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deborah kerr e martin stephens em “os inocentes”
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“O Castelo do
Demônio / Le
Manoir du Diable”, de
1896, curta dirigido pelo visionário George Mélies nos primórdios do cinema, é considerado o primeiro filme de terror. Em 1010, Thomas Edison deu continuidade ao gênero realizando sua versão de “Frankenstein /
Idem”, primeira adaptação do livro de Mary Shelley para as telas. Três anos depois, “O
Estudante de Praga / Der Student von Prag” (1913) também apresenta elementos de terror, mas é “O Gabinete do Dr. Caligari”
a pedra fundamental do horror cinematográfico. Ele definiu muito da narrativa que seria empregada até os dias de hoje.
Exercício pessoal sobre FILMES de TERROR, esta postagem vai além de resenhas sobre os filmes citados. Compartilha sensações,
reações, experiências, expectativas. Revisita um baú macabro e sanguinolento,
cheio de fantasmas, assassinos seriais, presenças das trevas, mutantes,
canibais, sanguessugas e mortos-vivos. A ideia surgiu como uma homenagem a edição especial da revista espanhola Cinemania, “100 Mejores Peliculas
de Terror de Todos los Tiempos”. Mas não reproduzo a lista da publicação e, sim, a minha lista pessoal, colocando alguns filmes e tirando outros.
Vale para os fãs de filmes clássicos, de monstros, vampiros, zumbis,
sci-fis. E também como indicação para quem ainda não
assistiu a esses filmes. Espero que se divirta lendo a postagem, como
eu me diverti escrevendo. Apague
a luz e boa leitura!
21 GRANDES FILMES de TERROR
(por ordem de preferência)
01
FAUSTO
(Faust – Eine Deutsche Volkssage, 1926)
direção de Friedrich Wilhelm Murnau
adaptação da obras de Johann Wolfgang Von Goethe
e Christopher Marlowe
elenco: Gosta Ekmann, Emil Jannings e Camilla Horn
De
uma época em que o expressionismo alemão se encontrava em declínio, afetado
pela ascensão do nazismo ao poder e pelo pensamento dos próprios realizadores
de que o movimento já estava por demais assimilado e, portanto, perdera o seu
impacto junto às plateias. Ele faz parte da última fase da cinematografia alemã
de Murnau. Assim como os demais grandes expoentes do cinema alemão da época, migraria
para os EUA, onde seguiria carreira, até seu falecimento precoce em
um acidente automobilístico.
Concebido para se tornar um grande marco do
cinema. Superprodução da UFA – Universum Film A. G., produtora criada
pelo estado para fins propagandísticos, mas que naquela ocasião estava
privatizada e voltada para fins comerciais, foi roteirizado por Hans Kyser; e
para escrever as legendas, a UFA contratou Gerhart Hauptmann, um dos mais importantes poetas alemães. Para a cenografia, foram chamados Robert Herlth e Walter
Röhrig, os mais conceituados de todo o cinema expressionista, que trabalharam
também com o desenho de figurinos, auxiliados por Georges Annenkov. Com toda
essa equipe de gabarito, somado ao alto custo de produção e à
maturidade técnica e criativa de Murnau, era de se esperar que o filme fosse
realmente um grande acontecimento.

Contrariando
todas as expectativas, essa obra-prima foi ignorada por público e crítica,
tornando-se um fracasso na Alemanha – como consolo, fez relativo sucesso no
mercado externo. Destacam-se o clima mágico produzido, o uso dos efeitos
especiais e a contenção na movimentação de câmera, além da parte em que
crianças aparecem evocando anjos de Botticelli. É também importante salientar
os tamanhos minúsculos dos ambientes fechados, potencializadores das angústias
e frustrações da narrativa. Quanto aos personagens da trama, aquele que recebe
maior tratamento é, com certeza, o mais talentoso – no caso, o Mefistófeles
interpretado pelo premiado Emil Jannings.
Pelas próprias características
sombrias do expressionismo, o horror permeia e é visualizado através do
personagem do magistral Jannings, o sinistro que concentra o poder em suas
mãos, habilmente conduzindo os demais personagens. Para os expressionistas, a
sombra funcionava como metáfora do inconsciente, da repressão, da
clandestinidade e das trevas. Em “Fausto”, a ideia da sombra atinge clímax
dramático quando um agigantado Mefistófeles, sobre a vila medieval, abre sua enorme
capa, anunciando que uma catástrofe está por vir naquele lugar – no caso, a
peste negra. Vacilando entre a tentação e a racionalidade, um filme imperdível.
02
A HORA do LOBO
(Vargtimmen, 1968)
direção de Ingmar Bergman
elenco: Max Von Sydow, Liv Ullmann e Ingrid Thulin
Somos
convidados a adentrar num universo onírico, em que a fusão entre realidade,
sonho, inconsciente, medo e desejo impera.
Quais os limites da experiência humana aqui abordada? O limite é a
própria ideia de loucura que pode ser discutida, deslocada, ao longo da história.
Na sequência a trama nos leva a um tortuoso labirinto formado pelas memórias
de Johan e Alma (grandes atuações de Max von Sydow e Liv Ullmann), às alucinações
de ambos. Escrito e dirigido pelo genial sueco Ingmar Bergman, o único filme seu classificado como terror, ainda que um terror não convencional.
Aqui os elementos dos filmes de horror clássicos aparecem em contextos
diversos e se propõem, ao menos inicialmente, a efeitos diferentes: envolver o
expectador na angústia interna das personagens, em seus horrores profundos. O
responsável por sua belíssima fotografia é Sven Nykvist, que trabalhou com
Bergman em outros longas. Nesse filme em especial vemos um trabalho de Nykvist
que evoca a estética expressionista alemã, com jogos de claro e escuro, a opção
pela filmagem em branco e preto, a criação de uma aura de pesadelo e
indistinção entre o que é próprio de um personagem ou outro.

Para
além do título, a expressão a hora do lobo se refere àquele período da
madrugada, por volta das três, quatro da manhã, em que supostamente mais
pessoas nasceriam ou morreriam segundo o folclore escandinavo. O período de
noite mais profunda, em que qualquer ruído é escutado, em que os pensamentos
podem pesar ainda mais – ou poderiam também ser início de libertação? O jogo
entre claro e escuro, a respiração dos atores, a crueza das situações em
oposição à densidade dos conflitos internos e externos apresentados em cada
cena convidam o expectador a também adentrar nessa zona tão etérea da realidade
dos personagens. Aliás, a existência de realidade, ao menos como algo tão
simples de definir, é um dos primeiros pilares colocados em dúvida no filme.
Bergman é conhecido por seus filmes densos e seu domínio da linguagem
cinematográfica, embora sua origem profissional seja o teatro. Considerado um
dos maiores cineastas da história, e mesmo apontado como o maior por muitos
críticos e cinéfilos (entre eles, eu), escreveu e dirigiu obras-primas. Questões existenciais de
toda ordem e complexidade se fazem presentes em seus filmes. Alguns temas
recorrentes são as ideias de morte e finitude, memória, a fé e o absurdo da
existência, relações familiares, o conflito com o outro e a abordagem
psicanalítica.
03
O BEBE de ROSEMARY
(Rosemary`S Baby, 1968)
direção de Roman Polanski
adaptação do romance de Ira Levin
elenco: Mia Farrow, John Cassavetes e Ruth Gordon
Conta
a simples e apavorante história de um adorável casal novaiorquino que espera
seu primeiro filho. Como a maioria das mulheres que são mães pela primeira vez,
Rosemary (inesquecível Mia Farrow) está confusa e receosa. Seu marido (John
Cassavetes), um ambicioso mas mal sucedido ator, faz um pacto com o demônio
pela promessa de vencer na carreira. Logo, ela começa a desconfiar que ele está envolvido com magia negra (junto com os vizinhos, um “simpático”
casal de velhinhos) e, em troca do sucesso, quer entregar seu filho para
rituais macabros. O filme, então, narra a luta de Rosemary para manter a
criança longe de seus perseguidores, reservando-lhe uma trágica surpresa: seu
filho não é do marido, mas sim do demônio.
O diretor Polanski conseguiu extraordinárias interpretações de todo o elenco. Ruth Gordon ganhou o Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante por seu papel, como uma solícita vizinha. Produzido pelo legendário
especialista em filmes de terror William Castle (que faz um cameo como o homem que vai na cabine telefônica e assusta a
fugitiva Rosemary), o primeiro filme de Polanski nos Estados Unidos conseguiu
criar um suspense intenso: utilizando-se de pequenos espaços num apartamento
fantasmagórico (sombras, pessoas passando sem serem notadas, vozes vindas da
parede, etc.), Rosemary fica presa completamente – mesmo numa cidade gigantesca
como Nova Iorque, as “redes” podem ser fechadas e não existe lugar para fugir.

Tornou-se
uma obra-prima do terror psicológico, apesar de apresentar momentos
fortíssimos, como as impressionantes cenas do demônio transando com Rosemary; a
fragilidade dela sofrendo de inexplicáveis dores de gestação; o clima de
perseguição que a faz ficar paranoica; e o final chocante (Rosemary, com uma
faca, invade o apartamento do lado, descobre a real natureza de seu filho –
Polanski acrescentou vários fotogramas da “criança“, destacando os olhos
horripilantes – e aceita ser sua mãe), entre outras. Tais cenas provocaram
polêmica – a Igreja Católica classificou como “blasfemas”, assim como
outras religiões, que tentaram impedir a exibição – e sucesso
de bilheteria.
O filme e o livro abriram caminho para uma série de trabalhos sobre cultos e
demônios na época. Podemos também colocá-lo como o precursor direto dos futuros clássicos “O Exorcista” e “A
Profecia / The Omem” (1976). E, como todo clássico que se preze, também
apresentou suas “maldições”: um ano depois do lançamento, a esposa de
Roman Polanski, a belíssima atriz Sharon Tate, foi assassinada brutalmente pela
“comunidade” liderada por Charles Manson (ele misturava passagens da Bíblia com
letras do “Álbum Branco” dos Beatles, num dos episódios mais violentos da
década de 1960); em 1980, na frente do mesmo edifício Dakota onde o filme foi
rodado, o ex-beatle John Lennon foi assassinado. O diabo andou à solta, sem
dúvida.
04
A INOCENTE FACE do TERROR
(The Other, 1972)
direção de Robert Mulligan
adaptação do romance de Tom Tryon
elenco: Uta Hagen, Diana Muldaur, Chris Udvarnoky
e Martin Udvarnoky
História
de dois irmãos gêmeos muito diferentes que vivem com a avó em um povoado, em
meados dos anos 1930. Esta é a aproximação mais perversa da história do cinema
ao universo da infância. Constrói um dos filmes mais alucinados jamais feitos. A
câmera de Mulligan destaca os rostos dos meninos para adentrar um mundo
espectral, no qual o fantástico tem vida como o real, e onde a infância
não é nada mais que outro pesadelo.
“A Inocente Face do Terror” (ótimo título
nacional, por sinal) é um excelente terror psicológico, da ótima safra “crianças
vilãs” da década de 1970, que acabou ficando esquecido. Não me surpreenderia se
daqui algum tempo anunciassem o seu remake, o que não seria ruim, já que uma
obra como essa merece ser redescoberta e quase sempre somente desta forma grandes
filmes são lembrados.
05
Os INOCENTES
(The Innocents, 1961)
adaptação do romance de Henry James
elenco: Deborah Kerr, Michael Redgrave,
Martin Stephens
e Pamela Franklin
Dentro
de uma atmosfera leve e aterrorizante, o horror se espalha pela casa, para as
crianças e para a visão da governanta nesse clássico! A história gira em torno
de uma governanta que, destinada a tomar conta de duas crianças num casarão no
interior da Inglaterra, começou a desconfiar que fantasmas as estavam
corrompendo. No conto nunca temos certeza da existência ou não dos fantasmas
(que poderiam ser apenas frutos da imaginação da governanta) mas, no filme,
cujo roteiro ficou por conta dos brilhantes William Archibald e Truman Capote
(com diálogos e cenas adicionais do não menos brilhante John Mortiner), os fantasmas
efetivamente existem.
Ao contrário dos cineastas que se utilizaram das técnicas
expressionistas, ou seja, sempre enfatizando as diferenças entre o preto e o
branco de maneira brusca, com as sombras carregando o mal para conseguir um
clima “pesado”, o diretor Clayton apresentou estas diferenças com leveza e
suavidade. As sombras são suaves, mas carregadas do mal, como uma pena
flutuando no ar, mas uma pena escondendo segredos terríveis – a leveza nos
engana, pois carrega o peso do terror. O número de cenas antológicas é enorme:
a primeira vez que a governanta vê um dos fantasmas no alto de uma torre e,
depois, numa inocente brincadeira de esconde-esconde, quando ela o confronta
diretamente dentro da casa; e o fantástico confronto final entre a governanta,
o menino e o fantasma, produzindo um dos finais mais
tristes da história do cinema.
A
escolha do elenco foi perfeita. Como sempre, a elegância britânica do ator
Michael Redgrave serviu muito bem para caracterizar o tio encantador, porém
desleixado, das crianças, numa pequena, porém essencial, participação especial.
Deborah Kerr está magnífica como a governanta desconfiada da presença dos
fantasmas: sua aparência frágil, mas com personalidade cheia de dignidade, faz
com que ela sofra muito nos seus confrontos com a presença maligna dentro do
casarão.
As crianças são lindas e, principalmente, apavorantes, misturando, na
medida exata, doses de ingenuidade e de maldade, inocência e perversão, suavidade
e selvageria. Grande sucesso de público, virou um clássico do
cinema e suscitou uma série de imitações, como o belo “A Inocente Face do
Terror”, dirigido por Robert Mulligan, ou mesmo o médio “Os que Chegam com a
Noite / The Nightcomers” (1972), estrelado por
Marlon Brando, mas poucos conseguiram unir leveza e terror da maneira feita por
Clayton. Por sorte dos fãs do mais puro terror, ele estava inspirado em “Os Inocentes”.
06
NOSFERATU
(Nosferatu – Eine Symphonie des Grauens, 1922)
direção de Friedrich Wilhelm Murnau
adaptação do romance de Bram Stoker
elenco: Max Schreck, Gustav von Wangenheim e Greta Schröder
Marco
do expressionismo alemão, foi o primeiro a levar às telas a figura do vampiro,
o monstro mais clássico e conhecido do cinema. Nosferatu é a encarnação do
sanguessuga asqueroso, repulsivo e vil, bem como imaginado por Bram Stoker
quando escreveu seu livro clássico, “Drácula”. Que aliás, é a fonte de
inspiração do filme. Era para ser uma adaptação desse livro, porém sua esposa não cedeu os direitos,
fazendo com que o Conde Drácula fosse chamado de Conde Orlok, e todos os personagens, desde John Harker ao caçador Abraham Van Helsing, tivessem
seus nomes trocados.
E como se não bastasse, Murnau foi processado por violação
de direitos autorais e a justiça determinou que todas as cópias do filme fossem
destruídas. Já imaginou que um dos maiores patrimônios cinematográficos de
todos os tempos pudesse não ter nenhum registro e ter se perdido no tempo? Por
sorte algumas cópias foram guardadas e assim que a Sra. Stoker bateu as botas,
voltaram a circular e o filme transformou-se no clássico cultuado que ele é
hoje. Traz a conhecida história de Hutter, um corretor de imóveis que vai a
Trânsilvania, à sombra dos Montes Cárpatos, vender uma
propriedade para o conde Orlok em Wisbourg, que é na
verdade um temível vampiro que o toma como prisioneiro. Atraído por Ellen, a
jovem e bela noiva de Hutter, Orlok vai até Wisbourg espalhar a morte e o medo
entre os habitantes, e saciar sua sede por sangue.
Impressiona principalmente pelo movimento das sombras da criatura e dela se levantando do caixão, e foi o responsável por criar toda uma estética gótica
e sombria que seria usada nos filmes de terror na posteridade. Merece uma menção a parte a estupenda interpretação de Max Schreck como o conde. Existe
uma lenda urbana de que Schreck aparecia somente para fazer suas tomadas
vestido como o personagem e só queria fazer as filmagens à noite. O conteúdo do
Mal se exprime com vigor.
Nunca
o cinema de horror conseguiu expressar com tanta fidelidade a dimensão macabra
da lenda do vampiro como em “Nosferatu”. O Conde Orlock, é, em si, uma figura
estranha e aterrorizante. Sua imagem expressa o próprio conteúdo do seu ser
maligno. Como diz a abertura do filme, “Nosferatu é a palavra que se parece com
o som do pássaro da morte da meia-noite”. Ele vive nas sombras e na
escuridão. É um ser noturno, de um mundo das trevas, perdido no passado de uma
terra distante. A própria narrativa destaca que o vampiro é uma criatura da
noite. É na escuridão que está o horror do vampiro. Ganhou uma refilmagem em
1979, chamado “Nosferatu – O Vampiro da Noite”, dirigida por Werner Herzog, tão
boa quanto o original.
07
MADRE JOANA DOS ANJOS
(Matka Joanna od Aniolów, 1961)
direção de Jerzy Kawalerowicz
adaptação de um conto de Jaroslaw Iwaszkiewicz
elenco: Lucyna Winnicka, Mieczyslaw Voit,
Anna Ciepielewska,
Maria Chwalibóg e Kazimierz Fabisiak
Um
dos primeiros filmes a tocar no tema do exorcismo, é um clássico do cinema
europeu, ganhando o Prêmio de Júri no Festival de Cannes de 1961. Passado no
século XVII, conta a história de freiras possuídas pelo demônio. Essa pequena
joia polonesa, acreditem, é a responsável pelo nascimento do sub-gênero “filmes
de exorcismo”. Baseado no caso de “As
Possessões de Loudun”, ocorridos na França em 1634. Na região de Loudun, havia
um convento de freiras ursulinas que estavam sendo assediadas por demônios e
apresentavam um quadro de convulsões e pronunciamento de blasfêmias contra Deus
e a Igreja. O diretor fez um excelente
trabalho. Seus enquadramentos e o domínio da
narrativa mostram que sabia muito bem o que fazia.
O terror
que se sente é quase palpável, é um desespero crescente. Toca o coração ver a
freirinha, ao confrontar seu exorcista, declarando-se como possuída por oito
demônios diferentes e a sua transformação - sem precisar de maquiagem, apenas
através do talento da atriz Lucyna Winnicka - que perturba nossos sentidos. Os
olhos do padre exorcista, interpretado magistralmente por Mieczyslaw Voit,
grudam na mente e a loucura parece até algo que pode ser tocado. Um filme
obrigatório para todos os cinéfilos.
08
HAXAN, a FEITIÇARIA ATRAVÉS dos TEMPOS
(Haxan, 1922)
direção de Benjamin Christensen
elenco: Maren Pedersen e Clara Pontoppidan
Um
dos mais controversos e assombrosos filmes de terror da década de 1920,
combinando naturalismo com efeitos especiais, que passeia entre o tom
documental, por se declarar como uma apresentação do ponto de vista cultural e
histórico, e o tom aterrorizante e herege que vai nos jogar na frente dos olhos
bruxaria, magia negra, superstições. Ninguém mais, ninguém menos que Satã
aparece em cena como protagonista, interpretado pelo próprio diretor, com sua
clássica imagem com chifres, barba e garras. E são vários os tipos de
coisa-ruim que mostram sua cara no decorrer do longa. Soma-se a isso nudez,
sexualidade, demônios assustadores fazendo sabás com bruxas que beijam seus
traseiros, tortura, cárcere, açoite, um bebê usado para sacrifício e uma freira
possuída e perseguida pelo tinhoso, tudo dividido em sete histórias.
Cronologicamente,
a trajetória começa em 1488 e termina em 1922, sempre pontuando estudos de
caso, seguindo o rastro da inquisição, possessão de freiras, sabás, e outras
tentações e maledicências em geral. Isso tudo mostrando como fonte documentos,
livros, diagramas e ilustrações, mantendo assim o lado educativo da coisa. Fora
todo o impacto visual dos elementos que o diretor coloca em tela, que vão desde
as famosas caveiras e esqueletos, passando por insetos, répteis, e os demônios em si, que serviram como ponto de referência para o
gênero. Uma produção de valor inestimável.
09
ONIBABA– a MULHER DEMÔNIO
(Idem, 1964)
elenco: Nobuko Otowa e Jitsuko Yoshimura
Baseado
em uma parábola budista, escancara o antagonismo de classes do Japão medieval
para criar uma assustadora alegoria sobre a vida em meio a falta de recursos,
segregação social e crítica velada aos efeitos da bomba atômica. Apesar do
ponto de partida do texto budista, não há nenhum caráter religioso, e o mal é
algo muito mais terreno e carnal, o que difere e muito da maioria dos filmes de
terror nipônicos. Recheados de metáforas, bruto, claustrofóbico, de fotografia preto e branco quase expressionista (crédito para Kiyomi Kuroda),
cenários minimalistas e trilha sonora de tambores de Hikaru Hayashi
remetido ao tribal, a história é repleta de metáforas.
A parábola
budista a qual foi inspirado conta a história de uma mãe que costumava
usar uma máscara de demônio para assustar sua filha, impedindo-a de ir ao
templo. E como punição, a máscara adere em seu rosto e quando é removida, leva
junto a carne de sua face. Aqui, é um reflexo traumático dos efeitos do
pós-guerra e os horrores que ele desencadeou na sociedade japonesa. Dramatiza o
fracasso e expõe o desejo humano nas mais sombrias manifestações. Apresenta
homens e mulheres nos limiares da civilização, vítima de suas condições de
vida, dando vazão aos seus instintos mais básicos e a constante luta por
sobreviver, o que pode, literalmente, despertar demônios.
10
A QUEDA da CASA de USHER
(La Chute de la Maison, 1928)
adaptação do conto de Edgar Allan Poe
elenco: Jean Debucourt e Marguerite Gance
Este
foi o filme que lançou Epstein para o sucesso, com a sua assombrosa realização,
uma verdadeira obra-prima! Um exercício cinematográfico de pura mestria, que tem como assistente de
realização, Luís Buñuel. Conta a história de Sir Roderick Usher, que envia um
pedido de auxílio a um amigo, pois a sua irmã gêmea Madeline (Margarite Gance,
mulher do realizador Abel Gance) está morrendo sob estranhas circunstâncias. Ao
chegar à mansão Usher, o amigo descobre que a presença de Madeline faz-se na
pintura de Roderick, obcecado por pintá-la. O retrato parece ganhar vida,
enquanto Madeline enfraquece cada vez mais. Epstein prova um profundo
conhecimento da arte cinematográfica e recorre a efeitos especiais, como a
desfocagem, a conjugação criativa entre som e imagem, extremamente importante
para a construção dramática, a câmara lenta, e a sobreposição, na famosa cena
em que Madeline está prestes a desmaiar.
Cada cena tem a sua vida própria, como
uma pintura viva, resultado da manipulação temporal. Na verdade, apresenta
características expressionistas, utilizando muitas vezes, a pintura
expressionista como cenário, mas também, românticas e surrealistas. A música
medieval foi extremamente bem escolhida para banda sonora, e a maravilhosa
fotografia em preto e branco que cria jogos interessantes de contraste e
sombras. Os pormenores pulsam no sinistro: os gestos, as
expressões faciais, o nevoeiro, o vento, todos os elementos parecem indicar a
tragédia e algumas das mais bonitas cenas do
cinema.
11
O VAMPIRO
(Vampyr, 1932)]
direção de Carl Thedor Dreyer
elenco: Julian West, Maurice Schutz e Rena Mandel
Primeiro
filme falado do diretor dinamarquês, é quase um pesadelo onírico, um espetáculo
mórbido com uma belíssima fotografia, inquieta e macabra trilha sonora, e
algumas sequências que são realmente assustadoras e referências para o gênero
no futuro, como um funeral sendo captado através do ponto de vista do morto
dentro do caixão, dança de sombras fantasmagóricas em planos abertos e
fechados, o começo da utilização da figura erótica e sexual do vampiro
transparecendo desejo carnal, o translúcido de uma sombra / espírito
saindo do corpo e acompanhando seu próprio enterro e a morte do
médico asfixiado dentro do elevador de um moinho
de trigo.
Inspirado no livro “Carmilla”, de Sheridan Le Fanu, conseguimos
captar a cabal diferença entre o cinema de terror que vinha sendo produzido nos
EUA, principalmente por conta do ciclo de monstros da Universal, e a estética
gótica das produções europeias, que bebiam na fonte do
horror mudo da década anterior. O espectador desavisado é bombardeado por
um tratamento estético e ritmo diferentes, captados por uma
câmera subjetiva e distante, tomadas noturnas, trilha sonora quase hipnótica,
clima pesado e mórbido e sugestão de ideias muito maior do que imagens
explícitas.
A
trama bizarra construída por Dreyer não é fácil e acompanha Allan Gray,
interpretado por Julian West (também conhecido como Barão Nicolas de Gunzburg),
um estudioso do vampirismo e do sobrenatural, que se depara com uma situação
surreal ao encontrar um castelo onde uma moça foi mordida por um vampiro. Cercado de personagens excêntricos, como o doutor e seu
comparsa, um soldado com perna de pau, o que se segue é um conjunto de
imagens desconexas, sonho e realidade, eventos alucinógenos, um
livro testamento contendo a história dos vampiros e elementos
estranhos.
Para que fosse
produzido, Dreyer foi até a França (onde havia filmado “O Martírio de Joana D'Arc
/ La passion de Jeanne d'Arc” (1928), em um período em que o cinema
ganhou um status diferenciado, sendo tão valorizado quanto as demais artes, e
por isso recebia o financiamento de membros da alta sociedade francesa para que
pudessem ter peças da sétima arte com seu nome impressas. Foi o caso de “O Cão
Andaluz / Un Chien Andalou” (1929), de Luiz Buñuel, e também de “Sangue de um Poeta / Le Sand d`Un Poète” (1932), de Jean Cocteau.
O nome de Dreyer certamente já chamava atenção nos círculos artísticos
europeus, e quando ele surgiu em França buscando financiamento para uma
produção independente. Encontrou o apoio de um jovem que impôs uma
condição - trabalhar como protagonista. Dreyer colocou Julian West junto a um elenco formado em grande parte por não-atores.
12
O ILUMINADO
(The Shining, 1980)
direção de Stanley Kubrick
adaptação do romance de Stephen King
elenco: Jack Nicholson e Shelley Duvall
Talvez,
até hoje, a mais assustadora e impactante obra prima do cinema de terror. Três
forças poderosíssimas convergem nessa produção: o diretor Stanley Kubrick, o
escritor Stephen King e o ator Jack Nicholson. Antes de mais nada, é um filme
de diretor. De direção de arte precisa. De jogo de cores berrantes. Fotografia
impecável. Trilha sonora assustadora e paranoica. Planos abertos em corredores
labirínticos minuciosamente decorados, em enquadramentos que alternam os personagens
totalmente centralizados com planos em close em ambientes fechados e de menor
espaço físico, dando ao mesmo tempo o contraste entre a real magnitude do Hotel
Overlook e a sensação do aprisionamento claustrofóbico em seu interior.
Ritmo por vezes arrastado e por vezes alucinante. Tudo isso faz dele o
clássico que é hoje. Jack Nicholson provavelmente tem o papel mais marcante de
sua carreira como Jack Torrance, ex-alcoólatra que aceita emprego de zelador
do hotel de veraneio Overlook, localizado nas montanhas do Colorado, durante o
inverno. Ele acredita que terá meses de paz para terminar de
escrever o seu livro. Jack muda-se para o Overlook com sua esposa Wendy
(Shelley Duvall) e o filho Danny (Danny Lloyd), dotado de poderes psíquicos
que o cozinheiro do hotel (Scatman Crothers) chama de “iluminado”.
Esses
poderes fazem com que Danny tenha o dom de prever o futuro, conversar
telepaticamente com outros iluminados e também ter capacidades pós-cognitivas
de ver fantasmas. E disso o Overlook está cheio. Fantasmas esses, que inclui o
zelador anterior, que se suicidou e esquartejou sua família, que tem como
missão póstuma influenciar Jack, que aos poucos vai perdendo sua sanidade,
fazendo com que sua loucura gradual o leve a perseguir esposa e filho com um machado
pelo interior do hotel.
Esteticamente perfeito, com uma direção magnífica e uma
atuação magnânima de Nicholson, rendeu cenas que entraram para os anais da
história do cinema de terror, que não estão no livro, mas são simplesmente
espetaculares. Como Danny andando nos corredores do hotel com seu triciclo, ou
a aparição terrivelmente macabra das duas garotinhas mortas chamando o
coitadinho para brincar, intercalada com a imagem delas ensanguentadas caídas
ao chão. Ou o mar de sangue que sai de dentro do elevador.
13
O EXORCISTA
(The Exorcist, 1973)
direção de William Friedkin
adaptação do romance de William Peter Blatty
elenco: Ellen Burstyn, Max Von Sydow, Lee J. Cobb
e Linda Blair
Um
dos mais assustadores filmes de terror de todos os tempos. Seu sucesso
atemporal pode ser dividido em três fatias iguais do bolo: a direção de William
Friedkin, o roteiro de William Peter Blatty baseado no seu livro homônimo e sua
trinca principal de atores. Ellen Burstyn como Chris McNeil, Max Von Sydow como
o padre Lankester Merrin e Linda Blair como Regan. Traz a história da doce
menina filha de uma atriz de Hollywood que fica possuída por um antigo demônio
chamado Pazuzu, e após testes médicos e psicológicos darem negativos,
o padre e psiquiatra Damien Karras e o padre e arqueólogo Lankester Merrin realizam ritual de exorcismo para expulsar o cramunhão da garotinha.
A
escolha de Friedkin foi o golpe de sorte da Warner Bros., gerando uma
direção magistral. Outro ponto de sucesso, Linda Blair, uma
verdadeira joia com sua interpretação da garota possuída. Sua carreira foi para o buraco, limitando-se a paródias e
filmes eróticos (seria mais uma das maldições que envolve a produção?). Mas sem a atriz, o filme não teria nem metade da sua força.
14
MONSTROS
(Freaks, 1932)
adaptação da história de Tod Hobbins
elenco: Wallace Ford, Olga Baclanova e Leila Hyams
A
ideia de Browning era fazer um filme de terror que superasse tudo já feito até
então, algo extremamente perturbador, jamais visto no cinema. E qual foi o
método encontrado pelo diretor? Usar aberrações de verdade em seu elenco. Na
trupe circense, há anões, gêmeas siamesas, deformidades, crianças com
malformação congênita, pessoas sem membros e com atrofia muscular. Hans é um
anão de circo, noivo de Frieda, que na verdade morre de amores pela bela
trapezista Cleópatra, uma das pessoas “normais” do show e o faz de trouxa, em
troca de mimos e presentes. Só que Cleópatra, na verdade tem um caso com o
musculoso Hércules, e descobre que Hans é herdeiro de uma vasta fortuna.
Querendo dar um golpe, se casa com o pequeno só para por em
prática, em conluio com Hércules, seu plano de envenená-lo para
ficar com sua grana.
O clima sinistro começa no terceiro ato,
onde vamos conhecer o “código das aberrações”. Eles ficam espreitando cada
passo de Cleópatra e Hércules, rastejando assustadoramente atrás deles, esperando
o momento da vingança. Alguns críticos acham “Monstros” o melhor filme de Browning, que
tem na sua filmografia “Drácula / Idem” (1931) e “O Monstro do Circo / The Unknown” (1927).
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O GABINETE do Dr. CALIGARI
(Das Kabinett des Doktor Caligari, 1919)
elenco: Werner Krauss, Conrad Veidt, Friedrich
Feher
e Lil Dagover
Dr.
Caligari foi o primeiro grande vilão do cinema, abrindo as
portas para outros cientistas e doutores loucos. Vários temas que o filme traz se tornaram futuros clichês após quase 100
anos da produção: sonambulismo, assassinato, manipulação, trauma, sequestro, um
assassino serial, reviravoltas no final e a dúvida entre sanidade
e loucura.
O longa começa com
Francis, um rapaz trazendo à tona durante uma conversa, a terrível
experiência que viveu por decorrência da chegada do Dr. Caligari na feira anual
de Hoistenwall. Em seu gabinete, Caligari apresenta ao público sua atração, um
sonâmbulo chamado Cesare, interpretado pelo fantástico Conrad Veidt, enquanto uma série de
assassinatos assola a cidade. Francis começa a investigar o famigerado doutor e
seu sonâmbulo depois que seu melhor amigo é assassinado e sua amada, Jane é atacada,
e aí a trama começa a se desenrolar até seu clímax impressionante.
Permeado por um clima soturno, característico do expressionismo alemão,
cenários quase surreais como em um sonho, o exagero das expressões e
maquiagem carregada nos rostos pálidos que acentuam olhares de
pavor. É o reflexo de uma Alemanha mutilada após a Primeira Guerra e metáfora ao desejo assassino incontestável de governos e soldados, algo que
aquela nação viria a provar novamente anos mais tarde.
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NOSFERATU – o VAMPIRO da NOITE
(Nosferatu – Phantom der Nacht, 1979)
adaptação do romance de Bram Stoker
elenco: Klaus Kinski, Isabelle Adjani, Bruno Ganz
e Roland Topor
Belíssimo terror. Ao mesmo tempo em que o diretor presta uma homenagem ao expressionismo
alemão e ao filme original de Murnau, ele consegue imprimir sua própria
estética. Pontuado por um ritmo quase hipnótico, fotografia belíssima de Jörg
Schmidt-Reitwein, direção de arte impecável (vencedora do Urso de Prata no
Festival de Berlim daquele ano) e uma trilha sonora fúnebre e orgânica
(assinada pelo grupo Popol Vuh).
Na história,
o corretor Jonathan Harker (Bruno Ganz) parte em meio às tenebrosas, porém
deslumbrantes paisagens dos Montes Cárpatos, para fechar negócio com o Conde Drácula (soberbo Klaus Kinski), com sua expressão asquerosa,
lembrando um rato humano, nariz adunco, longos dedos esqueléticos e face
pálida. Nem de longe lembra Bela Lugosi em “Drácula” ou Cristopher Lee em “O Vampiro da Noite / Dracula” (1958) e muito menos Frank Lagella em “Drácula / Idem” (1979), mantendo-se fiel a visão de Murnau do monstro vampiresco, assim como o
livro de Stoker.
Um
dos maiores trunfos, responsável por não ser taxado como uma mera
cópia do original, e posicionando-se como superior em certos momentos, é a
tentativa de Herzog em mostrar uma espécie de beleza poética no mal (como as
cenas em câmera lenta de um morcego batendo suas asas, ou a abertura com os
closes de múmias embalsamadas com uma expressão angustiante de terror no
rosto), e o mix de sensações etéreas
e assustadoras que ele vai criando para preparar o espectador para o infortúnio
e desilusão que está para se abater na cidade com a chegada do Conde e de seus
maus agouros.
Herzog utiliza brilhantemente planos abertos, clima atmosférico e
paisagens lindas, principalmente na estonteante cena onde vemos o dia se
esvaecer pelas montanhas enquanto a noite, cheia de mistérios terríveis, começa
a cair sobre o até então intrépido Jonathan Harker em sua viagem à
Transilvânia, ou quando a praça central da cidade está tomada por ratos,
caixões, animais soltos e de uma forma
mambembe, alguns tentam brindar a vida antes de serem tomados pelo abraço
gelado da morte.
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DRÁCULA de BRAM STOKER
(Bram Stoker’s Dracula, 1992)
direção de Francis Ford Coppola
adaptação do romance de Bram Stoker
elenco: Gary Oldman, Winona Ryder, Anthony
Hopkins
e Keanu Reeves
Muitos
críticos e fãs de cinema não puderam acreditar que, no início da década de 1990,
o consagrado diretor dos três “O Poderoso Chefão / The Godfather” (1972/73/90)
pudesse filmar o livro que deu origem a um dos mais famosos personagens do
século XX. Mas foi o que exatamente aconteceu: tornou-se um dos grandes longas
do diretor, podendo-se afirmar que é uma das suas obras-primas.
O tempo
deixou-o ainda melhor, apesar do excesso de cores, ideia que não existia na
obra de Bram Stoker. Não foi a única “heresia” cometida pelos produtores. Uma
das mudanças mais radicais foi a criação do clima romântico envolvendo Drácula
(excepcionalmente interpretado por Gary Oldman) e a encarnação de sua ex-amada
Elisabetha na personagem Mina (Winona Ryder, sensacional) que não existe no
livro. O livro conta uma história do bem contra o mal, sendo que Drácula é o
símbolo do mal. Ele não se apaixona e muito
menos Mina é reencarnação de Elisabetha.
No
geral, falta terror e sobra romance: é uma bela história de amor, na verdade,
uma típica ópera romântica cheia de intriga e mistério. Apesar do amor, terror
e sexo também se fazem presentes, resultando em cenas memoráveis e bastante
sensuais, como aquela onde Jonathan Harker (Keanu Reeves) sai do seu quarto, à
noite, para conhecer o castelo (e também para entender o que estava acontecendo
naquele lugar esquecido por Deus) e encontra três vampiras, as noivas de
Drácula, insaciáveis, que o “degustam”! Elas literalmente o devoram, num
exercício cinematográfico de sensual!
Abriu uma espécie de
“terrormania” que, infelizmente, não foi bem sucedida na época: “Lobo / Wolf”,
de 1994, dirigido por Mike Nichols, foi um retumbante fracasso de bilheterias,
apesar das presenças de Jack Nicholson e Michelle Pfeiffer; “Frankenstein
de Mary Shelley / Mary Shelley’s Frankenstein”, também de 1994, dirigido por
Kenneth Branagh, transformou-se numa piada sem graça. A onda de filmes de terror voltaria depois do sucesso mundial de “Pânico
/ Scream”, 1996, de Wes Craven.
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A NOIVA de FRANKENSTEIN
(The Bride of Frankstein, 1935)
adaptação do romance de Mary Shelley
elenco: Boris Karloff, Colin Clive, Valerie Hobson
e Elsa Lanchester
Levou
quatro anos para que a Universal conseguisse convencer o diretor Whale a
dirigir a continuação de sua obra prima, “Frankenstein / Idem”. Relutante, ele
só toparia embarcar se tivesse controle irrestrito sobre o projeto, algo que só
foi possível graças as férias do produtor Carl Laemme Jr. na Europa durante as filmagens.
Por muitos, é superior ao original, muito devido ao toque de Whale e a afinidade de Karloff com o personagem, que volta mais uma vez como a criatura
incompreendida, em busca de uma parceira para por fim a sua miserável solidão.
O resultado é uma mistura de horror com comédia e a criação de uma nova
criatura visualmente tão impactante quanto o monstro original, dando origem a
uma personagem feminina icônica para o cinema de horror.
Quase uma tragédia grega, o pathos do monstro de Frankenstein
nos é contado pela própria criadora do personagem, Mary Shelley (interpretada
por Elsa Lanchester, que também faz o papel da noiva), que logo no começo da
fita, em uma noite de tempestade, reunida com Lord Byron e seu marido Percey
B. Shelley, narra a história de como a criatura sobreviveu logo após ter
sido caçada e encurralada no moinho incendiado imediatamente ao final do
primeiro filme. Junta-se tudo isso a maquiagem de Jack Pierce melhor do que
nunca e a mais uma vez a brilhante atuação de Karloff do maltrapilho e cabeçudo
monstro, e temos um clássico eterno!
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A MORTA-VIVA
(I Walk with a Zombie, 1943)
direção de Jacques Tourneur
adaptação do conto de Inez Wallace
elenco: James Ellison, Frances Dee e Tom Conway
Um
filme de terror poético da safra produzida por Val Lewton para a RKO Radio
Pictures. O produtor com carta branca após ter emplacado dois sucessos, mais uma vez chamou Tourner
e os roteiristas Curtis Siodmak (o mesmo de “O Lobisomem / The Wolf Man”, 1941, e outros filmes de monstro da Universal) e
Ardel Wray (que assina o roteiro de “O Homem-Leopardo / The Leopard Man”, 1943, lançado
na sequência) para a realização
de um filme de zumbis. Tourner volta às raízes haitianas do zumbi e em um filme
lírico e perturbador, eleva o monstro a um status de seriedade,
explorando o potencial simbólico e religioso do morto-vivo nas telas. Começa
com Betsy Connell, enfermeira contratada por Paul Holland
(fazendeiro dono de uma mina de açúcar nas Índias Ocidentais), para cuidar de sua
catatônica esposa, em uma praia andando ao lado de uma figura,
e narrando em off: “Eu caminhei com um zumbi…”.
Na ilha, Betsy começa a
entender a rotina disfuncional que envolve a família Holland, desde o amargo e
desiludido Paul, passando por seu meio-irmão alcoólatra Wesley Rand e a
dominadora matriarca Sra. Rand, e a ter pistas do motivo da catatonia de
Jessica, esposa de Paul. Enquanto o médico da família aposta na teoria de uma
rara febre tropical, os nativos insistem na ideia de vodu e que ela foi
transformada em um zumbi.
Todo
permeado em um questionamento interminável, de que se realmente o que acontece
possui alguma causa ou explicação científica ou mesmo se os acontecimentos
cruciais do final são frutos de feitiçaria. Ninguém consegue estabelecer um
padrão patológico, mental ou espiritual para a condição de Jessica, e termina mesmo sem deixar essa reposta. Assim como a cena inicial que não tem
uma continuidade, e tampouco fica claro quando, como e por que, Betsy caminhou
com o zumbi, já que fica apenas subentendido e a cena não se repete até o fim
da película. Um filme artístico de zumbi é apenas um resumo dessa obra complexa
e misteriosa, que nunca mais seria repetido, principalmente após o morto-vivo virar
sinônimo de gore no cinema de terror atual.
20
A MÃO do DIABO
(La Main du Diable, 1943)
direção de Maurice Tourneur
adaptação do romance de Gérard de Nerval
elenco: Pierre Fresnay e Josseline Gaël
De Maurice Tourneur, um dos cineastas mais
prolíficos da Continental, guarda pontos em comum com o conto “O Demônio da Garrafa”,
de Robert Louis Stevenson, onde uma garrafa que produz riqueza e poder deve ser
vendida antes da morte do possuidor, sempre a um preço mais baixo; à medida que
o preço diminui em direção ao indivisível centavo, a posse do talismã ameaça o
último dono com a danação eterna. Nesse filme, o talismã que deve ser revendido
por um preço menor que aquele com que foi comprado não é uma garrafa, mas uma
mão esquerda decepada. Aí, a transação assume um caráter violento, uma vez que
o interessado, ao adquirir o talismã, perde a mão, magicamente substituída pela
de um “outro”.
O último possuidor da mão decepada vem a ser o fracassado pintor
Roland Brissot (grande atuação de Pierre Fresnay), que por amor de uma jovem
ambiciosa compra do garçom italiano (Noël Roquevert) o talismã que muda sua
vida. Com a nova mão esquerda, Roland passa a pintar quadros magníficos,
demonstrando habilidades que jamais tivera, como a de fazer pacotes e
satisfazer sexualmente sua amiga Irène (Josselyne Gaël). Contudo, a mão
esquerda assina seus quadros com o misterioso nome de Maximus Léo. O pintor
torna-se uma celebridade em Paris, e tudo corre a contento, até o dia em que
recebe a visita de um homenzinho de negro (Pierre Palau), que vem cobrar o
preço das “graças” recebidas. Como o pintor recusa devolver o talismã, acaba
assumindo uma dívida em dinheiro que dobra diariamente. Possui uma narrativa
ágil, uma atmosfera de suspense e um magnetismo nas imagens de estúdio que seduz.
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A MÚMIA
(The Mummy, 1932)
elenco: Boris Karloff, Zita Johann e David Manners
Depois
dos sucessos de “Drácula” e “Frankenstein”, lançados no ano anterior, foi a vez
da Universal eternizar o seu próximo monstro que daria origem a mais uma
franquia de filmes de terror para o estúdio. Mais
uma vez com o selo de produção de Carl Laemme Jr, traz novamente Boris Karloff
como ator principal, vivendo o monstro egípcio em carne, osso e ataduras. E o
momento era propício para esse tema, já que fazia apenas dez anos que o túmulo de Tutancâmon havia sido descoberto e os
jornais apareciam frequentemente repletos de matérias sensacionalistas sobre a
maldição da múmia a cada pessoa envolvida na escavação que morria ou adoecia.
Karloff mais
uma vez de forma soberba dá vida a Imhotep, uma sacerdote do Egito Antigo que
amava Ankh-es-en-amon, uma princesa filha do Faraó. Quando a garota morre,
Imhotep na tentativa de ressuscitá-la tenta praticar um encantamento proibido e
é pego com a boca na botija. Pelo sacrilégio, o Faraó manda mumificá-lo vivo,
estado em que ele fica pelos próximos 3700 anos, até ser descoberto e
acidentalmente trazido de volta à vida por um assistente do exímio egiptólogo
Sir Joseph Whemple, durante uma expedição arqueológica do museu britânico no
local.
Como
resultado de trazer a múmia de volta a vida, o assistente cai na mais completa
insanidade (na mais impressionante e assustadora cena do filme inteiro), a
múmia desaparece sem deixar rastros e Joseph abandona o Egito jurando nunca
mais por os pés lá. Imothep quer trazer a amada de volta do sono eterno, mas
para isso, deverá trocá-la de corpo com Helen Grosvenor, descendente da princesa Ankh-es-en-amon. Ele usará todos seus poderes hipnóticos e
conhecimento místico para tentar envolver a garota, sacrificá-la e recuperar
seu amor milenar.
Reparem na interpretação de Karloff, mostrando mais uma vez
que é muito mais ator que seu colega / rival de época, Bela Lugosi; a excelente
direção de Karl Freund, primeiro filme como diretor do fotógrafo alemão
responsável por “Metrópolis / Idem”
(1927), de Fritz Lang, e sua composição de cena, jogo de luz e sombra,
capricho visual e tomadas com câmera em movimento, ousadia que os outros filmes
da Universal não tinham até então; e a maquiagem, mais uma vez obra do gênio
Jack Pierce, principalmente quando Imhotep aparece como um monstro mofado. Filme
obrigatório para os fãs de terror e principalmente para os aficionados pelo
ciclo de monstros da Universal. E claro, é melhor que qualquer um dos três da nova trilogia com Brendan Fraser, isso sem dúvida.