| zarah leander |
No cinema, o espectador deve saber,
com maior certeza do que no
teatro,
quem deve amar e quem deve odiar.
quem deve amar e quem deve odiar.
FRITZ HIPPLER
(1909 - 2002. Berlim / Alemanha)
diretor de “O Judeu Eterno”
Ele era obcecado por cinema. Compreendia o poder da máquina cinematográfica de moldar a opinião das pessoas. Em 13 de março de 1933, na Alemanha, Adolf Hitler (1889 - 1945. Braunau am Inn / Áustria) criou o Ministério do Reich para Esclarecimento Popular e Propaganda, cujo titular, Joseph Goebbels (1897 - 1945. Rheydt / Alemanha), foi encarregado de controlar os aspectos da propaganda política e da comunicação de massa. Esse Ministério supervisionava a produção cinematográfica, da concepção à exibição de filmes.
| adolf hitler |
Nos primeiros anos do falado, o cinema germânico passou por uma
grave crise. Seus atores, cineastas e técnicos mais conceituados deixaram o
país após a ascensão do nazismo. “Não-arianos” foram excluídos, afetando cerca
de 3 mil pessoas que ficaram sem trabalho. Alguns profissionais aproveitaram a
oportunidade oscilante para exigir salários mais elevados, aumentando
consideravelmente os orçamentos de produção. Por fim, a exportação de filmes
caiu drasticamente devido aos boicotes internacionais.
Em 1933, ano em que os nazistas chegaram ao poder, havia 5.071
cinemas em toda a Alemanha. Seis anos depois, em
1939, o número de cinemas aumentou para 6.923. Somente a produtora UFA (Universum Film Aktien Gesellschaft)
tinha 159 cinemas em 69 cidades – um total de 162.171 lugares. O UFA Palast am Zoo, em Berlim, o
maior deles, com mais de dois mil lugares, era onde acontecia a maioria das
pré-estreias. Num esforço para atingir segmentos mais amplos da população, o ministro da propaganda instituiu o “Dia do Filme Popular”, no qual o público
podia assistir exibições especiais por um preço simbólico. Os filmes eram
exibidos como parte de um programa obrigatório, que consistia de cine-jornais politizados
e documentários educativos. Nas “Horas de Filmes para a Juventude”, organizadas
pela Juventude Hitlerista, mostravam-se documentários direcionados para crianças a adolescentes.
Durante o nazismo, vários estúdios faliram, restando apenas 38 de 114. Os sobreviventes
trabalharam em dobro, produzindo inúmeros filmes, numa tentativa infundada de
fortalecer o CINEMA NAZI. Goebbels comprou as ações das produtoras, inclusive
da poderosa UFA, e estatizou a indústria
cinematográfica. “Quando compramos a UFA”, se vangloriou em 1937, “nos tornamos a maior união mundial de
cinema, imprensa, teatro
e rádio. Agora
eu tenho um instrumento muito
útil à minha
disposição”. Ele fundou uma escola estatal para cineastas
politicamente confiáveis; e uma organização profissional oficial e obrigatória
para atores, cineastas, técnicos e distribuidores. Goebbels censurava manuscritos e roteiros; criou prêmio de incentivo a produção de
filmes; empréstimos a juros baixos e benefícios fiscais.
A crítica de cinema foi proibida. Jornalistas informavam sobre o
conteúdo do filme, sem qualquer julgamento artístico, político ou ético. No
comando, o brilhante e cruel Goebbels demonstrou sensibilidade para o
espetáculo fílmico e manipulação do espectador digno de um David O. Selznick. Afinal,
o CINEMA DO TERCEIRO REICH era dominado pelas estrelas. Adoradas pelos fãs, elas
propiciavam o glamour. As mais famosas: as grandes atrizes Marianne Hoppe e Lil
Dagover, Zarah Leander (anunciada como a “Garbo Alemã”), o premiado Emil Jannings, o comediante Heinz
Rühmann, Kristina Söderbaum (“a ariana ideal”), Marika Rokk, Lilian Harvey etc.
| marlene dietrich e os aliados |
Nem todos os ameaçados pelo regime nazista tiveram a sorte de
escapar. O ator e diretor de origem judaica Kurt Gerron morreu em um campo de
concentração, aos 47 anos de idade. Ele participou de “O Anjo Azul / Der Blaue
Engel” (1930) e dirigiu vários filmes. Depois que a Gestapo o prendeu em Amsterdã, onde dirigia o Teatro Judeu, foi obrigado a supervisionar um documentário de propaganda, “Theresienstadt: Ein Dokumentarfilm
aus dem Jüdischem Siedlungsgebiet”. Assim que o filme ficou pronto, Gerron e
outros que trabalharam nele foram assassinados em câmara de gás.
| renate muller em “victor ou vitória” |
Há versões de que Hitler pessoalmente tentou persuadi-la a fazer
filmes de propaganda, e ela não aceitou. Ao recusar a proposta de musa nazista,
tornou-se uma suspeita vigiada pela Gestapo. Ela ainda fez
“Togger” (1937), de propaganda política, mas as coisas continuaram mal
resolvidas, porque em seguida foi morta. O anúncio oficial atribuiu a morte à
epilepsia. Outra, não oficial, era a de que foi jogada pela janela por oficiais
da Gestapo. Depois de sua morte, como se tratava de atriz popular, os nazis
espalharam que era uma viciada - no caso, morfina – e
por esta razão, veio a óbito. Uma grande mentira. Cerca de 500 artistas de cinema foram vítimas do terror do
Terceiro Reich.
O famoso humorista judeu Otto Wallburg, preso após
a invasão das tropas alemãs na Holanda, morreu aos 55 anos na câmara de gás de
Auschwitz, em 1944. O mesmo aconteceu com os atores Fritz Grünbaum (1880 –
1941) e Paul Morgan (1886 – 1938). Joachim Gottschalk (1904 - 1941) até 1940 desempenhava
papéis principais no cinema, ao rejeitar a sugestão de se separar da esposa
judia, passou a ser descartado. Em maio de 1941, na noite anterior à deportação
a um campo de concentração, ele, esposa e filho de oito anos se suicidaram. Lale
Andersen (1905 - 1972), uma cantora famosa, gravou em 1939 a canção “Lili
Marleen”, popular tanto entre alemães como entre aliados, mas foi
impedida em 1942 de cantar em público por se corresponder com judeus.
| joachim gottschalk |
Estrela atraente e atlética dos
filmes de montanha de Arnold Fank, ela estreou no cinema nos anos vinte. Quando
os nazistas chegaram ao poder, Leni Riefenstahl, ardente admiradora e amiga
pessoal de Hitler, realizou o extraordinário documentário “Triunfo da Vontade /
Triumph des Willens” (1935), promovendo o orgulho nacional. Uma visão
impressionante de um espetáculo de massa e glorificação da figura do Führer.
Após a Segunda Guerra Mundial, foi presa, acusada de ser amante do ditador e simpatizante do nazismo. Negou as acusações, mas jamais demonstrou sinal de arrependimento pela proteção especial nazista. Com a estética de seus filmes, determinou como nenhum outro cineasta a imagem do Terceiro Reich. Em 1952, uma corte a libertou e ela pode trabalhar de novo, passando a
maior parte da vida fotografando na África. Nunca se soube até que
ponto Riefenstahl se comprometeu com a ideologia ou se era uma
oportunista.
Hitler, Goebbels e o líder do
Partido Nazi, Hermann Göring (1893 – 1946), apareciam em público com atrizes, sendo as preferidas Olga Tschechowa, Marika Rökk
e Lil Dagover. As relações amorosas de Goebbels com várias delas são notórias. No
topo do CINEMA NAZI, primeiro vencedor do Oscar de Melhor Ator, Emil Jannings estrelou filmes promovendo o nazismo. Goebbels o apelidou de “Artista do Estado”, em 1941.
Quando os aliados invadiram a Alemanha, ele
mostrou seu Oscar como prova da antiga associação com Hollywood. Desempregado, passou a viver em uma fazenda na
Áustria.
Outro importante aliado de Adolf Hitler foi o popular comediante
Heinz Rühmann. As conexões entre ele e o nazismo não o impediram de ser
escolhido, numa pesquisa recente, como “o ator mais querido dos alemães”. Gozando
de certa reputação como ator de teatro e cinema, após a ascensão do partido
nazista ele não se distanciou do regime. Pelo contrário, as comédias que
estrelou, em tempos de terror e genocídio, serviram perfeitamente à causa local.
Em 1940, nomeado “Ator Nacional” e sob pressão, separou-se da esposa
judia, Maria Bernheim. No pós-guerra, caiu no ostracismo. Na década de 1950 surpreendentemente recuperou o
sucesso. Poucos meses antes de morrer trabalhou em “Tão Longe, Tão Perto / In
Weiter Ferne, so Nah!” (1993), de Wim Wenders. Apesar do vínculo nazista
evidente, Rühmann sempre se definiu como apolítico.
| goebbels |
As salas de exibição seguiam regras e regulamentos. A importação
de fitas dos países inimigos foi proibida. Fornecendo exibições
cinematográficas em áreas rurais e remotas, o Departamento de Propaganda do
partido operava 300 caminhões e dois trens levando o equipamento necessário
para as projeções. Mesmo sob as condições severas dos últimos anos da II Guerra,
os cinemas alemães funcionavam perfeitamente. Em Berlim, unidades antiaéreas os protegiam contra bombardeios.
A ausência de crítica ao regime, predileção por musicais e
comédias, diálogos conformistas e uma narrativa clássica são o perfil do cinema
germânico daqueles anos. Nos dramas de guerra, o CINEMA NAZI exalta o heroísmo local
e a brutalidade do inimigo. Os ingleses são apresentados como fracos,
ridículos, imperialistas, opressores; os russos, brutos e bêbados; os
judeus, “sub-humanos” que se infiltraram na sociedade ariana. De 1940, o
documentário “O Judeu Eterno / Der Ewige Jude”, direção Fritz Hippler, mostra
os judeus como parasitas, ávidos por sexo e dinheiro. Alguns longas glorificam Hitler e o Nacional Socialismo.
Como os alemães em geral, diretores e atores aderiram ao nazismo ou suportaram a situação insustentável. Passando a guerra, ninguém se identificou com os derrotados e mentiram, negando envolvimento. O ator e diretor Veit Harlan, um dos gigantes do seu tempo, foi o único a enfrentar um tribunal de Justiça, sob a acusação de crimes contra a humanidade, principalmente por ter feito o antissemita “Judeu Süss / Jud Süss” (1940). Depois de dois interrogatórios, ele foi absolvido das acusações. Escapou com a defesa de que teria agido sob coerção. Em 1950, voltou a dirigir. Historiadores criaram uma imagem do CINEMA NAZI como um cinema de ódio e de terror. Enganam-se. Está mais para um cinema de ilusão. Nesse escapismo, muitas vezes interfere a propaganda subliminar, diluindo nos enredos valores básicos da ideologia nazista como obediência, auto-sacrifício, ordem, camaradagem, liderança etc. Mas nem sempre. No período 1933 a 1945, os filmes de entretenimento dominam o mercado. Dos 1094 filmes produzidos na Alemanha Nazista, somente 153 são diretamente políticos ou propagandísticos. Os outros 941 filmes são tradicionais, no estilo Hollywood na mesma ocasião.
Como os alemães em geral, diretores e atores aderiram ao nazismo ou suportaram a situação insustentável. Passando a guerra, ninguém se identificou com os derrotados e mentiram, negando envolvimento. O ator e diretor Veit Harlan, um dos gigantes do seu tempo, foi o único a enfrentar um tribunal de Justiça, sob a acusação de crimes contra a humanidade, principalmente por ter feito o antissemita “Judeu Süss / Jud Süss” (1940). Depois de dois interrogatórios, ele foi absolvido das acusações. Escapou com a defesa de que teria agido sob coerção. Em 1950, voltou a dirigir. Historiadores criaram uma imagem do CINEMA NAZI como um cinema de ódio e de terror. Enganam-se. Está mais para um cinema de ilusão. Nesse escapismo, muitas vezes interfere a propaganda subliminar, diluindo nos enredos valores básicos da ideologia nazista como obediência, auto-sacrifício, ordem, camaradagem, liderança etc. Mas nem sempre. No período 1933 a 1945, os filmes de entretenimento dominam o mercado. Dos 1094 filmes produzidos na Alemanha Nazista, somente 153 são diretamente políticos ou propagandísticos. Os outros 941 filmes são tradicionais, no estilo Hollywood na mesma ocasião.
No fim do conflito bélico, em 1945, com a Alemanha devastada e reduzida
a escombros, filmes eram produzidos, entre eles “Kolberg” (1945), de Veit Harlan. Superprodução a cores, ambientada nas guerras
napoleônicas, narra a resistência de uma cidade alemã diante das tropas
francesas, numa tentativa de animar a destroçada moral nacional. Este objetivo não se concretizou, entretanto, comprova que, mesmo em irreversível queda, o Terceiro Reich acreditou e explorou a indústria cinematográfica até os
últimos instantes.
“Cinema no Terceiro Reich”
blog “Histórias de Cinema”
“Histoire
du Cinéma Nazi”
de Francis Courtade e Pierre Cadars
“Nazi Cinema as
Enchantment: The Politics
of Entertainment in the Third Reich”
de Mary-Elizabeth O’Brien
“Popular Cinema in the Third Reich”
de Sabine
Hake
“The UFA Story”
de Klaus Kreimeier
ESTRELAS do CINEMA NAZISTA
BRIGITTE HORNEY
Filmes Selecionados
“Der Gouverneur” (1939)
“Barão de Münchhausen / Münchhausen” (1943)
CAMILLA HORN
Filmes Selecionados
“Maria / Sein Letztes Modell” (1937)
“Guerra nas Sombras / Rote Orchideen” (1938)
EMIL JANNINGS
Filmes Selecionados
“O Governante / Der Herrscher” (1937)
“O Presidente Krüger / Ohm Krüger” (1941)
GUSTAF GRUNDGENS
Filmes Selecionados
“Santa Joanna D'Arc / Das Mädchen Johanna” (1935)
“Friedemann Bach”
(1941)
GUSTAV FRÖHLICH
Filmes Selecionados
“Terra em Chamas / Stadt Anatol” (1936)
“O Grande Rei / Der große
König”(1942)
HEINRICH GEORGE
Filmes Selecionados
“Judeu Süß” (1940)
“Nostalgia, O Caminho da Perdição / Der Postmeister” (1940)
HEINZ RÜHMANN
Filmes Selecionados
“O Chapéu Florentino / Der Florentiner Hut” (1939)
“Ich Vertraue Dir Meine Frau Na” (1943)
HENNY PORTEN
Filmes Selecionados
“Komödianten” (1941)
“Symphonie eines
Lebens” (1943)
JENNY JUGO
Filmes Selecionados
“Pygmalion” (1935)
“Unser Fräulein
Doktor” (1940)
JOHANNES HEESTERS
Filmes Selecionados
“Nanon” (1938)
“Immer Nur-Du!”
(1941)
KARL-LUDWIG DIEHL
Filmes Selecionados
“Romance em Viena / Episode” (1935)
“Die Entlassung” (1942)
KRISTINA SÖDERBAUM
Filmes Selecionados
“Cidade da Ilusão / Die Goldene Stadt” (1942)
“O Grande Rei / Der Große König” (1942)
LA JANA
Filmes Selecionados
“Mistérios da Índia / Der Tiger von Eschnapur” (1938)
“Ouvindo Estrelas! / Es Leuchten die Sterne” (1938)
LENI RIEFENSTAHL
Filmes Selecionados
“O Triunfo da Vontade / Triumph des Willens” (1935)
“Olimpíadas e Mocidade Olímpica 1 e 2 / Olympia 1 e 2” (1938)
LÍDA BAAROVÁ
Filmes Selecionados
“Hora de Tentação / Die Stunde der Versuchung” (1936)
“Os Homens Devem Ser Assim / Männer Müssen so Sein” (1939)
LIL DAGOVER
Filmes Selecionados
“A Sonata de Kreutzer / Die Kreutzersonate” (1937)
“Bismarck” (1940)
LILIAN HARVEY
Filmes Selecionados
“Morrer de Amor / Fanny Elssler” (1937)
“Capricho / Capriccio”
(1938)
LUIS TRENKER
Filmes Selecionados
“Condottieri” (1937)
“Der Berg Ruft!” (1938)
MAGDA SCHNEIDER
Filmes Selecionados
“Redenção / Liebelei” (1933)
“Wer küßt Madeleine?” (1939)
MARIANNE HOPPE
Filmes Selecionados
“Até a Vista Francisca / Auf Wiedersehn, Franziska!”(1941)
“Romanze in Moll” (1943)
MARIKA RÖKK
Filmes Selecionados
“Noite de Baile / Es War eine Rauschende Ballnacht” (1939)
“Kora Terry” (1940)
“Kora Terry” (1940)
MARTHA EGGERTH
Filmes Selecionados
“Canção da Lembrança / Das Hofkonzert” (1936)
“Quando Canta o Rouxinol / Wo die Lerche Singt” (1936)
OLGA TSCHECHOWA
Filmes Selecionados
“Absolvida / Unter Ausschluß der Öffentlichkeit” (1937)
“Quatro Mulheres é Demais / Bel Ami” (1939)
POLA NEGRI
Filmes Selecionados
“A Mulher que Amou Demais / Madame Bovary” (1937)
“A Falsária / Die Fromme Lüge” (1938)
RENATE MÜLLER
Filmes Selecionados
“Victor ou Vitória / Viktor und Viktoria” (1933)
“Allotria” (1936)
SABINE PETERS
Filmes Selecionados
“Segundo Amor / Das Mädchen Irene” (1936)
“Preußische
Liebesgeschichte” (1938)
SYBILLE SCHMITZ
Filmes Selecionados
“Clarissa” (1941)
“Titanic / Idem” (1943)
VIKTOR STAAL
Filmes Selecionados
“Recomeça a Vida / Zu Neuen Ufern” (1937)
“Die Große Liebe” (1942)
WERNER KRAUSS
Filmes Selecionados
“Judeu Süß” (1940)
“Paracelsus” (1943)
WILLY BIRGEL
Filmes Selecionados
“Recomeça a Vida / Zu Neuen Ufern” (1937)
“Das Herz der
Königin” (1940)
WILLY FRITSCH
Filmes Selecionados
“A Pequena de Outra Noite / Das Mädchen von Gestern Nacht” (1938)
“Wiener Blut” (1942)
ZARAH LEANDER
Filmes Selecionados
“La Habanera” (1937)
“Noite de Baile / Es War eine Rauschende Ballnacht” (1939)