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maio 24, 2023

************* A LISTA COMUNISTA de HOLLYWOOD


 

 
Sou caçador de bruxas, se elas são comunistas. 
Seria justo se estivessem de volta à Rússia.
ADOLPHE MENJOU 
ator, anos 50
 
 
O comunismo é uma ideologia ensopada de sangue, associada aos crimes de ditaduras nos séculos 20 e 21. Evoca paredões de fuzilamento, campos de trabalho forçado e censura. Surgido no século XIX, deriva do pensamento de Friedrich Engels e, principalmente, de Karl Marx, e inspirou revoluções e massacres. Mascarado por rótulos – socialismo, marxismo, globalismo, social-democracia, petismo etc. – ambiciona doutrinar o Ocidente. A primeira tentativa de oficializar o comunismo aconteceu em 1917, na Rússia, na chamada Revolução Comunista, dando fim a séculos de monarquia czarista. Seu regime totalitário impôs uma política agrícola coletivizada, erradicou a propriedade privada e condenou à morte milhares de russos crédulos e inocentes. 
 
O governo comunista na União Soviética ficou conhecido como o Grande Terror. Promoveu a perseguição, o expurgo e o assassinato de todos aqueles considerados inimigos. Nos anos iniciais, estima-se que cerca de 750 mil pessoas tenham sido mortas sumariamente, sem direito a julgamento justo. Além da Revolução Russa, outros movimentos comunistas sanguinários ocorreram pelo mundo, como a Revolução Chinesa, vitoriosa em 1949, liderada por Mao Tsé-tung, ou a Revolução Cubana, quando, em 1959, mercenários liderados por Fidel Castro e Ernesto Che Guevara derrubaram o governo de Cuba e implantaram o socialismo. Resultaram em longas concentrações autoritárias de poder, miséria, censura, prisões e óbitos.
 
o depoimento do conservador gary cooper
Milhões de mortes das experiências comunistas levaram a um descrédito global da ideologia como sistema político viável. Apesar do fracasso e do pensamento obsoleto, a doutrinação comunista ainda é eficaz em diversos países e vez ou outra ataca com a sua perversa sede de poder. No Brasil, a ofensiva se manifestou de 1922 a 1964, com golpes de Estado em 1930, 1937 e quase mais um em 1964.
 
A Hollywood das décadas de 1930-40 foi terrivelmente contaminada pela sanha comunista. No Screen Writers Guild (SWG), fundado no início dos anos 1930, um sindicato trabalhista ativista de roteiristas, a maior parte dos membros era filiada ao Partido Comunista. Detectado o aparelhamento da “Ameaça Vermelha” (Red Scare), um problema real de infiltração comunista na meca do cinema, o Congresso resolveu contra-atacar em 1941, quando os senadores Burton Wheeler e Gerald Nye lideraram uma investigação do papel de Hollywood na promoção da propaganda soviética. Essas audiências anteciparam outras muito mais sólidas, populares e muitas vezes combatidas que ocorreriam pouco depois da Segunda Guerra Mundial. O Comitê de Atividades Antiamericanas do Congresso (HUAC) havia participado da caça ao vermelho de Hollywood desde o final da década de 1930. A Guerra Fria, no entanto, revigorou o terror vermelho doméstico (houve dois anteriormente, 1917 - 1921 e 1939 - 1941), gerando investigações sobre a infiltração comunista na indústria cinematográfica a partir de 20 de outubro de 1947. As sessões do Comitê focaram em identificar subversivos entre artistas e técnicos de Hollywood. Dos que receberam inicialmente intimações do HUAC, dez se recusaram a testemunhar. Conhecidos como “Os Dez de Hollywood”, foram sentenciados a um ano de prisão por ligações com o comunismo. Após a Suprema Corte ter negado recurso, o cineasta Edward Dmytryk, um dos condenados, denunciou colegas comunistas e pela delação premiada foi libertado. Os outros nove completaram a pena.
 
joseph mccarthy
Os líderes dos estúdios de cinema suspenderam, sem remuneração, os sentenciados. Logo foi anunciado que nenhum subversivo seria contratado. Assim nascia a LISTA COMUNISTA. Apontava profissionais de mídias (cinema, TV, música, rádio, imprensa) inelegíveis para emprego por laços comunistas. A lista foi implementada pelos estúdios para promover credenciais patrióticas diante do público e serviu para proteger a indústria cinematográfica dos danos econômicos que resultariam de uma associação com comunistas.
 
As audiências do HUAC geralmente são encaradas como parte da Era McCarthy, mas Joseph McCarthy não participou delas. O senador iniciou suas investigações em 1950 e se concentrou na penetração comunista no governo dos EUA. Além disso, mesmo não sendo admirador de McCarthy e seus métodos, identifico o termo “macarthismo” como um conceito ilegítimo, uma difamação proposital. Seu suposto significado é “acusações injustas, perseguições e assassinatos de reputação de vítimas inocentes”, com o objetivo de desacreditar como infame e irracional qualquer oposição intransigente ao comunismo. Mas seu significado real é anticomunismo. Apesar de um grupo de pesos-pesados - astros como Humphrey Bogart, Lauren Bacall e Gene Kelly - terem se manifestado contra as investigações, as audiências prosseguiram, interrogando um robusto número de famosos. Perguntavam sem rodeios: “Você é ou foi alguma vez membro do Partido Comunista?” ou “Conhece alguém em Hollywood que pertença ao Partido Comunista?. Por patriotismo, testemunhas – o diretor Elia Kazan, atores como Gary Cooper e Robert Taylor ou a colunista Hedda Hopper, por exemplo – revelaram ao Comitê colegas comunistas, além de denunciarem a influência comunista no cinema.
  
dalton trumbo
Um terço dos intimados cooperou com o Comitê. Outros, que incluíam escritores e roteiristas como Dalton Trumbo e Ring Lardner Jr., reclamaram que as audiências eram ilegais e violavam a Primeira Emenda da Constituição. Eles tomaram uma decisão que se revelou desastrosa: não se negaram a responder a nenhuma pergunta, mas aproveitaram para atacar a comissão - ou seja, responderam “à sua maneira”. Essa tática deu munição a executivos de cinema que queriam colaborar. No final do julgamento, receberam voz de prisão.  

O sólido muro de oposição que os suspeitos esperavam dos líderes da indústria desmoronou quando Jack Warner, o poderoso presidente da Warner Brothers, testemunhou no primeiro dia das audiências. Diante dos questionadores, o produtor disse: “É um privilégio comparecer perante a comissão para ajudar a facilitar seu trabalho.” Alegou que há mais de uma década comunistas trabalhavam na indústria e que demitiu muitos deles, citando vários. Louis B. Mayer, chefão da Metro-Goldwyn-Mayer, insistiu que os produtores poderiam lidar com o problema comunista. O último chefe de estúdio a testemunhar, Walt Disney, reclamou dos esforços comunistas para aparelhar seus cartunistas e concordou que havia uma ameaça comunista em Hollywood.
 
O veredito da mídia e de certos historiadores, quase sempre de esquerda, sobre as audiências, é profundamente condenatório: alegam que destruíram carreiras talentosas, arruinaram vidas, incentivaram uma “caça às bruxas”. No entanto, essa narrativa militante não é correta. Ela não apenas ignora a verdadeira natureza do HUAC, como também distorce a investigação. Usa a mesma metodologia dos comunistas, assumindo que qualquer um pode reinventar os fatos como quiser, desde que o faça promovendo a esquerda. Neste caso, mancham a imagem do HUAC. Colocando os pingos nos is, existem questões éticas importantes envolvidas na investigação do comunismo em Hollywood. Não era um castigo por opinião, mirava a filiação ao Partido Comunista, o qual era dirigido e financiado por uma potência estrangeira em plena Guerra Fria. 
 
manifestação de bogart, bacall e outros
Dentre as ações e os objetivos do partido soviético, incluíam sabotagens, atos terroristas, espionagem e conspirações. O Congresso investigava o potencial de atividade criminosa e não o mérito da ideologia comunista. Tampouco penso ser imoral ou inadequado organizações e corporações inserirem comunistas em uma lista negra. Era um boicote privado, jamais uma censura governamental. As audiências não foram atentados a direitos ou a liberdade de expressão, apenas chamaram a atenção para a conspiração generalizada.
 
As sessões foram retomadas em março de 1951. Quando o HUAC anunciou a reabertura, os produtores de cinema prometeram total cooperação e afirmaram que as testemunhas que não negassem sua filiação comunista teriam dificuldade em conseguir trabalho nos estúdios. Os intimados, tendo aprendido a lição com as audiências de outubro de 1947, reconheceram que só tinham duas opções se quisessem evitar a prisão: invocar a Quinta Emenda e serem demitidos; ou cooperar com o Comitê, admitindo a filiação ao Partido Comunista, desculpando-se, fornecendo nomes de outros membros e elogiando o Comitê. O ator Larry Parks, a testemunha inicial, inicialmente se recusou a confessar nomes, mas terminou colaborando. As testemunhas que se seguiram revelaram centenas de comunistas.
 
Além do HUAC, grupos privados monitoravam as indústrias de entretenimento e publicavam artigos e panfletos que identificavam subversivos. Talvez o mais poderoso desses grupos tenha sido a Legião Americana, que não apenas disseminou informações sobre associações comunistas de trabalhadores da mídia, mas também incentivou seus 2,8 milhões de membros a boicotarem filmes feitos por artistas que não haviam cooperado com o HUAC. Em junho de 1950, um livro intitulado “Canais Vermelhos: o Relatório da Influência Comunista no Rádio e na Televisão” foi publicado por três ex-agentes do FBI, que lançaram também a revista “Counterattack”, expondo a influência comunista no cinema. Na publicação constavam 151 comunistas (principalmente atores e atrizes) que teriam relação com o show business. 
  
roteiristas intimados em 1947
A mais famosa LISTA COMUNISTA do CINEMA começou em 1947, quando os executivos demitiram cinco dos interrogados sob contrato e prometeram não os recontratar até que se livrassem de sua mancha comunista. Essa lista cresceu para mais de trezentos após as audiências dos anos 1950. Mas não havia uma lista propriamente dita. Os chefes de estúdio obtinham informações sobre quem excluir, das audiências do HUAC; dos nomes coletados pela Legião Americana e distribuídos aos estúdios; e do livro “Canais Vermelhos”. A única maneira de sair da lista era se desfiliar do Partido Comunista e delatar.
 
Nos anos 1950, os executivos de cinema produziram quase cinquenta filmes anticomunistas como um incentivo aos membros do HUAC, que lamentavam a escassez de tais filmes. Entre eles, vi “Casei com um Comunista / The Woman on Pier 13” (1949), “Fui Comunista para o FBI / I Was a Communist for the FBI” (1951), “Aventura Perigosa / Big Jim McClain” (1952) e “Não Desonres o Teu Sangue / My Son John” (1952).
Na mesma época, as LISTAS COMUNISTAS baniram de empregos 325 roteiristas, atores, diretores, cenógrafos, figurinistas e fotógrafos. No entanto, os escritores da lista tiveram um pouco mais de facilidade do que os atores ou diretores, eles podiam escrever sob pseudônimos ou por trás de fachadas. Alguns deles, infelizmente, são celebrados como heróis e homenageados em cinebiografias premiadas.
 
No começo dos anos 1960, a tumultuada cruzada anticomunista diminuiu e a LISTA COMUNISTA de HOLLYWOOD caiu em desuso. Primeiro, o diretor Otto Preminger e, posteriormente, a Universal, anunciaram que Dalton Trumbo receberia créditos pelos roteiros de “Exodus / Idem” (1960) e “Spartacus / Idem” (1960). A partir daí, integrantes da lista voltaram ao trabalho. Um número significativo não conseguiu recuperar o equilíbrio na indústria cinematográfica. Mas a lista só acabou realmente quando os produtores se convenceram de que a contratação de profissionais comunistas não mais impactava negativamente as receitas de bilheteria.
 
o conservador ronald reagan
O resumo convencional e mentiroso sobre o HUAC e a LISTA COMUNISTA de HOLLYWOOD equivale a uma condenação zelosa desapegada do contexto histórico, da infiltração e do significado moral do comunismo. Ou seja, uma análise alheia à realidade dos fatos, uma fraude que desonra milhões de pessoas tiranizadas e assassinadas pelos regimes comunistas. A penetração dos subversivos em Hollywood 1930-40 é fato. Que se faça justiça às testemunhas corajosas e às vítimas soviéticas-chinesas que morreram enquanto comunistas dos EUA encobriam opressores e promoviam essa ideologia nefasta. O HUAC condenou os males do comunismo. Estava certo em fazê-lo.
  
Finalizo com uma sugestão. A Hollywood de hoje necessita de um remake anticomunista, investigações densas, julgamentos mediáticos e, por que não, cancelamento profissional. Seria justo ver no banco de réus, intimadas a depor por vicissitudes comunistas, subversivos como George Clooney, Leonardo DiCaprio, Meryl Streep, Mark Ruffalo, Willem Dafoe, entre dezenas de outros. Mais de 70 anos passados, esses comunistas, travestidos de globalistas-progressistas, lambem as botas do ditador chinês Xi Jinping. Uma vergonha. Impunes, perversos e desonestos politicamente, ferem de morte a história, a fé cristã e os valores do Ocidente.
 
ALGUNS da LISTA COMUNISTA de HOLLYWOOD
(de 1948 a 1960)
 
AARON COPLAND
(1900 – 1990. Nova Iorque / EUA)
compositor
 
ABRAHAM POLONSKY
(1910 – 1999. Nova Iorque / EUA)
roteirista e diretor
 
ALEXANDER KNOX
(1907 – 1995. Strathroy-Caradoc, Ontário / Canadá)
ator
 
ALINE MACMAHON
(1899 – 1991. McKeesport, Pensilvânia / EUA)
atriz
 
ANNE REVERE
(1903 – 1990. Nova Iorque / EUA)
atriz
 
ARTHUR LAURENTS
1917 – 2011. Nova Iorquer / EUA)
escritor e roteirista
 
ARTHUR MILLER
(1915 – 2005. Nova Iorque / EUA)
dramaturgo
 
ARTIE SHAW
(1910 – 2004. Nova Iorque / EUA)
músico de jazz
 
BARBARA BEL GEDDES
(1922 – 2005. Nova Iorque / EUA)
atriz
 
BURGESS MEREDITH
(1907 – 1997. Cleveland, Ohio / EUA)
ator e diretor

BURL IVES
(1909 – 1995. Hunt City, Illinois / EUA)
cantor de folk e ator
 
CARL FOREMAN
(1914 – 1984. Chicago, Illinois / EUA)
produtor e roteirista
 
CHARLES CHAPLIN
(1889 – 1977. Londres / Reino Unido)
ator, diretor e produtor
 
DALTON TRUMBO
(1905 – 1976. Montrose, Colorado / EUA) 
roteirista
 
DASHIELL HAMMETT
(1894 – 1961. Condado de Saint Mary's, Maryland / EUA)
escritor
 
DONALD OGDEN STEWART
(1894 – 1980. Columbus, Ohio / EUA)
roteirista
 
DOROTHY COMINGORE
(1913 – 1971. Los Angeles, Califórnia / EUA)
atriz
 
DOROTHY PARKER
(1893 – 1967. Long Branch, Nova Jersey / EUA)
escritora e roteirista
 
EDDIE ALBERT
(1906 – 2005. Rock Island, Illinois / EUA)
ator
 
EDWARD DMYTRYK
(1908 – 1999. Grand Forks, Colúmbia Britânica / EUA) 
cineasta
 
EDWARD G. ROBINSON
(1893 – 1973. Bucareste / Romênia)
ator
 
GALE SONDERGAARD
(1899 – 1985. Litchfield, Minnesota / EUA)
atriz

GARSON KANIN
(1912 – 1999. Rochester, Nova Iorque / EUA)
escritor e diretor
 
GYPSY ROSE LEE
(1911 – 1970. Seattle, Washington / EUA)
vedete e atriz
 
HOWARD da SILVA
(1909 – 1986. Cleveland, Ohio / EUA)
ator
 
HOWARD DUFF
(1913 – 1990. Bremerton, Washington / EUA)
ator
 
IRVING PICHEL
(1891 – 1954. Pittsburgh, Pensilvânia / EUA)
diretor
 
IRWIN SHAW
(1913 – 1984. Nova Iorque / EUA)
escritor
 
JOHN CROMWELL
(1887 – 1979. Toledo, Ohio / EUA)
diretor e ator
 
JOHN GARFIELD
(1913 – 1952. Nova Iorque / EUA)
ator
 
JOHN IRELAND
(1914 – 1992. Vancouver / Canadá)
ator
 
JOSÉ FERRER
(1912 – 1992. San Juan / Porto Rico)
ator e diretor

JOSEPH LOSEY
(1908 – 1984. La Crosse, Wisconsin / EUA)
diretor
 
JUDY HOLLIDAY
(1921 – 1965. Nova Iorque / EUA)
atriz
 
JULES DASSIN
(1911 – 2008. Middletown, Connecticut / EUA)
diretor
 
KAREN MORLEY
(1909 – 2003. Ottumwa, Iowa / EUA)
atriz
 
KIM HUNTER
(19232 – 2012. Detroit, Michigan / EUA)
atriz
 
LARRY PARKS
(1914 – 1975. Olathe, Kansas / EUA)
ator
 
LEE GRANT
(1925. Nova Iorque / EUA)
atriz
 
LEE J. COBB
(1911 – 1976. Nova Iorque / EUA)
ator
 
LENA HORNE
(1917 – 2019. Nova Iorque / EUA)
cantora e atriz

LEO PENN
(1921 – 1998. Lawrence / EUA)
ator
 
LEONARD BERNSTEIN
(1918 – 1990. Lawrence, Massachusetts / EUA)
compositor e regente
 
LILLIAN HELLMAN
(1905 – 1984. Nova Orleans / EUA)
dramaturga, escritora e roteirista
 
LUIS BUÑUEL
(1900 – 1983. Calanda / Espanha)
diretor
 
LUTHER ADLER
(1903 – 1984. Nova Iorque / EUA)
ator e diretor
 
MADY CHRISTIANS
(1892 – 1951. Viena / Áustria)
atriz
 
MARGO
(1917 – 1985. Cidade do México / México)
atriz e dançarina
 
MARGUERITE ROBERTS
(1905 – 1989. Greeley, Colorado / EUA)
roteirista
 
MARTHA SCOTT
(1912 – 2003. Jamesport, Missouri / EUA)
atriz

MARTIN RITT
(1914 – 1990. Nova Iorque / EUA) 
diretor
 
MICHAEL GORDON
(1909 – 1993. Baltimore, Maryland / EUA)
diretor
 
MICHAEL WILSON
(1914 – 1978. McAlester, Oklahoma / EUA)
roteirista
 
ORSON WELLES
(1915 – 1985. Kenosha, Wisconsin / EUA)
ator, roteirista e diretor
 
PAUL ROBESON
(1898 – 1976. Princeton / EUA)
ator e cantor
 
PETER VIERTEL
(1920 – 2007. Dresden / Alemanha)
roteirista
 
RICHARD ATTENBOROUGH
(1923 – 2014. Cambridge / Reino Unido)
ator, diretor e produtor
 
RING LARDNER JR.
(1915 – 2000. Chicago / EUA)
roteirista
 
RUTH GORDON
(1896 – 1985. Quincy, Massachusetts / EUA)
atriz e roteirista

SAM JAFFE
(1891 – 1984. Nova Iorque / EUA)
ator
 
SAMSON RAPHAELSON
(1894 – 1983. Nova Iorque / EUA)
roteirista e dramaturgo
 
SELENA ROYLE
(1904 – 1983. Nova Iorque / EUA)
atriz
 
STELLA ADLER
(1901 – 1992. Nova Iorque / EUA)
atriz e professora de interpretação
 
UTA HAGEN
(1919 – 2004. Göttingen / Alemanha)
atriz e professora de interpretação
 
VERA CASPARY
(1899 – 1987. Chicago / Ilinois)
escritora
 
WALDO SALT
(1914 – 1987. Chicago, Illinois / EUA)
roteirista
 
WILL GEER
(1902 – 1978. Frankfort, Indiana / EUA)
ator
 
ZERO MOSTEL
(1915 – 1977. Nova Iorque / EUA)
ator
 
lillian hellman

FONTES
“Actors on Red Alert: Career Interviews with 
Five Actors and Actresses Affected by the Blacklist” (1999)
de Anthony Slide
 
“Ayn Rand and Song of Russia: Communism 
and Anti-Communism in 1940s Hollywood” (2005)
de Robert Mayhew
 
“Blacklisted – The Film Lover´s 
Guide to the Hollywood Blacklist” (2003)
de Paul Buhle e Dave Wagner
 
“Communism in Hollywood: The Moral Paradoxes 
of Testimony, Silence, and Betrayal” (2009)
de Alan Casty
 
“High Noon: The Hollywood Blacklist 
and the Making of an American Classic” (2017)
de Glenn Frankel
 
“The Hollywood Motion Picture Blacklist: 
Seventy-Five Years Later” (2022)
de Larry Ceplair
 
“The Inquisition in Hollywood: Politics 
in the Film Community, 1930-60” (2003)
de Larry Ceplair e Steven Englund
 
“The Red and the Blacklist: The Intimate Memoir 
of a Hollywood Expatriate” (2003)
de Norma Barzman
 
“Show Trial”
(2018)
de Thomas Doherty
 
“Tender Comrades: 
a Backstory of the Hollywood Blacklist” (1997)
 de Patrick McGilligan
 
GALERIA de FOTOS


julho 03, 2011

**** A MITOLÓGICA MARLENE de ARTE PERVERSA

marlene dietrich



A MITOLÓGICA MARLENE de ARTE PERVERSA 
e REFINADOS DEBOCHES

Tudo que ouvimos falar de mítico, dourado e maravilhoso do cinema dos anos 30, 40, 50, 60, é hoje em dia, com o milagre do aparecimento dos filmes em DVD (e sua subsequente banalização) nas bancas de revista, livrarias etc, algo bastante acessível. Na fase inicial em que os clássicos que sempre quis ver foram aparecendo nesse formato, eu lamentava profundamente não ter dinheiro para comprar tudo, ficava encantado como um menino perdido numa loja de doces e tinha dificuldade enorme em escolher o que queria dentre tantas ofertas. O tempo, porém, me deu distanciamento crítico, como era inevitável: hoje sei que Nostalgia é um item que pode conter muita coisa equívoca, que nem todos esses filmes eram bons (alguns são francamente desprezíveis) e que muito do que passa por fabuloso em alguns clássicos tem que ser visto com a devida ironia que o saber e o tempo nos dão. Ademais, não é raro se topar com edições que, por lacradas, reservam péssimas surpresas – filmes em mau estado, extraídos de VHS, com legendas horríveis quando não ridículas, e que,  mesmo quando intactos, ficaram irremediavelmente “datados”, envelheceram mal.


Mas há coisas que, por absurdas do ponto de vista da mudança dos costumes, da evolução do próprio cinema e da relativização dos estereótipos, por cômicas, de um kitsch pretensioso e perverso, contém um apelo irresistível. Acho que nesse aspecto ninguém tem tanta diversão e charme quanto a estrela MARLENE DIETRICH. Levá-la muito a sério é não entender nem curtir aqueles filmes, principalmente os feitos com Sternberg. Os exageros da estética “sternberguiana” tornavam belas e misteriosas as coisas mais disparatadas, e os enredos de seus filmes com DIETRICH são nada mais que fiozinhos de histórias lineares, pretextos para poses, insolências, frases dúbias, suspiros e olhares da estrela. Aconselho aos que ainda não conhecem DIETRICH que fiquem prevenidos ao pegar algum desses filmes: podem achar que o anacronismo é grande demais, que ela era uma atriz ruim, uma caricatura e uma figura superestimada. A tendência a ter esta opinião é compreensível. É preciso ter paciência e um espírito refinado, ser daqueles críticos que não excluem com nariz empertigado as delícias estéticas do deboche. É preciso munir-se de um bom conhecimento da história de Hollywood e seus maneirismos, das condições em que eram realizadas aquelas produções, e do zeitgeist (espírito da época), sem dúvida. Daí, o deleite é certo.

DESFILE de MODA no DESERTO

Outro dia um amigo me emprestou O Jardim de Allah / The Garden of Allah” (1936), filme famoso que está fácil de encontrar nas bancas. É uma relíquia absoluta de um tipo de cinema que não se faz mais, a não ser com doses maciças de deboche intencional. A produção, de David O. Selznick, é anterior ao ...E o Vento Levou / Gone Earth the Wind”, que ele faria em 1939. Como é dos primeiros filmes a cores, levou Oscar de fotografia. Mas, preparem-se. O que Selznick entendia por filmes a cores incluía crepúsculos sumarentos em laranja, abóbora, quase-escarlate, cinema de deslavado cartão postal, com um mau-gosto vistoso que, por isso, encantava platéias em quantidades sempre maiores (o kitsch jamais teve problemas em acertar-se com as demandas estéticas do público de massa, que por definição não é nem pode ser refinado). Em O Jardim de Allah”, dirigido pelo polonês chamado Richard Boleslawski que não teve carreira das mais lembradas do cinema, tome camelos ao pôr do sol, languidamente curvados. O deserto, que é inverossímil, parece ter sido improvisado na Califórnia mesmo (naquela época, filmar em locações não era prática disseminada) e tudo vai ao delírio, com noites voluptuosas como uma idealização popular da Arábia, tamareiras, areais divinos, dunas de sonho e um ar tão fake que a gente pensa estar diante daqueles cartões festivos em que um sujeito não resistiu a salpicar purpurina sobre azul-profundo para simular estrelas.

Marlene entra no filme como certa Dominique Enfindem, que acabou de perder o pai e volta a um convento, onde é espiada pelas garotas como uma excentricidade do “mundo do pecado”, uma estrela, não como um personagem contrito e sofrido (ela nem tenta convencer na pele de uma sofredora ascética). Pede amparo espiritual a uma madre e é aconselhada a ir para o deserto, para uma temporada de autoconhecimento. A julgar pela superficialidade do filme, seria o equivalente de hoje em dia mandar alguma dondoca deprimida pela vida ociosa para um spa ou um resort para “restaurar as energias”. Deserto no filme é chance para que se desfile figurino. Nunca uma sofredora à procura de purgação no deserto foi como MARLENE DIETRICH. Alguém esperava que ela fosse ficar austera em sua elevada missão espiritual? Never. Mune-se dos mais lindos chapéus, das mais esvoaçantes echarpes, de vestidos, batas e um aparato que a torna, a cada momento, mais bela e mais manequim (aliás, era de “manequim indolente” que a crítica Pauline Kael a chamava). Nunca um grão de areia perturba aqueles cílios, aqueles olhares, e nunca o vento desfaz aquele penteado senão para torná-lo mais glamouroso. E nem é deserto o que se mostra, mas uma sucessão de oásis, onde até recepciona homens deslumbrados por ela com taças de champanhe que ninguém sabe como ela levou para lá. Convém dizer que, nesse deserto, ela é amada por um monge trapista que fugiu da ordem, um aturdido e péssimo Charles Boyer que nunca tem a mínima química com ela, que parece mais um garotão assustado. Jamais acreditamos que ele a ame. E ela corresponde a esse “amor” a seu modo: pondo um vestido novo ainda mais deslumbrante, quebrando a aba do chapéu, chorando – quando chora – sem a menor convicção. Não há filme mais delirante, mais camp, mas, se você relaxa e entra no espírito, é uma diversão fantástica.

Uma ÓTIMA “LOIRA GELADA” para HITCHCOCK


Para se ter idéia de como MARLENE era a própria desfaçatez, veja-se “Marrocos / Morocco” (1930), seu primeiro filme com Sternberg em Hollywood e grande sucesso popular, hoje em dia totalmente implausível e coisa para rir mesmo. MARLENE DIETRICH é a mulher de um milionário (Adolph Menjou) e vai parar em Marrocos por motivos que não precisamos saber (o passado misterioso desses personagens que fazia é absurdamente fácil de adivinhar, mas vem envolto em tantos muxoxos, olhares alusivos e esquivanças que fica lindamente “obscuro”). Lá, acaba conhecendo o soldado vivido por Gary Cooper muito jovem e muito bonito (e um ator lastimável, nesse início). Os dois são tão obviamente astros que, claro, tinham que ter um caso, e fazem muitas caras e bocas um para o outro. O final é inteiramente absurdo, e na verdade torna Cooper o único elemento “fatal” do enredo, mas é divertido supor, perversamente, a julgar pela conivência do personagem de Menjou com as liberdades tomadas pela mulher, que o marido estivesse fascinado por Cooper também ou curtindo muito sonsamente um discreto ménage à trois. Isso era bem Sternberg.

MARLENE, porém, passou por vários grandes diretores, Wilder, Welles, Hitchcock...Outra jornada em DVD com ela me levou a Pavor nos Bastidores / Stage Fright”, realizado na Inglaterra em 1950.  É um dos “filmes menores”, do Mestre do Suspense, segundo a crítica, mas mesmo em filmes assim Hitchcock demonstra mais talento que outros diretores em seus filmes principais. É a história de uma garota que aspira a ser atriz (Jane Wyman) e namora um sujeito (Richard Todd) que acaba de lhe confessar que tinha um caso com uma mulher casada que acabara de matar o marido e, para protegê-la, ele decidira ser tomado pelo assassino. A participação de MARLENE DIETRICH começa não por ela, mas por um pedaço ensangüentado de vestido. Depois, rola um show de desfaçatez e mentira. O que é curioso é que, em geral ao se mencionar Grace Kelly, Janet Leigh, Kim Novak, Tippi Hendren, entre outras, não se diga nunca que MARLENE foi também uma perfeita “loira gelada” para Hitchcock. Ela é essa Charlotte Inwood que manipula homens com uma displicente insolência (a maior especialidade da estrela, que era sempre melhor como mulher má ou muito fria). Para se ter uma ideia, ela acha que o assassino, um Jonathan estupefato (pelos olhares desvairados e os faniquitos, ele já prenuncia o Norman Bates de Psicose / Psycho”, 1960), é um cãozinho seu, não mais. Está maravilhosa vestindo-se de viúva e exigindo que, naquele negror todo de sua roupa, entre um decote, pois, pelo amor de Deus, ninguém é de ferro...E depois canta com o maior cinismo “The Laziest Gal in Town”, de Cole Porter, número musical completo, o que era raro em filmes de Hitchcock (fala-se que ele foi dominado por ela durante as filmagens e não pôde exercer seu controle ditatorial). Melhor ainda é quando, numa feira teatral inglesa, sob a chuva, ao cantar “La Vie en Rose”, recebe das mãos do garoto uma boneca com um vestido ensangüentado (Hitchcock parece estar dizendo “não, agora é la vie en rouge”) e tem um colapso. Colapso de MARLENE DIETRICH, bem entendido, porque a pose nunca desmorona por completo.

A COISA MENOS NATURAL DESTE MUNDO


MARLENE DIETRICH é adorada até hoje porque representa a coisa menos natural deste mundo: uma estrela de verdade. Produto acabado e levado à transcendência pelo “star system” da Hollywood dos anos 30, teve uma carreira mais acidentada e confusa que a de Greta Garbo, a outra grande estrela mítica de seu tempo, já que não abandonou o cinema tão depressa. Era caricata e gozadora (nos extras de Pavor nos Bastidores”, os depoimentos de Jane Wyman e de Patricia, filha de Alfred Hitchcock, são as provas de que era uma mulher que divertia a todos). Tinha menos talento dramático que Garbo – cujos personagens eram invariavelmente desprovidos de humor – e talvez se levasse menos a sério. Duvido que não desse lá umas boas risadas nos bastidores ao interpretar aquela Dominique de O Jardim de Allah”. Era inteligente, uma alemã já meio blasé que saiu de uma Berlim muito libertina para uma Hollywood careta, ao consagrar-se internacionalmente com O Anjo Azul em 1929. Seus filmes com Von Sternberg, seis ao todo, são monumentos de uma arte que só foi cair sob o olhar rígido dos exegetas tempos depois (o público via aquilo como diversão e nada mais). A falecida crítica Pauline Kael, aliás, lamentava que a crítica de cinema dos anos 60 e 70, especialmente a francesa, dedicasse tantos ensaios sérios a um tipo de filme – o de Sternberg – que, na sua origem, foi compreendido como entretenimento, escapismo de boa qualidade ou pouco mais que isso. O certo é que MARLENE não pareceu preocupada em ser atriz, e isso por longo tempo. Contracenou com todo mundo, de Gary Cooper a John Wayne, passou por Fritz Lang (de quem não gostava), por Hitchcock, mas, se tinha um diretor que admirasse, era Billy Wilder, que considerava o homem mais inteligente de Hollywood e com quem filmou, já veterana, A Mundana / A Foreign Affair” (1948) e Testemunha de Acusação / Witness for the Prosecution” (1957).

Estava praticamente no fim, era já maior que si mesma, quando fez A Marca da Maldade / Touch of Evil” (1958), com Orson Welles, em 1958. Aparece num salão barato, precedida por uma pianola, como aquela cartomante de peruca preta e, tragando um charuto e dando um daqueles olhares que só ela sabia dar, diz ao xerife vivido por Welles: “Você está um lixo. Anda comendo muito doce.” E a gente ali já pressente que o personagem está predestinado a um fim terrível. Se MARLENE DIETRICH emitisse uma sentença lúcida, e ainda por cima vestida de cartomante, pobre do homem a quem a sentença era dirigida! Grande mulher, muito mais uma estrela que uma atriz, realmente. Mas com uma classe que alguma estrela que a imite por aí, por mais que se esforce, jamais alcançará. É sair à procura desses antigos filmes imperecíveis e conferir.

texto de 
CHICO LOPES