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dezembro 27, 2022

****** FRED ZINNEMANN – Uma VIDA no CINEMA





entrevistador: DAVID GRITTEN
“Los Angeles Times”, 1992
eu fiz a tradução.
 
 
Há quase uma década, o veterano diretor FRED ZINNEMANN (1907 – 1997. Viena / Áustria), cuja assinatura está em alguns dos mais notáveis filmes de Hollywood, está em aposentadoria voluntária - descartado da indústria do cinema pelo veneno das críticas ao seu último filme, “Cinco Dias de Verão / Five Days One Summer”. Sua idade - ele tem 85 anos - e problemas de saúde contribuíram para a decisão, mas o julgamento perverso ao filme de 1983, uma aventura romântica ambientada nos Alpes franceses e estrelado por Sean Connery, deixou o diretor desanimado. “Não estou dizendo que foi um bom filme”, diz ele. “Mas havia um certo grau de crueldade nas críticas. O prazer que algumas pessoas tiveram em destruí-lo realmente doeu.” Ele tinha visto seu amigo, o falecido David Lean, passar pela mesma experiência. Lean ficou deprimido com a hostilidade a “A Filha de Ryan / Ryan's Daughter”, em 1970. Depois disso, Lean fez apenas mais um filme, “Uma Passagem para a Índia / A Passage to India”, lançado em 1984, embora estivesse trabalhando em “Nostromo”, de Joseph Conrad, na época de sua morte.
 
“Cinco Dias de Verão Five” será o canto do cisne de FRED ZINNEMANN no cinema. Mas a amargura permanece. “Sentimos que, mesmo que o filme não represente nada, temos direito a algum respeito”, se queixa. “Não mais do que isso.” O currículo do diretor seria elogioso se tivesse apenas “Espíritos Indômitos / The Men”, o primeiro filme de Marlon Brando, de 1950. Mas ele dirigiu também os clássicos “Matar ou Morrer”, “A Um Passo da Eternidade e “Júlia”, bem como outros filmes excelentes: o drama “Uma Cruz à Beira do Caminho”, com Audrey Hepburn, o simpático musical “Oklahoma! / Idem” (1955) e o tenso thriller “O Dia do Chacal”. Não ficou ocioso em sua aposentadoria. Nos últimos cinco anos, trabalhou meticulosamente em sua autobiografia pictórica, “Fred Zinnemann: A Life in the Movies”, recentemente publicada pela Scribners. As críticas têm sido excelentes. Frederic Raphael, no “London Sunday Times”, chamou o volume de fascinante e o descreveu como “um relato admiravelmente conciso de uma carreira de diretor que coincide com o período clássico de Hollywood”. “Ainda outro relato de uma vida no cinema, mas de alguma forma mais do que isso”, afirmou a “Entertainment Weekly”. O “Boston Globe” destacou a “riqueza de imagens como matéria-prima” do livro.
 
zinnemann e grace kelly
Em uma tarde recente em seu escritório perto de Berkeley Square, em Mayfair, FRED ZINNEMANN admitiu que seu esforço de cinco anos foi “uma estrada longa e triste cheia de armadilhas”. “Um problema era o custo de ter tantas fotos. Os editores não entendiam por que tinha que haver tantas. E uma editora não tinha dinheiro, então fomos para outra. Mas eu pensei que sem as fotos seria inútil. Não sou um escritor. Tinha que haver ilustrações. Era preciso ver como Harry Cohn parecia para entender como ele se comportava”.
 
Existem agora 440 fotos no livro, algumas delas de valor inestimável. Há uma cena de um bêbado em um bar vazio, que foi cortada de “Matar ou Morrer”, e outra de Gary Cooper e Grace Kelly almoçando com a equipe. Lá está Brando visitando Zinnemann e Montgomery Clift no set de “A Um Passo da Eternidade”. O livro abrange os primeiros anos do cineasta em Viena, seguidos por períodos na escola de cinema em Paris e como assistente de cinegrafista em Berlim. Ele chegou aos Estados Unidos em 1929, trabalhou para o diretor Berthold Viertel e aprendeu seu ofício como aprendiz até sua estreia na direção em 1942, “Um Assassino de Luvas / Kid Glove Killer”, no qual Ava Gardner teve um papel de duas falas. Ele divide sua vida subsequente em capítulos que correspondem a seus filmes e usa suas experiências como trampolim para uma série de reminiscências. Se lembra vividamente do jovem Brando, entusiasmado com seu sucesso em “Um Bonde Chamado Desejo” na Broadway, fazendo um teste para ele e os produtores Stanley Kramer e Carl Foreman para o papel principal em “Espíritos Indômitos”. “Ele tinha uma intensidade real”, lembra FRED ZINNEMANN. “Era como um vulcão. Não era fácil de trabalhar. Suspeitava do pessoal de Hollywood e conservava suas próprias impressões.” Mas aceitou o papel, interpretando um veterano de guerra paraplégico em uma enfermaria de hospital cheia de ex-soldados paralíticos.
 
“Kramer e Foreman fizeram o filme de forma independente. Se alguém tivesse ido a um estúdio com um tema como este, não chegaria a lugar nenhum.” Fiel ao seu treinamento do método, Brando viveu em uma verdadeira enfermaria paraplégica por três semanas, ao final das quais apenas médicos e enfermeiras sabiam que ele não estava realmente paralisado. Embora alguns atores agora se preparem para papéis com tanta meticulosidade, esta foi sem dúvida a primeira vez que um ator de cinema se preparou com tanta profundidade. “Ele concebeu um personagem”, disse FRED ZINNEMANN. “Minha direção foi puramente a parte técnica. Não venho do teatro e não pretendo dizer aos atores como fazer algo. Conto a eles sobre o desenvolvimento do personagem, o que uma cena específica exige e é isso.” Montgomery Clift foi outro ator incrível que apareceu em dois filmes do diretor, “Perdidos na Tormenta / The Search” (1948) e “A Um Passo da Eternidade” (1953), como o soldado individualista que se recusa a ser controlado pelas duras regras do Exército.
 
O diretor discutiu com Harry Cohn quando insistiu que queria Clift na produção. “Ele achava que o filme era sobre boxe, e eu achava que era sobre o espírito humano”, diz. Cohn queria outro ator que, segundo ele, “está sob contrato, não trabalha há 10 semanas, seu salário está subindo, ele parece um boxeador e as garotas gostam dele”. Quando disse que preferia Clift, retrucou que ele “não era soldado, nem boxeador e provavelmente homossexual”. Acontece que Cohn estava certo em todos os aspectos, mas subestimou a capacidade de Clift de se colocar psicologicamente em um papel. FRED ZINNEMANN ameaçou desistir de um grande robusto se Clift não conseguisse o papel. Ele cedeu e, diz o diretor “quando Monty estava pronto para o papel, poderíamos jurar que ele era um soldado de primeira linha e um bom boxeador”. Deborah Kerr foi outra escolha complicada para a esposa adúltera do capitão. “Joan Crawford estava pronta para fazer o papel e, na verdade, já estava reclamando de seu guarda-roupa”, diz. “Mas então, quando Deborah foi sugerida, todos nós pensamos que seria uma excelente ideia contratar outra atriz. Naquela época, Deborah era vista quase como a rainha da Inglaterra, fria como um iceberg. Mas funcionou lindamente.”

Kerr e Burt Lancaster gravaram uma das cenas mais memoráveis ​​da história do cinema - um abraço explosivo na praia enquanto as ondas quebravam sobre eles. FRED ZINNEMANN observa ironicamente que os ônibus turísticos ainda param em Diamond Head, no Havaí, para apontar onde a cena foi filmada: “É uma curiosa contribuição que demos à cultura popular O faroeste “Matar ou Morrer” continua sendo o filme mais conhecido de Zinnemann e que rende várias interpretações para diferentes pessoas. Ele não concorda com a afirmação do roteirista Carl Foreman de que é uma alegoria do macarthismo. “Algumas pessoas até acham que é uma alegoria da Guerra da Coréia”, acrescenta. “Mas eu vejo como um homem lutando para salvar sua própria vida, um homem que deve tomar uma decisão de acordo com sua consciência.” 

 Ele gostou muito de dirigir o filme e trabalhar com Gary Cooper, que interpretou o corajoso xerife de uma pequena cidade. Mas diz que gostou igualmente do desafio de completar o faroeste dentro dos 28 dias previstos. Esse tipo de comentário levou FRED ZINNEMANN a ser visto por alguns críticos como um mestre da logística, e não como um diretor com uma visão autoral. Certamente, admite ter gostado dos problemas técnicos envolvidos na filmagem de “Oklahoma!”. E o que ele lembra melhor sobre “O Dia do Chacal” foi “ver se o suspense poderia ser mantido com o público sabendo o final – isto é, que o Chacal falhou em matar De Gaulle. Esse tipo de coisa me fascinava, tornou-se como um jogo de palavras cruzadas.”
 
A melhor e mais divulgada história sobre diretor é boa. Cerca de uma dúzia de anos atrás, com todos os filmes clássicos em seu currículo, ele foi persuadido a fazer uma reunião com um ousado e jovem executivo de um estúdio de Hollywood. “Então,” iniciou o executivo, destemido na própria ignorância, “nós nunca nos encontramos antes. Conte-me algumas das coisas que você fez. “Não, não”, disse educadamente. Você primeiro.” É verdade? Ele ri. “Há anos venho tentando repudiar essa história. Parece-me que Billy Wilder me contou sobre si mesmo.Quer a história seja verdadeira ou não, ela se encaixa. FRED ZINNEMANN, que ainda tem um forte sotaque austríaco, é educado e cheio da antiga cortesia vienense. Mas está impaciente com a nova Hollywood. Por mais que ele fale mal de Harry Cohn e daquela raça autocrática de chefes de estúdio, pelo menos conheciam filmes. “Eram gananciosos, e eu sentia desprezo pela forma como usavam o poder. Mas amavam o cinema - isso se poderia discutir com eles.”, diz ele.

marlon brando, zinnemann
e montgomery clift
Agora, como ele vê, tudo é diferente, contadores e advogados comandam o show. “Se falarmos com esses caras sobre o amor pelo cinema, não tenho certeza se eles saberão do que estamos falando”, diz ele. A virada que azedou o diretor ocorreu em 1969, quando a MGM cancelou sua versão do romance de Andre Malraux, “Man's Fate”, no qual ele vinha trabalhando há três anos. Sem motivo, o estúdio findou o filme três dias antes do início das filmagens em Londres. “Até aquele ponto”, diz com um suspiro, “havia uma certa honra de ladrão no negócio. Mas depois disso, um aperto de mão não era mais um aperto de mão.” Ainda assim, é um profissional sem rancor. Sua autobiografia é desprovida de amargura pessoal, não há contas sendo acertadas com velhos inimigos ou fofocas maliciosas. Sobre o fiasco de “Man's Fate”, se refere a um executivo da M-G-M com quem nunca mais falou - mas não o menciona no livro. Ele também se refere a rixa com a dramaturga Lillian Hellman, que escreveu o conto no qual “Júlia” foi baseado, mas nos poupa de detalhes.
 
“Não vejo para que serve revisar essas coisas”, diz. “Não estou prestes a julgar ninguém.” Mas ele admite que viu Hollywood “do ponto de vista de um verme. Vi pessoas se comportando mal. Aprendi muito sobre a natureza humana. Pode ser engraçado, mas com certeza não é interessante. Achei que a melhor maneira era rir disso.” A vida privada de FRED ZINNEMANN também não se intromete muito em seu livro. Renée, sua esposa há mais de 50 anos, recebe sua maior menção por meio de um pequeno papel que desempenhou em “Uma Cruz à Beira do Caminho”. “Bem”, diz, “há coisas que devem permanecer privadas. Algumas das coisas que as pessoas escrevem sobre suas próprias vidas são indecentes.” À sua maneira, ele nada contra a maré - apesar dos críticos que acusam seus filmes de serem conservadores e convencionais. Ele se lembra de ter lido “O Vermelho e o Negro”, de Stendhal, quando estudante. “Era sobre um jovem nadando contra a corrente o tempo todo, e isso influenciou a minha atitude.” E quando dirigiu seus próprios filmes, eles tendiam a ser sobre questões em debate. Seus filmes do pós-guerra, influenciados por cineastas neorrealistas italianos, abordaram temas como a situação dos veteranos de guerra, noivas de guerra estrangeiras e crianças deslocadas.

zinnemann e audrey hepburn
Logo foi procurado para dirigir filmes de grande orçamento. “As pessoas achavam que havia um certo tipo de história que eu gostava de fazer”, lembra ele. “Eu queria cada vez mais filmar histórias no local a que elas pertenciam. E isso me levou cada vez mais à Europa.” Ele insiste que nunca deu as costas a Hollywood, embora viva na Grã-Bretanha, que considera um país civilizado, há quase 30 anos. No entanto, admite alguma exasperação com o sistema estelar. “É uma coisa puramente pessoal”, refletiu. “Alguns diretores - Billy Wilder, John Huston, William Wyler - eram muito bons com estrelas, eram espirituosos, sabiam falar com elas e trabalhar com elas. Descobri que, a menos que se possa retirar esse elemento de estrelato do trabalho, haveria problemas. Para mim, foi mais fácil trabalhar com pessoas que podiam esquecer que eram estrelas.”
 
“Não apenas as estrelas custam muito dinheiro, mas psicologicamente os produtores, o estúdio, todo mundo sente que a estrela é a pessoa central e deve ser a história.” FRED ZINNEMANN descobriu que as demandas das estrelas podem ter um efeito desgastante sobre todos em um set de filmagem. Outros atores - menciona Vanessa Redgrave e Paul Scofield, de “O Homem que Não Vendeu sua Alma”, a quem descreve como um santo - são generosos e fornecem sustento para seus colegas. Ele sente que se divertiu e teve sorte. Tem uma filmografia que resiste ao teste do tempo. Hoje, recebeu um cartão de um amigo na Alemanha com citação de Schopenhauer, que diz: “Como é feliz no final da vida ver que sua obra não envelheceu com você”. O diretor se permite um sorriso irônico. “Não sou louco pelos alemães, mas eles são bons em citações. E essa é muito boa”.
 

DEZ FILMES de FRED ZINNEMANN
(por ordem de preferência)
 
01
A um PASSO da ETERNIDADE
(From Here to Eternity, 1953)

elenco: Burt Lancaster, Montgomery Clift, Deborah Kerr, Donna Reed, Frank Sinatra, Ernest Borgnine e Jack Warden
 
02
JÚLIA
(Idem, 1977)

elenco: Jane Fonda, Vanessa Redgrave, Jason Robards, Maximilian Schell, Hal Holbrook, Rosemary Murphy, Meryl Streep, Dora Doll e Cathleen Nesbitt
 
03
MATAR ou MORRER
(High Noon, 1952)

elenco: Gary Cooper, Grace Kelly, Thomas Mitchell, Lloyd Bridges, Katy Jurado, Otto Kruger, Lon Chaney Jr. e Lee Van Cleef
 
04
Uma CRUZ à BEIRA do ABISMO
(The Nun's Story, 1959)

elenco: Audrey Hepburn, Peter Finch, Edith Evans, Peggy Ashcrof, Dean Jagger, Mildred Dunnock e Beatrice Straight       
 
05
O HOMEM que NÃO VENDEU sua ALMA
(A Man for All Seasons, 1966)

elenco: Paul Scofield, Wendy Hiller, Robert Shaw, Leo McKern, Orson Welles, Susannah York, John Hurt e Corin Redgrave
 
06
A VOZ do SANGUE
(Behold a Pale Horse, 1964)

elenco: Gregory Peck, Anthony Quinn, Omar Sharif, Raymond Pellegrin, Paolo Stoppa, Mildred Dunnock, Daniela Rocca e Christian Marquand
 
07
O PEREGRINO da ESPERANÇA
(The Sundowners, 1960)

elenco: Deborah Kerr, Robert Mitchum, Peter Ustinov, Glynis Johns e Dina Merrill
 
08
O DIA do CHACAL
(The Day of the Jackal, 1973)

elenco: Edward Fox, Michel Auclair, Alan Bade, Derek Jacobi e Michael Lonsdale
 
09
A SÉTIMA CRUZ
(The Seventh Cross, 1944)

elenco: Spencer Tracy, Signe Hasso, Hume Cronyn, Jessica Tandy, Agnes Moorehead, Felix Bressart, Ray Collins e George Macready
 
10
ATO de VIOLÊNCIA
(Act of Violence, 1948)

elenco: Van Heflin, Robert Ryan, Janet Leigh, Mary Astor e Phyllis Thaxter

junho 29, 2017

******** SPENCER TRACY – meu ATOR FAVORITO



 
Apelidos: Spence, Pops
Altura: 1.77 m


Admiro SPENCER TRACY (1900 - 1967. Milwaukee, Wisconsin / EUA) como intérprete e também gosto de sua figura: rosto forte, olhos inteligentes e voz áspera. O público amava seus vários personagens de ar bonachão. Os colegas o consideravam o melhor de todos. A divina Katharine Hepburn o amou como somente se ama no cinema. No entanto, este excelente ator tinha seu lado sombrio e torturado: alcoólatra, mal humorado e mulherengo. Foi uma das estrelas da Hollywood, um dos mais icônicos da “Idade de Ouro” do cinema clássico, e um dos atores mais populares globalmente. 

Ele interpretou personagens que ficaram no imaginário popular e que ainda se fazem sentir, muito por “culpa” da energia e do toque especial que o atribuía a cada papel que desempenhava, uma característica que a ele ficou associada do primeiro ao último filme em que participou. As figuras inteligentes e psicologicamente complexas a que deu vida, em 37 anos de trabalho na indústria cinematográfica que resultaram em 75 filmes, são cativantes e inigualáveis, tal como o excepcional talento do artista.

clark gable e tracy em “san francisco”
Teve uma carreira plena. Respeitado pelos companheiros de profissão, tinha o carinho de um público que pouco sabia de sua faceta menos amável, a da personalidade difícil, do alcoolismo e da coleção de amantes jovens. Não foi casual que dois sacerdotes, o padre Tim Mullin de “San Francisco - A Cidade do Pecado / San Francisco” (1936) e o carismático Padre Flanagan de “Com os Braços Abertos / Boys Town” (1938) e de sua sequência “Somos Todos Irmãos / Men of Boys Town” (1941), ambos de Norman Taurog, foram responsáveis pelo salto ao topo de Hollywood. Esses papéis de cura e, também, do bondoso marinheiro português, mentor de um garoto mimado, no magnífico “Marujo Intrépido”, criaram no imaginário coletivo um perfil fantasioso de SPENCER TRACY, que não correspondia exatamente aos seus méritos de vida.

Na década de 1930 já falava-se do hábito que tinha de beber, mas nem todos sabiam sobre seus outros problemas: um católico que não acreditava em divórcio, um marido que não amava mais a mulher – porém, era a pessoa a quem ele mais respeitava -, um pai com dificuldades em aceitar a deficiência do filho surdo-mudo e um ator preso pela ganância dos estúdios. Após os 40 anos passou a ter problemas de saúde causados pela bebida. Suas crises geravam melancolia e mal humor. Nem Kate Hepburn escapava do sarcasmo. Mesmo assim, ficavam juntos todo o tempo possível. Adoravam pintar juntos. 

tracy e bette davis 
na cerimônia do oscar
Dele se recorda, acima de qualquer coisa, desse romance extramatrimonial, que durou mais de 20 anos e as crônicas informativas da época protegiam. SPENCER TRACY manteve seu conturbado casamento, mas sua consciência religiosa não evitou que pulasse de cama em cama. Entre suas conquistas, celebridades como Myrna Loy, Loretta Young, Ingrid Bergman, Lana Turner, Gene Tierney e Grace Kelly. Também já foi escrito sobre seu perfil homossexual, relacionando-se com John Derek e outros aspirantes na Meca do cinema.

Ao mesmo tempo, eram conhecidas suas reclusões em quartos de hotel, carregado de garrafas de uísque, que consumia durante dias até perder os sentidos. Dizem que era torturado por uma realidade familiar que detestava. “Ninguém bebia, brigava, nem criava mais problemas que o jovem Spencer”, afirmou o produtor-cineasta Stanley Kramer, que o dirigiu em quatro ocasiões. SPENCER TRACY passou sete anos da sua carreira pisando nos palcos teatrais, trabalhando com diversas companhias e fazendo sucesso na Broadway. Graças ao teatro chegou ao cinema: em 1930, o papel principal que interpretou na peça “The Last Mile”, de John Wexley, que teve trezentas representações, surpreendeu as audiências e chamou a atenção dos estúdios de Hollywood.

Nos seus primeiros anos, ele filmaria sem parar na Fox, firmando um nome ainda sem estrelato. Os filmes dessa época mostram sua pior face, herança do caráter tipicamente irlandês e de uma infância difícil curtida em mil e uma brigas de rua. Não se sabe exatamente a razão dele deixar o estúdio que deu sua primeira oportunidade, talvez a confusão provocada no set de “A Nave de Satã / Dante's Inferno” (1935) com o vingativo produtor Darryl F. Zanuck. No primeiro filme que interpretou, “Rio Acima / Up in the River” (1930), realizado por John Ford, teve outro ator lendário fazendo sua estreia: Humphrey Bogart. Contudo, esta aparição foi inglória e a fama não chegou tão depressa. Continuou desconhecido do público por mais vinte e cinco obras cinematográficas.

george o`brien e tracy em 1930
As coisas começaram a mudar, ao menos profissionalmente, ao ser contratado pela Metro-Goldwyn-Mayer. Foi o parceiro perfeito para Clark Gable (filmariam também os ótimos “Piloto de Provas” e “Fruto Proibido”) no sucesso “San Francisco – A Cidade do Pecado”, drama que deu a primeira de suas noves indicações ao Oscar. Brilhou na comédia “Casado com a Minha Noiva / Libeled Lady” (1936), com William Powell, Jean Harlow e Myrna Loy. Dois Oscar consecutivos, por “Com os Braços Abertos” e “Marujo Intrépido”, o levaram ao topo máximo merecido. Na Metro, o estúdio com mais prestígio na ocasião, a sua carreira floresceu e protagonizou uma série de filmes que obtiveram sucesso. Um deles foi a obra-prima “Fúria”. Realizado por Fritz Lang, é uma história de injustiça e vingança em que o ator oferece uma poderosa performance, como um inocente que é preso por um crime de rapto que não cometeu, destruindo sua vida pacata e correta.

Em 1923, ele casou-se com Louise Treadwell, tendo com ela dois filhos, John e Louise.  Em 1941, iniciou um relacionamento amoroso com Katharine Hepburn, o qual durou até sua morte.  Embora separado de sua esposa, ele nunca se divorciou dela e era figurinha fácil nos lugares da moda, sempre acompanhado de atrizes jovens e bonitas. A esposa desistiu da carreira de atriz quando o filho de 10 meses foi declarado surdo. Desde então se dedicou a ensiná-lo a formar sons, a ler e finalmente falar. 

spencer tracy e katharine hepburn

O ator sentia-se terrivelmente culpado e considerava mérito total da esposa o fato do filho poder frequentar uma escola. Em 1941, Louise conseguiu fundar a Clinica John Tracy. Ela entendia a frustração de SPENCER TRACY, sempre o apoiando e não o recriminando quando chegava em casa bêbado ou vindo dos braços de outra. Ele não se perdoava por não conseguir comunicar-se com o filho. Os fofoqueiros de Hollywood tinham respeito pelo trabalho social dela, evitando divulgar qualquer coisa ruim. O casamento era só no papel e o fato do ator se recusar a divorciar-se trazia certa simpatia.

Quando George Stevens o convidou para compartir protagonismo com Katherine Hepburn em “A Mulher do Dia”, a história de Hollywood mudou para sempre. Não somente pelo que aconteceu além das filmagens. Fundamentalmente pela química que tinham. A dupla funcionou tão bem, tanto em termos artísticos como lucrativos, que os dois atores voltaram a juntar-se no cinema por mais oito ocasiões. A forma mágica e sempre divertida com que contracenam um com o outro originou filmes que ficaram na história. Conta a lenda que, em seu primeiro encontro com Tracy, apresentada pelo diretor e roteirista Joseph L. Mankiewicz, Hepburn disse: “Tenho a impressão que sou um pouco alta para o senhor, senhor Tracy”. Spencer respondeu: “Não se preocupe, senhorita Hepburn. Eu a reduzirei ao meu tamanho”. Continuou para a vida a dúvida sobre quem disse essa última frase, pois os três presentes assumiram a autoria.

louise, a esposa de tracy
Dentre os títulos que fizeram juntos, destacam-se “A Costela de Adão, um jogo cômico perfeito, cheio de réplicas e contrarréplicas, pura guerra dos sexos, e “Adivinhe Quem Vem Para Jantar / Guess Who's Coming to Dinner” (1967), de Stanley Kramer, amável narrativa em defesa dos direitos civis, que rodaram quando SPENCER TRACY já estava muito doente. Pouco depois da última cena gravada, em 10 de junho de 1967, faleceria vítima de um ataque cardíaco. Foi nomeado pela nona vez, postumamente, ao Oscar, por esta interpretação, que deu um ponto final a uma brilhante e extensa carreira, repleta de êxitos e de personagens inesquecíveis. É ainda uma das figuras mais queridas do cinema, e a sua obra merece ser descoberta pelos cinéfilos do século XXI. “O que assombra as interpretações de Spencer, que as faz únicas, é que ele não faz o menor esforço. Surgem como algo natural”, analisou Kate Hepburn.

“A Mulher do Dia” conta a história de Tess (Katharine Hepburn) e Sam (Spencer Tracy). Eles trabalham no mesmo jornal, mas não gostam um do outro. Repentinamente, se apaixonam e se casam! Só que Tess é uma das mulheres mais feministas do país, e ganhou o prêmio de “Mulher do Ano”, o que a deixa muito ocupada e, por causa disso, em crise com o marido. O filme foi um sucesso absoluto de público e critica. Antes das filmagens, a atriz tinha assistido todos os filmes de Tracy, conhecia as histórias sobre mulheres e bebidas, mas também sabia sobre o profissionalismo. Ele jamais aparecia embriagado ou incapaz de dar o melhor de si. Já o ator não conhecia o trabalho da colega, e pediu uma cópia de “Núpcias de Escândalo / The Philadelphia Story” (1940). Depois comentou: “É uma danada de boa atriz”. Suspeitava de mulheres que vestiam calça, mas gostou do roteiro e concordou em filmar com Kate.
 
Quando a atriz começou a trabalhar em “A Mulher do Dia”, ela e George Stevens estavam saindo há seis meses e o fato de ter insistido para que ele fosse o diretor levantou muitas especulações. Logo no inicio das filmagens foi constatado a química entre Kate e Spencer. Stevens afastou-se e todos percebiam o que estava acontecendo. Mas a consideração que ele tinha pela esposa era inabalável. Se os dois fossem manter um relacionamento, esse seria clandestino. Quando as filmagens terminaram, os dois estavam apaixonados. SPENCER TRACY até parou de beber por um tempo.

Ele continuaria a obter êxitos e aclamações durante os anos 1940 e nos anos 1950. Em 1955, um ano antes de sair da M-G-M, protagoniza um dos filmes mais conhecidos entre os que fez no estúdio, e com o qual arrecadou a sua quinta nomeação da Academia: “A Conspiração do Silêncio”. Realizado por John Sturges, é um thriller sobre um forasteiro que chega a uma pequena cidade escondida nos EUA, onde descobre a existência de um segredo que é comum a todos os habitantes, o de um crime de que todos têm conhecimento, mas cujas circunstâncias e culpados guardam silenciosamente entre si, com medo das consequências que a revelação dos fatos possam ter naquela aparentemente pacífica comunidade.

A partir de 1956, ao ganhar a “independência”, fez outros tipos de trabalhos cinematográficos, e apesar de ter sofrido algumas experiências menos positivas, no final desta década deixou mais dois papéis memoráveis, ambos de 1958. O protagonista da adaptação de “O Velho e o Mar / The Old Man and the Sea”, de Ernest Hemingway, num filme assinado por John Sturges e co-dirigido por Henry King e Fred Zinnemann, em interpretação que lhe valeu nomeação ao Oscar. E dirigido novamente por John Ford no drama político “O Último Hurrah”, sobre os bastidores de uma eleição numa cidadezinha, onde o prefeito Frank Skeffington (interpretado pelo ator) concorre pela última vez ao cargo que desempenhou durante vários mandatos.

nos anos 50, tracy e grace kelly
A saúde do ator começou a deteriorar-se nos primeiros anos da década de 1960, e apesar de rejeitar alguns papéis que poderiam ter sido marcantes na sua filmografia (“Horas de Desespero /  Desperate Hours”, de Wyler, 1955; “A Casa das Amarguras / Ten North Frederick”, 1958; “Longa Viagem Dentro da Noite / Long Day's Journey Into Night”, de Sidney Lumet, 1962, com Katharine Hepburn; “O Leopardo / Il Gattopardo”, de Luchino Visconti, 1963; “Crepúsculo de Uma Raça / Cheyenne Autumn”, de John Ford, 1964; “A Mesa do Diabo / The Cincinnati Kid”, de Norman Jewison, 1965), continuou brilhando em fitas de Stanley Kramer. Em 1961 foi a vez de “Julgamento em Nuremberg, que a Academia também o distinguiu na sua lista de nomeados, brilhando como um dos juízes que integrou os processos de condenação de vários dos envolvidos num dos maiores crimes que a humanidade conheceu: o holocausto.

O seu estado piorou cada vez mais, o que fez com que se afastasse dos filmes durante algum tempo e cancelasse participações em vários projetos, voltando apenas em 1967 para a sua quarta colaboração com Kramer, naquela que foi a sua última interpretação e a derradeira vez em que contracenou com a companheira de longa data: “Adivinhe Quem Vem Jantar”. Os 25 anos que separam seu primeiro e último filme com Katharine Hepburn, mostram o ator em plena madureza interpretativa, legando atuações impecáveis em “O Papai da Noiva” e sua sequência, O Netinho do Papai / Father's Little Dividend” (1951), e “A Lança Partida”. Ator formidável, SPENCER TRACY é daqueles que relativam a importância da profissão: “Por que os atores acreditam que são tão importantes? Não somos. Atuar não é um trabalho importante. O encanador sim, faz um trabalho importante. A nossa não é uma profissão muito exigente. Não precisa muito cérebro. Tampouco é o trabalho mais nobre do mundo, mas há coisas mais baixas que atuar. Não muitas, talvez a classe política seja mais baixa”, disse em entrevista.

FONTE
“Spencer Tracy: a Biografia” (1969)
de Larry Swindel
 
“Spencer Tracy: Uma Biografia” (2011)
de Leonard Maltin
 
“Spencer Tracy: a Vida” (2011)
de James Curtis
 
 “Spencer Tracy - Hollywood's Favorite Actor” (2011)
de Jeanine Basinger

dr. jekyll e mr. hyde
em “o médico e o monstro”
 
 
SPENCER em 18 FILMES
(por ordem de preferência)

01
FÚRIA
 (Fury, 1936)

direção de Fritz Lang
elenco: Sylvia Sidney, Bruce Cabot e Walter Brennan

02
JULGAMENTO em NUREMBERG
(Judgment at Nuremberg, 1961)

direção de Stanley Kramer
elenco: Burt Lancaster, Richard Widmark, Marlene Dietrich,
Maximilian Schell, Judy Garland e Montgomery Clift

03
BANDEIRANTES do NORTE
 ('Northwest Passage' (Book I -- Rogers' Rangers), 1940)

direção de King Vidor
elenco: Robert Young, Walter Brennan, Ruth Hussey          

04
FRUTO PROIBIDO
(Boom Town, 1940)

direção de Jack Conway
elenco: Clark Gable, Claudette Colbert, Hedy Lamarr
e Frank Morgan

05
DOIS no CÉU
(A Guy Named Joe, 1943)

direção de Victor Fleming
elenco: Irene Dunne, Van Johnson, Ward Bond,       
James Gleason, Lionel Barrymore e Esther Williams

06
A LANÇA PARTIDA
(Broken Lance, 1954)

direção de Edward Dmytryk
elenco: Robert Wagner, Jean Peters, Richard Widmark,
Katy Jurado e E.G. Marshall

07
CONSPIRAÇÃO do SILÊNCIO
 (Bad Day at Black Rock, 1955)

direção de John Sturges
elenco: Robert Ryan, Anne Francis, Dean Jagger,      
Walter Brennan, John Ericson, Ernest Borgnine
e Lee Marvin

08
TRINTA SEGUNDOS sobre TÓQUIO
 (Thirty Seconds Over Tokyo, 1944)

direção de Mervyn LeRoy
elenco: Van Johnson, Robert Walker, Phyllis Thaxter,
Stephen McNally e Robert Mitchum

09
A SÉTIMA CRUZ
 (The Seventh Cross, 1944)

direção de Fred Zinnemann
elenco: Signe Hasso, Hume Crony, Jessica Tandy
e Agnes Moorehead

10
A COSTELA de ADÃO
 (Adam's Rib, 1949)

direção de George Cukor
elenco: Katharine Hepburn, Judy Holliday, Tom Ewell,        
David Wayne, Jean Hagen e Hope Emerson

11
20.000 ANOS em SING SING
(20,000 Years in Sing Sing, 1932)

direção de Michael Curtiz
elenco: Bette Davis e Louis Calhern

12
O PAPAI da NOIVA
(Father of the Bride, 1950)

direção de Vincente Minnelli
elenco: Joan Bennett e Elizabeth Taylor

13
O ÚLTIMO HURRAH
 (The Last Hurrah, 1958)

direção de John Ford
elenco: Jeffrey Hunter, Dianne Foster, Pat O'Brien,
Basil Rathbone, Donald Crisp, James Gleason         
e Ricardo Cortez

14
O MÉDICO e o MONSTRO
(Dr. Jekyll and Mr. Hyde, 1941)

direção de Victor Fleming
elenco: Ingrid Bergman, Lana Turner, Donald Crisp
e C. Aubrey Smith

15
MARUJO INTRÉPIDO
(Captains Courageous, 1937)

direção de Victor Fleming
elenco: Freddie Bartholomew, Lionel Barrymore 
e Melvyn Douglas

16
A MULHER do DIA
 (Woman of the Year, 1942)

direção de George Stevens
elenco: Katharine Hepburn, Fay Bainter e Reginald Owen

17
A um PASSO DO FIM
(The People Against O'Hara, 1951)

direção de John Sturges
elenco: Pat O'Brien, Diana Lynn, John Hodiak,
Eduardo Ciannelli e James Arness

18
PILOTO de PROVAS
(Test Pilot, 1938)

direção de Victor Fleming
elenco: Clark Gable, Myrna Loy, Lionel Barrymore
 e Marjorie Main

GALERIA de FOTOS
 
 
 
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