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agosto 15, 2025

************** JOHN WAYNE, um HERÓI de CINEMA

 

 

Tenho orgulho do meu trabalho,
a ponto de ser o primeiro a chegar
ao set de filmagem. Não sofro
com críticas ruins, o público gosta
dos meus filmes e isso é tudo
o que importa.
 
Sou um patriota honesto,
um conservador de direita.
JOHN WAYNE
 
Altura: 1,93 m
Cabelos: castanho-escuros
Olhos: azuis 
Apelido: Duke e JW
 
para Doutor Antônio, meu pai
 
LEGIÃO INVENCÍVEL


Figura imponente do passado de Hollywood, por mais de trinta anos foi referência na indústria cinematográfica, simbolizando um tipo de masculinidade e estrelando filmes icônicos da Era de Ouro. Na adolescência, na solidão do quarto, eu imitava o seu andar característico de felino. Pegando emprestado armas da coleção de meu pai, fazia de conta que era o glorioso astro dos faroestes, matando sem piedade bandidos e selvagens. Repeti essas cenas durante anos. Nunca ninguém soube, era um segredo. Admirador dos faroestes que via em preto e branco na TV e na matinê de domingo nos cinemas de Itabuna, preferia os mocinhos Glenn Ford, Gary Cooper e Clint Eastwood. Como pai Antônio era fã de JOHN WAYNE (1907 – 1979. Winterset, Iowa / EUA), procurava substituí-lo no imaginário como pistoleiro imbatível. Queria ser como ele. Com a maturidade, terminei por esquecê-lo ao não o considerar um ator sério. Ao resgatar sua trajetória, percebi o engano. Suas performances em “Rio Vermelho” e “Rastro de Ódio”, entre outras, são impactantes. Não há dúvida de que era cativante e talentoso.
 
Ao descobrir que era republicano e sua batalha política conservadora durante décadas, a afeição juvenil pelo astro renasceu com força total. Portanto, este post é um tributo a sua longa e majestosa passagem por Hollywood. Vencedor de Oscar e Globo de Ouro, JOHN WAYNE se tornou o símbolo máximo do faroeste. Seus filmes frequentemente refletem valores tradicionais, são considerados clássicos do gênero, reverenciados e assistidos até os dias atuais. Steve McQueen, Sylvester Stallone, Bruce Willis e Chuck Norris o citaram como uma grande influência para eles, tanto profissional quanto pessoalmente. Assim como o lendário astro, cada um deles alcançou a fama interpretando personagens de ação heroica e apoiando causas de direita e o partido Republicano. Dedicado em seu trabalho, seu verdadeiro nome era Marion Michael Morrison. Fala lenta, voz grave e marcante, sotaque arrastado e olhar semicerrado, é lembrado como a imagem típica do caubói, quase sempre como um admirável herói solitário. Cresceu num rancho na Califórnia e fez 145 filmes, em mais de 40 anos de uma extraordinária carreira.
 
Duke (como os amigos o chamavam) teria sua trajetória ligada ao cineasta John Ford depois que interpretou Ringo Kid no clássico “No Tempo das Diligências”, em 1939. Ao todo, foram 14 filmes com o mestre. Ainda faria boas parcerias com outros importantes diretores, como John Huston, Howard Hawks, William A. Wellman, Raoul Walsh e Henry Hathaway. Crescendo em Iowa, um de seus passatempos favoritos era jogar futebol americano com o pai. Enquanto estudava na USC, juntamente com colegas, trabalhava meio período na Fox Film, carregando adereços de cenário e como figurante ocasional. Em 1930, teve sua oportunidade em “A Grande Jornada. O diretor Raoul Walsh o viu passar no set carregando uma mesa, gostou do seu jeito de se mover e contratou o rapaz inexperiente para o papel protagonista. A empresa depositava esperanças neste faroeste épico, mas ele fracassou nas bilheterias. A seguir, JOHN WAYNE sobreviveu na década de 30 estrelando dezenas de faroestes de baixo orçamento. Alguns levavam apenas oito dias para serem filmados.
 
Era um trabalho árduo. Não havia dublês, ele próprio lutava e cavalgava. Em 1933, casou-se com Josephine Alicia Saénz, filha de um poderoso funcionário do governo mexicano. Ela era da alta sociedade e uma mulher bonita. Tiveram quatro filhos, com os quais ele sempre foi muito próximo e afetuoso. Ainda desconhecido, chegava ao set às 6h e, depois de um dia difícil, voltava para casa sujo e cansado às 19h30, com a esposa aristocrática pronta para um jantar fora ou uma festa. A virada profissional veio em 1939 com o sucesso de “No Tempo das Diligências”, que o transformou em uma das estrelas em ascensão mais valiosas. Depois vieram outros filmes importantes. Na época, houve um distanciamento gradual da esposa, pois ele não se adaptava ao estilo elegante dela. Quando os EUA entraram na Segunda Guerra Mundial, houve movimento de apoio, inclusive em Hollywood. JOHN WAYNE, com lesões no joelho, sofridas na faculdade, foi isento do alistamento. Mesmo assim, ele desejava servir e escreveu várias vezes a John Ford pedindo para se juntar à sua Unidade Fotográfica de Campo do OSS.
 
Em 1943, conheceu a atriz mexicana Esperanza Baur. Alta, esbelta e morena, ela havia trabalhado com Arturo de Córdoba em “O Conde de Monte Cristo / El Conde de Montecristo” (1942). Como JOHN WAYNE, ela gostava de uma vida simples e reuniões com poucos amigos ao redor de uma churrasqueira. Ele se divorciou e se casou com ela em 1946. Ward Bond foi o padrinho e a esposa do falecido Harry Carey, a madrinha. Mas o ator mudou. A partir do final da década de 1940, com os filmes “Sangue de Heróis”, “Rio Vermelho” e “O Céu Mandou Alguém”, ele foi nomeado estrela número um de bilheteria, junto com Doris Day, por três anos consecutivos, pelos donos de cinema do país. Tornou-se uma estrela de altíssima estatura e passou a apreciar a vida social de Hollywood. A esposa tinha temperamento explosivo, bebia muito, e depois de várias brigas, se separaram. No processo de divórcio, ela alegou o caso do marido com a atriz Gail Russell, e ele respondeu que Conrad Hilton Jr., casado com Elizabeth Taylor, havia se tornado hóspede constante da casa deles, enquanto viajava à trabalho.
 
marlene dietrich e john wayne
Ainda nos anos 40, JOHN WAYNE teve um namoro de três anos com Marlene Dietrich, mas seu romance com Maureen O'Hara durou ainda mais, restando uma boa amizade. Estrelaram cinco filmes juntos. Divorciado mais uma vez, casou-se com a peruana Pilar Palette, que conheceu enquanto procurava locações de filmagem no Peru para “O Álamo / The Alamo” (1960). Embora fosse casada, Pilar se divorciou e se mudou imediatamente para Hollywood. Deprimida e estressada pela radical mudança cultural, ela se viciou em pílulas para dormir. Certa noite, enquanto ele filmava na Louisiana, cortou os pulsos durante uma alucinação. O casal teve três filhos. Depois que a terceira esposa o deixou em 1973, ele se envolveu com sua secretária Pat Stacy pelos anos restantes de vida. Na política, ele era um feroz defensor dos republicanos, nacionalista ferrenho e anticomunista ativo. Participou ativamente da criação da Aliança Cinematográfica para a Preservação dos Ideais Americanos (MPA) em 1944 e foi eleito presidente cinco anos depois. Ronald Reagan, Walt Disney, Clark Gable, Robert Taylor, Gary Cooper e outros famosos estavam entre os membros da organização.

 
Defensor do Comitê de Atividades Antiamericanas (HUAC), expressou seu apoio contra o maldito comunismo no filme de ação “Uma Aventura Perigosa / Big Jim McLain” (1952) e incluindo traidores da pátria na Lista Negra de Hollywood. Promoveu a guerra do Vietnã, produzindo e estrelando “Os Boinas Verdes / The Green Berets” (1968). Por ser a estrela republicana mais proeminente de Hollywood, foi cotado por texanos republicanos a concorrer a um cargo nacional em 1968. Ele recusou dizendo que era “um homem de Richard Nixon”. Apoiou Ronald Reagan nas campanhas para governador da Califórnia em 1966 e 1970. Também rejeitou um convite para ser vice na candidatura presidencial de George Wallace, preferindo fazer campanha por Nixon, inclusive discursando na Convenção Nacional Republicana de 1968. O ditador soviético Joseph Stalin, indignado com o seu anticomunismo, encomendou seu assassinato. Na primeira tentativa, dois matadores russos se fizeram passar por agentes do FBI e tentaram assassiná-lo em seu escritório, na Warner Brothers, em Hollywood, mas foram capturados.
 
As conspirações soviéticas foram canceladas após a morte de Stalin, em 1953, por seu sucessor, Nikita Krushchev, que era fã do astro. “Essa foi uma decisão de Stalin nos últimos cinco anos loucos de sua vida. Quando ele morreu, eu revoguei a ordem”, teria dito Kruschev a JOHN WAYNE em um encontro entre os dois em 1958. No entanto, grupos comunistas norte-americanos assumiram a conspiração e tentaram assassiná-lo no México, nas filmagens de “Caminhos Ásperos / Hondo” (1953). Ele sobreviveu a essa tentativa de assassinato e a outra cometida por um franco-atirador durante visita que fez às tropas dos EUA no Vietnã, em 1966. Carismático e convincente, atuou em faroestes, aventuras, melodramas e filmes de guerra. Em 1956, ao protagonizar “Sangue de Bárbaros / The Conqueror”, resultou em uma tragédia futura. Rodado por treze semanas no Parque Estadual de Snow Canyon, em Utah, o set estava situado a apenas 220 km da área de testes de Nevada, um local para a realização de bombardeamos nucleares ao ar livre com perigos decorrentes da radiação.
 
O pó radioativo – levado pelo vento – se precipitou justamente sobre o local da filmagem. As consequências, porém, viriam anos depois, quando a maior parte do elenco e da equipe começaram a desenvolver câncer numa escala assustadora. O próprio astro, Susan Hayward e Agnes Moorehead padeceram de câncer nas décadas de 60 e 70. Na seguinte, 90 membros da equipe de 220 pessoas desenvolveram tumores malignos e 46 morreram. Já em 1991, seria a vez de John Hoyt, que veio a óbito após adquirir câncer no pulmão. Segundo especialistas, a exposição no set de filmagens possivelmente foi a causa do câncer desenvolvidos em 94 profissionais que trabalharam no filme. Em Hollywood, JOHN WAYNE foi um dos atores que mais recusaram oportunidades notáveis e, em alguns casos, prêmios importantes. Recusou a série “Gunsmoke”, que durou 20 temporadas; “Fugindo do Inferno / The Great Escape” (1963), um clássico do cinema de guerra, e o papel foi para Steve McQueen; “Os Doze Condenados / The Dirty Dozen” (1967), com Lee Marvin brilhando como o Major John Reisman, um papel que seria dele.
 
Disse também não para “Rebeldia Indomável / Cool Hand Luke” (1967), resultando em uma das atuações mais aclamadas de Paul Newman; “Perseguidor Implacável / Dirty Harry” (1971), cujo papel foi para Clint Eastwood, que criou um dos personagens mais famosos do cinema; “Um Estranho no Ninho / One Flew Over the Cuckoo's Nest” (1975), que deu o Oscar para Jack Nicholson; “Patton, Rebelde ou Herói? / Patton” (1970), Oscar para George C. Scott; “Apocalypse Now / Idem” (1979), que terminou nas mãos de Martin Sheen. Entre muitos outros. Dos seus muitos personagens no cinema, o favorito era Ethan Edwards em “Rastros de Ódio” (1956). Chegou a dar ao seu filho o nome de Ethan em homenagem a ele. Praticamente calvo, o astro usou peruca em sua ilustre carreira desde “O Rasto da Bruxa Vermelha / Wake of the Red Witch” (1948). Sua vitória de Melhor Ator no Oscar e no Globo de Ouro por “Bravura Indômita / True Grit” (1969) foi vista como prêmios pelo conjunto da obra. Continuou a estrelar filmes de sucesso até 1976, permanecendo entre as dez maiores estrelas de bilheteria dos EUA até 1974.
 
wayne com o oscar e barbra streisand
Seu álbum falado “America: Why I Love Her” foi indicado ao Grammy quando lançado em 1973. Relançado em CD em 2001, teve êxito novamente. Junto com Humphrey Bogart, JOHN WAYNE era considerado o fumante mais inveterado da meca do cinema, fumando cinco maços de Camel sem filtro até sua primeira batalha contra o câncer em 1964. Ele passou por uma cirurgia bem-sucedida para remover o pulmão esquerdo. Apesar de seus sócios quererem manter a doença em segredo, tornou pública a situação e incentivou o público a fazer exames preventivos. A doença o fez amargar 15 anos de sofrimento, que o levaram até a pensar em suicídio.  Dirigiu os filmes “O Álamo” e “Os Boinas Verdes”. Este último causou-lhe problemas. O roteiro, pró-guerra do Vietnã, alimentou a fúria da esquerda, que realizou vários protestos contra a exibição. Católico, leal aos amigos, fez o elogio fúnebre nos funerais de Ward Bond, John Ford e Howard Hawks. Tinha fama de beber bastante, e os diretores filmavam suas cenas pela manhã, com ele ainda sóbrio.
 
Junto com seu amigo de longa data, Louis Johnson, era dono de uma fazenda de gado Hereford puro-sangue com 63 quilômetros de extensão no Arizona, a 26 Bar Ranch. A fazenda criava mais de 400 touros, frequentemente vencendo nas grandes feiras de gado. O astro comparecia com frequência aos leilões e fazia o discurso de boas-vindas na abertura dos eventos. Em 1976, estrelou “O Último Pistoleiro / The Shootist”, dirigido por Don Siegel e ao lado de Lauren Bacall e James Stewart. Nesse seu último papel, morre de câncer, condição à qual o próprio sucumbiu três anos depois. O faroeste foi um sucesso de bilheteria e crítica, nomeado como um dos Dez Melhores Filmes de 1976 pelo National Board of Review. Faleceu em 11 de junho de 1979, aos 72 anos. Enterrado em segredo, o túmulo permaneceu sem identificação até 1999, para o caso de manifestantes da guerra do Vietnã não o profanarem. Vinte anos após sua morte, finalmente recebeu uma lápide de bronze. Vários locais públicos nos EUA foram nomeados em homenagem a JOHN WAYNE, refletindo seu status como ícone cultural.
 
Graças à sua coragem, dignidade, integridade, talento, honestidade política e à sua cordialidade como ser humano ao longo de sua poderosa carreira, ele tem um lugar único em nossos corações e mentes. Receberia postumamente a Medalha Presidencial da Liberdade em 1980, concedida pelo presidente Jimmy Carter. Em 1998, foi homenageado com o prêmio de Herança Naval pela Fundação Memorial da Marinha dos EUA, reconhecendo seu apoio às forças armadas. Em 1999, o Instituto Americano de Cinema (AFI) o classificou como a 13ª maior lenda masculina do cinema clássico de Hollywood. Continua sendo um dos atores mais intimamente associados não apenas à grandeza do cinema, mas também à grandeza do povo norte-americano. É uma verdadeira lenda, comove as massas, o público o adora. Poucos capturaram melhor o homem durão e corajoso, patriota e dedicado à família, conservador e leal, transbordando integridade e valores de direita: a imagem do herói cinematográfico inesquecível.
 
 
RIO VERMELHO
“O Oeste é o triunfo da coragem pessoal
sobre qualquer obstáculo, seja a natureza ou o homem.”

JOHN WAYNE
 

DEZ FAROESTES de JOHN WAYNE
(por ordem de preferência)
 
01
RIO VERMELHO
(Red River, 1948) 

direção de Howard Hawks
elenco: Montgomery Clift, Joanne Dru, Walter Brennan,
Coleen Gray, Harry Carey e John Ireland
 
02
RASTROS de ÓDIO
(The Searchers, 1956)
 

direção de John Ford
elenco: Jeffrey Hunter, Vera Miles, Ward Bond,
Natalie Wood e Antonio Moreno
 
03
No TEMPO das DILIGÊNCIAS
(Stagecoach, 1939)
 

direção de John Ford
elenco: Claire Trevor, Andy Devine, John Carradine,
Thomas Mitchell, George Bancroft e Tim Holt

04
LEGIÃO INVENCÍVEL
(She Wore a Yellow Ribbon, 1949) 

direção de John Ford
elenco: Joanne Dru, John Agar, Ben Johnson,
Victor McLaglen, Mildred Natwick e George O´Brien
 
05
A GRANDE JORNADA
(The Big Trail, 1930)
 

direção de Raoul Walsh
elenco: Marguerite Churchill, Tully Marshall e Ward Bond
 
06
SANGUE de HERÓIS
(Fort Apache, 1948)

direção de John Ford
elenco: Henry Fonda, Shirley Temple, Pedro Armendáriz,
Ward Bond, George O´Brien, Victor McLaglen,
Anna Lee e Movita
 
07
O CÉU MANDOU ALGUÉM
(3 Godfathers, 1948)

direção de John Ford
elenco: Pedro Armendáriz, Harry Carey Jr., Ward Bond,
Mae Marsh, Mildred Natwick, Jane Darwell
e Ben Johnson
 
08
RIO BRAVO
(Rio Grande, 1950)

direção de John Ford
elenco: Maureen O'Hara, Ben Johnson, Claude Jarman Jr.,
Harry Carey Jr., Chill Willis, J. Carrol Naish,
e Victor McLaglen
 
09
ONDE COMEÇA o INFERNO
(Rio Bravo, 1959)

direção de Howard Hawks
elenco: Dean Martin, Ricky Nelson, Angie Dickinson,
Walter Brennan e Ward Bond
 
10
O HOMEM QUE MATOU o FACÍNORA
(The Man Who Shot Liberty Valance, 1962)

direção de John Ford
elenco: James Stewart, Vera Miles, Lee Marvin,
Edmond O´Brien, Andy Devine, John Carradine,
Jeanette Nolan, Woody Strode e Lee Van Cleef
 

FONTES
JOHN WAYNE: a VIDA e a LENDA (2014)
John Wayne: The Life and Legend
de Scott Eyman
 
JOHN WAYNE – o HOMEM por TRÁS do MITO (2001)
John Wayne - The man behind the myth
de Michael Munn
 
O TITÃ AMERICANO:
PROCURANDO por JOHN WAYNE (2014)
American Titan: Searching for John Wayne
de Marc Eliot
 
“Não apareço em filmes que envergonhem o público. Podem levar a família para ver um dos meus filmes e nunca se sentirão envergonhados ou constrangidos”
JOHN WAYNE
 
GALERIA de FOTOS
  

RASTROS de ÓDIO
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julho 31, 2024

******************** HUMPHREY BOGART, o DURÃO

 


Eu não sou bonito. Eu costumava ser, 
mas não mais. Não como Robert Taylor. 
O que eu tenho é caráter na cara. 
Foram necessárias muitas noites 
e muita bebida para colocá-lo lá. 
Quando vou trabalhar em um filme, 
eu digo: ‘Não tire as rugas 
do meu rosto. Deixe-as lá.
  
A única coisa que você deve ao público 
é um bom desempenho.
HUMPHREY BOGART
 
 
Altura: 1,73 cm
Olhos: castanhos
Cabelos: castanhos
Apelido: Bogie, Harry e Bogey

 
 
Em 1999, o American Film Institute (AFI) o elegeu o Maior Astro de Todos os Tempos. Ele é insubstituível. Nunca haverá outro ator como ele. É um dos meus favoritos. Vi todos os seus filmes, muitos deles mais de uma vez. Mesmo em seus trabalhos menos interessantes, HUMPHREY BOGART (1899 – 1957. Nova York / EUA) aborda cada linha de diálogo com convicção e realismo, e muitas vezes menospreza o seu personagem insignificante com um sorriso irônico. No entanto, sempre levou seu trabalho a sério, sempre lutou por papéis melhores, sempre generoso com seus colegas atores e procurando os melhores diretores e roteiristas para trabalhar. Atuou em 73 filmes e morreu aos 57 anos de idade. Qual seria o seu momento mais extraordinário? Para muitos “Casablanca”, para outros “Uma Aventura na Martinica” ou “Uma Aventura na África”. Eu fico com o policial “Seu Último Refúgio”. A atuação concentrada, o carisma e a intensa presença na tela o transformaram em astro. Um ator que fugia dos padrões de Hollywood. Era mais velho, mais baixo e mais feio do que os outros galãs de sua época, como Clark Gable, Tyrone Power, Cary Grant, Errol Flynn. Sobriamente elegante, como a maioria de seus personagens era franco, cáustico e mesmo ríspido. Não levava desaforo para casa e todas as formas de pretensão o exasperavam. Mesmo sem uma educação formal, leu um bocado (sabia de cor peças e sonetos de Shakespeare, vários diálogos de Platão) e fez-se amigo de escritores e intelectuais. Muitos atores, do francês Jean-Paul Belmondo ao indiano Ashok Kumar, garantem terem sido influenciados pelo seu estilo.
 
Quando era apenas um bebê, sua mãe, uma famosa ilustradora de revistas, o colocou em anúncios de comida infantil, projetados para fazê-lo parecer a criança mais adorável do mundo. O pai era um cirurgião viciado em ópio. A família vivia no luxo e HUMPHREY BOGART estudou em escolas de prestígio. Sem uma direção clara, alistou-se na Marinha, servindo na Europa com distinção. Em 1918, o barco onde estava foi atacado por submarinos e um fragmento de madeira rasgou sua boca, afetando sua maneira de falar para o resto da vida. De volta para casa, seus pais estavam falidos. Eentão foi balconista e fez biscates até conseguir pequenos papéis no teatro.
 
Recusando-se a ter aulas de atuação, aprendeu no palco de tantas peças quanto pôde, assumindo qualquer papel disponível. Logo recebeu críticas favoráveis, embora mais tarde afirmasse que desprezava seus primeiros papéis. Durante esse período, se casou duas vezes: com as atrizes Helen Menken (1926 – 1927) e Mary Philips (1928 – 1937). Quando a Broadway entrou em crise no final dos anos 20, resolveu atuar em filmes. Fez primeiro um curta-metragem em Nova York, “The Dancing Town” (1928), estrelado por Helen Hayes. Suas credenciais na Broadway abriram portas em Hollywood, e ele assinou contrato com a Fox Films por US$ 750 por semana. Sua verdadeira estreia no cinema aconteceu na comédia “Rio Acima / Up the River” (1930), de John Ford, ao lado do amigo Spencer Tracy.
 
Enfrentou um longo caminho até o topo, com filmes insignificantes e papéis menores. Além do trabalho em Hollywood, continuou fazendo teatro. Em 1935, conseguiu um papel com possibilidades: Duke Mantee, um sinistro e perigoso fugitivo da cadeia, na peça de Robert E. Sherwood “Floresta Petrificada”. O ator britânico Leslie Howard foi a estrela, mas o retrato ameaçador feito por HUMPHREY BOGART eletrizou o público e mudou o curso da sua vida para sempre. Para a versão cinematográfica na Warner Bros., Howard insistiu que o colega de palco fosse contratado. O filme foi um grande sucesso e a carreira do futuro astro estava lançada. Ainda assim, o estúdio não tinha pressa em promovê-lo ao status “A”, e ele foi escalado como segundo protagonista em uma série aparentemente interminável de filmes “B”. Finalmente teve uma chance como estrela do brutal drama “Legião Negra / Black Legion” (1937), que se tornou um dos pontos altos do início da sua carreira. Em 1938, se casou pela terceira vez, com a atriz Mayo Methot, que conheceu no set de “Mulher Marcada / Marked Woman” (1937). Este casamento lhe custaria caro, à medida que o alcoolismo da esposa saiu de controle, levando a cenas violentas, infidelidades, acusações e recriminações. Mayo, uma atriz diagnosticada com esquizofrenia paranoica tentou suicídio durante esse relacionamento. Os relatos da união tempestuosa e dramática de sete anos tendem a considerá-la perigosa. 
 
Depois de muitos filmes ruins e papéis inadequados, aconteceu algo que mudou tudo da noite para o dia. Paul Muni, uma das estrelas da Warner Bros., estava em declínio. Ele rescindiu impulsivamente seu contrato e deixou o estúdio, o que deu a HUMPHREY BOGART uma chance para o topo de talentos da produtora. O canastrão George Raft, outra estrela do estúdio, conhecido por laços com o crime organizado, especialmente com “Bugsy” Siegel, um notório gangster que estava tentando influenciar Hollywood, recusava um papel após o outro com explicações fajutas. Era a hora e a vez para uma “nova cara”. Quando Raoul Walsh recebeu o roteiro de “Seu Último Refúgio”, Raft rejeitou o bandido que morre no final. Com Paul Muni fora de cena, BOGART ficou com o papel protagonista, o insano criminoso Roy “Mad Dog Earle.
 
Dirigido com intensidade e aproveitando muitas filmagens em locações para aumentar o realismo, o policial foi um êxito e se tornou um clássico. Depois veio mais uma chance de qualidade com “O Falcão Maltês” (1941), o primeiro filme de John Huston como diretor. Mais uma vez, Raft recebeu primeiro o convite para protagonizar o filme e recusou. Muito já foi escrito sobre esse policial com orçamento modesto e cronograma de filmagem apertado. Com HUMPHREY BOGART como Sam Spade, o famoso detetive particular de Dashiell Hammett e um elenco sólido, incluindo Sydney Greenstreet, em seu primeiro papel no cinema, Mary Astor e Peter Lorre. Foi concluído em 34 dias, dois dias antes do previsto e abaixo do orçamento. Recebeu ótimas críticas e se tornou cult.
 
Pouco depois surgiria o drama que se tornaria um de seus projetos mais icônicos: “Casablanca”, dirigido por Michael Curtiz. Embora George Raft tenha sido considerado para o papel de Rick Blaine, um solitário e misterioso dono de um café, o produtor Hal B. Wallis e Curtiz foram contra a indicação. Originalmente intitulado “Everybody Comes to Rick's”, foi uma espécie de azarão para a Warner Bros. Mistura perfeita de romantismo e patriotismo, ganhou o Oscar de Melhor Filme, Melhor Diretor e Melhor Roteiro Adaptado para Julius J. e Philip G. Epstein. Marcou a primeira indicação de HUMPHREY BOGART ao Oscar de Melhor Ator. Na época, seu casamento já estava em ruínas há muito tempo, e a fúria vulcânica da esposa, juntamente com seu alcoolismo crônico, deixava o ator sem saber o que fazer. Esse problema foi resolvido com as filmagens de “Uma Aventura na Martinica”, de Howard Hawks, baseado em história de Ernest Hemingway, que o colocou ao lado de Lauren Bacall aos 19 anos. Foi amor à primeira vista. 
 
bogart e lauren bacall
Contra o romance, Hawks ficou furioso. Bacall foi sua descoberta, e apaixonar-se por um astro casado não fazia parte de seus planos para a carreira dela. No entanto, apesar dos antagonismos pessoais, o filme foi concluído, transformando Bacall em uma estrela (o influente colunista Walter Winchell dedicou a ela uma coluna inteira intitulada “Bacall of the Wild”). Em 1945, o ator foi designado para o marcante “À Beira do Abismo”, adaptação do romance de Raymond Chandler. Faz Philip Marlowe, um detetive em uma teia de assassinatos e intrigas enquanto tenta desvendar um esquema de chantagem à uma rica família. Mais uma vez, a amada Lauren Bacall foi sua parceira romântica.
 
A essa altura, a situação em casa havia se tornado insustentável. Bebendo mais do que o normal, ele começou a faltar ao trabalho à medida que seu romance com Bacall florescia, enquanto suas brigas ininterruptas com Mayo se transformavam em um pesadelo. O filme de Hawks teve uma filmagem longa e as ausências do astro se tornaram um problema. Ele estava com 45 anos e preso em um casamento indo pelo ralo. HUMPHREY BOGART já havia saído de casa e morava em um quarto no Beverly Wilshire Hotel. Sem companhia, entrou em uma bebedeira épica. O único ponto positivo nessa turbulência foi que Mayo finalmente concordou com o divórcio, e o casal enamorado se casou em uma cerimônia simples em 21 de maio de 1945. Permaneceram juntos até a morte dele.
 
Em 1948, ele conseguiu um dos melhores papéis de sua carreira em “O Tesouro de Sierra Madre”, de John Huston, como um vagabundo deprimido que procura ouro nas montanhas mexicanas. Rodado em Durango e em Tampico, no México, as filmagens duraram mais de cinco meses. O custo foi de US$ 2,5 milhões, mas arrecadou US$ 4 milhões no lançamento e se tornou um dos maiores sucessos do ano. Rendeu a Huston dois Oscars: um pela direção e outro pelo roteiro adaptado. Walter Huston, seu pai, recebeu o Oscar de ator coadjuvante. Houve controvérsia sobre HUMPHREY BOGART não ter sido indicado para Melhor Ator. Logo após, Huston dirigiu outro clássico com o ator, “Paixões em Fúria”, um dos últimos grandes filmes de gangster.
 
Em 1947, o ator deu um passo importante, que muitos outros viriam a imitar nos anos que se seguiram. Cansado de brigar com o poderoso Jack Warner, formou sua própria produtora, a Santana Productions (nomeada em homenagem ao seu iate, o Santana, que adorava capitanear), e começou a produzir filmes por conta própria. Os resultados, no entanto, foram pouco animadores. Depois de três longas medíocres, tirou a sorte grande com “No Silêncio da Noite”, de Nicholas Ray, um drama cínico sobre Hollywood e com Gloria Grahame em uma de suas melhores atuações. Vários amigos sentiram que o filme foi o que mais se aproximou de retratar o verdadeiro HUMPHREY BOGART: impetuoso, desconfiado, subitamente irritado e talentoso. É um filme intenso e satisfatório. 
 
bogart e john huston
Durante a produção “A Hora da Vingança / Deadline – USA” (1952), de Richard Brooks, lançado pela 20th Century Fox, ele começou a parecer cansado na tela. Alcoólatra, costumava passar as noites bebendo com os amigos em vez de aprender seus diálogos. No dia seguinte, no set, tinha dificuldade em lembrar das falas. Por sorte, em 1951 faria um dos seus melhores filmes: “Uma Aventura na África”, também de Huston, ao lado de Katharine Hepburn. Faz um rabugento proprietário de um pequeno barco a vapor na África, em 1914, sob controle alemão. Filmado em locações em Uganda e no Congo, foi sucesso comercial e crítico. Em sua segunda indicação, ele ganhou o Oscar de Melhor Ator. Apesar de sua relutância inicial em comparecer à cerimônia, quando seu nome foi chamado, saltou da cadeira, caminhou até o pódio, recebeu a estatueta das mãos de Greer Garson e agradeceu a Hepburn e Huston pela homenagem. Para muitos, o prêmio foi pelo conjunto da obra – reconhecimento que era esperado há muito tempo.
 
Em 1954, assumiu o papel desafiador de um capitão incompetente em “A Nave da Revolta / The Caine Mutiny”, de Edward Dmytryk, do best-seller de Herman Wouk. É uma de suas melhores atuações e rendeu uma terceira indicação ao Oscar de Melhor Ator. Nos seus últimos anos de vida, trabalhou em bons filmes: a charmosa comédia “Sabrina” (1954), dirigida por Billy Wilder, na qual interpreta o papel romântico ao lado de Audrey Hepburn; o drama pessimista de Joseph L. Mankiewicz, “A Condessa Descalça”, contracenando com Ava Gardner; “Horas de Desespero” (1955), de William Wyler; e seu último filme, o amargo drama de boxe de Mark Robson, “A Trágica Farsa / The Harder They Fall” (1956). Nesta altura, ele era um homem acabado. Fumava dois maços de Chesterfield por dia e bebia em excesso há décadas. Do início dos anos 1950 em diante, sua tosse crônica tornou-se um problema, pois ele explodia em espasmos durante as filmagens. Foi diagnosticado com câncer de esôfago em 1956. Uma cirurgia retirou dois linfonodos, porém o câncer se espalhou e não havia nada mais a fazer.
 
Pavio curto, na selva das cidades ninguém mais parecia ter sua coragem. Primeiro mocinho existencial da tela, justiceiro melancólico e amargurado. Igual têmpera manteve em outros gêneros, com variáveis doses de ceticismo, cinismo, estoicismo e compaixão. Como não admirar um sujeito que preferia perder a mulher amada e o emprego a abrir mão de suas convicções? Ele seguia a escola de atuação de Spencer Tracy: “chegue na hora certa, conheça suas falas, acerte seus alvos, olhe a outra pessoa nos olhos e diga com verdade”. Ele nunca teve aulas de atuação; em vez disso, olhou para dentro de si mesmo e encontrou sua verdadeira personalidade na tela, e então a perseguiu filme após filme, moldando-se em personagens inesquecíveis. Durão, insolente, inteligente, perspicaz, confiante, áspero; este era o HUMPHREY BOGART que o público amava. Ele inventou a si mesmo. Em sua arte, sua vida e seu ofício se fundiram.
 
FONTES
“Bogie: a Biografia de Humphrey Bogart” (1966)
de Joe Hyams
 
“Bogart: Em Busca de Meu Pai” (1995)
de Stephen Humphrey Bogart
  
“Bogart: uma Vida em Hollywood” (1997)
de Jeffrey Meyers
 
“Por Dentro da Warner Bros. 1935–1951” (1985)
de Rudy Behlmer
 
“Por mim Mesmo” (1979)
de Lauren Bacall
 
gloria grahame e bogart em no silêncio da noite

15 FILMES de BOGART
(por ordem de preferência)
 
01
Seu ÚLTIMO REFÚGIO
(High Sierra, 1941)

direção de Raoul Walsh
elenco: Ida Lupino, Arthur Kennedy e Joan Leslie
 
02
O TESOURO de SIERRA MADRE
(The Treasure of the Sierra Madre, 1948)

direção de John Huston
elenco: Walter Huston e Tim Holt
 
03
RELÍQUIA MACABRA / O FALCÃO MALTÊS
(The Maltese Falcon, 1941)

direção de John Huston
elenco: Mary Astor, Gladys George, Peter Lorre 
e Sydney Greenstreet
 
04
CASABLANCA
(Idem, 1943)

direção de Michael Curtiz
elenco: Ingrid Bergman, Paul Henreid, Claude Rains, 
Conrad Veidt e Peter Lorre
 
05
Uma AVENTURA na MARTINICA
(To Have and Have Not, 1944)

direção de Howard Hawks
elenco: Lauren Bacall e Walter Brennan
 
06
No SILÊNCIO da NOITE
(In a Lonely Place, 1950)

direção de Nicholas Ray
elenco: Gloria Grahame
 
07
Uma AVENTURA na ÁFRICA
(The African Queen, 1951)

direção de John Huston
elenco: Katharine Hepburn e Robert Morley
 
08
PRISIONEIRO do PASSADO
(Dark Passage, 1947)

direção de Delmer Daves
elenco: Lauren Bacall e Agnes Moorehead
 
09
HERÓIS ESQUECIDOS
(The Roaring Twenties, 1939)

direção de Raoul Walsh
elenco: James Cagney, Priscilla Lane e Gladys George
 
10
PAIXÕES em FÚRIA
(Key Largo, 1948)

direção de John Huston
elenco: Edward G. Robinson, Lauren Bacall, Lionel Barrymore 
e Claire Trevor
 
11
A CONDESSA DESCALÇA
(The Barefoot Contessa, 1954)

direção de Joseph L. Mankiewicz
elenco: Ava Gardner, Edmond O`Brien, Valentina Cortese 
e Rossano Brazzi
 
12
À BEIRA do ABISMO
(The Big Sleep, 1946)

direção de Howard Hawks
elenco: Lauren Bacall e Dorothy Malone
 
13
DENTRO da NOITE
(They Drive by Night, 1940)

direção de Raoul Walsh
elenco: George Raft, Ann Sheridan, Ida Lupino 
e Alan Hale
 
14
SABRINA
(Idem, 1954)

direção de Billy Wilder
elenco: Audrey Hepburn, William Holden e Martha Hyer
 
15
HORAS de DESESPERO
(The Desperate Hours, 1955)

direção de William Wyler
elenco: Fredric March, Arthur Kennedy e Martha Scott
 
GALERIA de FATOS