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setembro 19, 2021

********* HENRY FONDA, um ASTRO DISCRETO

 

Eu não sou uma pessoa muito interessante. 
Eu nunca fiz nada, exceto ser outras pessoas. 
Eu realmente não sou Henry Fonda! 
Ninguém pode ser. Ninguém poderia 
ter tanta integridade.
HENRY FONDA
 
Apelidos: One-Take Fonda e Hank
Altura: 1,87 cm
Olhos: azuis
Cabelos: castanho escuro
 
 
Considerado uma das maiores lendas dos velhos tempos de Hollywood, sua notável carreira no cinema, que durou quase 50 anos, é completada por performances significativas no teatro e na televisão. De fala mansa e andar felino, começou como um jovem tímido. Com o passar dos anos, amadureceu e se tornou um astro que simbolizava não apenas integridade e retidão, mas também um ideal de cidadão comum lutando contra a injustiça social e a opressão. Ele foi eleito como o sexto maior ator de todos os tempos pelo American Film Institute e o décimo maior astro da história do cinema pela “Premiere Magazine”. Recebeu uma estrela na Calçada da Fama de Hollywood.
 
Seus atraentes olhos azuis cintilantes, rosto elegante e ar duro, mas honesto, fizeram desse jornalista sem vocação um dos clássicos da Hollywood dourada. Em uma entrevista, no início da carreira, ele afirmou que como ator queria apenas “ser bom e convincente. A verdade é que HENRY FONDA (1905 - 1982. Grand Island, Nebraska / EUA) foi mais, muito mais. A economia de gestos e a intensidade de sua persona, evidenciaram um estilo de interpretação que destaca uma autenticidade especial. Poucos, como ele, revelaram tanta profundidade emocional em seus personagens.
 
Muitas vezes interpretou figuras fortes, defensivas e heroicas, em busca de paz e justiça. A voz inconfundível, a sinceridade contagiante e a personalidade forte foram fundamentais para o sucesso e permitiram popularizar o protótipo de um herói justo e muito humano. Ele não tinha dificuldades de expressar os abismos da alma, muito pelo contrário, fluíam na intensidade do olhar azul. A naturalidade sempre foi sua maior virtude. Alfred Hitchcok o definiu como um típico homem comum”. A sua biografia começa em Grand Island, no Nebraska. Seu pai tinha uma gráfica modesta e daí surgiu o impulso de estudar jornalismo. Depois de ter uma história publicada em um jornal local, decidiu estudar comunicação na Universidade de Minnesota. Por um tempo, para pagar seu curso, ele tentou vários empregos temporários, de mecânico a vitrinista. Então, apesar da oposição dos pais, aceitou a oferta de Dorothy, mãe de Marlon Brando, para interpretar o papel-título em “Merton of the Movies”, uma produção de um grupo de teatro amador, o Omaha Community Playhouse. Seu pai não falou com ele por um mês. A peça e o protagonista receberam críticas bastante positivas na imprensa local.
 
fonda e margaret sulavan
Empolgado, passou a trabalhar na University Players, colega de James Stewart e Joshua Logan, e depois na Broadway, em Nova York, dedicando-se inteiramente a carreira teatral de 1926 a 1934. Seus primeiros papéis incluem “New Faces of America” e “The Farmer Takes a Wife”. Atuando ao lado da talentosa Margaret Sullavan, terminaram casando, mas a separação aconteceu em menos de três meses. Por fim, seu agente o convenceu a se tornar um ator de cinema, apesar das dúvidas iniciais e da relutância de HENRY FONDA. Os direitos de uma de suas peças foram adquiridos, e ele foi parar em Hollywood, integrando o elenco de “Amor Singelo / The Farmer Takes a Wife” (1935), com Janet Gaynor.
 
O filme fez sucesso, ele continuou na meca do cinema e dois anos depois estourou internacionalmente num clássico de Fritz Lang, “Vive-se Só Uma Vez” (1937). Seguiu-se outro excelente drama - de William Wyler, “Jezebel / Idem” (1938). Em 1939, fez “A Mocidade de Lincoln / Young Mr. Lincoln” (1939), de John Ford, emendando no mesmo ano com outro filme do diretor, “Ao Rufar dos Tambores / Drums Along the Mohawk” (1939). Por meio deles, e nos anos seguintes em “Vinhas da Ira”, a obra-prima de Ford; “Jesse James / Idem” (1939), de Henry King, e “A Volta de Frank James / The Return of Frank James” (1940), de Fritz Lang, entre outros, esculpiu um tipo de personagem sólido, íntegro, humano, uma espécie de herói cotidiano com senso de dever cívico.
 
Um dos seus maiores amigos foi James Stewart. A amizade surgiu antes do sucesso deles, quando trabalhavam juntos nos palcos. Por alguns anos, dividiram um quarto no Madison Square Hotel, em Nova York, e novamente em 1935 em Hollywood, alugando um lugar ao lado da mansão de Greta Garbo. Ambos se alistaram para lutar na Segunda Guerra Mundial. Na época, HENRY FONDA disse: “Eu não quero estar em uma guerra falsa em um estúdio.” Ele serviu por três anos e ganhou a Estrela de Bronze, a quarta maior condecoração por bravura em conflito com o inimigo.
 
jane darwell e henry fonda em
“as vinhas da ira 
De personalidade forte, ele era conhecido como mulherengo, tendo se envolvido em casos com muitas atrizes. Passou por cinco casamentos e uma relação distante com os filhos Jane e Peter, ambos atores. Ele era reservado e tinha imensa dificuldade em expressar seus sentimentos. Sua vida privada foi marcada pelo suicídio de duas de suas esposas. Descrito como frio, indiferente e frequentemente zangado fora da tela, seus filhos tiveram a melhor educação, mas nunca foram mimados. Jane ressentiu-se, mais até do que Peter. Muitos avaliam que suas diferentes fases - mito sexual, ativista política, etc. - podem ter sido para provocar o pai. Só se acertaram nos últimos meses da vida dele, quando atuaram juntos em “Num Lago Dourado / On Golden Pond” (1981). 

Em 1948, HENRY FONDA mudou-se para Nova York, só voltando para Hollywood em 1955. Embora o motivo central de sua estada prolongada longe das telas fosse seu papel principal em uma peça na Broadway, ele confidenciou a amigos que não tolerava o clima político na Califórnia naqueles tempos de macartismo. Durante anos, representou “Mister Roberts” com êxito, ganhando o Tony Award em 1948 como Melhor Ator Dramático. Quando virou filme, em 1955, voltou a fazer cinema, outra vez dirigido pelo genial John Ford. Mas tinha uma concepção do personagem, que representara durante anos nos palcos, que não era a mesmo do cineasta. A amizade e colaboração antiga terminou quando o diretor deu um soco nele e teve que ser substituído por Mervyn LeRoy.
 
jane, henry e peter fonda
Seguiu sua carreira cinematográfica com filmes de excelentes diretores: King Vidor, Alfred Hitchcock, Anthony Mann, Sidney Lumet, Otto Preminger, Richard Fleischer, Don Siegel, Sergio Leone, Joseph L. Mankiewicz e Billy Wilder, entre outros. Ao contrário de muitas estrelas que começaram na Broadway, HENRY FONDA voltou regularmente aos palcos ao longo da vida. Em 1968, formou uma parceria com os atores Robert Ryan e Martha Scott, co-fundando a produtora teatral Plumstead Playhouse, em Nova York. Ganhou um prêmio especial Tony em 1979. No entanto, a doença restringiu seu trabalho, terminando por desmaiar de exaustão, em 1974, após uma apresentação. Em 1978, ele seguiu o conselho de seus médicos e abandonou os palcos, continuando a estrelar filmes e televisão. 

Seu último papel no cinema foi em “Num Lado Dourado”, no qual se juntou a Katharine Hepburn e a sua filha Jane numa sensível história de reconciliação com a morte como pano de fundo. Por esse trabalho ganhou um Oscar (havia recebido um especial, pela carreira, no ano anterior). Pouco tempo depois, o grande HENRY FONDA, aquele que deu vida ao duro fazendeiro Tom Road, ao lendário xerife Wyatt Earp, ao músico Manny Balestrero e tantos personagens memoráveis, morreu aos 77 anos, deixando um legado duradouro. Foi um grande astro, um dos maiores. Destacou-se no drama, no western, em filmes de guerra e comédias. Mas o que o torna singular é que foi seletivo e intenso.
 

DEZ FILMES de HENRY FONDA
(por ordem de preferência)
 
01
VINHAS da IRA
(The Grapes of Wrath, 1940)

direção de John Ford
elenco: Jane Darwell e John Carradine
 
02
TEMPESTADE SOBRE WASHINGTON
(Advise & Consent, 1962)

direção de Otto Preminger
elenco: Charles Laughtn, Don Murray, Franchot Tone, Walter Pidgeon e Gene Tierney
 
03
CONSCIÊNCIAS MORTAS
(The Ox-Bow Incident, 1942)

direção de William A. Wellman
elenco: Dana Andrews, Anthony Quinn, William Eythe e Jane Darwell
 
04
PAIXÃO dos FORTES
(My Darling Clementine, 1946)

direção de John Ford
elenco: Linda Darnell, Victor Mature, Walter Brennan, Tim Holt e Jane Darwell
 
05
DOZE HOMENS e uma SENTENÇA
(12 Angry Men, 1957)

direção de Sidney Lumet
elenco: Lee J. Cobb, E. G. Marshall, Martin Balsam, Jack Warden e Ed Begley
 
06
As TRÊS NOITES de EVA
(The Lady Eve, 1941)

dreção de Preston Sturges
elenco: Barbara Stanwyck, Charles Coburn e Eugene Pallette
 
07
O HOMEM ERRADO
(The Wrong Man, 1956)

direção de Alfred Hitchcock
elenco: Vera Miles e Anthony Quayle
 
08
VASSALOS da AMBIÇÃO
(The Best Man, 1964)

direção de Franklin J. Schaffner
elenco: Cliff Robertson, Edie Adams, Margareth Leighton e Ann Sothern
 
09
VIVE-SE uma SÓ VEZ
(You Only Live Once, 1937)

direção de Fritz Lang
elenco: Sylvia Sidney, Barton MacLane e Ward Bond
 
10
O MAIS LONGO dos DIAS
(The Longest Day, 1962)

direção de Ken Annakin, Andrew Marton e Bernhard Wicki
elenco: Richard Burton, Sean Connery, Robert Mitchum, Robert Ryan, Arletty, Curt Jurgens, Rod Steiger e John Wayne
 
“Eu realmente não gosto de mim mesmo. Nunca gostei. As pessoas me confundem com os personagens que interpreto. Não sou um grande cara como o Doug Roberts de Mister Roberts. Eu gostaria de ser, mas não sou.”
HENRY FONDA

GALERIA de FOTOS

outubro 12, 2011

************* À MODA CLÁSSICA: WILLIAM WYLER

william wyler e audrey hepburn
 
Nunca me deixei levar pela birra da crítica especializada em cinema. Se eu conheço bem a carreira de determinado cineasta, faço minha própria avaliação, pouco ligando se ele é admirado ou desprezado. WILLIAM WYLER (1902 - 1981. Mulhouse / França) é um desses casos. Menosprezado por muitos analistas cinematográficos de hoje, que o consideram por demais impessoal e acadêmico, eu o enxergo como um autor de longas visualmente elegantes e densos, com momentos vitais de beleza plástica a serviço da dramaturgia, ao contrário do que seus detratores dizem. Não avalio o seu cinema como envelhecido e vejo virtudes em seu perfeccionismo, que o levava a filmar somente em estúdio, controlando a imagem de seus filmes. 

Suprindo uma lacuna importante para os entusiastas do cinema clássico – e para qualquer cinéfilo -, relembro a trajetória deste cineasta reconhecido pelo prestígio de “O Morro dos Ventos Uivantes / Wuthering Heights” (1939) e “Os Melhores Anos de Nossas Vidas / The Best Years of Our Lives” (1946), ou pelos sucessos retumbantes de “A Princesa e o Plebeu / Roman Holiday” (1953) e “Ben-Hur / Idem” (1959). Com três Oscars de Melhor Direção - por “Rosa da Esperança / Mrs. Miniver” (1942), “Os Melhores Anos de Nossas Vidas” e “Ben-Hur” -, e a Palma de Ouro em Cannes por “Sublime Tentação / Friendly Persuasion” (1956), WILLIAM WYLER ganhou os prêmios mais importantes e dirigiu as maiores estrelas de Hollywood com excelentes resultados, colocando sua arte de grande diretor de elenco a serviço de astros e estrelas. 

Ainda é o cineasta com o maior número de intérpretes indicados ao prêmio Oscar em seus filmes e com o maior número de premiados em suas realizações. Realizou 46 filmes em 44 anos de carreira, quase sempre com roteiros adaptados a partir de original literário ou teatral, esculpindo sua fama e seu mito.

merle oberon e laurence olivier 
em o morro dos ventos uivantes
fay bainter e bette davis em “jezebel”
Sóbrios e inteligentes, seus filmes capricham na psicologia. O realismo também era muito importante para ele. Entrou para a história a forma como quase levou Olivia de Havilland à loucura em “Tarde Demais / The Heiress” (1949). Em busca de determinado efeito, o diretor fez com que atriz descesse uma escadaria 37 vezes. Na última, à beira de um ataque de nervos, ela deixou o leque cair, de tão cansada, e ele exclamou: É isso!.  Ele era tão obcecado em seu perfeccionismo que, em “A Carta / The Letter(1940), querendo obter determinado efeito - a sombra de uma árvore numa parede branca -, tentou todos os recursos de iluminação disponíveis. Ao ver que não estava conseguindo, fez com que o cenógrafo pintasse a sombra que desejava. Tudo isso faz parte da lenda desse cineasta que privilegiava os roteiros sólidos, carregados de psicologismo. Natural da Alsácia, atualmente França, WILLIAM WYLER emigrou para os Estados Unidos em 1923, a convite do presidente da Universal, seu primo em segundo grau, Carl Leammle. 

Depois de alguns meses no Departamento de Publicidade, conduziu alguns filmes de baixo orçamento, até que em 1935 passou a trabalhar com o produtor Samuel Goldwyn, iniciando um novo rumo na sua carreira com “Fogo de Outono / Dodsworth” (1936), um drama que lhe permitiu a primeira nomeação ao Oscar. A longa associação com Goldwyn resultou na sua maturidade artística, assinando nessa época três dos trabalhos mais emblemáticos da carreira de Bette Davis: “Jezebel / Idem” (1938), “A Carta” e “Pérfida/ The Little Foxes” (1941). Incorporado no exército americano, lutou na Segunda Guerra Mundial. Quando regressou, apesar da inclusão na lista negra do Senador McCarthy, no período da chamada Caça às Bruxas, o seu prestígio profissional não se abalou, continuando a somar êxitos. Liberto do contrato com o produtor Samuel Goldwyn, tentou a produção independente, tendo Frank Capra e George Stevens como sócios. Mas o fracasso comercial de “A Felicidade Não se Compra / It’s a Wonderful Life” (1946), de Capra, posteriormente um dos filmes mais amados de todos os tempos, fez com que a empreitada não se consolidasse e WILLIAM WYLER assinou com a Paramount um contrato para cinco filmes - com mais liberdade de ação do que Goldwyn dava.

bette davis em a carta
olivia de havilland em tarde demais
audrey hepburn em a princesa e o plebeu
Nunca me impressionei com “Rosa da Esperança”, “Os Melhores Anos de Nossas Vidas” - até hoje visto como um dos mais importantes filmes do pós-Segunda Guerra - ou “Sublime Tentação”, todos sucessos de público, crítica e premiados -, mas a beleza sombria de “A Carta” me apaixona e o meu WILLIAM WYLER favorito é o romântico “O Morro dos Ventos Uivantes”, baseado no clássico gótico de Emily Bronte.  Entre os inesquecíveis momentos da fita, o impetuoso Heathcliff (Laurence Olivier) carrega nos braços a sua agonizante amada Cathy (Merle Oberon, maravilhosa). 

Não me canso de rever “Perdição por Amor / Carrie” (1952), com vigorosas atuações de Laurence Olivier, Jennifer Jones e Miriam Hopkins – esta subestimada atriz se destacou em vários filmes do diretor -, e os westerns “O Galante Aventureiro / The Westerner” (1940) e “Da Terra Nascem os Homens / The Big Country” (1958). A cena de luta entre Gregory Peck e Charlton Heston é antológica. Outro excepcional momento seu é “Infâmia /The Children’s Hour” (1961), apontado por Alain Resnais como um dos mais desdenhados (injustamente) filmes norte-americanos. Ele retoma a mesma história de Lillian Hellman, filmada nos anos 30, tratando o homossexualismo feminino com abertura e antológicas atuações de Shirley MacLaine (digna de Oscar) e Audrey Hepburn.

teresa wright e dana andrews 
em os melhores anos de nossas vidas
haya harareet em ben-hur
Martin Scorsese declarou que se deixou influenciar por “Tarde Demais” ao rodar o delicado “A Época da Inocência / The Age of Innocence” (1993). O cineasta japonês Kenji Mizoguchi era também admirador de WILLIAM WYLER. Na sua fase final, esse mestre do classicismo ainda assinou títulos emblemáticos como “O Colecionador / The Collector” (1965), “Funny Girl – A Garota Genial / Funny Girl” (1968) ou o drama racial “A Libertação de L. B. Jones / The Liberation of L. B. Jones” (1970). Wyler casou-se duas vezes. A primeira com a atriz Margaret Sullavan (“A Loja da Esquina / The Shop Around the Corner”, 1940, de Lubitsch), relacionamento que durou dois anos e um filme juntos, “A Boa Fada / The Good Fairy” (1935). Em 1976, recebeu do American Film Institute (AFI) um prêmio especial pelo conjunto de sua obra. Durante toda a vida, ele foi um homem simples, que não seguiu modismos. Verdadeira instituição do cinema hollywoodiano, seus filmes seguiram, coerentemente, essa filosofia de vida e arte: foi na tela, um bom contador de histórias, e nunca desejou outro rótulo.

william wyler e margaret sullavan