stage but the "classic room" opens up enormously in one of the most beautiful ceilings that exist, changing of filter as the hot twilight of summer enters the dense night.

With the heat comes the fans of the ladies, whose fanning noise can irritate the most nervous of music lovers, but even so, he tolerates it, because the heat is great and we are in a place where the Opera has left its usual habitat and feels is truly of all. The usual facilities of a traditional Opera house are present: we have bathrooms that I imagined would be portable but no, they are made in the Arena's own structure with the stone walls, and we have places where we can buy drinks before or in the interval; there are sellers of ice cream with glaciers in the uppermost benches, others sell programs and ... fans ... The chairs are comfortable and there is always the possibility of optimizing comfort with cushions that are sold at the entrance to those who stay on the more superior benches, where the seat is of stone and the gluteal comfort is guessed less pleasant.

The staging of this Barber of Seville is of Hugo de Ana, restored and not new, and is entirely spent in a labyrinthine garden, where stand out several giant roses. All the scenic details and directing of actors lead to a perfect harmony with the Rossinian humorous spirit. It ends with a magnificent firework behind the stage, causing a marked final effect.

Nucci was brilliant! This is a comic role, rather than the others I saw him in, and maybe because of that, but I also believe in being in the Arena, his happiness was evident in every step, every note, every thanks, always valuing the audience, the Orchestra and the Master. At the end of the aria Largo al factotum, when I no longer expected an encore, behold, from the audience, after thunderous applause, requests for an encore arrived. Magic! He scratched one of the high notes at both times but perfect in everything else. Making a real "run-of-the-mill", he continues to show that when one lives life with humility, without snobbery, without seeking easy fame, based on work, dedication and passion for Music and Opera for more than 50 years, Life (and, for me, God) gives back the privilege of "a little more."

His peers were of top quality, one night being "his" just so he was because they were "theirs." We still have some opportunities to listen to him before this bittersweet day that will be September 22, 2019. I hope to be able to participate in his energy and passion until then. With what I have seen and with what, God willing, is still to come, one thing I can always remember - 2018 was, is and will always be for me, Year Nucci!


Text by wagner_fanatic