Mostrando postagens com marcador Martin Scorsese. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Martin Scorsese. Mostrar todas as postagens

agosto 29, 2025

******* FELLINI: MEMÓRIAS, SONHOS e FANTASIAS

 



“Sou apenas um contador de histórias,
e o cinema é o meu meio. Gosto dele
porque recria a vida em movimento,
amplifica-a. Está muito próximo
da criação milagrosa da vida.”
FEDERICO FELLINI 
 Oito e Meio
 
 
Um dos grandes diretores italianos, criou um estilo cinematográfico inimitável, combinando surrealismo com crítica social incisiva.  Explorou em 23 filmes suas obsessões com o circense, a decadência social, a redenção espiritual e as mulheres, gerando influências em diversos cineastas, como o siciliano Paolo Sorrentino ou o norte-americano Martin Scorsese, que diz rever “Oito e Meio” (1963) todo ano. FEDERICO FELLINI (1920 – 1993. Rimini / Itália) colocou a própria biografia em sua criação cinematográfica. Na realidade, aos dezenove anos deixou a provinciana cidade natal, transferindo-se para Roma. Seu primeiro emprego foi na revista humorística “Marc’Aurelio”. Na Itália semidestruída pela II Guerra Mundial, oscilou de um emprego a outro. Depois de trabalhar como repórter, locutor de rádio e escritor de fotonovelas, o famoso ator Aldo Fabrizi o contratou para escrever esquetes para espetáculos de uma companhia teatral ambulante. Com ela, o futuro cineasta correu a Itália, aprendendo a técnica de contar histórias a partir de pequenos incidentes dramáticos ou cômicos.
 
A guerra estava acabando. No meio dos destroços, entre bombas e fuzilamentos, o cinema italiano voltava a brilhar. Era o começo do neorrealismo, uma arte verdadeira, sem glamour e sem estrelas, que mudaria o panorama do cinema mundial. E ele fazia parte desse movimento. Seu primeiro trabalho em filmes foi em um roteiro para o lendário Roberto Rossellini, contando o episódio verídico do fuzilamento de um padre pelos nazistas. “Roma, Cidade Aberta / Roma Città Aperta” (1945) transformou-se em um clássico. Começava aí uma das carreiras mais exuberantes da sétima arte. A colaboração com o cinema se intensificou e alguns dos seus roteiros foram pontos altos do neorrealismo: “O Moinho do Pó / Il Mulino del Po” (1949), de Alberto Lattuada; “O Caminho da Esperança / Il Cammino della Speranza” (1950), de Pietro Germi; “Milagre em Milão / Miracolo a Milano” (1951), de Vittorio de Sica, entre outros. Em 1950, co-dirigiu com Alberto Lattuada “Mulheres e Luzes / Luci del Varietà”. O segundo filme, “Abismo de um Sonho / Lo Sceicco Bianco”, veio em 1952 e teve péssima recepção.
 
Um ícone da fantasia com uma visão pessoal acerca da sociedade, ele ressignificou suas lembranças da infância-juventude e seus sonhos, traduzindo-os em obras magistrais. O cinema se tornou, para o diretor, um espaço de interpretação de fantasias e desejos, de reconciliação com situações de tempos passados. Brincou sem limites entre o real e o imaginário, o ficcional e o biográfico, alta e baixa cultura, cinema de autor e de entretenimento, num universo onírico copiado mundialmente. A grande virada foi “A Doce Vida”, de 1960. Sucesso de bilheteria e condenado pela Igreja Católica, este filme insólito abandona o que poderíamos chamar de uma representação mais crua, buscando se aproximar de um mundo simbólico, estilizado. A partir deste momento decisivo, sua obra, que ele descrevia como “sonhos em celuloide”, funda um estilo próprio, no qual mescla memória e sonho, quase sempre não deixando claro onde termina um e começa o outro. Seu cinema barroco, delirante e pessoal torna sua filmografia uma das mais premiadas e envolventes de todos os tempos. 
 
Ele descrevia seu método criativo afirmando que a invenção para suas tramas se dava a partir de suas experiências, memórias, esperanças,
“uma mistura de emoções pessoais, alterações, as cores da escuridão que vivem em mim”. Condecorado com quatro estatuetas no Oscar, um recorde na categoria de Melhor Filme Estrangeiro, seu legado é visto como um divisor de águas, rendendo um novo adjetivo no vocabulário cinematográfico: o termo felliniano. O cineasta teve como principais colaboradores, a atriz e esposa Giulietta Masina, o ator Marcello Mastroianni, o compositor Nino Rota, o produtor Angelo Rizzoli, o roteirista Ennio Flaiano e o editor Ruggero Mastroianni. Ele, pessoalmente, nos deixou em 1993. Seu cinema singular, de melancolia mágica, jamais nos deixará. É eterno. Cento e cinco anos após seu nascimento, FEDERICO FELLINI ainda se destaca como um gigante do cinema. Este post é um tributo a um artista criativo e livre, que inventou um universo cinematográfico próprio: uma visão mágica do mundo.
 
Oito e Meio
DEZ FILMES para CONHECER FELLINI
(por ordem de preferência)
 
01
A DOCE VIDA
(La Dolce Vita, 1960)

elenco: Marcello Mastroianni, Anita Ekberg, Anouk Aimée,

Yvonne Furneaux, Magali Noel, Alain Cuny,
Annibale Ninchi, Valeria Ciangottini e Laura Betti

Um dos maiores filmes do cinema. Impulsionou a carreira do cineasta italiano ao sucesso internacional - ironicamente, ao oferecer uma crítica contundente à cultura do estrelato. Um olhar sobre o vazio existencial por trás do estilo de vida sedutor dos ricos e glamorosos de Roma, acompanha um notório jornalista de celebridades (um Marcello Mastroianni sublimemente icônico) nas periferias dos holofotes. Mordaz, foi incisivo sobre a decadência da Europa contemporânea e forneceu um vislumbre premonitório de quão obcecada por fofocas e fama nossa sociedade se tornaria. Cunhou o termo paparazzo, mas seu verdadeiro mérito reside no cinismo com que disseca uma cidade.
 
Indicado ao Oscar de Melhor Direção
Palma de Ouro (Melhor Filme) no Festival de Cannes
David di Donatello de Melhor Diretor
Melhor Filme Estrangeiro do Círculo
dos Críticos de Cinema de Nova Iorque

 
02
AMARCORD
(Idem, 1974)
 
elenco: Magali Noel, Bruno Zanin, Puppella Maggio,
Armando Grancia, Ciccio Ingrassia e Maria Antonietta Beluzz

O realizador retorna à paisagem provinciana de sua infância com esta reminiscência, recriando sua cidade natal, Rimini, nos estúdios da Cinecittà e retratando seu cotidiano como um circo de rituais sociais, desejos adolescentes, fantasias masculinas e subterfúgios políticos. Esboçando uma galeria de caricaturas cômicas, evoca com carinho um mundo desaparecido, aureolado pelo brilho da memória, ao mesmo tempo em que satiriza um país embrutecido pelo fascismo. Entrelaça com maestria a cinematografia vibrante de Giuseppe Rottuno, os figurinos e cenários extravagantes de Danilo Donati e a trilha sonora nostálgica de Nino Rota. Talvez seja o filme mais pessoal do diretor.
 
Indicado ao Oscar de Melhor Diretor
Oscar de Melhor Filme Estrangeiro
David di Donatello de Melhor Filme e Melhor Diretor
Nastro d´Argento de Melhor Diretor
Melhor Filme Estrangeiro do National Board of Review
Melhor Filme e Melhor Diretor do Círculo dos Critícos
de Cinema de Nova Iorque

 
03
NOITES de CABÍRIA
(Le Notti di Cabiria, 1957)

elenco: Giulietta Masina, François Périer, Dorian Gray

e Amedeo Nazzari

 
Ascensão, queda e recuperação de uma prostituta, num ambiente de rua, exploração, milagres e trapaceiros. Grande consagração popular do cineasta, apresentando uma das personagens mais inesquecíveis de todo o cinema: Cabiria (magnífica Masina), uma trabalhadora sexual irreprimível e ferozmente independente que, enquanto se move por Roma, em meio à adversidade e à tristeza, precisa confiar em seu próprio espírito indomável para se manter de pé. O filme encerrou a fase inicial do diretor, de influência neorrealista, com um final sublimemente comovente, porém esperançoso, que incorpora a mistura do amargo e do doce que define sua recorrente visão de mundo. Obra-prima.
 
Oscar de Melhor Filme Estrangeiro
David di Donatello de Melhor Diretor
Nastro d´Argento de Melhor Diretor

 
 
04
Os BOAS VIDAS
(I Vitelloni, 1953)

elenco: Alberto Sordi, Franco Fabrizi, Franco Interlenghi,

 Leopoldo Trieste, Leonora Ruffo, Paola Borboni,
Lída Baarová e Vira Silenti

 
A segunda criação solo do diretor rendeu seu primeiro sucesso comercial: um retrato lúcido de cinco jovens mergulhados em um limbo provinciano, sonhando com aventuras e uma fuga de sua pequena cidade costeira. Baseando-se em memórias entre a nostalgia cômica de
“Amarcord” e a ressaca da cidade grande de “A Doce Vida”, cria um filmaço semiautobiográfico com personagens afiados: Fausto, o galã, forçado a se casar com uma moça que engravidou; Alberto, o filho perpétuo; Leopoldo, um escritor sedento de fama; e Moraldo, a consciência do grupo. A crônica cinematográfica captura a lassidão e o anseio de seus protagonistas com nostalgia, perspicácia humorada e compaixão.
 
Nastro d´Argento de Melhor Diretor
Leão de Prata no Festival de Veneza
 
05
FELLINI OITO e MEIO
(8½, 1963)

elenco: Marcello Mastroianni, Anouk Aimée, Claudia Cardinale,

Sandra Milo, Rossella Falk, Barbara Steele,
Madeleine Lebeau e Caterina Boratto

 
Considerado por muitos o seu melhor trabalho. Marcello Mastroianni interpreta Guido Anselmi, um cineasta cujo novo projeto está desmoronando ao seu redor, junto com sua vida. Um dos filmes mais aplaudidos pela crítica, teve um primeiro título provisório,
“A Bela Confusão”, e é exatamente isso: um sonho cintilante e um número de mágica. Códice para decifrar a obra felliniana, essa alucinação transgressora tem sido imitada desde sempre. Mastroianni substitui o próprio diretor em suas fantasias surreais sobre o bloqueio artístico, a infância que volta feroz, a cavalgada de mulheres que ele decepcionou, inseguranças, música e a certeza absoluta de que a vida é um circo.
 
Indicado ao Oscar de Melhor Diretor
Oscar de Melhor Filme Estrangeiro
Nastro d´Argento de Melhor Diretor
Grande Prêmio no Festival de Moscou
Melhor Filme Estrangeiro no National Board of Review
Melhor Filme Estrangeiro no Círculo

dos Críticos de Cinema de Nova Iorque
 
06
A ESTRADA da VIDA
 (La Strada, 1954)

elenco: Giulietta Masina, Anthony Quinn e Richard Basehart

 
Uma decadente companhia de diversões ambulante percorre as estradas da Itália. O primeiro sucesso internacional do diretor. Ponte entre seu passado neorrealista e a fantasia lírica que está por vir, repleto de símbolos amargos e referências à commedia dell'arte. Com este drama inovador, o diretor retrata uma visão pessoal e poética da vida como um carnaval agridoce. A expressiva Masina registra tanto a maravilha infantil quanto o desespero de partir o coração como Gelsomina. A obra possui a pureza e a ressonância atemporal de uma fábula e continua sendo uma das visões mais comoventes do cinema sobre a humanidade lutando para sobreviver diante das crueldades da vida.
 
Oscar de Melhor Filme Estrangeiro
Nastro d´Argento de Melhor Diretor
Melhor Filme Estrangeiro no Círculo dos Críticos
de Cinema de Nova Iorque
Leão de Prata no Festival de Veneza

 
07
SATYRICON de FELLINI
(Fellini – Satyricon, 1968)

elenco: Martin Potter, Hiram Keller, Salvo Randone,

Magali Noel, Capucine, Alain Cuny,
Lucia Bosè e Gordon Mitchell

 
A carreira do realizador atingiu novos patamares de excentricidade e brilhantismo com esta notável, controversa e extremamente livre adaptação da sátira romana clássica de Petrônio, escrita durante o império de Nero. Uma enxurrada episódica de licenciosidade sexual, violência profana e grotesco cativante, acompanha as façanhas de dois jovens pansexuais - o belo estudioso Encólpio e seu amigo vulgar e insaciavelmente lascivo Ascilto - enquanto se movem por uma paisagem de excessos pagãos de forma livre que remete ao sexo libertário moderno. Criando um caos aparente com controle primoroso, o diretor constrói um mundo antigo impactante e estranho que parece ficção científica.
 
Melhor Filme Italiano no Festival de Veneza
 
08
A TRAPAÇA
(II Bidone, 1955)

elenco: Broderick Crawford, Richard Basehart, Giu
lietta Masina,
Franco Fabrizi e Lorella De Luca

 
Abandonando em parte os floreios poéticos das obras mais famosas do realizador, é um drama policial neorrealista sombrio, pouco conhecido, estrelado por um magistral Broderick Crawford como um dos personagens mais complexos do cânone do diretor: um vigarista profissional decadente que, tendo feito carreira explorando a ingenuidade de camponeses pobres, de repente descobre que seus caminhos tortuosos começaram a alcançá-lo. Entrelaçando magistralmente o realismo humano da história com elementos de humor, cria um retrato contundente de um homem lidando com as consequências de suas escolhas de vida, que o atinge com a força de uma profunda e fatal tragédia moral.
 
09
JULIETA dos ESPÍRITOS
(Giulietta degli spiriti, 1965)

elenco: Giulietta Masina, Sandra Milo, Mario Pisu,

Valentina Cortese, Valeska Gert, José Luis de Vilallonga,
Caterina Boratto e Sylva Koscina

 
Primeiro longa-metragem em cores do diretor. Caleidoscópio projetado na psique de uma mulher de meia-idade que atravessa uma crise mística. Baseando-se em cenas de sua vida pessoal, Giulietta Masina interpreta uma senhora refinada que se aventura no espiritualismo e cujo domínio da realidade começa a se esvair quando descobre que o marido está tendo um caso, o que a leva a uma jornada alucinatória de autodescoberta na qual memórias, sonhos e forças sobrenaturais se fundem. Com a cinematografia virtuosa de Gianni di Venanzo, o filme examina as preocupações centrais do diretor - sexo e amor, vida e morte, fantasia e realidade - da perspectiva do intimismo feminino.
 
Globo de Ouro de Melhor Filme Estrangeiro
Melhor Filme Estrangeiro do National Board of Review
Melhor Filme Estrangeiro do Círculo dos Críticos
de Cinema de Nova Iorque

 
10
ROMA de FELLINI
(Roma, 1972)

elenco: Britta Barnes, Peter Gonzales Falcon e Anna Magnani

 
Relato de viagem, memórias e espetáculo cinematográfico ultrajante da Cidade Eterna. Esta fantasia urbana entrelaça lembranças da juventude do diretor na era de Mussolini com um retrato impressionista da Roma contemporânea. Os prazeres materiais do sexo, da comida, da vida noturna e de um alucinante desfile de moda eclesiástica são permeados por vislumbres de um passado monumental: o Coliseu cercado pelo trânsito, afrescos antigos desenterrados em um túnel de metrô, uma estátua de César manchada por pombos. Com uma mistura estonteante de imediatismo documental e artifício extravagante, penetra no mito e na mística da histórica e maravilhosa capital da Itália.
 
FONTES
“Eu, Fellini” (1995)
de Charlotte Chandler
 
“Fellini. Vou Falar-te de Mim”
(1999)
de Costanzo Costantini

 
CADERNO de SONHOS
Nos anos 60, incentivado pelo analista junguiano Ernst Bernhard, FEDERICO FELLINI passou a registrar os próprios sonhos através de textos e ilustrações - atividade que manteve por cerca de 30 anos. Para isso, mantinha um caderno em sua mesa de cabeceira. Pela manhã, assim que abria os olhos, tentava reproduzir, usando canetas hidrográficas coloridas, o que chamava de “trabalho noturno”. Em 2008, as 500 páginas foram publicadas com o título de “The Book of Dreams”.
 

GALERIA de FOTOS


O CINEMA ITALIANO NESTE BLOG

 
01
ATIRE PRIMEIRO, MORRA DEPOIS: POLIZIOTTESCHI
https://ofalcaomaltes.blogspot.com/2024/06/atire-primeiro-morra-depois.html
 
02
ALIDA VALLI: a BARONESA ESTRELA de CINEMA
https://ofalcaomaltes.blogspot.com/2011/02/alida-valli-de-baronesa-namoradinha-da.html
 
03
O CINEMA POLÍTICO ITALIANO (1960 - 1979)
https://ofalcaomaltes.blogspot.com/2012/07/o-cinema-politico-italiano-1960-1979.html
 
04
LUCHINO VISCONTI: o CONDE CINEASTA
https://ofalcaomaltes.blogspot.com/2017/02/fragmentos-de-um-conde-cineasta-e.html
 
05
LUISA FERIDA e OSVALDO VALENTI: PAIXÃO e CRIME
https://ofalcaomaltes.blogspot.com/2025/05/luisa-ferida-e-osvaldo-valenti-paixao-e.html
 
06
MARCELLO MASTROIANNI: a ARTE da SEDUÇÃO
https://ofalcaomaltes.blogspot.com/2018/08/marcello-mastroianni-arte-da-seducao.html
 
07
O MELHOR do CINEMA ITALIANO: 30 FILMES
https://ofalcaomaltes.blogspot.com/2025/06/o-melhor-do-cinema-italiano-30-filmes.html
 

08
15 ATORES à ITALIANA do SÉCULO 21
https://ofalcaomaltes.blogspot.com/2025/07/15-atores-italiana-do-seculo-21.html
 
09
SANDRA MILO, a AMANTE de FELLINI
https://ofalcaomaltes.blogspot.com/2011/06/sandra-milo-amante-de-fellini.html
 
10
TELEFONE BIANCHI – o CINEMA FASCISTA ITALIANO
https://ofalcaomaltes.blogspot.com/2024/07/telefoni-bianchi-o-cinema-fascista.html
Satyricon de Fellini


julho 30, 2025

********* Os 25 MELHORES FILMES do SÉCULO 21

pecados antigos, longas sombras (2014)

 

Ajudem uns aos outros. Amem a todos.
Cada folha. Cada raio de luz. Perdoem.
Sra. O´Brien em “A Árvore da Vida”
 
Enquanto você ainda conseguir respirar,
lute. Respire... continue respirando.
Hugh Glass em “O Regresso”
 
 
A seleção dos 100 melhores filmes deste século do “The New York Times”, com bastante destaque mundo afora, é capacho da agenda woke. Faltou muita coisa boa. Para ser sincero, é um lixo de lista. No topo do repertório do jornal esquerdista, o caricato “Parasita / Gisaengchung” (2019), da Coreia do Sul, produção tosca que não consegui ver até o final. Indignado, resolvi fazer meu próprio inventário, embora um pouco diferente, com apenas 25 FILMES de XXI, escolhendo o melhor de cada ano. Para a montagem, que compreende produções entre janeiro de 2000 e dezembro de 2024, não houve privilégio de origem, raça, sexualidade, ideologia e comprometimento identitário, apenas consultei as minhas anotações absolutamente honestas, com a excelência em primeiro plano. Entre as centenas de fitas que chegaram às telonas, várias se destacaram no meu ranking pessoal, sem influência da mídia globalista. O resultado é um panorama diverso, misturando gêneros e países. Do policial ao drama sentimental, do cinema independente a suntuosas produções. Dentre os eleitos, nenhum brasileiro, embora tenha apreciado três ou quatro deles, como “Abril Despedaçado” (2001), “Lavoura Arcaica” (2001) e “O Lobo Atrás da Porta” (2013). Boa parte dos preferidos está disponível em plataformas de streaming. Confira:
 
TOP 25 – Os MELHORES
 
2000
AMOR à FLOR da PELE
(Fa Yeung nin Wah)

países: Hong Kong e França
direção de Wong Kar-Wai
elenco: Maggie Cheung e Tony Leung Chiu-wai
 

Em 1962, jornalista se muda para Hong Kong, faz amizade com uma vizinha e ambos descobrem que seus parceiros os traem. Uma sedutora e triste história de amor. Belo, sensual, com visual extraordinário. Faz parte da Nova Onda do cinema da Ásia.
 

César de Melhor Filme Estrangeiro
Melhor Filme Estrangeiro do Círculo
dos Críticos de Cinema de Nova York
 
2001
CIDADE dos SONHOS
(Mulholland Drive)

países: França e EUA
direção de David Lynch
elenco: Naomi Watts, Laura Harring, Justin Theroux,
Robert Forster e Ann Miller
 

Após um acidente de carro, mulher com amnésia procura respostas. Concebido como piloto para uma série de televisão que nunca aconteceu. Naomi Watts está extraordinária nos dois papéis. Como quase todos os filmes de Lynch, propositadamente confuso.
 

César de Melhor Filme Estrangeiro
Melhor Filme do Círculo dos Críticos
de Cinema de Nova Iorque
 
2002
As HORAS
(The Hours)

país: EUA
direção de Stephen Daldry
elenco: Meryl Streep, Nicole Kidman, Julianne Moore,
Stephen Dillane, Miranda Richardson, Toni Collette
e Ed Harris

 
“Mrs. Dalloway”, de Virginia Woolf, afeta três gerações de mulheres que tiveram que lidar com o suicídio em suas vidas. Um roteiro repleto de simbologias desenvolvendo uma trama densa e  delicada. Reflete sobre a morte e papéis sociais atribuídos ao feminino.
 

Indicado ao Oscar de Melhor Filme
Globo de Ouro de Melhor Filme – Drama
Melhor Filme do National Board of Review
 
2003
SOBRE MENINOS e LOBOS
(Mystic River)

países: EUA e Austrália
direção de Clint Eastwood
elenco: Sean Penn, Tim Robbins, Kevin Bacon,
Laurence Fishburne, Marcia Gay Harden e Laura Linney
 

Três amigos de infância se reencontram e o passado de abuso sexual de um deles volta a assombrá-los. Um ótimo thriller policial, comandado por um dos maiores xerifes do cinema. Trata de amizades, más decisões, situações que poderiam ser diferentes.
 

Indicado ao Oscar de Melhor Filme
César de Melhor Filme Estrangeiro
Melhor Filme do National Board of Review
 
2004
A QUEDA! – as ÚLTIMAS HORAS de HITLER
(Der Untergang)

países: Alemanha, Áustria e Itália
direção de Oliver Hirschbiegel
elenco: Bruno Ganz, Alexandra Maria Lara, Ulrich Matthes,
Juliane Köhler, Heino Ferch e Thomas Kretschmann

 
Os momentos finais de Hitler e do regime nazista em seu bunker em Berlim, na Segunda Guerra Mundial. Os fatos são mostrados através de uma secretária. Uma reconstituição feita com cuidado e esmero, com uma interpretação impressionante de Bruno Ganz.
 

Indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro
 
2005
O SEGREDO de BROKEBACK MOUNTAIN
(Brokeback Mountain)

países: Canadá e EUA
direção de Ang Lee
elenco: Jake Gyllenhaal, Heath Ledger, Michelle Williams,
Randy Quaid e Anne Hathaway

 
O relacionamento amoroso complexo entre dois vaqueiros e suas vidas ao longo dos anos. Cuidadosa reconstrução de uma época. Banido em diversos países, a dupla de cowboys homossexuais causou desconforto e tornou-se alvo de famigeradas polêmicas.
 

Indicado ao Oscar de Melhor Filme
BAFTA de Melhor Filme
Globo de Ouro de Melhor Filme – Drama
Melhor Filme da Associação dos Críticos 
de Cinema de Los Angeles
Melhor Filme do Círculo de Críticos de Cinema de Nova Iorque
Leão de Ouro (Melhor Filme) no Festival de Veneza
 
2006
Os INFILTRADOS
(The Departed)

países: EUA e Hong Kong
direção de Martin Scorsese
elenco: Leonardo DiCaprio, Matt Damon, Jack Nicholson,
Mark Wahlberg, Martin Sheen, Vera Farmiga
e Alec Baldwin

 
Policial disfarçado e espião se infiltram em gangue e na polícia. Não se trata do filme típico do mestre Scorsese sobre o crime e a máfia, tem uma certa pegada comercial. Atuações inspiradíssimas entre perseguições, assassinatos, medos e paranoias.
 

Oscar de Melhor Filme
 
2007

KATYN
(Idem)

país: Polônia
direção de Andrzej Wajda
elenco: Andrzej Chyra, Maja Ostaszewska, Artur Zmijewski,
Danuta Stenka e Jan Englert

 
Em 1940, o massacre soviético de milhares de oficiais e cidadãos polacos na Floresta de Katyn. Um libelo contra as ditaduras nazista e comunista. Wajda reconstitui, com imagens de uma violência de assustar, um dos episódios mais absurdos da Segunda Guerra.
 

Indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro
 
2008

MILK – a VOZ da IGUALDADE
(Milk)

país: EUA
direção de Gus Van Sant
elenco: Sean Penn, Josh Brolin, Emile Hirsch,
Diego Luna e James Franco

 
Ativista luta pelos direitos dos homossexuais e se torna o primeiro eleito abertamente gay para cargo público na Califórnia. Explora a luta política da comunidade gay na década de 1970, promovendo a igualdade e a aceitação, além dos desafios enfrentados.
 

Indicado ao Oscar de Melhor Filme
Melhor Filme do Círculo dos Críticos de
Cinema de Nova Iorque
 
2009

A FITA BRANCA
(Das weiße Band - Eine deutsche Kindergeschichte)

países: Alemanha, Áustria, França, Itália e Canadá
direção de Michael Haneke
elenco: Christian Friedel, Ernst Jacobi e Leonie Benesch

 
Eventos estranhos acontecem em uma pequena vila ao norte da Alemanha durante os anos anteriores à Primeira Guerra Mundial. Rodado em preto-e-branco, é de uma beleza plástica descomunal. O roteiro é muito bom e todas as interpretações são magníficas.
 

Indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro
Palma de Ouro (Melhor Filme) no Festival de Cannes
Melhor Filme do European Film Awards
Globo de Ouro de Melhor Filme Estrangeiro
 
2010
A ORIGEM
(Inception)

países: EUA e Reino Unido
direção de Christopher Nolan
elenco: Leonardo DiCaprio, Joseph Gordon-Levitt, 
Marion Cotillard, Michael Caine, Tom Hardy, 
Ken Watanabe, Cillian Murphy, Tom Berenger 
e Pete Postlethwaite
 

Um plano para implantar uma ideia em um sujeito através dos sonhos. O projeto mais autoral do diretor, definitivamente bem original, possibilitando racionalizar o mundo dos sonhos. Numa dramática familiar certeira faz mescla experimental de gêneros.
 

Indicado ao Oscar de Melhor Filme
 
2011
A ÁRVORE da VIDA
(The Tree of Life)

país: EUA
direção de Terrence Malick
elenco: Brad Pitt, Sean Penn e Jessica Chastain
 

Em 1956, no Texas, uma família cujo filho mais velho testemunha a perda da inocência e lida com os ensinamentos conflitantes dos pais. Num estilo metafórico e espiritual, Malick investe na perfeição narrativa e na planificação poética. Foi ovacionado em Cannes.
 

Indicado ao Oscar de Melhor Filme
Palma de Ouro (Melhor Filme) no Festival de Cannes
 
2012
AMOR
(Amour)

países: França, Alemanha e Áustria
direção de Michael Haneke
elenco: Jean-Louis Trintignant, Emmanuelle Riva
e Isabelle Huppert

 
Octogenária, ex-professora de música, tem um derrame e testa fortemente o vínculo de amor do marido. Emocionou plateias mundo afora, abordando sinceramente as perdas que ocorrem na fase final da vida, vivenciadas fortemente por grandes atores.
 

Oscar de Melhor Filme Estrangeiro
BAFTA de Melhor Filme Estrangeiro
Palma de Ouro (Melhor Filme) no Festival de Cannes
César de Melhor Filme
David di Donatello de Melhor Filme Europeu
Melhor Filme do European Film Awards
Globo de Ouro de Melhor Filme Estrangeiro
Goya de Melhor Filme Europeu
Melhor Filme da Associação de Críticos
de Cinema de Los Angeles
Melhor Filme Estrangeiro do National Board of Review
Melhor Filme Estrangeiro do Círculo dos Críticos
de Cinema de Nova Iorque
 
2013

A GRANDE BELEZA
(La Grande Bellezza)

países: Itália e França
direção de Paolo Sorrentino
elenco: Toni Servillo, Carlo Verdone, Sabrina Ferilli,
Pamela Villoresi e Luca Marinelli

 
Numa vida noturna de luxo em Roma por décadas, escritor reflete para além das boates e festas, em busca da beleza atemporal. As mazelas, a pompa e a decadência de uma sociedade em filme episódico sem episódios com interpretação gloriosa de Toni Servillo.
 

Oscar de Melhor Filme Estrangeiro
BAFTA de Melhor Filme Estrangeiro
Melhor Film do European Film Awards
Globo de Ouro de Melhor Filme Estrangeiro
 
2014
PECADOS ANTIGOS, LONGAS SOMBRAS
(La Isla Mínima)

país: Espanha
direção de Alberto Rodríguez
elenco: Javier Gutiérrez, Raúl Arévalo, Jesús Carroza,
Nerea Barros e Antonio de la Torre

 
No Sul da Espanha, entre segredos e mentiras, dois policiais de temperamentos diferentes em busca de um serial killer. Um thriller sombrio com clima noir. Brilhante e convincente, se passa numa região cheia de pântanos fotografada com beleza.
 

Goya de Melhor Filme
 
2015

O REGRESSO
(The Revenant)

países: EUA, Hong Kong, Taiwan e Argentina
direção de Alejandro G. Iñárritu
elenco: Leonardo DiCaprio e Tom Hardy

 
Em 1820, em uma expedição, caçador luta para sobreviver depois de ser atacado por um urso e dado como morto por seu grupo. O conflito do homem vs. a natureza, na sobrevivência diante de diversas adversidades. Um retrato da selvageria.
 

Indicado ao Oscar de Melhor Filme
BAFTA de Melhor Filme
Globo de Ouro de Melhor Filme - Drama
 
2016
MOONLIGHT: SOB a LUZ do LUAR
(Moonlight)

país: EUA
direção de Barry Jenkins
elenco: Mahershala Ali, Naomie Harris e Trevante Rhodes

 
A infância, a adolescência e a vida adulta de um jovem negro gay crescendo num bairro perigoso de Miami. Sexualidade, etnia, status social, drogas, criminalidade, preconceito. Todos essas questões são abordadas nesse drama delicado e fortemente pessoal.
 

Oscar de Melhor Filme
Globo de Ouro de Melhor Filme – Drama
Melhor Filme da Associação dos Críticos
de Cinema de Los Angeles
 
2017
DUNKIRK
(Idem)

países: Reino Unido, Países Baixos, França e EUA
direção de Christopher Nolan
elenco: Fionn Whitehead, Barry Keoghan, Mark Rylance
e Tom Hardy

 
Soldados da Bélgica, do Império Britânico e da França são cercados pelos nazistas e evacuados durante uma batalha na Segunda Guerra Mundial. Uma obra-prima. A retirada de Dunquerque já havia sido mostrada em outros filmes, mas nenhum deles supera esse.
 

Indicado ao Oscar de Melhor Filme
David di Donatello de Melhor Filme Estrangeiro
 
2018
DOGMAN
(Idem)

países: Itália e França
direção de Matteo Garrone
elenco: Marcello Fonte e Edoardo Pesce

 
Tímido tosador de cães, que vive em subúrbio e vende cocaína, procura ficar longe de problemas, enquanto lida com amigo violento. Uma jornada de emancipação, pontuada por passagens que vão mostrando uma ferocidade animalesca crescente.
 
 

David di Donatello de Melhor Filme
Nastro d´Argento de Melhor Filme
 
2019
1917
(Idem)

países: Reino Unido, EUA, Índia, Espanha e Canadá
direção de Sam Mendes
elenco: Dean-Charles Chapman, George MacKay, Colin Firth,
Benedict Cumberbatch e Mark Strong

 
Na Primeira Guerra Mundial, dois soldados britânicos atravessam o território inimigo para entregar mensagem que pode salvar milhares de aliados. Um deleite épico para os olhos e catártico para aqueles que procuram experimentar o terror humano em um filme.
 

Indicado ao Oscar de Melhor Filme
BAFTA de Melhor Filme
David di Donatello de Melhor Filme Estrangeiro
Globo de Ouro de Melhor Filme - Drama
 
2020
DRUK - MAIS uma RODADA
(Druk)

países: Dinamarca, Suécia, Países Baixos, 
Bélgica e França
direção de Thomas Vinterberg
elenco: Mads Mikkelsen, Thomas Bo Larsen, 
Magnus Millang e Lars Ranthe
 
Quatro amigos, professores do ensino médio, testam a teoria de que beneficiarão suas vidas mantendo nível constante de álcool no sangue. Sem moralismo, mostra um jogo perigoso que resulta em decadência. Um filme nada raso sobre um vício muito comum.
 

Oscar de Melhor Filme Estrangeiro
BAFTA de Melhor Filme Estrangeiro
César de Melhor Filme Estrangeiro
Melhor Filme do European Film Awards
Goya de Melhor Filme Europeu
 
2021
A MÃO de DEUS
(È Stata la Mano di Dio)

países: Itália e EUA
direção de Paolo Sorrentino
elenco: Filippo Scotti, Toni Servillo, Teresa Saponangelo
e Luisa Ranieri

 
Nos anos 80, um jovem louco por futebol se vê diante de uma tragédia familiar que define seu futuro como cineasta. Uma viagem nostálgica da história de Sorrentino quando adolescente. Para todos os efeitos, um tributo a Nápoles, terra natal do realizador.
 

Indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro
David di Donatello de Melhor Filme
Nastro d´Argento de Melhor Filme
 
2022
NADA de NOVO no FRONT
(Im Westen nichts Neues)

países: Alemanha, EUA e Reino Unido
direção de Edward Berger
elenco: Felix Kammerer, Albrecht Schuch e Daniel Brühl
 

As terríveis experiências e angústias de um jovem soldado alemão na frente ocidental durante a Primeira Guerra Mundial. Adaptado de Erich Maria Remarque, retrata a realidade insana da guerra nas trincheiras, com impressionantes sequências de batalha.
 

Oscar de Melhor Filme Estrangeiro
BAFTA de Melhor Filme Estrangeiro
 
2023
ANATOMIA de uma QUEDA
(Anatomie d'une chute)

país: França
direção de Justine Triet
elenco: Sandra Hüller, Swann Arlaud, Milo Machado-Graner
e Antoine Reinartz

 
Escritora alemã é acusada de assassinar seu marido francês, desencadeando um julgamento repleto de incertezas. Um longa desafiador, questionando a própria natureza da verdade. A protagonista se destaca explorando delicadeza, fúria e profundidade.
 

Indicado ao Oscar de Melhor Filme
Palma de Ouro (Melhor Filme) no Festival de Cannes
César de Melhor Filme
David di Donatello de Melhor Filme Estrangeiro
Melhor Filme do European Film Awards
Globo de Ouro de Melhor Filme Estrangeiro
Goya de Melhor Filme Europeu
Melhor Filme Estrangeiro da Associação dos Críticos
de Cinema de Los Angeles
Melhor Filme Estrangeiro do National Board of Review
Melhor Filme Estrangeiro do Círculo de
Críticos de Nova Iorque
 
2024

O BRUTALISTA
(The Brutalist)

países: Reino Unido, EUA e Canadá
direção de Brady Corbet
elenco: Adrien Brody, Felicity Jones, Guy Pearce
e Joe Alwyn

 
Visionário arquiteto judeu, foragido da Europa no pós-guerra, tem sua vida mudada por um rico e misterioso cliente. Entrelaçando a jornada do protagonista à estética arquitetônica, busca reconstruir não somente edifícios, mas identidades dilaceradas.
 

Indicado ao Oscar de Melhor Filme
Globo de Ouro de Melhor Filme – Drama
Melhor Filme do Círculo dos Críticos
de Cinema de Nova Iorque