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outubro 25, 2010

************** CENA de "ALMAS PERVERSAS"

joan bennett como kitty march


O FURADOR de GELO

Descobre-se que o primeiro marido de Adele ainda vive. Christopher (Edward G. Robinson), o segundoi marido, está livre para se casar com Kitty March (Joan Bennett), a prostituta que ele vem sustentando e pela qual desviou fundos da empresa. Ao correr para o quarto dela, convicto de que ela o escolherá, em detrimento de seu namorado vigarista Johnny (Dan Duryea), encontra-a na cama, de négligé.

Kitty: O que você veio fazer aqui?
Christopher: Pedir-lhe que case comigo.
Kitty: E a sua mulher?
Christopher: Não tenho mulher alguma. Acabou.
Kitty: Pelo amor de Deus, você não...
Christopher: O marido dela apareceu. Estou livre. (Ela esconde o rosto num travesseiro) Não me importa o que aconteceu. Posso casar com você agora. Quero que seja minha mulher. Vamos embora juntos. Para bem longe, assim você poderá esquecer esse outro homem. Por favor, não chore, Kitty.
Kitty (erguendo-se e encarando-o): Não estou chorando, seu imbecil. Estou rindo.
Christopher: Kitty!
(Chocado, ele dá um passo para trás e esbarra no balde de gelo. Pega o furador de gelo.)
Kitty: Tive vontade de rir na sua cara desde a primeira vez que o vi. Você é velho e feio e estou cheia de você. Cheia, cheia, cheia!
Christopher: Kitty, pelo amor de Deus!
Kitty (sentando-se em atitude de desafio, com as mãos nos quadris): Você vai matar Johnny? Queria ver você tentar. Ora, ele lhe quebraria todos os ossos do corpo. Ele é um homem. Você quer casar comigo? Você? Caia fora daqui! Fora! Vá para longe de mim.
(Enquanto ele avança ameaçadoramente na direção dela com o furador de gelo) Chris! Chris! Fique longe de mim! Chris! Chris!
(Ela tenta se esconder sob as cobertas. Ele a perfura repetidas vezes)

ALMAS PERVERSAS (Scarlet Street, 1945), direção de Fritz Lang. EUA, policial. P& B, 103 mins. Elenco: Edward G. Robinson, Joan Bennett, Dan Duryea e Rosalind Ivan.

outubro 18, 2010

**** SALA VIP: "O CÍRCULO VERMELHO" e OUTROS






alain delon

O CÍRCULO VERMELHO
(Le Cercle Rouge, 1970)
 
País: França e Itália
Gênero: Policial
Duração: 140 mins.
Cor
Produção: Robert Dorfmann (Corona)
Direção e Roteiro: Jean-Pierre Melville
Fotografia: Henri Decae
Edição: Marie-Sophie Dubus
Música: Éric Demarsan
Cenografia: Théo Meurisse (d.a.); Pierre Charron (déc.)
Vestuário: Colette Baudot
Elenco:
Alain Delon (“Corey”), André Bourvil (“Comissário Mattel”),
Gian-Maria Volonté (“Vogel”), Yves Montand (“Jansen”),
François Périer (“Santi”), Paul Crauchet, Paul Amiot, Pierre Collet,
André Ekyan e Jean-Pierre Posier

Nota: ***** (ótimo)

AMBIÇÃO NOIR

Apesar da importância da obra do francês Melville, ele ainda é pouco reconhecido no Brasil. Cineasta de características bem particulares, cético e realista, trabalha com brilhante transposição do universo do filme noir norte-americano para o cenário europeu. Do gênero clássico, o seu cinema pessimista valoriza os protagonistas silenciosos e taciturnos, de moral dúbia, que podem tanto ser policiais ou criminosos, mas que na maioria das vezes relativizam os limites que separam a lei do crime. As intricadas tramas criminais são entremeadas por longos silêncios e uma série de elipses que acabam por convergir para um interessante exercício de tempo narrativo, que pode se dilatar ou se comprimir, respectivamente, ao sabor das intenções do diretor, que sabe conduzi-las com inequívoca maestria. O CÍRCULO VERMELHO é uma de suas obras-primas, onde mais uma vez faz uso do thriller para revelar a imensa ambiguidade moral do homem e da sociedade. Como Corey, o ladrão que sai da prisão direto para assaltar uma joalheria, o mitológico Alain Delon se supera, numa atuação arrebatadora praticamente sem mover um músculo do rosto. Mas não só ele, Montand, Volonté e Bourvil também estão excepcionais. Este é um dos fabulosos policiais da história do cinema.

martine carol no papel-título
 
LOLA MONTÈS
(Lola Montès, 1955)

País: França e Alemanha
Gênero: Drama
Duração: 115 mins.
Cor
Produção: Ralph Baum e Albert Caraco 
(Gamma-Film / Florida / Union Films)
Direção: Max Ophuls
Roteiro: Max Ophuls, Annette Wademant e Jacques Natanson
Adaptação do romance de Cécil Saint-Laurent
Fotografia: Christian Matras
Edição: Madeleine Gug
Música: Georges Auric
Cenografia: Jean D`Eaubonne e Willy Schatz (d.a.);
J. Gut e P. Duquesne (déc.)
Vestuário: Marcel Escoffier e Georges Annenkov
Elenco:
Martine Carol (“Lola Montéz”), Peter Ustinov ("Mestre de Cerimônia"),
Anton Walbrook ("Ludwig I"), Henri Guisol, Lise Delamare,
Paulette Dubost ("Josefine"), Oskar Werner, Ivan Desny, Jean Galland,
Will Quadflieg e Helena Manson.

Nota: ***** (ótimo)

BARROCO e REFINADO

Estilista e mestre do cinema barroco, o austríaco Max Ophuls narra com requinte a vida de famosa e formosa bailarina que destruiu o coração de muitos homens. Ambicioso e de grande impacto visual – a fotografia é do mestre Christian Matras –, sofreu na época de seu lançamento a mutilação de uma remontagem, perpetrada pela  produtora com vistas à sua distribuição comercial. Abalado, o coração do cineasta não suportou o golpe e ele morreu um mês depois da apresentação da nova montagem, em 1957. Relançada em Cannes em 1968, a versão do diretor conheceu finalmente o êxito de crítica.  Refinado e preciosista, Ophuls cultiva um sentido pictórico de imagens e elabora uma narração sutil, criticando a frivolidade de seus personagens. O elenco é perfeito. Inclusive a inexpressiva atriz francesa Martine Carol parece que nasceu para o papel-título. Mas já pensou se Lola fosse Simone Signoret ou Jeanne Moreau?

vivien leigh, o diretor stanley kramer
 e simone signoret

A NAU dos INSENSATOS
(Ship of Fools, 1965)

País: EUA
Gênero: Drama
Duração: 143 mins.
P & B
Produção: Stanley Kramer (Columbia Pictures)
Direção: Stanley Kramer
Roteiro: Abby Mann
Adaptação do romance de Katherine Anne Porter
Fotografia: Ernest Laszlo
Edição: Robert C. Jones
Música: Ernest Gold
Cenografia: Robert Clatworthy (des. prod.); 
Joseph Kish (d.a.); (déc.)
Vestuário: Joe King, Bill Thomas e Jean Louis
Elenco:
Vivien Leigh (“Mary Treadwell”), Simone Signoret (“A Condessa”),
José Ferrer (“Rieber”), Lee Marvin (“Tenny”),
Oskar Werner (“Dr. Schumann”), Elizabeth Ashley (“Jenny”),
George Segal (“David”), José Greco (“Pepe”),
Michael Dunn (“Glocken”), Charles Korwin (“Capitão Thiele”),
Heinz Ruehmann (“Lowenthal”), Lilia Skala (“Frau Hutten”),
Barbara Luna (“Amparo”), Alf Kjellin (“Freytag”),
Werner Klemperer e Olga Fabian.

Nota: **** (muito bom)

Prêmios:
Oscar de Melhor Fotografia e Melhor Cenografia;
Melhor Ator (Marvin) no National Board of review;
Melhor Ator (Werner) no Círculo dos Críticos de Cinema de Nova York.

PASSAGEIROS da VIDA

Antiga alegoria muito usada na cultura ocidental, “a nau dos insensatos” é imbuída de um senso de autocrítica, descrevendo o mundo como uma nau cujos passageiros perturbados nem sabem nem se importam para onde estão indo. O mesmo acontece na emocionante e sombria superprodução de Stanley Kramer baseada no best-seller de Katharine Anne Porter. A bordo de um transatlântico rumo à Alemanha pré-Hitler, durante 36 dias, vários peculiares passageiros revelam suas vidas, perdidos em suas próprias experiências e representando a sociedade como um todo. Com um elenco em estado de graça, brilha principamente a francesa Simone Signoret (indicada ao Oscar de Melhor Atriz), acompanhada de perto pelo nazista mulherengo de Jose Ferrer, Lee Marvin, Vivien Leigh – em seu último filme – e Oskar Werner. Possivelmente é o melhor filme de Kramer. A refinada, frágil e alcoolatra Mary Treadwell da diva Leigh tem chispas da Blanche DuBois de Uma Rua Chamada Pecado. Memorável é a cena em que Mary, bêbada, quase é violentada sexualmente pelo grosseirão Tenny de Lee Marvin. Memorável e soberba. Este filme virtuoso também é uma oportunidade de se emocionar com duas lendárias atrizes de cinema e teatro: Vivien Leigh e Simone Signoret.